ROSARIO: RECONSTRUINDO O MUNDO, ENTRE O DELÍRIO E A ARTE

FOTOS/MARCELLA AZAL

Se ao ex-fuzileiro e ex-pugilista sergipano Arthur Bispo do Rosário coube, segundo o próprio,  reconstruir o mundo, e atuar como advogado dos homens no Juízo Final,  sua longa e sofrida noite de meio século, como um interno esquizofrênico, encontrou a saída na salvação pela arte.

E ao seu legado de criador espontâneo e instintivo coube um destino estético que o identificou com a vanguarda através de suas assamblages, referenciadas até a Marcel Duchamp, com prática e inspiradora base nos materiais de uso cotidiano em sua residência / manicômio (Colônia Juliano Moreira).

Capazes no post-mortem de serem levadas à Bienal de Veneza na representação brasileira, integrarem acervos museológicos e mostras internacionais, além de despertarem inúmeras releituras de sua arte/vida, do teatro ao cinema, sem esquecer a dança e as performances plástico/visuais.

Estas últimas com um forte substrato que, sempre, as aproxima ora do encantamento ritualístico artaudiano, ora às vivências psicofísicas bauschianas. O que se  torna de potencial percepção nos traços de originalidade inventiva que o múltiplo  talento do artista plástico, ator e bailarino Márcio Cunha vem imprimindo às suas incursões plásticas / espetáculos coreográficos no tríptico Frida, Basquiat e, agora, Rosario.


Numa autoral pulsão integrativa de elementos da dança, da performance teatral e do processo das instalações, outra vez com prevalência em energizada imersão física e psíquica de seu idealizador e intérprete na trajetória de outro artista, este brasileiro e  marcado pelos signos da marginalidade, da exclusão, da solidão e das limitações corporais de um prisioneiro da alienação.

Aqui, o Bispo do Rosário é revivido num suporte cenográfico (Márcio Cunha/Silvia Araujo) interativo, dos estandartes, barcos de madeira, faixas, uniformes, o manto da consagração e canecas, a um atelier miniaturizado com objetos domésticos e imaginária sacro/profana. Na climática ambiência luminar (Juca Baracho) e na envolvência do score sonoro/musical (Antônio Nóbrega).

Enriquecido, sobremaneira, na participação de Arlindo, ex interno da Colônia e também artista,  através de barco de sua lavra, e na sua episódica interação cênica com Márcio Cunha, de rara emotividade palco/plateia ao possibilitar a progressão dramático / coreográfica , entre o onírico e o verismo, entre  a irracionalidade e o êxtase poético.

O que leva, ainda, a uma sensorial sintonização reflexiva da representação com a dúplice genialidade arquetípica da loucura, ligando a postulação redentora de Artaud (Tenho uma única preocupação: refazer-me) à auto – divinificada missão de Bispo do Rosário no querer “Reconstruir o mundo...Isso é a minha salvação na Terra"...

                                             Wagner Corrêa de Araújo


ROSARIO está em cartaz no Sesc/Copacabana, de quinta a sábado,às 21h: domingo, às 20h. 60 minutos. Até julho/01.

SÃO PAULO COMPANHIA DE DANÇA: GOECKE E A PSICOFISICALIDADE COREOGRÁFICA

PEEKABOO/ FOTOS -WILIAN AGUIAR

“O medo me motiva...Mas o corpo permanece - é a tela sobre a qual estamos pintando”. Reflexão que remete à poesia, à solidão e ao caos, temáticas recorrentes na criação coreográfica do alemão Marco Goecke. Com uma das mais  sólidas trajetórias inventivas na dança contemporânea e que ficou, sobremaneira, marcada em suas passagens pelo Nederlands Dans Theater e o Stuttgart Ballet.

E que, também, teve projeção no profícuo intercâmbio com a São Paulo Companhia de Dança para a qual ele concebeu, em caráter exclusivo, sua obra Peekaboo, em 2013. E, ainda, no contextual de outras remontagens pela SPCD , com Supernova (2011) e , no ano passado, o Duo Pássaro de Fogo.

Abrir, assim, a série de 3 programas retrospectivos, em comemoração aos dez anos de um dos mais importantes grupos coreográficos do país, com uma seleção de obras de M.Goecke, tem um duplo e significante conceitual artístico. Afinal, graças à SPCD, seu emblemático inventário estético chegou aos nossos palcos em retomadas nacionais, com a singularidade de uma destas criações (Peekaboo) ter sido idealizada para esta Cia, com estreia em uma de suas turnês europeias.

Revelando os sérios propósitos e os avanços estilísticos de um grupo brasileiro de dança, provocativo de sólida convivência da tradição clássica à contemporaneidade, através de obras mestras destas duas tendências. Sempre sob o olhar artesanal e o comando seguro de Inês Bogéa, via sua incrível trupe de 30 bailarinos. À diretora artística da SPCD não falta inteligente arrojo ao privilegiar, num mesmo espetáculo, três obras de um coreógrafo sob a prevalente marca criativa de reiterativa linguagem gestual, entre o automatismo simétrico e a mecanicidade nervosa.

Capaz de sequenciar, sem pausas, movimentos milimetricamente construídos, dimensionados ora para mãos e braços, ora em bruscos arranques de tronco e ombros. Construindo gesto a gesto, numa linguagem sincopada e num feeling enérgico que, ao mesmo tempo, induzem a uma expressiva exteriorização do conflitante  suporte da condição humana. E que se torna perceptível num mergulho quase ritualístico da corporeidade dos bailarinos, traçada como espectros ou silhuetas numa luz entre sombras o que, segundo Goecke, representaria “tentativas de libertação”, transmutadas em solos, duos, trios e conjuntos.

Recorrendo aos folguedos da infância através do lúdico jogo do espiar(peek), na simultaneidade de súbitos desaparecimentos e reencontros de pessoas em estado de espreita. E seguido da surpresa estampada nos rostos com a exclamação, de referencial titular -Peekaboo- ou, simplesmente, boo... Ampliada em acordes anotados na meninice, no processo de formação musical de Benjamin Britten, para sua Simple Symphony, aqui visceralizada na intervenção de brados adultos do coral masculino finlandês Huutajat.

DUO PÁSSARO DE FOGO

Já a releitura de Stravinsky no Duo Pássaro de Fogo soa mais em compasso narrativo na convicta força interpretativa de Ana Paula Camargo(Pássaro) e Nielson Souza((Príncipe) em elucidativo gestual, especialmente de braços, que visualizam a troca de habilidades aladas pássaro>homem, homem>pássaro. Remetendo, no sutil reflexo gestual especular, a outro duo de Goecke – Midnight Raga, visto na última turnê do NDT 2.

Enquanto Supernova, encerrando a representação, com um score sonoro mais jazzístico, potencializa a tensão quase em ritmo de competição olímpica, onde veias e fibras parecem, no fluxo de uma pulsão quase psíquica, prestes a explodir a fisicalidade humana, no vai e vem de luzes e fogo, como uma réplica do fenômeno cósmico das estrelas “supernovas”.

Ressaltando que , na ausência de elementos cenográficos, a plasticidade do imaginário está no funcional despojamento dos figurinos(cumulativo à concepção coreográfica de Marco Goecke), enquanto o desenho de luz, fundamental às climatizações da performance, é de Udo Haberland. 

                                                Wagner Corrêa de Araújo

SUPERNOVA 

A SÃO PAULO COMPANHIA DE DANÇA continua sua temporada retrospectiva, com mais dois programas, no Teatro Sérgio Cardoso/SP, entre quinta e segunda, em horários diversos, até o dia 08 de Julho.

O CAVALEIRO DA ROSA: QUALIDADE MUSICAL, BRILHO CÊNICO


FOTOS/FABIANA STIG

Em tempos de parcos recursos que colocam em estado de risco criações cênicas de todos níveis, o que não imaginar quanto às desafiantes exigências de produção para manter o élan estético, tanto musical como cênico, de uma ópera rara nos palcos brasileiros como O Cavaleiro da Rosa, de Richard Strauss.

A começar de uma orquestra que a partitura estima com pelo menos 112 instrumentos, para uma reconstituição cênica da ambiência feérica de uma Viena do século XVIII, e pela escolha de um elenco cujos requisitos técnicos fazem convergir excelência vocal e apurada teatralidade.

Afinal, isto é o mínimo para se manter a progressão dramático/musical de uma performance que ultrapassa quatro horas em seus três atos. Com estrutura composicional que alia passagens de lirismo (com  direito a acordes de valsas vienenses) a uma construção musical ambiciosa.

Com recursos de perfeccionismo sinfônico que ora a identificam com o formulário estético wagneriano como a prevalência de leimotivs, ora sabendo como equilibrar alterativas nuances do drama e da ópera romântica à comédia ligeira que a aproximam do vaudeville e da opereta.

Elementos estilísticos que a montagem de O Cavaleiro da Rosa, como segundo espetáculo da temporada lírica 2018 do Municipal paulista, soube explorar com sensível e arrojado senso artístico. Desde a primorosa leitura do maestro Roberto Minczuck atenta à escrita straussiana e sabendo alcançar o tônus idealizado do volume orquestral para privilegiar os cantores de um elenco com prevalência expressiva, entre solistas convidados, Coral Paulistano e Sinfônica do Theatro Municipal de São Paulo.

Onde a concepção cênica (Pablo Maritano) esteve à altura do rico substrato musical numa feliz transmutação para um clima vienense - dos anos setecentos para a belle époque. Contrapondo, ironicamente, uma aristocracia em processo de decadência na mobilidade especular de cenários (Italo Grassi) de sotaque palaciano em clima cabaret, com sutil referencial art nouveau nos arabescos muralistas frontais.

Ampliados nas incidências luminares (Caetano Vilela), entre claridades e sombreamentos, e no contraste de figurinos(Fabio Namatame). Do solene recato dos trajes protagonistas à indumentária de caráter burlesco/circense, no intervencionismo de coristas, dançarinos e figurantes, com atrevidos traços de lascívia e transexualidade. Quase numa brincadeira bem humorada, identitária com as habilidades  transformistas do personagem Octavian  (Luisa Francesconi).

Numa representação multifacetada de quase vinte personagens, alguns deles em alternância de papéis, os destaques ficam com o quarteto de protagonistas. A começar da Marechala, a princesa de Werdenberg, pelo soprano argentino Carla Filipcic, com um belo colorismo vocal e encorpada tessitura lírico dramática. 

Seguindo-se, no naipe feminino, uma postura exponencial em transmutações teatrais na personificação de Luisa Francesconi como Octavian, assim como no timbre incisivo e na segurança de uma voz admirável de meio-soprano. Qualificações que podem ser extensivas ao soprano bielorrusso Elena Gorshunova com preciosa sustentação nas variações de seu papel de Sophie, entre a agilidade e o lirismo, enquadrando-se ainda por sua presencial  jovialidade.

Mas se ao tríduo feminino não faltou brilho, com elegância nos fraseados e modulações vocais, além de adequação aos caracteres na teatralização e na musicalidade, o baixo Dirk Aleschus foi absolutamente inconsistente como o Barão Ochs, com sua desconfortável peleja para se  projetar na instabilidade de uma voz de abafados graves.

Lamentando-se a ausência no seu lugar, certamente com possibilidade de melhor desempenho, do brasileiro, inicialmente previsto Savio Sperandio. O que, no staff das trincheiras vocais, fez com que a batalha deste digno Der Rosenkavalier outorgasse o troféu da vitória final a um imbatível trio feminino.
                                          
                                           Wagner Corrêa de Araújo

O Cavaleiro da Rosa, teve seis récitas no Theatro Municipal de São Paulo, entre 15 e 25 de junho. Com 240 minutos, em dois intervalos.

O HOMEM DE LA MANCHA E RENT: MUSICAIS EXEMPLARES


FOTOS/JOÃO CALDAS FILHO


Numa mesma semana os palcos cariocas tiveram o privilégio de estrear duas excepcionais montagens paulistas de musicais originais da Broadway,com características estéticas diferenciais mas que os tornaram favoritos no aplauso do público e da crítica.

Ambos originais do século passado, fizeram história com suas marcas estilísticas composicionais de contraponto crítico absoluto, particularizado em sua concepção musical/dramatúrgica. Embora, haja neles a similaridade da antecedência especular em duas conhecidas narrativas literárias.

De um lado, O Homem de La Mancha, da dupla Mitch Leigh (música) e Joe Darion (libreto), na trajetória do típico musical clássico, com uma das mais sucedidas carreiras dos anos 60 (desde sua première em 22/11/1965). Tendo como ponto de partida uma versão para teleteatro (Dale Wasserman) para o épico de Miguel de Cervantes,  respeitando-se o espaço da Inquisição Espanhola, mas priorizando um delírio narrativo entre a representação teatral e a contextualidade literária.

Enquanto Rent (roteiro, trilha e letras de Jonathan Larson), estreado três décadas depois, simboliza a  retomada de um musical rock metaforizando os anseios libertários e as frustrações  da juventude  anos 90 sob o pesadelo da Aids. Em contraposição às viagens alucinógenas do sonho hippie vivenciado em outro musical - Hair . 

Desta vez, mais distanciado em sua sutilização de um retrato geracional com um olhar armado na contemporaneidade, com mais da ópera de Puccini (La Bohème) que da novela do escritor romântico francês Henry Murger ( Cenas da Vida Boêmia), a fonte da versão operística de 1896.

Trocando-se um romantizado compasso lírico parisiense, entre o convencionalismo do amor e da amizade jovial, por uma conturbada pulsão dramática em enérgicos acordes roqueiros, de um grupo de artistas emergentes em busca de afirmação no East Village, sem quaisquer preconceitos raciais,  culturais ou  sexuais.

Havendo, ainda, um elemento de aproximação que aumentou a abrangência na cumplicidade do público com estes dois musicais – a transposição cinematográfica sintonizando duas linguagens artísticas do palco à tela, respeitados os limites cênicos mas sem tolher a especificidade fílmica. O que funcionou melhor para O Homem de La Mancha, por Arthur Hiller, em 1972, que em Rent, por Chris Columbus, em 2005, este um flagrante fracasso de bilheteria.

As exemplares montagens paulistas destes dois emblemáticos musicais americanos transitam entre a tradição e a vanguarda, com prevalência maior do receituário clássico no Homem de La Mancha, nesta sua segunda incursão brasileira, inicializada por Flavio Rangel com perceptível substrato politico em 1972 e retomada, com outro parâmetro inventivo, na artesanal concepção de Miguel Falabella de 2014.

Onde tudo segue rigorosamente o formato do grande musical, na riqueza de seu suporte cenográfico realista (Matt Kinley), no alterativo desenho de luzes e sombras (Drika Matheus) e, especialmente, na transposição do imaginário plástico de Bispo do Rosário para a original indumentária de Claudio Tovar, racionalizando visualmente um manicômio brasileiro em lugar de uma prisão inquisitorial espanhola.

Complementados artisticamente por uma sólida conduta musical (Carlos Bauzys), com um funcional, mas sem grandes avanços, traçado coreográfico (Kátia Barros), com vigorosa interpretação dramática do tríduo protagonizador – Cleto Baccic (Cervantes/Quixote), este com admirável tessitura vocal, mais o luminoso presencial de Sara Sarres (Aldonza/Dulcineia) e a irradiante espontaneidade de Jorge Maya (Sancho).

RENT/FOTO CAIO GALLUCCI

Quanto à episódica passagem do musical Rent em apenas duas performances, a excelente receptividade da privilegiada plateia que ali esteve (Teatro Riachuelo, a pretexto do Dia dos Namorados), valeu como forte apelo por uma temporada de verdade.

Embora o caráter lúdico do espetáculo prenda-se mais à singularização de um apurado ensemble vocal/gestual, com uma banda/sexteto afinada que amplia o potencial tanto da nervosa trilha rock, com incursões ao soul e ao funk (guiada por Daniel Rocha), como da expoente força da linguagem corporal dos quinze atores/cantores. Todos fluindo energização sob as mãos direcionais de Susana Ribeiro que obtém maior rendimento no segundo ato, depois de um primeiro que resiste na demora para dar o arranque e,enfim, acelerar.

Afinal, praticamente quase  todo o elenco está quase o tempo todo em cena o que torna mais exigente a conexão performática, num cenário (André Cortez) de bonito minimalismo mas um pouco dificultoso para as marcações simultâneas de outras ambiências. Com interessante registro de figurinos em tons pastéis ( Fause Haten ) de cotidianidade pop/urbana,  ressaltados nos recortes focais e pela vazada iluminação de Wagner Freire sublinhando as ocasionais incidências coreográficas de Kátia Barros.

Onde os personagens masculinos, de maior destaque, são assumidos por um convicto Bruno Narchi(Mark), dividindo-se entre a representação e como o único com direito a falas narrativas a capella; Thiago Machado em vigorosa entrega como Roger; um carismático Collins  (Guilherme Leal) e um sensorial Angel (Murilo Armacollo).

E, entre as atrizes, além das rompantes intervenções na bissexualidade de Maureen (Giovana Moreira) e Joanne (Priscila Borges), a única réplica nominal de uma personagem originária da ópera de PucciniMimi (Corina Sabbas).

Sabendo, identificada dentro do conceitual das adversidades e conflitos existenciais dos personagens de Rent, como bem dimensionar as nuances psicofísicas de sua personificação da ansiedade de viver cada  momento que se passa, sempre, entre a poesia e o pânico.

                                          Wagner Corrêa de Araújo


O HOMEM DE LA MANCHA está em cartaz no Teatro Bradesco/Shopping Village Mall/Barra, quinta e sexta, às 21h; sábado às 17h e 21h; domingo, às 20h. 110 minutos. Até 27 de julho.

NUON : VIOLÊNCIA IDEOLÓGICA EM POEMA CÊNICO


FOTOS/KELLY KNEVELS/MARINGAS MACIEL


Um dos maiores genocídios da História teve lugar no antigo Reino do Camboja quando, em apenas quatro anos(1975/1979), foram exterminados mais de dois milhões dos habitantes nativos pela violenta imposição ideológica do regime do  Khmer Vermelho comandado por Pol Pot.

Onde o ato do assassinato em massa foi prática comum, da tortura aos campos de trabalho forçado, além da eliminação sistemática do substrato cultural de uma nação com bases político/religiosas advindas da tradição histórica e do budismo ancestral.

A autora e diretora Ana Rosa Tezza titula como Nuon a montagem idealizada para a Cia teatral curitibana Ave Lola, inspirando-se na trajetória e nos relatos de uma sobrevivente deste trágico expurgo - a ativista Phaly Nuon. Esta também refugiada, mas em postulação redentora àqueles que, no corajoso enfrentamento de terminais adversidades, conseguiam, afinal,  atravessar as fronteiras.

Uma temática ainda de extrema atualidade no seu referencial contraponto crítico/reflexivo às  guerras da contemporaneidade, especialmente no mundo árabe e nas tiranias  africanas, que produzem levas de migrações forçadas em arriscadas rotas de fuga, com dolorosa perda da essencialidade dos valores humanos.

Sem uma narrativa dramática linear, a peça é ritualizada como um cerimonial sagrado de culto aos antepassados reunindo poesia e caos, em sequenciais  estados de pânico psicofísico e paralelos deslumbramentos estéticos, sob um artesanal comando conceptivo/diretor de Ana Rosa Tezza.

Desde o simbólico aporte cenográfico (Fernando Marés) de um portal de delicadas tessituras plásticas orientalistas estabelecendo passagens entre presente e passado, vida e morte, materializadas em funcionais ambiências luminares (Beto Bruel/Rodrigo Ziolkowski).

Através de onze personagens, alterativos entre apenas cinco atores (Evandro Santiago, Helena Tezza, Janine de Campos, Marcelo Rodrigues e Regina Bastos) assumindo papéis ora de incisivo verismo, ora de  delirante fantasmagoria. Em sugestiva mascaração (Maria Adélia) e elegante traçado indumentário (Eduardo Giacomini), pontuando tradição e  modernidade.

Integralizando-se, também, a  envolvência sonora de dois músicos Breno Monte Serrat e Mateus Ferrari, este último na climatização de arranjos a partir de acordes típicos cambojanos para tambores e sopros de madeira.  

Na contextualização dramatúrgica, enfim,  a prevalência de  um sensorial gestualismo, com detalhamentos expressivos capazes de provocar a mais visceral  comiseração pelo trágico destino de um povo condenado à morte pelo despotismo ideológico. Lição que, apesar de tudo, a insensatez da raça humana teima na recusa do não apre(e)nder...

                                               Wagner Corrêa de Araújo


NUON está em cartaz no Teatro Ipanema, de sexta a segunda, às 20h30m. 80 minutos. Até 03 de julho.
                              

ILHADA EM MIM-SYLVIA PLATH: POÉTICO SURREALISMO CÊNICO


FOTOS/JENNIFER GLASS

Dentro de mim mora um grito. Toda noite, ele sai com suas garras, à caça de algo para amar". É assim que ecoa o angustiante brado pelo difícil suporte da condição humana amputada, em sua brevidade(1932/1963), por trágica solução para o inventário poético/existencial da norte-americana Sylvia Plat.

Na textualidade dramatúrgica de Ilhada em Mim-Sylvia Plath, a partir dos seus escritos, entre cartas e poemas,  Gabriella Melão evita a habitual contextualização mítica de sua vida, optando por traçar um retrato além biográfico, a partir de um intimista dimensionamento psicofísico especular de sua criação literária.

O que se reflete, sobremaneira, na concepção cênico/diretorial assumida por André Guerreiro Lopes, em duplicidade como Ted Hughes, o também poeta e marido da personagem titular – Sylvia Plath, aqui em sensibilizada personificação por Djin Sganzerla.

Nesta premiada montagem paulista pela Cia Lusco Fusco, como de hábito em suas realizações, há um singularizado mix artístico (teatro, dança, artes visuais e plásticas). E que chega, só agora, em temporada nos palcos cariocas, três anos após a sua estreia.

A prevalência de uma pulsão do sensorial faz com que o comando diretorial de André Guerreiro Lopes transmute a representação plástico/gestual/vocal em transcendente exteriorização de uma intersubjetividade corpo-espírito, vida-poesia. Em alegórica simbolização do mundo interior de Sylvia Plath pelo alcance do que ele chamou de “poema cênico”.

Ampliando o enunciado confessional, do delirante élan imaginário/poético ao conturbado verismo biográfico,  o desenho de luz (Marcelo Lazzaretto) enfatiza climas sombreados de lirismo e pesadelo. Exponenciais também nos acordes sofisticados do score sonoro de Gregory Slivar.

Materializando-se, ainda, na surrealista paisagem líquida do espaço cênico, via simbólicos objetos suspensos descongelando-se em gotas d'água crescentes que vão mergulhando móveis e molhando figurinos (Fause Haten) de recortes solene/fantasiosos.

Este referencial hídrico remete a lembranças e citações da obra de Plath na correnteza que arrasta corpos e mentes: “É o mar que tu ouves em mim. Sua insatisfação? Ou a voz do nada. Tua loucura?”...

Onde Djin Sganzerla, ao incorporar em cativante gestual no conluio palavra- movimento, teatro-dança, assume um sotaque bauschiano. Irradiando convicção sincera e densidade emotiva nos contornos de seu papel.

E que tem menor favorecimento no personagem de André Guerreiro Lopes, quase apenas acólito e complementar ao perfil biográfico enfocado, mas revelando segurança nesta eventual limitação acional.

Embora, às vezes, uma narrativa fragmentária, acentuada no hermetismo de algumas passagens em inglês, ora cinéticas ora auditivas, corra o risco de uma menor cumplicidade da plateia. Ou numa quebra da progressão dramática por uma performance poética com potencializada nuance de subjetivismo psíquico.
    
Mas, de forma algum, estes interregnos ou marcações são capazes de invalidar a espontaneidade criativa deste espetáculo, na sua retomada estético/teatral de um  dos mais enigmáticos e metafóricos mistérios poéticos de todos os tempos.

                                         Wagner Corrêa de Araújo


ILHADA EM MIM-SYLVIA PLATH está em cartaz no Teatro Poeira/Botafogo, de quinta a sábado, 21h;domingo, às 19h. 60 minutos. Até 10 de Junho.

A ORDEM NATURAL DAS COISAS: NO CONFRONTO DE NOSSAS ESCOLHAS


FOTOS/DALTON VALÉRIO

O quanto a gente tem controle sobre a própria vida e a interferência que o outro pode exercer  sobre nós são questões que me motivaram a escrever este texto”, assim define o ator e diretor Leonardo Netto sua segunda incursão dramatúrgica - A Ordem Natural das Coisas.

O que o aproxima da teoria existencialista sartriana, expositiva  tanto no ensaio O Ser e O Nada como em sua peça Entre Quatro Paredes, pois se somos, no suporte da condição humana, o retorno das nossas próprias escolhas, há que se assimilar o enfrentamento dos resultados de nossos atos.

Mas  se esta prevalência do eu, no sentido ontológico do ser dono de sua liberdade, nos faz em tese responsáveis pelas nossas opções de vida, de outro lado, constata-se a consciência de que o “inferno são os outros”. Na intersubjetividade de que o senso de ser livre vai apenas até a obrigatoriedade da convivência com outros pensares e posturas, sob um  vigilante olhar social.

No irônico contraponto de “desordenamentos” da progressão determinista de “A Ordem Natural das Coisas” há estas nuances filosóficas em passagens monologais de enfoque reflexivo, com sutil substrato subjetivista nos confrontos comportamentais e no acionamento  dramático dos três personagens.

A começar do publicitário Lúcio(João Velho) que tem subvertidos os pilares de sua trajetória de vida, pelo súbito abandono por sua noiva no dia das núpcias, acrescido em bloqueio criativo como profissional de comunicação e como escritor, seguindo-se a solitária e ébria reclusão residencial.

E é Emiliano(Cirillo Luna) consultor de Feng Shui, também antigo amigo e quase cunhado, que tenta reintegrá-lo na vida e nos ofícios, incutindo fórmulas de conduta, ridicularizadas por Lúcio. Onde, a partir do desparecimento de um gato da vizinha Cecília (Beatriz Bertu), vai incitando liames atrativos entre esta e o depressivo ex-noivo, apesar de uma subliminaridade  afetiva conflitar este relacionamento.

No uso dos elementos técnico/artísticos, o simbológico aporte cenográfico (Elsa Romero) com caixas entreabertas de presentes de casamento delimitando o espaço físico, na frontalidade de vazada armação plástica centralizada num portal em vermelho. Mais a cotidianidade da indumentária (Maureen Miranda), sob um desenho de luz (Aurélio de Simoni) sublinhando climas emotivos/nostálgicos, a partir de um score sonoro roqueiro anos 60.

Sintonizando-se à integralidade dos inúmeros acertos da montagem, a exploração de todos os contornos físico/psicológicos dos personagens, através de notabilizante unicidade interpretativa  favorecendo de vez a representação.

Com João Velho revelando convicção e folego nos caracteres de um egotismo derrotado e na sujeição a um jogo de interferência em suas atitudes, explorado com cativante densidade nas ironizadas postulações de incentivo do papel de Cirillo Luna. E completada na espontaneidade irradiada nos embates de jovial sedução da personagem de Beatriz Bertu.

Numa brilhante textualidade de Leonardo Netto em contínuo surpreendimento por seu equilíbrio alterativo, da coloquialidade dialetal e sotaque humorado da ação cênica às tessituras discursivas dos solilóquios direcionados ao público, nos interregnos filosóficos/estetizantes. Qualificação autoral que se estende à apuração potencializada do seu comando diretor aprofundando, sobremaneira, a adesiva cumplicidade palco/plateia.

                                            Wagner Corrêa de Araújo


A ORDEM NATURAL DAS COISAS está em cartaz, no Sesc/Copacabana (mezanino), de quinta a sábado, às 21h; domingo, às 20h. 100 minutos. Até 03 de junho.

CAFONA SIM, E DAÍ?: OU COMO SER FELIZ SENDO BREGA

FOTOS/JANDERSON PIRES

Quadrado, careta, conservador, atrasado, espalhafatoso, chamativo, vulgar, de mau gosto, sem elegância, de pouco trato social...

Se cafona é  pejorativo, é antes um jeito diferente de ser ou de se afirmar, sem eira nem beira, tirando do peito um coração sangrando para declarar paixão de mãe ou de bordel. Ou identificando-se como brega por um burlesco intimismo lacrimal, materializado em catarse de ensimesmados males de amor.

Mesmo assim, capaz de despertar a atenção de um refinado esteta dos ofícios culturais no vislumbre, aqui sem preconceitos, duma sutil aproximação de outro gênero artístico. Na ambiguidade de olhar, com histriônico sentimentalismo, as adversidades da condição humana pelo contraponto crítico de melancolizados libretos operísticos. 

Falando, é claro, de Sérgio Britto como um confesso desbravador da trilha que liga música e teatro através da ópera. Capaz, assim, com sua argúcia investigativa, de encontrar similaridades, ainda que de prevalências mais temáticas que melódicas, entre duas estilizações radicalmente díspares. 

Partindo de sua concepção original em torno do conceitual brega, através de uma releitura de seu musical Cafona Sim, e Daí? o dramaturgo Daniel Porto e o diretor e ator Alexandre Lino revivem a peça, vinte e um anos após a sua estreia, em idealizado tributo ao inventário dramatúrgico de Sérgio Britto.

Onde na elaboração da linha textual Daniel Porto, replicando outras criações com Alexandre Lino, estrutura uma progressão narrativa sustentada no processo criativo do documentário cênico. Mas, desta vez, com uma sequencialidade de teatro de formatação musical, através de um antológico repertório brega.

Prevalecendo, na primeira parte da encenação, um dimensionamento formalista de teatro dentro do teatro pela figuração, simples e direta, dos bastidores, nus e crus, de um ensaio, com referenciais do homenageado à crise em nossos palcos.

Sem quaisquer disfarces tanto no despojamento de um figurino cotidiano como na carência de efeitos luminares, com reiterativas passagens musicais, além de um pirandelliano enunciado entre o verismo e o ato da representação. Dando direito a interrupções por chamadas de celular, uso de garrafas de água e lanches, incluindo-se, ainda, a simulação de acidentes com  refletores e distorções sonoras.

Entre a prévia e o show propriamente dito, a convicção de um experimentado elenco de atores/cantores que vai de Nívia Terra e Francisco Salgado, a nomes (Antonio Carlos Feio,Luciana Victor, Claudia Ribeiro, Marcelo Capobiango) que, de uma forma ou outra, atuaram sob  o compasso  mor de Sérgio Britto.

Ao qual se junta um artesanal score técnico/artístico (Karla de Lucca, cenografia e figurino;Renato Machado, desenho de luz; Claudia Ribeiro, coreografia), sem esquecer o competente naipe instrumental (Ananda Torres, Rodrigo Salvadoretti e Jorge Lima, acumulando este a direção musical).

Todos, afinal, sintonizados no comando diretorial de Alexandre Lino que sabe tanto assegurar a livre pulsão de espontaneidade da performance, como transmutar o comportamental cafona em grandiloquente teatralidade e a breguice musical em ironizado virtuosismo.
                                
                                         Wagner Corrêa de Araújo



CAFONA SIM, E DAÍ? está em cartaz no Sesc Copacabana(Arena), de quinta a sábado, às 20h30m;domingo,às 19h. 80 minutos. Até 03 de Junho.

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