ROMA : ENTRE DUAS MULHERES

FOTOS BY CAROL BEIRIZ

“Não se nasce mulher, vira-se mulher” , Eva ou Madona, prostituta ou santa, fora o mito da eterna feminilidade, transubstanciado    no conceitual libertário de Simone de Beauvoir,  em   seu livro “O Segundo Sexo”.

Referencial a que somos conduzidos diante da original textualidade da estreia dramatúrgica de um promissor autor  de 22 anos - Roma, de Guilherme Prates.

Livremente  inspirado no enredo fílmico de Um Quarto em Roma ( 2010) , do espanhol Julio Medem. Viabilizado na  montagem  das Cias de Teatro Íntimo e Por Acaso.

O cineasta com um retrato , de exacerbada sensualidade, sobre o relacionamento homossexual de duas mulheres,  num quarto de hotel da capital italiana.  A visão teatralizada alcançando  um dimensionamento  mais singularizado,  fora  de uma prevalência normalmente dada aos casos masculinos.

Ana ou Helena,  como fuga à  identificação social  , é o personagem de Linn Jardim, a que domina o discurso sedutor. Para espanto da iniciante   Isabella ( Juliana Lohmann), na indução a uma  longa jornada de sexo noite a dentro. De prazeres e revelações ,entre confortos e pesadelos.

Na segura intimidade hoteleira, transmutada num encontro fortuito na passagem de um réveillon romano. Não importando que a descoberta noturna, na sua temporalidade, será apenas  lembrança na manhã do dia seguinte.

Os diálogos, quase sempre diretos e secos, acentuam na suas nuances de coloquialidade, a linha natural da representação. Alcançada ,  com adesão física e verdade interior,  pela consistente performance das atrizes.

A concepção cênica(Gigi Barreto) transforma um espaço de galeria de arte numa onírica ambientação clean,  de envolvente eroticidade, sob um enérgico score musical (Pedro Gracindo).

Potencializada por requintadas luminosidades ( Rafael Sieg) na neutra  prevalência do branco, mas delineando a tonalidade elegante dos figurinos(Thiago Mendonça).

A vigorosa condução  dramatúrgica assumida por Renato Farias tem um coerente equilíbrio estético. Entre um irônico  sotaque de malícia e um olhar amoroso, de subjetividade poética, ao desenhar os contornos de cada personagem .

Capaz, enfim,   na interatividade da performance, entre realidade e representação, observadores e observados, atores e  espectadores, de fazer todos cúmplices desta irradiante aventura italiana.





ROMA está em cartaz no Espaço Cultural Sérgio Porto, de sexta a domingo, 20h,30m. 70 minutos . Até 31 de Janeiro.


AUÊ: ALGO DE NOVO, COM DESLUMBRE

FOTOS BY FÁBIO ROSSI

Navegando em outros mares, descobertos entre as viagens de “Gonzagão –A Lenda” e “Ópera do Malandro”, a Cia. Barca dos Corações Partidos abre sua arca de sonhos musicais  na surpresa teatral/coreográfica de  AUÊ.

Com vinte e uma canções inéditas autorais, sete atores/cantores/bailarinos provam que  ainda há instantes  de inusitado  presságio pela redescoberta da originalidade de  um musical a brasileira.

E que falar de amores à moda antiga, daqueles de "corações partidos",  extravasados entre evocações líricas e repiques bem humorados , é capaz , sim, de provocar incêndios na ocupação dramatúrgica . Ou de  arrastar espectadores para viagens pelos espaços siderais da mente.

Quando  uma  emoção estética, de  carisma e empatia, é direcionada  numa arrojada proposta cênica.  De trajetória sem fronteiras -  música /teatro / dança/ performance/ circo/ , no imanente  lastro da  arte popular nordestina.

Mérito de um elenco  no seu alcance  dos contornos artísticos possibilitados por um inspirado repertório de canções próprias ( Adren  Alves,Alfredo Del-Penho,Beto Lemos,Fábio Henriquez, Eduardo Rios,Renato Luciano,Ricca Barros,mais o músico convidado, Rick de La Torre).

Na   envolvência extrovertida de um cancioneiro de  serestas , maracatus, baião, cocos, sambas e rocks regionalizados.

Enérgico, tanto no domínio das nuances diferenciais de vozes masculinas (com direito até a brincadeiras com tessituras operísticas), como na visível unidade  interpretativa. De  instintiva  musicalidade, sob um dúplice comando sonoro/arranjos (Alfredo Del Penho/Beto Lemos).

Além do manejo artesanal da diversidade de instrumentos ( sopros, percussão e cordas), investindo em posturas reveladoras, a partir de uma intrépida gestualidade coreográfica. Capaz no seu singular manuseio, de abrir novas perspectivas formais para nossos palcos musicais.

Há que se mencionar, também, a funcionalidade da iluminação( Renato Machado) , de contrastes entre claridades e cores. E figurinos, em tecidos de transparente leveza, irradiantes na espontaneidade da performance no referencial circense de uma arena/picadeiro ( Kika Lopes).

Num espetáculo de tantos acertos, ao belo desempenho coletivo, há de se juntar a força impulsionadora deste intensivo fluir de atitudes criadoras, a concepção mor de Duda Maia.

Que , na sua competência diretora, soube favorecer a liberdade da representação, em favor de uma invenção cênica, surpreendente pela sua luminosidade,    exponencial pelo que traz de novo.

    
    AUÊ está em cartaz no Espaço Sesc /Copacabana, terça a sábado, às 20h30m;domingo, às 19 h. 80 minutos. Até 31 de Janeiro.

Nova temporada no Teatro dos Quatro, Gávea, sexta e sábado, 21h;domingo, 20h. Até 19 de junho.


O LIVRO DOS MONSTROS GUARDADOS: NOSSAS LOUCURAS COTIDIANAS

FOTOS BY LEO VIANA
 

"Quando eu era criança eu achava que os monstros se escondiam nos armários e embaixo da cama. Mais tarde eu descobri que eles moravam dentro das pessoas”, prólogo elucidativo de Rafael Primot  para as histórias ficcionais no seu  “O Livro dos Monstros Guardados”.


Através de sete  monólogos, a narrativa literária é transmutada na cena teatral , mantendo a titularidade original da obra, numa versão dramatúrgica, sob um dúplice comando - Rafael Primot/ João Fonseca.

Com sete personagens/atores  nominados pelo M maiúsculo : Madá (Laila Zaid),Magali( Carolina Pismel),Milton( Jefferson Schroeder),Maurício (Guilherme Gonzalez), Max ( Rafael Primot) ,Mestre M(Leandro Daniel Colombo) e Mojo (Erom Cordeiro).

Todos identificados por plaquetas em espaços inicialmente rígidos que, vez por outra, são invadidos . Em rara interatividade , na isolada prevalência frontal dos intérpretes e nas equivalentes posturas conceituais de  protagonizações.

Na minimalista concepção de Nello Marrese (cenário/figurinos) de restritos elementos cenográficos, sob um discricionário desenho de  luzes (Adriana Ortiz), ora vazadas em plano geral,  ora em focos individualizados.

Quase sempre  numa  linha sequencial do formato de monólogos confessionais, passíveis de se cruzarem . Entre o caráter auto documental de cada personificação e o livre imaginário do leitor/espectador , de difícil escape numa transposição livro>palco.

A grande mágica da proposta  está na assimilação transacional, do autor  Primot (dublê de ator) com o diretor João Fonseca numa convergência criativa,  de um teatro literário  transformado em  “teatro teatral”(repetindo Meierhold). Sem perder o referencial da  subjetividade literária na verbalização pelos códigos de cena.

No clima   delirante e caricato de tipos psicanalíticos como o neurótico por assepsia, o atropelador de cachorros, o louco por opção domiciliar, o exacerbado sexualista, a adolescente falsa ingênua, o disfuncional da uretra, a manipuladora de carências físico/afetivas.

Universo caótico, cético, opressivo, pelo  humor negro a partir  das manifestações instintivas da condição humana. Alcançando meticulosas composições no desempenho coeso do elenco  e na imposição provocadora de seus personagens.

Estas imagens fragmentárias de desvarios,   em  intencional envolvência no mundo do grotesco,simultaneamente  provocam o riso ironizado, fazendo-nos t(r)emer a libertação de nossos monstros interiores.

Pois, afinal, no reflexivo lastro do absurdo teatral de Samuel Beckett:

Todos nós nascemos loucos. Alguns permanecem .”



 O LIVRO DOS MONSTROS GUARDADOS está em cartaz no Centro Cultural Justiça Federal,Centro, quarta e quinta, às 19 h. 70 minutos .  Até 4 de fevereiro.

O HÓSPEDE : TRANSGRESSÃO LIBERTÁRIA


Quase próximo de completar meio século, Teorema, o emblemático filme de Pier Paolo Pasolini, continua sua trajetória metafórica e mítica de desestabilização da resistência cultural/ideológica  de raízes burguesas.

Passível na inesperada vinda de um enigmático visitante/hóspede , uma espécie de anjo exterminador, portador de poderosos e inexplicáveis atributos físicos e espirituais.

Sedutor, convincente, conciliador , de misterioso envolvimento, entre o poético e a erotização, devassando  mentes e corpos no avassalador domínio da integralidade de uma família, incluída a criada.

No plano conceitual, um questionamento metafísico, das utopias políticas, das sacralidades religiosas , dos moralismos sociais. Aqui representados pelo frívolo convencionalismo e pelas aparentes certezas de um núcleo doméstico capitalista.

Tema de duas versões livres simultâneas, na cena carioca e paulista, sob os títulos respectivos de O Hóspede e Teorema 21. A do Grupo XIX de Teatro( SP) sob o ângulo exclusivo da ideologia politica e a  de Francis Mayer(RJ) na desintegração  pela prevalência da  sexualidade.

Ficando visível em cada uma delas, a livre inspiração sem rígido  compromisso de fidelidade à proposta original de Pasolini, mas conservando a incisiva imanência de seu  pensamento,via um teorema a ser decifrado.

Francis Mayer, dramaturgo e diretor de O Hóspede, transmuta a ambiência italiana num universo burguês carioca, na sóbria arquitetura cênica em dois planos. Através de um recatado desenho de luzes e interferências precisas de um score sonoro de predominância techno/pop.

Com um elenco homogêneo  , bem articulado , na sua correta linearidade com que tira partido de seus personagens. Com ressalva,apenas, na desnecessária exacerbação  da ingenuidade  infantilizada da adolescente  Ornella( Izabella Guedes).

Destacando-se , na sintonia de sua linguagem cênico/ corporal ,de convincente entrega ao protagonismo/titular , Lucas Malvacini  . No seu confronto físico/textual com Antero, o acomodado patriarca( Regis Farah), a insatisfeita esposa Laura(Flávia Santa Maria), o jovem e inseguro primogênito Michel (Felipe Salarolli) e  a fragilizada empregada Elisa ( Luciana Albertin).

Quanto ao papel de Diego Rosa (garoto de programa), caracterizaria  bem a  visão peculiar   do próprio Pasolini na sua única visita ao Rio(1970) , “à altura dos michês mais bonitos (...) existe um anjo que que não sabe nada, sempre debruçado sobre seu sexo”.

A presença cênica, irônica e audaciosa, de um narrador (Vinicius Vommaro) conduz e interioriza, sob preciosas inserções de Rimbaud,  com mão de anjo rebelde, a transgressão libertária da trama dramatúrgica.  No alcance referencial , enfim, do sonho mistificador de seu   inventor  primeiro   -  o    poeta/cineasta : 

“Pecador não é de modo nenhum aquele que faz o mal: não praticar o bem, eis o verdadeiro pecado”.




     O HÓSPEDE está em cartaz no Espaço Tom Jobim / Jardim Botânico, sexta e sábado 21h; domingo, às 20h. 90 minutos .Até      31 de Janeiro.

CARANGUEJO OVERDRIVE: ESTÉTICA DA LAMA

FOTOS BY JOÃO JÚLIO MELO

No seu único livro de ficção, o cientista Josué de Castro , em seu prólogo afirma convicto – “ No mangue , tudo é, foi ou será caranguejo, inclusive o homem e a lama” . Tais palavras , de dolorosa acidez, inspirariam um dos mais surpreendentes textos da nova dramaturgia carioca – Caranguejo Overdrive, de Pedro Kosovsky.

A partir desse mote de carga metonímica, o enredo teatral faz uma incisiva incursão histórica, social e política, num tema com transmutação conceitual em duas épocas .O engajamento não voluntário na Guerra do Paraguai de um miserável habitante do Mangue , decadente zona do Rio capital imperial, acaba conduzindo-o ao delírio mental.

Sujeito a toda insensatez da precária e cruel realidade do front brasileiro, de sanguinária justificativa no polêmico ideário de guerra patriótica, o soldado Cosme ( Matheus Macena) retorna, doente , à sua cidade de origem. E o seu reencontro com o Mangue, em obras, acelera seu estado psicótico, da lama para a lama, atolado de corpo e alma.

A multiplicidade de elementos estéticos que confluem na arquitetura cênica e dramatúrgica desta montagem alcança, na impactante concepção cênica e comando de Marco André Nunes, uma enérgica densidade performática capaz de não deixar incólumes, corações e mentes , palco e plateia.

Aqui convergem efusivas declamações poéticas, amplificadas na narrativa comportamental de uma cidade violentada . Com a plasticidade visual da instalação realística ( areia, lama e caranguejos), ressaltada por uma luz de sombras (Renato Machado) e pela visceralidade da trilha/tributo ao Mangue Beat (executada ao vivo por Felipe Storino, Maurício Chiari e P. Kosovski).

A alternância dos personagens impressiona pela coesão expressiva e vitalidade física do desempenho ( Matheus Macena ,Eduardo Speroni, Alex Nader, Felippe Marques, Carolina Virguez) , atingindo sua culminância no desafio dos limites da resistência corporal, na simbológica escultura, viva e enlameada , do homem/caranguejo.

Na pluralidade de suas linguagens artísticas, Caranguejo Overdrive deixa , ao final, com sua estética da lama, entre a sujeira e a miséria, o consistente dimensionamento de uma “work in progress” , capaz de reflexiva e fértil provocação. Desdobrando –se,ainda, no referencial, filosófico e ideológico, do metafórico conceito de Josué de Castro:

“Cedo me dei conta desse estranho mimetismo: os homens se assemelhando em tudo aos caranguejos. Arrastando-se,acachapando-se como caranguejos para poderem sobreviver”.

                                             Wagner Corrêa de Araújo



CARANGUEJO OVERDRIVE está em cartaz no Teatro Serrador, Cinelândia, terça a quinta, 19h30m. 50 minutos. Até 28 de Janeiro.

BRIMAS: MEMORIAL AFETIVO DE UMA VIAGEM SEM VOLTA

BRI        
FOTOS BY GUGA MELGAR

“Todas as ilusões perdidas, só lhe restara mesmo aquele gesto. Suspenso já o passadiço, e tendo soado o último apito, o vapor levantaria âncora...” Na simbologia filosófica desta passagem literária , o escritor polaco/brasileiro Samuel Rawet inicia seus Contos do Imigrante.

Diante do desconhecido e da perspectiva entre sombras, muitos foram os obrigados a participar desta viagem, de promessas e espantos,  na busca de uma nova pátria.

Com enganos e medos, sonhos e dúvidas, aceitando , no silêncio de  um grito abafado, o recomeço de tudo – casa, amigos, linguagens, costumes.

Num incisivo desafio por um novo lugar. Amargo, dolorido,  na sua luta direcionada ao final  render-se. Como   na voz exilada de  Clarice Lispector : “É tão difícil mudar. Às vezes escorre sangue”.

E foi assim,a partir de lembranças de imigrantes,  com apurado teor de sensibilidade, que se escreveu o inventário existencial das autoras/atrizes Beth Zalcman(Ester) e Simone Kalil (Marion), na poética trama dramatúrgica de Brimas. Num jogo teatral vivo e fluente,  amarrado pela competência do comando cênico de Luiz Antônio Rocha.

Onde nostálgicas e  realistas recordações pessoais das intérpretes se confundem , no tempo da memória, com as de suas avós Ester, a judia egípcia, e Marion, a cristã maronita do Líbano, na opção definitiva  de ambas pelo  Brasil.

Histórias familiares de tradição  e religiosidade, transmutadas de sua ancestralidade numa sintonia coloquial  com nosso tempo. E expandidas numa sutil demonstração de afetividade, já em sua  cena inicial, na simpática  amenidade interativa de quibes servidos ao público.

A cenografia( Toninho Lobo) com malas de todos os tipos e formatos ,espalhadas pelo espaço teatralizado, além dos adereços de significado árabe/judaico, completa com a peculiaridade nativa dos figurinos(Claudia Goldbach), a ambiência climática de viagens e viajantes, partidas e chegadas.

A sinceridade no tom confessional do texto , instala surpresa e encantamento neste  desenrolar-se de devaneios, paródias, diálogos bem humorados ,monólogos interiorizados, capazes de riso  mas também de lágrimas , com  sua leve tessitura de melancolia.

Mas é o talento de uma exponencial loquacidade , no entremeio de expressões e sotaques dialetais com o falar “a brasileira”, e as nuances  da espontânea e cativante performance que estabelecem a imediata e permanente cumplicidade das atrizes com a  plateia.

Reflexionando, ainda, através do singular substrato emotivo/psicológico  de Brimas pela amizade entre os povos ,na rejeição à agressiva contemporaneidade  do fator imigratório, exorbitado pela irracionalidade  dos extremismos políticos e dos fundamentalismos religiosos. 





BRIMAS está em cartaz no Teatro Cândido Mendes, Ipanema, sexta, sábado e segunda, 21h; domingo, 20h. 70 minutos. Até segunda, 01/Fevereiro.

BRIMAS teve sua temporada prorrogada no Teatro Fashion Mall/São Conrado,sexta e sábado, às 21h30m;domingo,às 20h. 60 minutos. Até 8 de maio.

NO ME DIGAS QUE NO : DANÇANDO PALAVRAS

FOTOS  BY BRUNO  VEIGA

São muitos os dimensionamentos possíveis entre o realismo magico e a dança contemporânea.  E ,sem  dúvida , é a obra de Gabriel Garcia Marquez um transubstancial  elo inspirador para a criação coreográfica.

 Nela,  o sentido sensorial das imagens oníricas,  no seu livre pensar conceitual, rompe o sentido de tempo e espaço, abstração e realidade.  E suas situações ficcionais  conduzem, assim,  a inimagináveis  soluções coreográficas.

Mas boa parte destas incursões da dança pela obra de Garcia Marquez, o mistificador mor do realismo fantástico, não consegue escapar do mero caráter narrativo , numa exacerbada exploração da marca nativa de seus personagens.

Foi o que a Renato Vieira Cia. de Dança evitou,  buscando um outro e mais instigante caminho na sua transfiguração do universo literário de Gabo ( nominação afetiva do escritor colombiano).

 Na titulação da proposta , No Me Digas Que No , seu mentor, Renato Vieira, já alcança  seu diferencial estético, deixando aberto para o leitor/espectador de Gabo,a sua própria apreensão/reflexão sobre  palavras literárias abstratas sendo desenhadas, visivelmente,  na cena  coreográfica.

Como uma “ work in progress” , esta obra aberta , com suas zonas de sombra e claridade, simbolismo e veracidade, transparece em movimentos , ora enérgicos ora líricos, entre solos, duos paralelos e conjuntos. No exponencial desempenho de Soraya Bastos, Fabiana Nunes, José Leandro , Tiago Oliveira e nas ocasionais entradas de Bruno Cezario.


Os sutis referenciais  da tessitura ficcional de Garcia Marquez despontam, às vezes,  em vozes abafadas e  distanciados rumores sonoros de sinos e de animais domésticos,  possíveis ecos de uma telúrica Macondo.

As interferências musicais aparecem e desaparecem, em meticulosas pausas de silencio e respiração dos bailarinos, ora na solarização( luzes de Binho Schaefer) de um deserto mexicano. Onde Bruno Cezario( também, nos  figurinos e trilha sonora) potencializou parte significativa do imaginário coreográfico.

Ou nas duplas configurações  de relações afetivas de casais , entre cumplicidade e solidão, em expansivos deslocamentos  físicos e  preciosa artesania na gesticulação de pés e braços.

Se, por vezes, a insistência na interrupção do score musical é quase incômoda no sequencial do espetáculo, há um desdobramento para momentos mágicos.

Como a projeção de identificação e transferência (literatura>dança/palco>plateia), da essência coreográfica,  em estado puro , no dialético solo final de Bruno Cezario.



NO ME DIGAS QUE NO está em cartaz no Mezanino do Espaço Sesc/Copacabana, de quinta a sábado, 21 h ;domingo, 20 h. Até 31 de Janeiro.

MAMÃE : INSTALANDO A AUSÊNCIA

FOTOS BY ANA ALEXANDRINO

 “As pessoas não morrem, ficam encantadas” . Compartilhando, assim, com o Rosa da prosa, fica mais leve incursionar pelo rastro de ausência que os mortos deixam atrás de nós.

E foi instalando, dramaturgicamente,  a morte materna em si próprio que o autor, ator e diretor Álamo Facó retomou a tragicidade  dos últimos cem dias de sua genitora/artista,  a arquiteta Marpe Facó. 

Aqui, ele é ela ,nominada Marta. Ele é Lázaro, individualizando num mesmo personagem seus três irmãos. Ele é,  ainda, o passado e o presente de sua ambiência familiar.

Enfim , ele é a transubstanciação , em corpo e voz , de uma arquitetura cênica de metáfora, realidade e transformação.

Num sideral cenário , entre sombras e brumas, Bia Junqueira  sugestiona, sutilmente  , com cadeiras de acrílico ,  um leito  e um quarto hospitalar. Compatível com as despojadas nuances do figurino de Ticiana Passos.

Translúcido pelas luzes neon ( Felipe Lourenço) e solarizado pela  janela realística  do teatro, que o ator abre,  descortinando a paisagem externa.

Numa sequência aleatória, ora o protagonista assume , em enérgica gestualidade, a representação exaltada dos delírios maternos em estado terminal. Ora , relata, meticulosamente,  todo o processo clínico em torno do tratamento cancerígeno.

Ou dialoga, desmaterializado do seu ser existencial ,    com o imaginário personificado de suas interiorizações psíquicas . Sem nunca ceder ao melodramático de superficialidade lacrimosa, na concisão de um  texto de preciso  equilíbrio entre a razão e a emoção.

A tensão psicológica , ao transitar por um tema perigoso para mentes sensíveis, inibe uma maior interatividade, mesmo quando Álamo se despe de seus personagens , desmistificando a relação sujeito/objeto, palco/plateia.  

A sobriedade na linha realista assumida pela montagem, a densidade da entrega enquanto artista e personagem, a dor recalcada entre o insólito e a introspectividade, fazem de Mamãe um belo e digno  teatro de inventividade e reflexão.

O destaque de uma coerente direção de movimento( Luciana Brites) e  uma sofisticada direção musical( Rodrigo Marçal), tem  na veemência do duplo comando de Álamo Facó / Cesar Augusto o alcance de um vigoroso clima de performance.

Onde a suprema desolação humana – a perda fatal dos que amamos, alcança ,   aqui,  uma simbólica transcendência na catarse de um expressivo tributo teatral.



MAMÃE está em cartaz no Espaço Cultural Sérgio Porto, de sexta a domingo, 20h30m. 70 minutos . Até 30 de Janeiro.
EM NOVA TEMPORADA : Teatro do Leblon, sexta e sábado,às 21h; domingo,às 20h. Até 24 de abril.

LAIO E CRÍSIPO: HERÓIS COMO SÃO OU COMO DEVERIAM SER



FOTOS BY JOÃO JÚLIO  MELO


Num tempo além do tempo, em subversão cronológica, um trio mítico grego( Laio,Jocasta,Crísipo) ,ligado por uma visceral paixão erótica, se encontra num destes recantos baratos de prostituição. No desfrute do prazer pelo mero prazer ,mas imunes ao signo da maldição que os marcou na ancestralidade , novamente vivem os impulsos sexuais que os conduzira, em cronometragem milenar , ao fato trágico, entre a Frígia e Tebas.

Mas ,desta vez, o rei Laio(o pai assassinado no acaso da fatalidade de Édipo) divide simultaneamente os gozos seminais entre a rainha Jocasta e o jovem príncipe Crísipo, do qual fora preceptor indicado por outro rei, Pélops.Missão que nos idos relatos lendários, entre aulas de lutas marciais e lições filosóficas, conduzira a uma vertiginosa atração homoafetiva(Laio/Crisipo), a primeira registrada nos anais greco/mitológicos.

Pedro Kosovski , o autor de “ Laio e Crísipo”, já enveredara no explorado lastro edipiano em "Edypop", mas, agora, superando as fragilidades do texto antecedente. Com sua pegada experimental num mix de linguagens estéticas, o dramaturgo novamente faz uso de elementos pop/urbanos nesta re-contextualização do mito ,entre o poético e o trágico,com superlativa carga de sensualidade



Sua original abordagem traz ,ao dúplice desejo copular de Laio, um componente inédito ao incorporar Jocasta, neste metafórico “ménage a trois”, na contemporaneidade de um “inferninho” . E nesta nuance revisionista da narrativa historicamente estabelecida atinge sua personificação, se aproximando da melhor vertente de modernas releituras da tragédia grega .

Dando ressonância inventiva à proposta da direção de Marco André Nunes, uma impecável arquitetura cênica, na cenografia (Aurora dos Campos),nos figurinos(Marcelo Marques) ,na iluminação(Renato Machado)e na incisiva reverberação da trilha sonora ao vivo(Felipe Storino).

O enérgico gestual( Marcia Rubin) do elenco, em exponencial performance, extrapola os limites da eroticidade no domínio atlético de Laio(Erom Cordeiro), na entrega juvenil de Crísispo(Ravel Andrade) e na liberação comportamental de Jocasta(Carolina Ferman).

Na transgressão do mito original , na transcendência de épocas, na impunidade da culpa pelo prazer orgiástico de seus personagens, a peça ,no seu questionamento estético/moral, acaba assumindo o desafio da reinterpretação do simbológico conceito de Sófocles sobre seu mais célebre rival tragediógrafo:

“Eu pinto os homens como eles deveriam ser; Eurípides os pinta como eles são”.



LAIO E CRÍSIPO está em cartaz no Teatro Glauce Rocha/ Centro / RJ, sexta a domingo, 19h. 80 minutos . Até 29 de Janeiro.

CARA DE FOGO : RETRATO FAMILIAR ENTRE CHAMAS

FOTO BY RENATO MANGOLIN

Primeiro texto teatral do alemão Marius von Mayenburg, Cara de Fogo, estreado em 1998, encontra um  referencial em duas obras literárias sobre desintegração e disfuncionalidade familiar . Ambas de expressivo potencial dramático em transcrições cinematográficas.

A clássica novela de Jean Cocteau – Les Enfants Terribles(1929) onde dois irmãos adolescentes se envolvem em relações afetuosas, entre o  incesto e a  loucura . E no romance Jardim de Cimento(2009) do inglês Ian McEwan, exacerbado pelo assassinato dos pais por quatro crianças numa ambiência doméstica minimalista.

Na peça alemã, ecoam também relacionamentos  familiares bizarros. O adolescente Kurt ( Johnny Massaro) vive em estado catártico nos seus perigosos experimentos com o fogo , ao lado da  irmã,  Olga( Julia Bernat) por quem nutre  uma obsessiva atração de delírio e sexualidade.

Diante de um pai( Isaac Bernat) impulsionado pela leitura, em jornais ,de assassinatos de prostitutas  e de uma mãe( Soraya Ravenle) indiferente, na presença dos filhos,  até no despudor de lavar suas partes íntimas .

O quinto personagem e  o mais próximo da racionalidade, é Paul (Alexandre Barros) que faz, de sua moto e de suas roupas esportivas, o fetiche para seduzir Olga, como seu pretenso namorado.

A enigmática cenografia( Aurora de Campos) de caráter claustrofóbico, no minúsculo espaço residencial ,é ultrapassada apenas  por avanços no vazio do escuro até a  plateia .

E alcança , no desenho de luzes( Tomás Ribas),  o confronto ideal entre tons soturnos e explosões de cores.  Refletida também na singular estilização dos figurinos (Beth/Joana Passi de Moraes).


FOTO BY RICARDO BRAJTERMAN

Interferências sonoras( Davi Guilhermme ) contrastam acordes melodiosos com imprevistos ruídos  de pesadas ferramentas(  num referencial simbólico de mentes/metais,   fundidas/forjadas  no fogo) atiradas a esmo , realisticamente. 

Irreverência, inquietude e sarcasmo marcam o refinado rigor interpretativo de Soraya Ravenle/Isaac Bernat. Enquanto Julia Bernat é tomada pela emotiva e amarga sensorialidade de seu personagem, há uma carismática identidade entre o insólito e o poético  na performance de Johnny Massaro.

Extensiva ao revelador desempenho de  Davi Guilhermme, quando o substitui. Além, ainda,  da convincente espontaneidade de Alexandre Barros ,num papel de menor densidade .

Cara de  Fogo, entre esperma e sangue, incesto e assassinato , é assimilado pelo  olhar inventivo e domínio cênico provocador  de Georgette Fadel, com sua dessacralização estética ,entre chamas, da perversidade .

Sendo capaz ,ainda,   de uma teatralidade   incendiária não só pela  competência artesanal de sua montagem mas, enfim,   pelo reflexivo substrato político/metafórico de sua concepção.


FOTO BY RENATO MANGOLIN
CARA DE FOGO está em cartaz no Teatro III do CCBB, Centro do Rio, de quinta a domingo, 19h30m. 90 minutos. Até o dia 24 de janeiro.

RACE:PRECONCEITO E CULPA NUM JOGO DE APARÊNCIAS

FOTOS BY BRUNO VEIGA


Num dos diálogos da peça Race, de David Mamet, um personagem afirma que qualquer declaração de um branco sobre cor da pele soa , para um negro, como agressão.
Estreada simbologicamente no ano (2009) em que o primeiro afro - descendente era eleito presidente dos Estados Unidos, Race traz , em sua titulação ,um duplo significado bem ao gosto da dialética linguística do teatrólogo/cineasta  David Mamet.
Charles(Yashar Zambuzzi) um homem branco e rico, procura um escritório de advocacia para se livrar da acusação de estupro de uma mulher negra.
Num ato de enigmática contradição , ele se decide por uma dupla de advogados em que apenas um deles Jack ( Gustavo Falcão) seria um tipo  "ariano" , ao lado das peles escuras do parceiro TJ( Luciano Quirino) e de sua assistente jurídica Susan(Heloísa Jorge).
Na elucidação dos caminhos da possível defesa,vai se elaborando a argumentação entre a busca de uma verdade forjada pela simulação da mentira, capaz assim de criar uma credulidade impositiva diante da banca de julgamento.
Especificidade da escrita dramatúrgica de Mamet, aqui os aforismos reflexivos tem uma prevalência primordial para a própria acepção conceitualizada do discurso teatral.
Nas , às vezes longas, falas de cada personagem, há um delineamento de teses dogmáticas, capazes mesmo de  beirar os limites da absurdidade quando o objetivo é ganhar a corrida( o outro significado etimológico de Race).
A exceção fica com a postura , de sutis modulações ,do cliente Charles que tem na coerência da performance de Yashar Zambuzzi, o tom sóbrio ideal para acentuar o confronto com as elucubrações inquietantes e tensas dos dois advogados.
Luciano Quirino e Gustavo Falcão acentuam seu convincente desempenho de ataque e defesa, raiva e denúncia, ainda que sujeito a certa exacerbação nas suas interferências verbais.
Ao contrário do inicialmente discreto personagem de Heloísa Jorge, perceptível quase como coadjuvante, mas de crescente intencionalidade emotiva no surpreendente e decisivo encaminhamento da trama narrativa.
Os códigos cênicos se consolidam com a ambientação claro/escura das luzes( Paulo Cesar Medeiros) num décor único de uma sala /escritório,  entre as duas fileiras opostas da platéia.
Os tons elegantes mas discretos dos figurinos de Luciana Falcon ( dividindo a concepção cenográfica com Paso) e a trilha de André Poyart viabilizam o clima psicológico necessário.
A inteligente tradução de Leo Falcão propicia o carisma sequencial do tríptico Mamet (iniciado por Oleanna), com uma sólida e exponencial transcrição cênica de Gustavo Paso para um provocador substrato temático de pele, sexo e culpa.




RACE está em cartaz no Teatro Poeirinha, Botafogo,sábados e domingos, 21h. Até 21 de fevereiro.

TRAJETÓRIA COREOGRÁFICA 2015: TRADIÇÃO, FISICALIDADE E SACRALISMO

TOROBAKA/FOTO BY LOUIS FERNANDEZ


A temporada coreográfica 2015 trouxe surpresas e revelações inventivas , num acentuado equilíbrio entre concepções neo-clássicas e um arejado repertorio entre o experimentalismo e a vanguarda.
O repertório histórico teve uma exemplar performance na remontagem de Les Sylphides, por Tatiana Leskova, para o Balé do Theatro Municipal. Estabelecendo, com precisão técnica e saber estético, uma obra  de Fokine  que ela própria interpretara  nos seus anos de  Original Ballet Russe.

A companhia oficial carioca inovou com mais dois programas de obras da atualidade internacional, estreando, por aqui,Age of Innocence, do americano  Edwaard Liang,  e O Messias , do argentino   Maurício Wainrot.

Ambas caracterizadas por um acertado equilíbrio entre a linguagens de base  neo-clássica com um sotaque de contemporaneidade. A temporada se completou com duas retomadas do repertório do Balé do TM – Le Sacre du Printemps ( na reconstituição de Millicent Hodson) e a Sétima Sinfonia, de Uwe Scholz.

BALÉ DO THEATRO MUNICIPAL/AGE OF INNOCENCE/FOTO BY JÚLIA  RÓNAI
O Balé da Cidade de São Paulo, outra Cia oficial, trouxe a preciosa exibição de um programa duplo , onde Cantata(de Mauro Biggonzetti) , com referencial na tradição vocal italiana,foi  seguida de uma obra do sueco Alexander Ekman, Cacti. Esta , uma  exponencial composição cênica de   tons dadaístas  no seu  surreal jogo lúdico com vasos de cactos.

Comemorando 40 anos, O Grupo Corpo , através de Rodrigo Pederneiras em Dança Sinfônica, replicou o elo entre a solenidade barroquista e a pulsão futurista ,via enérgicos agrupamentos  e líricos pas-de-deux.

Outro aniversário, teve com Thiago Soares, uma original estréia mundial -  La Bala, de Arthur Pita, devaneios gestuais em torno de um cowboy,que supriu a frágil artesania coreográfica em Caresse du Temps, de Alessio Carbone.

DANÇA SINFONICA/GRUPO CORPO/ FOTO BY JOSE LUIZ PEDERNEIRAS

No panorama carioca, o diferencial esteve presente na simbologia do espetáculo/performance A Rainha e o Lugar( Andrea Jabor), na simetria  física /cósmica de Poeira e Água (Renato Vieira) e na sincopada impulsividade da pesquisa corporal da Cia Urbana de Dança( Sonia Destri Lie ).

Do além-mar, o destaque absoluto ficou com a sacralização irradiada na matéria humana em movimento, na concepção conjunta - Israel Galvan(Espanha) e Akram Khan(Inglaterra) de Torobaka.

A sublimidade entre tradição e modernidade no Spartacus (Bolshoi Ballet) ,a inusitada e  subversiva sensualidade de Tragédie( Olivier Dubois /Ballet du Nord),  a fisicalidade divinal de Gloria (Andonis Foniadakis /Grand Ballet  de Geneve),completaram ,enfim, o processo estético/ritualístico  desta envolvente trajetória coreográfica.

                                                           Wagner Corrêa de Araújo

BALLET DU NORD/ TRAGÉDIE/ FOTO BY FRANÇOIS STEMMER


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