BALLET DU GRAND THÉÂTRE DE GENÈVE : ILUMINURAS COREOGRÁFICAS


A tradição coreográfica da cidade de Genebra vem dos anos em que era rota das turnês dos Ballets Russes de Diaghilev, em plenos anos 20. O que lhe imprimiu uma marca tão forte que, quatro décadas mais tarde, teve sua continuidade artística sob o comando curador de Balanchine e inúmeras remontagens de suas obras.

De Alfonso Cata  a Oscar Araiz, foram períodos de extrema fertilidade criativa que conduziram o Ballet du  Grand Théâtre de Genève ao status de uma das melhores companhias européias , numa trajetória entre a tradição e a modernidade. Tendo por ali passado, em trabalhos ocasionais, nomes como os de Rudi Van Dantzig, Kylian e Mats Ek, além da presença reveladora da mais recente
geração através do suiço Ken Ossola e do grego Andonis Foniadakis.

Na presente temporada brasileira, são estes últimos que aparecem com dois significativos títulos do repertório  da cia suiça, Lux (  Ossola) e Gloria ( Foniadakis) num espetáculo simbologicamente concebido como uma unicidade temática , através da predominância de  composições musicais de caráter sacro, entre Händel e Fauré.

Mas de conceituação coreográfica absolutamente oposta , do tradicionalismo  à experimentação de proximidade  vanguardista, sem deixar de escapar a influência de Kylian em Lux e uma certa nuance a la Béjart em Gloria, mostrando os traços da escola do mestre tcheco  em Ossola e a influência do Centro Mudra bejartiano em Foniadakis.

Embora não tenha o alcance de obra prima da outra versão do Réquiem de Fauré, no tributo póstumo de Kenneth MacMillan a John Cranko, Lux mantém o clima celebrativo de uma prece humana  de misericórdia divina  diante da morte. No Introito e no Kyrie, os bailarinos estendidos no palco em atitude submisssa , com seus figurinos sugestionando formas esqueléticas sanguíneas (Jean Marc Puyssant) , vão , aos poucos, se libertando em meio a uma luz entre sombras.

E , então , revelam um  gestual de extrema sutileza, em células   minimalistas interrompidas pela  sua brevidade ,mas enquadradas simetricamente  com a serenidade meditativa da partitura sinfônico /coral. A aura de uma dança mistificada   acaba criando uma sensual  envolvência , em grupos de bailarinos alcançando  formações escultóricas de belo efeito cênico.

Na segunda parte, com Gloria,persiste o sotaque ritualístico ressaltado pelas sonoridades barrocas de uma espécie de "medley" Händel, entre  passagens de música serial (Julien Tarride), numa perfeita sintonia entre temas instrumentais ( Concertos Grossos e Suites para Cravo) , cantata( Dixit Domini),
oratório (O  Messias) e ópera (Xerxes) e os monocórdios acordes do concretismo sonoro.

O detalhamento  das linhas coreográficas de Lux é transmutado  na largueza de movimentos de enérgico dinamismo do Gloria, ora na sintonia de impulsivo atletismo , ora na virtuosística exploração da fisicalidade dos bailarinos com um figurino de design fashion ( Tassos Sofroniou).

Enfim, qual seria a razão do simbolismo enigmático da junção num mesmo programa   de obras com musica de sacralização ritualística entre a vida e a morte,de materialidade e ascensão,  na constância de luzes  sombrias, nos figurinos em tons esmaecidos e na oposta  gestualidade?

Sem uma clara  resposta neste abstrato questionamento estético / filosófico  mas diante do "pathos" emotivo palco/plateia,  talvez a possível saída esteja com o pensador Roger Garaudy:

"Como o mito, a dança é também um indicador de transcendência".













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