"TRAGÉDIE": A SAGRAÇÃO DO CORPO


 


 TRAGÉDIE : A SAGRAÇÃO DO CORPO


Enquanto a dança nasceu do gestual das colheitas, o teatro surgiu da dança nos rituais  dos cultos báquicos. Nietzsche retoma  a inspiração clássica grega  priorizando a celebração coletiva em seu Nascimento da Tragédia - "não há indivíduos na cena trágica". E aí chegamos ao ponto de partida, à inicialização conceitual do coreógrafo Olivier Dubois para sua Tragédie. criada especialmente para o Ballet du Nord, com sua estruturação contemporânea de tragédia grega.

Buscando as clássicas origens gregas do teatro  nas celebrações dionisíacas do corpo e do movimento, com a finalidade de alcançar a identificação palco/plateia na catarse , Dubois realizou uma das mais emblemáticas criações da dança contemporânea, a Tragédie , de 2013, motivo de muitas polemicas mas capaz de levar, com sua provocação, ao clímax estético de emoções combustíveis.

Não é o questionamento da exposição de dezoito bailarinos ( meio a meio, homens e mulheres) inteiramente nus, sem figurinos , maquiagens, cenários. Desde o musical Hair, inúmeras experiências coreográfico/teatrais exploraram o corpo humano despojado de quaisquer artifícios, defendidas por seus mentores pela simbológica afirmação de que "os seres humanos vivem tanto dentro como fora de suas roupas".

A sagração do corpo físico em espetáculos  transforma, assim, em objetos de contemplação artística, num mesmo grau de validação ,  rostos e troncos, braços e pernas, traseiros e orgãos sexuais.
Numa proposta que une o elemento erótico ao emocional interior, numa dignificação   humana à unicidade matéria / espírito.

Nesta trajetória, Dubois retoma a historicidade da dança livre, das festas religiosas das aldeias africanas que ele encontra no clássico documentário etnografico  de Jean Rouch, passando por seus propulsores, Ted Shawn, Martha Graham, Merce Cunningham.
Sem deixar inclusive de retomar  o referencial de Nijinsky na sua Sacre du Printemps, com seu ritual de fertilidade, na própria estruturação dos grupos masculino/feminino e na liberdade gestual.

No longo movimento inicial, individualmente vão se apresentando os integrantes do Ballet du Nord, em hieráticas posturas e movimentos quase marciais,  num  mix com a forma cotidiana do caminhar a pé ou do exercitar-se em esteiras. Neste entra e sai, vai e vem, progressivamente  em grupos,  a batida monocórdia da trilha eletrônica( François Cafenne)  faz concentrar os olhares nos aspectos anatômicos dos bailarinos ( musculatura , respiração,articulações).

Na sequência seguinte, libertam-se do tensionamento, mãos, braços, pernas, ombros, quadris, entre silêncios e agitações, da suavidade à selvageria, olho no olho, frente a frente. E  acabam se tocando ,pela primeira vez, numa multiforme arquitetura escultórica, com insinuações de posicionamentos erotizados. A música "trance" conduz ,então,  ao transe  de uma  discoteca techno , sob luzes negras .

Arrastados  neste hipnótico estado de êxtase, entre o magnetismo animal e uma desesperada alegria de viver, a catarse final justifica a singularidade expressiva e a envolvência emotiva deste tributo ao corpo,  inventado por seu criador "para experimentar a humanidade, cega, deslumbrante, ensurdecedora, na sua capacidade de se levantar, gritar, resistir".


OPINIÃO DO LEITOR 





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