LUZ NAS TREVAS : LIÇÃO BRECHTIANA PARA NOSSOS DIAS


FOTOS / RENAM BRANDÃO

Pertencente ao primeiro ciclo das obras de B. Brecht, Luz nas Trevas (Lux in Tenebris) de 1919, ainda apresenta traços do teatro dramático na construção de seu substrato narrativo embora já se sinta ali o delineamento daquela que seria sua grande marca estética – o teatro épico.

Pelo uso do método, detalhadamente exposto em sua mais importante obra teórica (Kleines Organon für das Theater), do assumido distanciamento na encenação. Ainda que sem a completude de traçado ideológico das peças destinadas a despertar a conscientização no proletariado.

Mas já, aqui, com o propósito de levar ao espectador não um mero ato de fruição lúdica mas na intencionalidade de motivar um pensar acional. Em mais uma rigorosa montagem da Cia Ensaio Aberto em prol de um teatro político na linhagem brechtiana, com a direção sempre artesanal de Luiz Fernando Lobo.

No caso, mostrando os embates entre a proprietária de um bordel (Tuca Moraes) e um pretenso moralista (Leonardo Hinckel) que, impedido no prostibulo por uma dívida não paga, torna-se um feroz emissário do combate às doenças venéreas e à prostituição. Entremeado pelos reclames de seu assistente (João Raphael Alves) e por citações evangélicas de um padre (Gilberto Miranda), no fundo todos eles apenas armando os olhares à iminência dos lucros.

Mas, ironicamente, no contrassenso de estar perdendo ao mesmo tempo seus ganhos financeiros com prescrições medicinais, ao ver diminuída a clientela das prostitutas por questionadora advertência da proprietária do cabaré/bordel. Ambos, afinal, conduzidos pela pulsão da desenfreada gana do individualismo capitalista.

Em clima farsesco, a concepção de Brecht mostra certa proximidade com os esquetes dadaístas/expressionistas de cinema e teatro de seu contemporâneo o celebrado comediante Karl Valentin. Um mestre na enunciação da dubiedade de sentido no jogo das palavras, com influência decisiva na inicialização da carreira do dramaturgo.

Com funcional reconstituição em espaço cenográfico (Luiz Fernando Lobo) da ambiência de um cabaré anos 20, onde os espectadores ocupam mesas, enquanto são servidos por envolventes atrizes (Ana Moura, Letícia Viana, Luiza Moraes, Natália Gadiolli e Tayara Maciel) caracterizadas como as prostitutas do bordel, em caprichosos figurinos de Beth Filipecki e Renaldo Machado.

Sob um design de luz (Cesar de Ramires) equilibrado entre velas nas mesas e refletores focais nas cenas laterais e frontais, no entremeio de um pequeno palco e uma tenda ladeada por um púlpito. Com prevalente seleção de antológicos temas musicais de lavra da dúplice parceria Brecht/Kurt Weill.

Onde Paduk (Leonardo Hinckel) faz suas pregações falso/moralistas, mostrando, através de pequenas esculturas, partes corporais afetadas por moléstias venéreas, mas sendo também confrontado pela cafetina, a sra. Hogge (Tuca Moraes). Com episódicas intervenções de outros personagens e a interativa atuação com a platéia por atraentes atrizes/garçonetes.

No direcionamento mor de Luiz Fernando Lobo, conferindo consistência a uma proposta concepcional tanto de espetáculo como por seu contextual crítico. Onde a transmutação da hipocrisia moral em irreverência a favor do prazer sexual, alcança expressivos níveis nos personagens protagonistas de Leonardo Hinckel e de Tuca Moraes.

De um lado na liberdade espontânea e instintiva com que o ator assume sua contraditória fisicalidade comportamental na travessia da pregação moral à luxúria. Do outro, na convicta segurança da performance de Tuca Moraes com seu sotaque de sutil sagacidade na recondução do opositor ao nicho dos prazeres eróticos.

Esta facilitação de falseados parâmetros moralistas a favor do predomínio pela atração capitalista em negócios lucrativos, traz à luz uma temática comum ao legado brechtiano mas muito próxima da contemporaneidade e das presentes vivências de uma certa nação do hemisfério sul.

Com simbológico referencial da exploração farmacêutica e dos mecanismos do poder pelas vantagens pessoais, incitando provocação reflexiva, ao privilegiar o signo opressor da mais-valia no alheamento social aos menos favorecidos, marca registrada das nossas inconsequentes classes políticas e governanças

                                          Wagner Corrêa de Araújo  


LUZ NAS TREVAS está em cartaz no Armazém da Utopia/Boulevard Olímpico/RJ, sexta e sábado, às 20h30m; domingo, às 19h30m. 60 minutos. Até 30 de junho.

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