PRÊMIO BOTEQUIM CULTURAL DE TEATRO : PRIMEIRO SEMESTRE 2019 - OS INDICADOS




Em reunião realizada no dia 29 de julho, os jurados da 8ª edição do Prêmio Botequim Cultural de Teatro, integrado por Gilberto Bartholo, Renato Mello, Sérgio Fonta, Wagner Corrêa de Araújo e Zé Helou, decidiram sobre as indicações dos artistas, criadores e espetáculos referentes ao 1º semestre da temporada teatral de 2019.

Cabe ressaltar que estão habilitados apenas os espetáculos que cumpriram número mínimo de exibições até o prazo final, dia 30 de junho. Os espetáculos que só alcançaram após essa data a exigibilidade de apresentações, estipulada no regulamento, serão avaliados no 2º semestre.

Valendo ainda lembrar que já começam a aparecer os nefastos resultados das alterações nas leis federais de incentivo cultural e nos editais, no âmbito estadual e municipal, com reflexo imediato na limitação de espetáculos em cartaz nos nossos palcos, sentido especialmente na área dos musicais e nos espetáculos de maior porte.

E aparecendo, ainda,  de forma mais perceptível, como  possível saída e enfrentamento da crise, no expressivo crescimento da quantidade de monólogos em cena na presente temporada e que estão chegando, inclusive, às produções voltadas para o teatro infantojuvenil.

Na competição de uma temporada valorada, antes de tudo, pela resistência, os espetáculos com maior numero de indicações foram  Eu, Moby Dick, na categoria Drama/Comédia, e Cole Porter, Ele Nunca Disse Que Me Amava, e Ao Som de Raul Seixas : Merlin e Arthur - Um Sonho de Liberdade, na categoria musical.

Precursor do justo atendimento ao apelo dos criadores na especificidade da Direção de Movimento / Coreografia, anunciada oficialmente na última cerimonia de premiação, referente a 2018, o 8º Premio Botequim Cultural de Teatro traz também, pela primeira vez, suas  indicações para a categoria.


DRAMA/COMÉDIA

Melhor Espetáculo
– As Crianças
– Eu, Moby Dick
– A Ira de Narciso

Melhor Direção
– Daniel Herz(Cálculo Ilógico)
– Renato Rocha(Eu, Moby Dick)
– Rodrigo Portella(As Crianças)

Melhor Autor(Original/Adaptado)
– Pedro Kosovski(Eu, Moby Dick)
– Pedro Paulo Rangel(Dramaturgia de O Ator e o Lobo)
– Stephane Brodt (Jogo de Damas)

Melhor Ator
– Gilberto Grawonski(A Ira de Narciso)
– Kiko Mascarenhas(Todas as Coisas Maravilhosas)
– Ricardo Kosovski(Maracanã)

Melhor Atriz
– Analu Prestes(As Crianças)
– Maria Eduarda de Carvalho(Meninas e Meninos)
– Stella Freitas(As Crianças)

TEATRO MUSICAL

Melhor Espetáculo
– Cole Porter – Ele Nunca Disse que me Amava
– O Som e a Sílaba

Melhor Diretor
– Charles Möeller (Cole Porter – Ele Nunca Disse que me Amava)
– Miguel Falabella(O Som e a Sílaba)

Melhor Autor(Original/Adaptado)
– Charles Möeller(Cole Porter – Ele Nunca Disse que me Amava)
– Miguel Falabella(O Som e a Sílaba)
– Marcia Zanelatto (Ao Som de Raul Seixas: Merlin e Arthur – um Sonho de Liberdade)

Melhor Ator
– Mateus Ribeiro(Peter Pan, o Musical da Broadway)
– Patrick Amstalden(Ao Som de Raul Seixas: Merlin e Arthur – um Sonho de Liberdade)

Melhor Atriz
– Alessandra Maestrini(O Som e a Sílaba)
– Bel Lima (Cole Porter – Ele Nunca Disse que me Amava)
– Kacau Gomes (Ao Som de Raul Seixas: Merlin e Arthur – um Sonho de Liberdade)

TEATRO INFANTOJUVENIL

Melhor Espetáculo
– Um Conto de Fado Padrinho

Melhor Direção
– Bia Freitas(Um Conto de Fado Padrinho)

Melhor Autor(Original/Adaptado)
– Danielle Fritzen(Um Conto de Fado Padrinho)

Melhor Ator
– João Velho (Pangeia)
– Mario Neto (Um Conto de Fado Padrinho)

Melhor Atriz
– Cacá Ottoni (Ana Fumaça Maria Memória)
– Manuela Ghyer (Um conto de Fado Padrinho)

ATOR/ATRIZ EM PAPEL COADJUVANTE(sem distinção de segmento)

Ator Em Papel Coadjuvante
– Gláucio Gomes(O Preço)
– Ranieri Gonzalez(Navalha na Carne)
– Saulo Segreto (Ao Som de Raul Seixas: Merlin e Arthur – um Sonho de Liberdade)

Atriz Em Papel Coadjuvante
– Claudia Ventura(A Verdade)
– Dida Camero(Como se um Trem Passasse)

CATEGORIAS TÉCNICAS(sem distinção de segmento)

Direção Musical

– Claudio Botelho(Cole Porter – Ele Nunca Disse que Me Amava)
– Felipe Habib e Daniel Castanheira(Eu, Moby Dick)
– Wladimir Pinheiro(As Comadres)

Cenografia
– Bia Junqueira (Eu, Moby Dick)
– Sergio Marimba(Navalha na Carne)
– Simone Mina(Por Favor, Venha Voando)

Figurino
– João Pimenta(Ao Som de Raul Seixas: Merlin e Arthur – um Sonho de Liberdade)
– Marcelo Marques(Cole Porter – Ele Nunca Disse que me Amava)
– Thanara Schomardie(Peter Pan, o Musical da Broadway)

Iluminação
– Bernardo Lorga(Solo)
– Renato Machado(Os Desajustados)
– Wagner Antonio(A Ira de Narciso)

Direção de Movimento/Coreografia

– Alonso Barros(Peter Pan, o Musical da Broadway)
 – Paulo Mantuano(Eu, Moby Dick)
– Toni Rodrigues (Ao Som de Raul Seixas: Merlin e Arthur – um Sonho de Liberdade) 

PRÊMIO ESPECIAL(Artista, criador ou manifestação relevante ao cenário teatral carioca)

– Bel Kutner, à frente da direção artística na Cidade das Artes.
– Diego Teza, pelo trabalho de pesquisa de textos e traduções, com destaque para “As Crianças”, “Meninas e Meninos” e “Todas as Coisas Maravilhosas”.
– Midrash Centro Cultural, pelos 10 anos de atividade e contínuo incentivo às artes cênicas. 

Os Jurados , na sequencia da foto, Sérgio Fonta, Zé Helou, Gilberto Bartholo,  Renato Mello e Wagner Corrêa de Araújo. Foto/ Renato Mello.

TODAS AS COISAS MARAVILHOSAS : OU COMO TORNAR BELA A VIDA


FOTOS/LUCIANA MESQUITA

Por trás de uma narrativa dramatúrgica, de simplicidade funcional na sua abordagem do difícil enfrentamento da condição humana com  a perda da vontade de viver, está o que faz do espetáculo Todas as Coisas Maravilhosas uma das mais reflexivas criações da presente temporada teatral.

Na dúplice criação autoral dos ingleses Duncan Macmillan, dramaturgo, e Joe Donahue, comediante, a peça original de 2013, tem sua primeira montagem brasileira, com potencializada direção concepcional de Fernando Philbert para uma sensorial performance do ator Kiko Mascarenhas. Sendo esta ainda viabilizada por mais uma das acuradas traduções de Diego Teza.

Onde o espaço físico da representação, sob idealização de Mauro Vicente Ferreira, adquire um significante apelo metateatral no despojamento dos elementos estéticos de suporte tradicional. Desde a ausência absoluta de aportes cenográficos (salvo as caixas no epílogo) e da prevalência de iluminação ambiental vazada (Vilmar Olos) pelo favorecimento da unicidade interativa ator/espectador, contando-se a adequação de uma indumentária (Tereza Nabuco) dia-a-dia e  sutil presencial das inserções sonoras  (Diego Teza e Marcello H).

Numa proposta de poesia cênica espacial onde a verbalização e a fisicalidade da performance quebram a quarta parede ao convocar a explícita participação do público desde a leitura de falas, classificadas por números, como o ato de assumir alguns dos personagens em conluio direto com o ator, em provocativo jogo lúdico de palavra e gestualidade.

Esta comunicativa parceria contextual desconstrói assim a ilusão teatral, fissurando o isolamento solitário do protagonista, por um maior dimensionamento psicológico na cotidianidade de uma temática (a depressão suicida) que pode estar próxima a qualquer um de nós.

Além de possibilitar a instantaneidade espontânea  da imersão experimental do espectador no oficio da representação. E, também, para mais completa compreensão de um personagem que, em sua meninice de sete anos, assume missão humanista de apoio altruista, solidário e afetivo à sua mãe para redimi-la de suas tendências fatalistas de auto-exterminação.

Através do ideário positivista e energizador  de uma lista de tudo que possa existir de maravilhoso neste mundo. Da banalidade passageira de saborear um sorvete ou de assistir a um programa de televisão, ao simples prazer de desenhar privilegiando uma cor qualquer como o amarelo ou do feliz espanto diante das  estrepolias num parque de diversão.

Tudo, enfim,  pela constatação de que, no intermédio das adversidades, o viver tem também suas surpresas brilhantes a cada dia. Numa progressão dramática que se estende da infância à descoberta do amor adolescente, das primeiras leituras aos assombramentos da alegria e das dores, das perdas e dos ganhos.

Entremeando a narrativa confessional com tal carga de naturalismo e sinceridade, na entrega convicta de Kiko Mascarenhas, que a relação do observador e do observado acaba por confundir limites. Entre a originalidade textual e a autenticidade de um subliminar improviso capaz de conferir-lhe um exclusivo sotaque de encenação realista/documental.

Ampliado na utilização de recursos de genuína singeleza no round da dialetação com personagens assumidos por aleatória escolha entre o público. Como nos papéis do veterinário encarregado de dar a injeção letal no cachorro de estimação e no questionamento  do pai com  a reiterativa resposta - Por que?. Ou nos encontros fortuitos  com a namorada e na leitura junto à professora de página com referencial suicida, romantizado a partir de Goethe, com Os Sofrimentos de Werther.

Tudo, enfim, convergindo pela luminosidade de seu interpréte (Kiko Mascarenhas) e no sustento da competência direcional (Fernando Philbert) para um teatro empático que se expande em cena e conquista, com as delicadas nuances de seus pequenos mistérios, a adesiva cumplicidade do público.  

                                    Wagner Corrêa de Araújo


TODOS AS COISAS MARAVILHOSAS está em cartaz no Teatro Poeirinha/Botafogo, sexta e sábado, 21h;  domingo, 19h. 70 minutos. Até 28 de julho.

EU, MOBY DICK : OU NUMA NAU AO LÉU A CONDIÇÃO HUMANA

FOTOS/CAIO GALLUCCI

“Esse livro, incessantemente reescrito, esta infatigável peregrinação através do arquipélago dos sonhos e dos corpos, sobre o oceano, onde cada vaga é uma alma, essa odisséia sob um céu vazio faz de Melville o Homero do Pacifico". Pensar conceitual de A. Camus, admirador confesso de Moby Dick, para esta emblemática saga ficcional sobre o fatídico enfrentamento do destino da humanidade contra as forças da natureza.

E que pode ser um referencial para mais uma releitura dramatúrgica, sobremaneira inventiva e questionadora, com significante titulação -  Eu, Moby Dick – da lavra autoral de Pedro Kosovski, em provocador conluio concepcional com a direção de Renato Rocha para um soberbo staff tecno/performático.

Onde há uma funcional integralização de linguagens artísticas em espetáculo que se expande, no substrato de instigante textualidade, com o olhar armado na problemática do homem e do planeta, mas com especial direcionamento reflexivo para o patético e obscuro momento político brasileiro.

Indo além de uma trama de aparente temporalidade que, das passagens seculares de 1851 a 2019, vem inspirando uma diversidade de interpretações, não só pelas livres transposições do original literário destinadas ao teatro e ao cinema, mas nas suas contextualizações filosófico e (ou) políticas.

Do dimensionamento psicológico e subjetivista de cada espectador à sua clara alusão comparativa, com irônica vizinhança paranoica, do Capitão Ahab comandante do baleeiro Pequod no Pacífico Sul e um certo Capitão com governança abaixo da linha equatorial.

Assim, há uma dúplice proposição dos personagens-atores assumindo sua própria identidade nominal, sob uma similar fala “Podem me chamar de ...Gabriel Salabert, de Kelzy Ecard, de Márcio Vito e de Noemia Oliveira. Numa perspectiva de textualidade sob narrativa literária, ora de desconstrução ora remissiva ao original romanesco, na literalidade de suas instantâneas leituras alterativas entre o elenco.  

Onde os iminentes riscos de uma representação discursiva são evitados por uma energizada fisicalidade irradiando e fazendo dançar as palavras em cada gesto, num envolvente resultado dramático/coreográfico (Paulo Mantuano).

Sob um sensorial score sonoro/musical (Felipe Habib e Daniel Castanheira) mixando, entre acordes e ruídos, os movimentos marítimos, ondas, ventos e águas revoltas na aproximação da baleia e na sequencial agitação no convés para o confronto decisivo com o gigante dos mares.

O que é refletido também na diferencial indumentária (Tarsila Takahashi) à base de elementos materiais peculiares a uma tripulação baleeira, sob aparato cenográfico de instalação plástica (Bia Junqueira), potencializando mágica interatividade palco/plateia, sob a cobertura da impactante imaginária de uma espinha dorsal de baleia.

Ressaltando-se toda esta  ambientação onírica no mix dos artifícios luminares (Renato Machado) e dos díspares efeitos videográficos/projecionais (Renato e Rico Vilarouca)  favorecendo, enfim, imersiva pulsão de delírio, num clímax  de surpreendente tensão e prazeroso mistério.

Um sólido quarteto teatral, em belo desempenho coletivo, atrai a cumplicidade do público emprestando dignidade a personagens multifacetados entre as tipificações do escritor Herman Melville e as personificações das individualidades atorais, insufladas pela proposta dramatúrgica.

Mesmo com a implacável conclusão do romance de que a terra nunca será um paraíso e que o céu continuará vazio, o  pleno domínio diretorial (Renato Rocha) e a eficaz contribuição da dramaturgia (Pedro Kosovski) para este Eu, Moby Dick, transmutam seu palco num circulador de idéias, fator com premente urgência para tempos de tanta indagação e de tamanha incerteza.

                                          Wagner Corrêa de Araújo


EU, MOBY DICK está em cartaz no Oi Futuro/Flamengo/RJ, de quinta a domingo, as 20h. 80 minutos. Até 28 de julho.

FAUSTO : INVESTIMENTO ESTÉTICO PELA REDENÇÃO DA ÓPERA EM PALCO BRASILEIRO

FOTOS / ANA CLARA MIRANDA

O emblemático  questionamento metafísico da condição humana sob o apelo da magia, entre a espiritualidade e os prazeres, a partir da Trágica História do Doctor Faustus, peça de 1604 do poeta e dramaturgo elizabetano Christopher Marlowe, com base numa lenda germânica, serviu de mote inspirador para clássicas incursões de outras linguagens artísticas.

Com similar titulação de Fausto no poema dramático de F. W. Goethe, 1829, e sua transposição na ópera lírica de Charles Gounod, de 1859, e no filme expressionista de F.Murnau, 1929, além do épico ficcional de Thomas Mann, 1947, nominado Doktor Faustus, com um referencial temático tributário.

Foi, finalmente, a  ópera Fausto que celebrizou o nome de Charles Gounod na ambiência da então ascendente  grande ópera lírica francesa, com êxito que só se repetiu, na mesma dimensão composicional/operística, em sua obra seguinte Romeu e Julieta.

Tendo, inclusive, alcançado os principais teatros do gênero, da Europa a Nova York, onde praticamente impulsionou historicamente, em 1883, a trajetória inicial da Metropolitan Opera House, sendo um dos recordes de montagens naquele palco até sua  transmutação no Lincoln Center.

Com seu substrato narrativo em torno do pecado e da salvação, entre o céu e o inferno, através de um pacto que seu personagem titular, num contexto de (anti) herói  faz com Mefistófeles para voltar à juventude e alcançar o amor de Marguerite. Num libreto onde há o contraponto exemplar entre o virtuosismo  vocal e o embate da pureza espiritual diante da tentação corporal.

Ausente do repertório do Municipal carioca há meio século, Fausto retorna como um arrojado folego para tempos de permanente enfrentamento da crise em seus corpos artísticos oficiais. Em bela produção original do Festival de Ópera de Manaus, edição de 2018, sob direção concepcional de André Heller-Lopes.

Onde há que se destacar o apuro plástico de sua paisagem cenográfica (Renato Theobaldo e Beto Rolnik) a partir de estruturas móveis com referencial estético de vitralismo e arquitetura gótica. Completando-se na discricionária elegância indumentária (Sofia de Nunzio) e sempre ressaltada nos efeitos luminares (Gonzalo Cordova) ambientalistas sob tonalidades, ora  sépias, ora aquareladas.

Mesmo com a segurança da conduta de um experimentado maestro no gênero, Ira Levin, a OSTM vez por outra não alcança o resultado desejado para uma partitura sem grandes ousadias mas de sutil tapeçaria lírica francesa. Consequência perceptível das instabilidades e no desafio pela completa reconstituição de seus diversos naipes sem o necessário aporte financeiro. Problemática também de um Corpo Coral sem perspectivas de renovação em seus quadros.

A cena de balé Noite de Walpurgis, sem maiores avanços gestuais/coreográficos de Luiz Bongiovanni, soube como bem aproveitar as potencialidades neoclássicas do Corpo de Baile (também sujeitando-se a um de seus mais delicados momentos), com uma original utilização de moldura especular sob significante lastro do esteticismo oscarwildeano na incessante busca da juventude perdida.

Uma integralizada performance do elenco protagonista demonstrou dignidade presencial e convincente apuro vocal, ao lado de um consistente coro e bom staff coadjuvante, com um mais que especial destaque no personagem Valentin, da desenvoltura no porte físico à intensidade da tessitura baritonal de Homero Velho em Avant de Quitter Ces Lieux.

Da requintada flexibilidade como baixo barítono (Sérenade) e na exposição do carácter de malignidade (Le veau d'or) de Homero Pérez-Miranda como Mefistófeles à aveludada qualidade tonal (Salut!demeure chaste et pure) e à transparência representativa de um mais musical que dramatúrgico Fausto pelo tenor Atalla Ayan. Extensiva às gradações de potencial fraseado expressivo na coloratura vocal (Ária das Jóias) e na irradiante personificação da inocência e da culpa (Il etait un Roi de Thulé) nesta Marguerite da soprano Gabriella Pace.

Uma artesanal tarimba e convicta autoridade de regisseur, por Andre Heller-Lopes, fizeram deste Fausto um produto bem acabado como espetáculo operístico/teatral. Sintonizado em sólido investimento estético, sob o sustentáculo de uma funcional gramática cênica, para possibilitar a redenção da ópera no crítico contexto vivenciado pela criação cultural brasileira.

                                            Wagner Corrêa de Araújo


FAUSTO, ópera de Gounod, está em cartaz no Theatro Municipal/RJ, de 14 a 28 de julho, em horários diversos e na alternância de dois elencos. 180 minutos, com dois intervalos

ANGELS IN AMERICA : ONÍRICA INCURSÃO DRAMATÚRGICA SOB O ESTIGMA DA AIDS

FOTOS/MAURO KURY

Um veterano gay do Vietnã. Quando eu era militar, eles me condecoraram por matar dois homens – e me expulsaram por amar um”. Epitáfio no túmulo de um ex integrante da Força Aérea americana, Leonard Matlovich, morto pela Aids em 1991.

Em sintomático referencial, exatamente no ano de estreia (1991) da primeira parte de Angels in America, metafórica trajetória sobre o preconceito na descoberta e na disseminação da doença e seus reflexos políticos/sociais nas décadas finais do milênio.  Épica concepção dramatúrgica de Tony Kushner, com versão definitiva, em duas longas partes, dois anos depois na Broadway.

Que tem, agora, a montagem na íntegra em palcos brasileiros (havendo uma versão anterior, de 2005, apenas da Parte I, sob o comando de Iacov Hillel) e, desta vez, por Paulo Moraes e a Armazém Companhia de Teatro. Conservando intacto o substrato original, em visceral abordagem cênica e absoluta preservação de seu caráter icônico num mix verista e onírico, com apurada tradução de Maurício Arruda Mendonça.

Com extensa progressão narrativo/dramática, Angels in America,  no entremeio da dúplice sub titularidade, nas duas horas e meia para cada uma delas, indo de  O Milênio se Aproxima à Perestroika, tendo funcional conexão de temas e personagens, a partir de implícita convivência entre o suporte realista e o dimensionamento metafísico.

Favorecida no ideário estético de um carismático comando teatral por Paulo Moraes na mágica sintonização com um harmônico octeto atoral. Em complexa representação psicofísica, entre a dor corporal e a desestabilização mental, diante do árido enfrentamento de uma guerra, sem tréguas, de doutrinação da sociedade homofóbica a favor da tradição e do conformismo.

Ampliada no doloroso  desamparo do jovem Prior Walter (em irrestrito apelo performático de Jopa Moraes), infectado pelo vírus HIV e, ao mesmo tempo, abandonado pelo namorado Louis (por um convincente Luis Felipe Leprevost) sob a  recorrência de delirantes  visões de  um anjo (Marcos Martins), arauto de ameaçadoras profecias para um tempo apocalíptico

Onde as instâncias consoladoras do amigo/enfermeiro Belize, na espontânea entrega de Thiago Catarino, dão vazão a um irreverente carácter como negro, gay e drag, em irônica e bem humorada sutilização de seu condicionamento à exclusão social.

E, também, como mordaz plantonista do hospital onde foi parar o controvertido advogado Roy Cohn (Sérgio Machado) em terminal estágio da Aids, revolto por sair do armário e, como extremado racista, por estar aos cuidados de um black. Além de macarthista convicto, sendo, ainda, assombrado pelo espectro da judia Ethel Rosenberg (Patrícia Selonk), que ajudou a condenar à pena capital.

Em irradiante dosagem de cínico e raivoso escárnio, no contraponto da materialização da fragilizada e ambígua postura masculina de seu ex-assessor jurídico Joe (Ricardo Martins), ao desnudar-se homossexual para a mãe (P.Selonk) e para a depressiva esposa Harper Pitt (em sensorial atuação de Lisa Eiras).

Completando o seu envolvente naipe de interpretações Patrícia Selonk, mais uma vez, preenche com irreprimível autoridade cênica, as díspares gradações psicológicas na tradução e no traçado de seus outros personagens, precedida pela luminosidade introspectiva tanto como o velho rabino, no prólogo do Milênio, como no desalento de último bolchevique, introduzindo a Perestroika.

Neste vigoroso jogo teatral encimado pela força de um elenco de craques com direção empática de Paulo de Moraes, o minimalismo da paisagem cênica (Paulo de Moraes e Carla Berri), ainda que para um palco de grandes dimensões, tem, aqui,  surpreendente  resultado tecno/artístico.

No bom gosto indumentário (Carol Lobato), no primado de marcações luminares ambientais (Maneco Quinderé) e na plasticidade dos efeitos videográficos (Rico e Renato Vilarouca), sob as irradiantes intervenções sonoro/percussivas  da trilha  autoral de Ricco Viana.

Com ecos especulares e reflexivos na contemporaneidade, em momento de intolerável retrocesso biopolítico quanto às conquistas libertárias pelo relacionamento afetivo entre iguais. Extensivo à onda de conservadorismo moral e de obscurantismo cultural, sob uma patética e remissiva postura extremo/direitista de nossas governanças.

                                              Wagner Corrêa de Araújo


ANGELS IN AMERICA está em cartaz no Teatro Riachuelo,Cinelandia/RJ. Na sexta às 20h, a primeira Parte I – O Milênio se Aproxima; no sábado, Versão integral, às 17h e às 20h e no domingo, às 18h, a Parte II – Perestroika. 300 minutos. Até 28 de julho.

ESTADO DE SÍTIO : ALEGÓRICO MANIFESTO CONTRA O AUTORITARISMO

FOTOS/ JOÃO CALDAS

Já na sua estréia parisiense, em 1948, a peça Estado de Sitio refletia um substrato temático aproximativo do romance A Peste, do ano anterior, ambos da lavra de Albert Camus. Em relatos, ora ficcional, ambientado em Orã, na Argélia, ora dramatúrgico, desta vez em Cádiz, na Espanha, quando as duas cidades enfrentam o violento surto de uma doença epidêmica e o advento de implacável onda de autoritarismo.

Enquanto a narrativa romanesca impressionara o pensamento político, tanto da esquerda como da direita, como aos adeptos do movimento existencialista, do qual fazia parte intrínseca o escritor, a peça não teve a receptividade esperada. Foi considerada de exacerbado subjetivismo discursivo em torno do pensar filosófico/ideológico de Camus numa época em que a vanguarda inventiva era o sensorial impacto da psico-fisicalidade, presencial no Teatro da Crueldade de Artaud.

Idealizada em tríplice modulação, indo da chegada de um cometa e seus funestos presságios, na trajetória para uma fase de totalitarismo governamental, sob as instâncias da peste e da morte, ao epílogo, com a derrota deste domínio nefasto e a catarse pela volta da liberdade.

Havendo, em sua escritura cênica, uma recorrência ao coro grego para explicitação dos progressivos desmandos tirânicos, da supressão do livre pensar, da contaminação endêmica, da covardia diante dos valores impostos e no enfrentamento da calamidade pela resistência, com a vitória do amor solidário na cena final.


Mais uma vez, o artesanal comando dramatúrgico de Gabriel Vilela, como de hábito, privilegia o apuro visual na plasticidade de seus figurinos autorais com elementos barroquistas e recortes burlescos/circenses, compondo uma paisagem cenográfica (J. C. Serroni) de apelo onírico. Ampliada na imaginária grotesca da mascaração (Claudinei Hidalgo) com acentuação do clima de horror fantástico pelos efeitos luminares (Domingos Quintiliano).

Com metafórica simbologia, de poesia e pânico, na passagem do cometa que, aqui, é representado como a figura espectral de uma noiva de branco, na envolvente figuração do ator Nathan Milléo Gualda. Predestinando o trágico destino que se abate sobre os habitantes de Cádiz com a governança da Peste (Elias Andreato) e sua secretária a Morte (Claudio Fontana), em carismática performance destes atores.

Outro personagem de icônico apelo niilista é o Nada, com suas ébrias admoestações de mordaz cinismo, em irreprimível atuação de Chico Carvalho, estabelecendo liames entre a filosofia nietzschiana e o ideário existencialista, com sua negação de um sentido para a condição humana diante da crueldade da vida onde “Não há nada mais verdadeiro que a morte”. 

Como contraponto crítico, no entremeio destes papeis de absurdidade e sarcasmo tragicômico, Diego (Pedro Inoue) e Vitória (Nabia Villela) representam a esperança na redenção pelo amor, ainda que sem a mesma força do dimensionamento psicológico do transcendente tríptico protagonista.

Tanto na progressão dramática como no score musical, a visão concepcional de Gabriel Vilela revela um assumido referencial estético dos autos sacramentais espanhóis medievos ou gongóricos, como nas peças de Lope de Vega. Contando com o apoio valioso de uma cuidadosa direção musical (Babaya e Marco França).

Potencial, especialmente, na polifonia do coro de teatro grego, apresentando cânticos ancestrais, ora ciganos, ora judaicos, ora de teor revolucionário como o Hino da Resistência Francesa. Com um destaque absoluto na tessitura dos recitativos e vocalizações femininas das atrizes/cantoras Nabia Villela e Rosana Stavis.  

Apesar de ter sido escrita não como um reflexo mais especular do então findo pesadelo nazista mas como uma advertência ao continuísmo ditatorial fascista/franquista simbolizado por Cádiz, nestes seus setenta anos, a peça Estado de Sítio  continua ecoando seu grito de alerta como manifestação de um instante feroz do coletivo.

Contra todas as formas contagiosas do totalitarismo politico, do revanchismo religioso/moral, do obscurantismo cultural, do desprezo às diferenças,  sendo mais que oportuna esta sua volta quando o cotidiano de uma nação, sitiada sob o pestilento risco do medo, vai se tornando insustentável...  

                                        Wagner Corrêa de Araújo


ESTADO DE SÍTIO está em cartaz no Teatro Sesc/Ginástico/RJ, de quinta a sábado, às 19h; domingo, às 18h. 90 minutos. Até 28 de Julho.

TEMPORADA PAULISTA – SUNSET BOULEVARD : LITURGIA ESTELAR EM MUSICAL NOIR

FOTOS/MARCOS MESQUITA

Quando Billy Wilder lançou seu filme Crepúsculo dos Deuses, no despontar da década de 50, tornou clássica a sua abordagem conceitual, de substrato noir, entre a ascensão, a apoteose e a decadência, do star system hollywoodiano. Numa produção que reunia nomes estelares como os de William Holden (Joe Gillis) e Erich Von Stroheim (Max) ao lado de Gloria Swanson, esta personificando Norma Desmond, musa do cinema silencioso, reclusa e no ostracismo após uma carreira  triunfal nas  telas.

Em 1993, o tema alcança os palcos, num musical londrino - Sunset Boulevard - de Andrew Lloyd Webber chegando à Broadway, no ano seguinte, em consagrada interpretação protagonista de Glenn Close, superior à da montagem original britânica. Enquanto, aqui, sua primeira versão brasileira, com direção de Fred Hanson, tem nos papéis principais Marisa Orth (Norma Desmond), Júlio Assad (Joe Gillis) e Daniel Boaventura (Max), além de  Lia Canineu (Betty Schaefer), esta como maior destaque de personagem coadjuvante.

Enfocando o desespero de uma atriz olvidada (Norma Desmond) na ânsia de, novamente, estar sob o brilho dos refletores cinematográficos, após ser fortuitamente redescoberta por um roteirista (Joe Gillis). Embora deixando-se levar por falso envolvimento amoroso e profissional, sob ambiciosa e exclusiva pretensão financeira do jovem. Delírio ampliado na provocação de ilusórias circunstâncias de prevalência da fama através de Max, o mordomo da lúgubre mansão situada na Sunset Boulevard.

A recriação brasileira se alinha à da mais recente remontagem americana, privilegiando em sua concepção cenográfica (Matt Kinley) os elementos plásticos referenciais do universo hollywoodiano, desde os antigos estúdios à reconstituição residencial, integralizado em dois planos moveis, priorizando a clássica escadaria do filme.

Tudo em clima noir em outro referencial da criação de Billy Wilder, extensível à elegante indumentária (Fause Haten), com turbantes e sedas, em tons mais solenes na protagonista mor, cinzentos em seu mordomo e mais cromáticos no juvenil casal de roteiristas. Com efeitos luminares (Cory Pattack) variáveis entre climatizações mais intimistas ou mais expansivas, à base de spotlights gerando resultados cinéticos.

Onde a partitura composicional revela-se a mais pretensiosa de Andrew Lloyd Webber, com recortes sinfônicos, vocalizações quase operísticas e acordes lembrando os grandiloquentes scores melodramáticos da fase áurea do cinema musical americano. Mas sem beirar, em momento algum, o alcance popular de canções mais marcantes de musicais de conotação similar como O Fantasma da Ópera.

Numa orquestra visível em cena, com expressivo número de integrantes, em harmoniosa execução, na segura conduta dos envolventes arranjos de Carlos Bauzys. Mesmo que, no naipe dos atores/cantores, o destaque vocal maior fique nas poucas entradas de Daniel Boaventura, um expert nos palcos do musical em moldes brasileiros.


Sem deixar de citar uma convicta atuação de Julio Assad, longe do alcance da tessitura lírica de Boaventura mas sem comprometer a performance de um personagem galante mas de dimensionamento malévolo. Não esquecendo, ainda,  as episódicas entradas em cena de Lia Canineu, com perceptível força ascensional, pela bela voz e envolvente presencial, para integrar, como solista, futuras montagens do gênero.

Em Marisa Orth sente-se falta de maior potencial convincente, como cantora, na comparação vocal com sua substituta Andrezza Massei (normalmente em única exibição semanal), capaz de impressionar mais nos cantares destinados ao papel de Norma Desmond, inclusive no isolado standard As If We Never Said Goodbye.

Se lhe falta maior completude como  intérprete musical, há que se ressaltar a razão do sucesso de Glenn Close na Broadway, grande por seu carisma de atriz e muito pouco devido à sua capacidade cantante. E mesmo que a Orth não seja tão notável quanto a Close no processo identificador com o élan mítico de Norma Desmond, isto, de forma alguma, desmerece a representação deste Sunset Boulevard.

De transcendente fidelidade qualitativa ao seu original cênico, mas deixando apenas de celebrar visceralmente, como meta linguagem, o que Edgar Morin chama de ritual litúrgico de divinização do mito estelar.  

                                           Wagner Corrêa de Araújo


SUNSET BOULEVARD está em cartaz no Teatro Santander/Shopping JK/SP, quintas e sextas , às 21h; sábados, às 17h e 21 h; domingos, às 15h e 19h. Duração 150 minutos. Até 07 de Julho.

JOGO DE DAMAS : SOB LIVRE INSPIRAÇÃO NO IDEÁRIO DRAMATÚRGICO BECKETTIANO


FOTOS/DANIEL BARBOZA

Uma produção inédita de Fim de Jogo que ignora minhas instruções de palco é completamente inaceitável para mim”... E a partir dessa convicta afirmação de Samuel Beckett os defensores jurídicos do seu legado dramatúrgico nunca hesitariam em provocar litígios até que a obra caísse, em caráter definitivo, no domínio público.

Este referencial poderia ser válido para a última realização do Amok Teatro se não ficasse perceptível que a proposta de Jogo de Damas admite seu lastro inspirador na peça original de 1957 – Fim de Jogo –  mas num processo de transmutação com releitura autoral de Stephane Brodt. 

Através de uma livre transposição de sua escritura cênica, com nova textualidade e na síntese para dois personagens, embora conserve intacto o substrato temático claramente beckettiano, extensível à sua concepção cenográfica e diretorial (na dúplice artesania de Stephane Brodt e Ana Teixeira).

Ao preservar a claustrofóbica ambientação de desalento e desespero de personagens céticos, em idade provecta, que nada esperam senão a sensação de estarem já morrendo, na decadência física e no absoluto nonsense desta passagem terminal entre a inutilidade da vida e a proximidade da morte.

Num “interior vazio”, remetendo à desejada idealização cênica do próprio Beckett, ressaltado por contrastante tessitura, ora sombria ora solarizada, do desenho de luz (Renato Machado). Sob os acordes do teatro de vozes e sonoridades sacro/ritualísticas do estoniano Arvo Pärt  (em envolvente recorte musical por Gabriel Petit) sublinhando melancólica desolação em clima pré-apocalíptico.

Dando continuidade a uma pesquisa psicofísica do Amok Teatro sobre a representação feminina, a partir desta personificação na tragicidade shakespeariana de Ricardo III, em Jogo de Damas há um proposital transvestismo dos atores protagonistas em duas anciãs - Clara ( Stephane Brodt ) e Emma ( Gustavo Damasceno ). Respectivamente, remetendo à trama de Beckett, no submisso Clov atendendo às demandas impacientes e rancorosas do cego e paralítico Hamm.

A dominação e o servilismo, a dolorosa limitação da fisicalidade e o desalento por quaisquer  perspectivas redentoras, o delírio e o onirismo em torno da vazia paisagem além da única janela, fazem prevalecer a sensação de sufocante finitude de dois velhos guiados apenas pela miserabilidade da condição humana na iminência da própria finitude.

Expressando-se, ora em modulada sutilidade das falas e do detalhismo gestual de Stephane Brodt, ora com rompantes de tensão nos apelos nervosos de uma angústia  com nuances de maledicência, presencial no imobilismo corporal de Gustavo Damasceno. Como se este, afinal, replicasse as palavras de Beckett – “Um dia você será cego, como eu. Estará sentado lá, falando no vazio, no escuro, para sempre, como eu”...

No preciosismo formalista e tragicômico de um Jogo de Damas com intrincados lances mallarmaicos de dados, no entremeio de um resultado especular que o coloca entre o reflexo e a autenticidade, prevalece outro luminoso investimento estético do Amok Teatro sintonizado com avanços investigativos na dramaturgia contemporânea.

                                           Wagner Corrêa de Araújo


JOGO DE DAMAS está em cartaz no Sesc/Copacabana (Mezanino), de quinta a domingo, às 20h. 75 minutos. Até 07 de Julho.

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