DE QUEM É A CULPA? : PATÉTICO RECORTE DO CAOS URBANO DE CADA DIA

CHORINHO. Dezembro de 2014. Foto / João Caldas

Última peça do escritor, dramaturgo e ator Fauzi Arap, Chorinho teve sua estreia em 2012, conquistando logo o aplauso do público, em suas inúmeras turnês pelo país, e a aprovação da crítica, incluindo o prêmio da APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte), seis anos antes da morte do autor.

Sua trama dramatúrgica faz uma referência à solidão e à loucura destes inúmeros anônimos e abandonados com quem, tantas vezes, cruzamos com absoluta indiferença, pelas ruas e praças de nosso núcleo urbano.

Mas não foi com este olhar desatento que dramaturgos como Edward Albee (em Zoo Story) e Samuel Beckett (com Esperando Godot), ou Fauzi Arap através de seu derradeiro testemunho dramatúrgico, mostraram a difícil passagem das horas para estes perdidos no espaço, não o dos azuis infinitos, mas o dos recantos obscuros a céu aberto.

E é nesta ambiência de miséria e solidão, que habita uma moradora de rua (Denise Fraga), suja, maltrapilha e tresloucada, como pensa e a define, a princípio, a aposentada classe média (Cláudia Mello) antes de terem, as duas mulheres, seus caminhos cruzados.

A partir daí começa um estranho diálogo, com um misto de rejeição inicial da que tem teto e a mendiga, que com seus inusitados gostos de vegetariana convicta e seu retrocessivo conceitual religioso, conquista a interlocutora e acaba gerando uma mútua e inusitada dependência emocional.

Com poucos elementos cênicos, apenas um banco de praça e objetos pessoais que delimitam o espaço ocupado pela moradora de rua, a concepção cênica original do próprio Fauzi Arap, continuada por Marcos Loureiro, transforma a montagem num libelo de crítica social, pontilhado de humor e poesia.

Completado pela adequação dos figurinos urbanos de Cássio Brasil e as boas e ocasionais interferências da trilha de Aline Meyer, sob as climáticas luzes de Marcos Loureiro e Nadja Naíra.

Além da afinada construção dos personagens, com duas atrizes em absoluta sintonia e sensível envolvimento num enredo - que poderia soar apenas corriqueiro no lugar comum da sua abordagem da solidão e do abandono urbano mas que, ao contrário, sintoniza, isto sim, uma imediata empatia com a plateia.

Fazendo ainda lembrar um ancestral conceito popular filosófico que pode ser, em sua irônica sabedoria, uma bandeira para estes patéticos personagens, entre a solidão e a miséria,  que povoam nossos logradouros públicos:

"Só os que tem a bolsa vazia, podem cantar diante do ladrão".

Entre os indiscutíveis talentos da nova dramaturgia carioca Carla Faour ocupa um lugar à parte, pelo inventivo lavor autoral revelado em textos que surpreendem pela originalidade de uma abordagem temática sustentada por incisiva linguagem teatral, como foi o caso de  Arte de Escutar e Obsessão.

Sempre em busca de um teatro mais antenado com a realidade política social, linkado no caos urbano da insegurança e do descaso ora dos governantes, ora da própria indiferença de seus citadinos, ela traz agora à cena seu último trabalho – Os Intolerantes, comédia em parceria com Henrique Tavares, que também assume a direção.

Nele, a partir de um recente fato de acorrentamento de um jovem negro a um poste, fica patente o reflexo da nova postura justiceira de transeuntes revoltados com a morosidade do poder público e sua polícia, de hábito sempre a última a chegar.

Acusado do roubo da bolsa de uma idosa e viúva de militar (Ivone Hoffman), e no risco da inculpabilidade por uma possível menoridade, o acusado (Eder Martins) é imobilizado no calçadão da praia pela tranca de um ciclista ginasta (Sérgio Abreu) .

Juntando-se ali outros passantes, além da própria vítima do desfalque, como um casal classe média oriundo do subúrbio (Carla Faour e Celso Taddei), acrescidos às vozes ecoantes do protesto e rebeldia de demais manifestantes da rua (Day Mesquita e Leandro Santanna).

No entremeio de embates comportamentais, posicionamentos conservadores e limítrofes ideologias políticas, todos os personagens vão se transformando de testemunhos de um fato real, ironicamente humorados, a meros propulsores de um clima de absurdidade.

E é, exatamente neste momento, que a proposta cênica, inicialmente de tônus contestador, vai se perdendo num desfile alegórico de tipos que, desviando o foco, apenas transcendem aleatoriamente o espetáculo.

Do saldo final, numa produção de recatados recursos cenográficos (José Dias) e de funcional indumentária cotidiana (Patrícia Muniz), sublinhada em efeitos luminares focais (Aurélio de Simone) ainda o simpático presencial, em tons de tragicomicidade,  de um elenco equilibrado com sete integrantes.

Mas o que fica enfim para o público como reflexão e denúncia deste conturbado e até risível flagrante social?   Entre questionamentos e omissões,  na árida sensação de que, afinal, somos todos culpados, não custa aqui recorrer referencialmente a um verista e secular recado poético de Calderón de La Barca:

Valha-me Deus, que covarde a culpa deve ser”.

OS INTOLERANTES. Dezembro de 2014. Foto / Flávia Fafiães.

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