HERÓIS MÍTICOS COMO SÃO OU COMO DEVERIAM SER

LAIO E CRÍSIPO. Julho de 2015. Fotos/ João Júlio Mello.


Na ocupação, em julho de 2015, pelos 10 anos de Aquela Cia., dois espetáculos imperdíveis – Caranguejo Overdrive e Laio e Crísipo, com autoria de Pedro Kosovski e direção de Marco André Nunes. Veja comentários críticos a seguir.

Num tempo além do tempo, em subversão cronológica, um trio mítico grego (Laio,Jocasta,Crísipo), ligado por uma visceral paixão erótica, se encontra num destes recantos baratos de prostituição.

No desfrute do prazer pelo mero prazer, mas imunes ao signo da maldição que os marcou na ancestralidade, novamente vivem os impulsos sexuais que os conduzira, em cronometragem milenar, ao fato trágico, entre a Frígia e Tebas.

Mas, desta vez, o rei Laio (o pai assassinado no acaso da fatalidade de Édipo) divide simultaneamente os gozos seminais entre a rainha Jocasta e o jovem príncipe Crísipo, do qual fora preceptor indicado por outro rei, Pélops.

Missão que nos idos relatos lendários, entre aulas de lutas marciais e lições filosóficas, conduzira a uma vertiginosa atração homoafetiva (Laio/Crisipo), a primeira registrada nos anais greco/mitológicos.

Pedro Kosovski, o autor deste  Laio e Crísipo, já enveredara no explorado lastro edipiano em "Edypop", mas, agora, superando as fragilidades do texto antecedente.

 Com sua pegada experimental num mix de linguagens estéticas, o dramaturgo novamente faz uso de elementos pop/urbanos nesta re-contextualização do mito ,entre o poético e o trágico, com superlativa carga de sensualidade.

Sua original abordagem traz, sob o dúplice desejo copular de Laio, um componente inédito ao incorporar Jocasta, neste metafórico “ménage a trois”, na contemporaneidade de um “inferninho”.

E nesta nuance revisionista da narrativa historicamente estabelecida atinge sua personificação, se aproximando da melhor vertente de modernas releituras da tragédia grega.

Dando ressonância inventiva à proposta da direção de Marco André Nunes, uma impecável arquitetura cênica, na cenografia (Aurora dos Campos), nos figurinos (Marcelo Marques) ,na iluminação (Renato Machado) e na incisiva reverberação da trilha sonora ao vivo (Felipe Storino).

O enérgico gestual (Marcia Rubin) do elenco, em exponencial performance, extrapola os limites da eroticidade no domínio atlético de Laio (Erom Cordeiro), na entrega juvenil de Crísispo (Ravel Andrade) e na liberação comportamental de Jocasta (Carolina Ferman).

Na transgressão do mito original, na transcendência de épocas, na impunidade da culpa pelo prazer orgiástico de seus personagens, a peça, no seu questionamento estético/moral, acaba assumindo o desafio da reinterpretação do simbológico conceito de Sófocles sobre seu mais célebre rival tragediógrafo:

“Eu pinto os homens como eles deveriam ser; Eurípides os pinta como eles são”.

Laio e Crísipo. Julho de 2015. 


ESTÉTICA DA LAMA

No seu único livro de ficção, o cientista Josué de Castro, em seu prólogo afirma convicto – “No mangue, tudo é, foi ou será caranguejo, inclusive o homem e a lama”.

Tais palavras , de dolorosa acidez, inspirariam um dos mais surpreendentes textos da nova dramaturgia carioca –Caranguejo Overdrive, de Pedro Kosovski.

A partir desse mote de carga metonímica, o enredo teatral faz uma incisiva incursão histórica, social e política, num tema com transmutação conceitual em duas épocas.

Onde o engajamento não voluntário na Guerra do Paraguai de um miserável habitante do Mangue, decadente zona do Rio capital imperial, acaba conduzindo-o ao delírio mental.

Sujeito a toda insensatez da precária e cruel realidade do front brasileiro, de sanguinária justificativa no polêmico ideário de guerra patriótica, o soldado Cosme (Matheus Macena) retorna, doente , à sua cidade de origem. E o seu reencontro com o Mangue, em obras, acelera seu estado psicótico, da lama para a lama, atolado de corpo e alma.

Caranguejo Overdrive. Julho de 2015. Fotos / João Júlio Mello.

A multiplicidade de elementos estéticos que confluem na arquitetura cênica e dramatúrgica desta montagem alcança, na impactante concepção cênica e comando de Marco André Nunes, uma enérgica densidade performática capaz de não deixar incólumes, corações e mentes, palco e plateia.

Aqui convergem efusivas declamações poéticas, amplificadas na narrativa comportamental de uma cidade violentada. Com a plasticidade visual da instalação realística (areia, lama e caranguejos), ressaltada por uma luz de sombras (Renato Machado) e pela visceral trilha/tributo ao Mangue Beat (executada ao vivo por Felipe Storino, Maurício Chiari e P. Kosovski).

A alternância dos personagens impressiona pela coesão expressiva e vitalidade física do desempenho (Matheus Macena, Eduardo Speroni, Alex Nader, Felippe Marques, Carolina Virguez), atingindo sua culminância no desafio dos limites da resistência corporal, na simbológica escultura, viva e enlameada , do homem/caranguejo.

Na pluralidade de suas linguagens artísticas, Caranguejo Overdrive deixa, ao final, com sua estética da lama, entre a sujeira e a miséria, o consistente dimensionamento de uma “work in progress", capaz de reflexiva e fértil provocação. Desdobrando-se, ainda, no referencial, filosófico e ideológico, do metafórico conceito de Josué de Castro:

“Cedo me dei conta desse estranho mimetismo: os homens se assemelhando em tudo aos caranguejos. Arrastando-se, acachapando-se como caranguejos para poderem sobreviver”.

                                              Wagner Corrêa de Araújo

CARANGUEJO OVERDRIVE. Julho de 2015. Fotos /João Júlio Mello.

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