ROMEU & JULIETA (E ROSALINA) : IRÔNICA SINTONIA COM UMA INVISÍVEL PERSONAGEM SHAKESPEARIANA


Romeu & Julieta (E ROSALINA). Com Júlia Rabello. Direção Fernando Philbert. Janeiro 2022. Fotos/Cristina Granato.

Se Shakespeare para As You Like It (Do Jeito Como Você Gosta) deu o protagonismo a Rosalina, em Romeu e Julieta apenas insinuou a presença invisível desta personagem feminina, com um conceitual de possível causa inicial da trajetória amorosa dos jovens amantes.

Afinal, por um destes acasos felizes do destino, foi no Baile dos Capuletos, onde Romeu compareceu como pretendente de Rosalina, em que ele acabou trocando esta afeição, casta e inatingível, pela súbita revelação de uma irresistível paixão sensual por Julieta, a prima dela.

Mas, pobre Rosalina, desde a estreia da peça  nunca foi vista em cena salvo, quase quatro séculos depois, nas versões cinematográficas de Renato Castellani (1954) e Franco Zeffirelli (1968). Ou em raras releituras dramatúrgicas, sempre sob compasso de comédia romântica, direcionando o trágico amor adolescente a outros enfoques com um iminente happy-end.

E é nesta linha narrativa que Gustavo Pinheiro, uma das mais relevantes surpresas autorais da nova geração do teatro carioca, recoloca esta personagem feminina no palco. Dando-lhe, afinal, visibilidade física e concedendo-lhe a palavra confessional em Romeu & Julieta (E ROSALINA), sustentada por irônico e bem humorado sotaque de atemporalidade.

Romeu & Julieta( E ROSALINA). De Gustavo Pinheiro. Com Júlia Rabello. Janeiro/2022. Fotos/Cristina Granato.

E para assumir a irreverente postura de uma Rosalina, longe do idílico ideal de pureza e submissão ao domínio masculino, nada melhor que uma atriz exemplar como Julia Rabello na afirmação do poder feminino, especialmente em desempenhos cômicos desafiadores como Porta dos Fundos, a  série televisiva.

Sem deixar de referenciar também sua experiência teatral, entre musicais e dramas, antes de se dedicar mais, nos últimos tempos, a produções para as telas virtuais e cinéticas, sempre com garra e convicção na exploração de seus instintivos recursos histriônicos e seu potencial dramático/cômico.

Perceptíveis nesta transposição presencial para o palco, com proposta cenográfica (Natalia Lana) minimalista de extrema funcionalidade, antecipada por uma bem sucedida temporada nas plataformas digitais. E que se torna contínua no bom resultado de seu  aproveitamento dos mesmos elementos.

Um banco, luzes em formato de lanternas suspensas por fios que, sob ambiências luminares (Vilmar Olos), tem um efeito pictórico de cenário de bailes ao ar livre. Além das projeções frontais de imagens fílmicas que remetem à trama dos amantes de Verona.

Com uma singular indumentária (Tiago Ribeiro) que conecta traços renascentistas na blusa bordada de mangas bufantes, com uma espécie de minissaia e meia calça em tons psicodélicos anos 70, junto a uma bolsa com tessituras hippies.

A contumaz competência da conduta direcional de Fernando Philbert, em oficio dúplice nas inserções de música incidental, sabe manter o ritmo e o clima da representação no energizado aproveitamento dos mecanismos do humor às situações farsescas.

Onde o arcabouço textual de Gustavo Pinheiro possibilita uma gramática cênica envolvente ao fazer uso, sem superficial fabulação  e sem barata banalização, das linhas mestras de um clássico. Ao reconstruir um personagem capaz de transcender sua temporalidade, na especular aproximação da peste da época shakespeariana com o surto pandêmico.

Ou no acertado senso crítico das suas observações antenadas no questionamento comparativo do conservadorismo ancestral, com o olhar voltado para os retrocessos da contemporaneidade política brasileira.

Em espetáculo lúdico e ao mesmo tempo reflexivo, na eficaz coesão das suas intenções humorísticas e do seu contraponto, sem cair na vulgarização do meramente risível, com o dimensionamento psicológico da mais carismática  história de amor de todos os tempos.

                                           Wagner Corrêa de Araújo


Romeu & Julieta (E ROSALINA) está em cartaz no Teatro das Artes, Shopping da Gávea, sábados às 21h e domingos, às 20h. Em temporada de 08 a 31 de Janeiro.

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