MARLENE DIETRICH–AS PERNAS DO SÉCULO : SEDUÇÃO E ECLIPSE DE UMA DIVA



Marlene Dietrich...teu nome começa como uma carícia e acaba como uma chicotada”, assim a definia o amigo/ poeta Jean Cocteau. Ou, então, pela visão do escritor Ernest Hemingway dirigida à sua fiel legião de admiradores – “Se possuísse apenas sua voz, ela já teria como rasgar -lhes o coração”.

Esta foi a diva que, por sete décadas, teve em sua trajetória artístico/existencial a companhia estética ou, muitas vezes, amorosa de nomes emblemáticos como Max Reinhardt, Josef von Sternberg, Fritz Lang, Billy Wilder, Edith Piaf, Gary Cooper e Jean Gabin, entre o cinema e o show business, até seu crepúsculo de artista divinal, na solidão de um rico apartamento em Paris.

E que nunca deixou de surpreender pelo caráter e pela coragem, ao despojar-se de seu estado de femme fatale no embate por causas mais urgentes, como o seu engajamento artístico nas tropas aliadas, assumindo a luta contra o totalitarismo nazista.

Este o tema do belo texto de Aimar Labaki - Marlene Dietrich - As Pernas do Século que, por sua nuance cronológica e no adequado tom didático, atingiu uma idealização dramatúrgico-visual de intimista envolvência estética no seguro comando diretor de William Pereira. 

Em palco assumidamente despojado, via raros elementos materiais, sugestionando outrossim sensações oniricas, sob expressivas marcações luminares (Paulo Cesar Medeiros) de climatismo melodramático no entremeio de sombras. 

Onde, na presença de um trio (Vinicius Carvalho/clarinete, Luciano Corrêa/violoncelo e Roberto Bahal/piano), o score sonoro incidental a partir dos temas melódicos que eternizaram a atriz/cantora, do cinema ao teatro de cabaret, alcança uma contagiante sonoridade nos arranjos musicais de Roberto Bahal. 

Destaque-se ainda o equilíbrio do figurino (Marcelo Marques), da elegância à sobriedade, acentuado no preciso gestual de Márcia Rubin e pelos caracteres visagistas (Beto Carramanhos).

E na convincente atuação de exponenciais atores/cantores (José Mauro Brant e Maurício Baduh) além de Marciah Luna Cabral, todos com uma especial entrega à performance cênico/vocal de personagens da trajetória artístico/existencial da Dietrich. Incluindo-se, ainda, o substrato provocador de uma energizada passagem coreográfica (Paulo Masoni) em tempo de tango.

Quanto à protagonista Sylvia Bandeira, ela nunca deixa de ser brilhante, tanto na representação da naturalidade cotidiana da idade crepuscular como na irradiante glória de uma carreira estelar, ampliada através da projeção de cenas clássicas de filmes e nostálgicas fotografias .

Tudo isto, enfim,  conduzindo à mágica simbiose de uma atriz dividida entre o mito e a memória, o real e o imaginário, assumindo com tal carisma o personagem que ela se encarna nele e ele se encarna nela.

                                                 Wagner Corrêa de Araújo


MARLENE DIETRICH – AS PERNAS DO SÉCULO, de volta ao cartaz , no Teatro Prudential/Glória, sextas e sábados, às 21h; domingo, às 19h. 90 minutos. Até 09 de outubro.

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