PETER PAN : UMA FANTASIA MUSICAL PARA TODAS AS IDADES

FOTOS/LEO AVERSA

O Menino Que Nunca Quis Crescer, mais conhecida como Peter Pan, é uma clássica história, pensada inicialmente para adultos antes de seu sucesso como uma fábula de gosto infanto-juvenil, sendo tema da única peça (original de 1904) a preservar a memória do dramaturgo escocês James M. Barrie (1860-1937).

Com estreia nos palcos nova-iorquinos em 1905, tendo sua primeira concepção como teatro musical em 1924, com canções de 
Jerome Kern, voltando à cena 30 anos depois, com a inserção de  outros temas, desta vez por Leonard Bernstein.

Seguiram-se as versões mais conhecidas, já com todas as marcas estilísticas de  um espetáculo da Broadway, em 1954 e o revival de 1979, estes com a definitiva parceria Mark Charlap/Jule Styne na trilha, e de Carolyn Leigh, Betty Comden e Adolph Green, no libreto. A primeira com uma celebrada coreografia de Jerome Robbins, substituída na seguinte, pela de Rob Iscove.

Por este rápido traçado histórico, depreende-se já que a versão prevalente perdeu a qualificação de nomes musicais do porte de Kern e Bernstein e coreográficos com o peso de Robbins. Perceptível em sua pouca inspirada partitura, sem o pleno domínio no alcance de acordes melódicos com apego memorial para qualquer espectador.

Salvando-se pela envolvência de uma trama capaz de encantar gerações dos oito aos oitenta pelos carácteres oníricos e fantasiosos desta transposição dramatúrgica sobre um garoto voador recusando-se a crescer e mudar de idade na sua trajetória, de substrato metafórico, pela Terra do Nunca.

Com as paralelas situações, dramático/cômicas, do enfrentamento do Capitão Gancho e seus piratas e o encontro com os irmãos Darling –Wendy, John e Michael - que o herói faz compartilharem de suas aventuras delirantes, no entremeio dos pós mágicos da fada Sininho, meninos perdidos e tribos indígenas. Tendo rendido, inclusive, populares versões cinematográficas como a de Walt Disney, além de séries de animação e de quadrinhos.


Há, aqui, neste Peter Pan – Um Musical da Broadway uma apurada funcionalidade na criação cenográfica (Renato Theobaldo e Beto Rolnik), embora sem nenhum avanço inventivo com sua  proximidade absoluta do realismo tradicionalista. Quebrado apenas pela tecnologia dos efeitos luminares (Eduardo Esdra e Rangel Dantas), mirabolantes insumos cinéticos e intrépidos voos espaciais dos personagens protagonistas (Peter Pan, a fada Sininho, Wendy e seus dois irmãos).

Na envolvência móvel de sua caixa cênica a travessia dos três momentos básicos - o quarto da família Darling, a casa florestal dos meninos perdidos e a clareira dos índios mais o navio pirata - com retorno, no epílogo, ao primeiro quadro (mostrando, então, maior fluência nesta volta à cena domiciliar). Extensivo, para a sua completude plástica, aos chamativos figurinos (Thanara Schönardie e Toninho Miranda) alternando de tonalidades mais discricionárias ao exagero aquarelista.

Lamentando-se apenas a falta ao vivo da brilhante execução paulista dos arranjos e da direção musical (Carlos Bauzys), tornada menor na temporada carioca com a base instrumental gravada embora sustentando a autenticidade dos cantares do elenco.

Por outro lado, o coesivo acerto na escolha dos atores/cantores, com aplauso critico, de público e de prêmios teatrais paulistas, sofreu certo prejuízo em determinadas escalações para as apresentações na Grande Sala da Cidade das Artes. Tais como a de uma Wendy (Karina Mathias) sem a força performática/vocal  de uma Bianca Tadini, mesmo tornada substituta desta no meio da saison do Teatro Alfa.

Reparo que se estende a um carismático Capitão Gancho por Daniel Boaventura comparativamente com as limitações vocais de Tuca Andrada no papel, apesar de seu louvável esforço. E na seleção mais adulta de representação das crianças - John Michael - em contraponto a uma mais convincente atuação dos atores infanto/juvenis na Paulicéia.

Completando-se a panorâmica performática original, com a  irreverência  bem humorada e debochada de Pedro Navarro (Smee) e uma poderosa entrega gestual de Carol Botelho ao seu personagem Tiger Li na cena dançante Uga Uga. Com o destaque irrestrito do carismático presencial, em tríplice exercício acrobático/artístico como ator-cantor-bailarino, do protagonista titular Mateus Ribeiro, uma das mais gratas revelações deste genero em nossos palcos.

Sem deixar de falar numa apoteótica incursão coreográfica de Alonso Barros em danças características com sotaque contemporâneo capaz de fazer jus, ao lado do comando concepcional/diretor de José Possi Neto, à integralização de corajoso desafio como realização estética em tempos tornados difíceis e obscuros para o futuro do musical em padrões brasileiros.

                                         Wagner Corrêa de Araújo 


PETER PAN – O MUSICAL DA BROADWAY está em cartaz na Cidade das Artes/Barra, sexta às 20h30m; sábado e domingo, às 16 e às 20h. 140 minutos. Até 18 de agosto

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