ENTONCES BAILEMOS: CIRÚRGICAS RONDAS AMOROSAS

FOTOS/DALTON VALÉRIO

Como se ecoasse os versos  de Johnny Cash na canção country Home of the Blues(“Just around the corner there’s heartache/Down the street that losers use”) – o dramaturgo argentino Martin Flores Cardenas estabelece, assim, um contraponto inicial para “Entonces Bailemos”- “Desde quando o amor só é o amor, se existe a dor ou a violência !”.

Afinal, as rondas do discurso amoroso não se guiam apenas pelo apego sensitivo mas arquitetam-se nas manipulações do desejo possessivo , entre a paixão e os desafetos, nos embates obsessivos do dimensionamento psicológico e das pulsões de violenta fisicalidade.

Quantos relatos integram o dia-a-dia das páginas policiais onde, em nome dos enganos de agressivo ciúme amoroso, enteados perdem suas vidas  , adolescentes enamoradas assassinam seus pais e genros tornam-se consortes de irmãs na consanguinidade de  suas vítimas.

Assumindo seu referencial na literatura norte-americana  (Carver,Bukowski,Sheppard,Kerouac)de relatos de solidão, entremeados pelos surtos de  melancolia,   pânico e agressividade, Cárdenas , com mordaz ironismo,  narra , aqui, conflituosas situações amorosas de pessoas comuns e personagens anônimos.

Identificando-as com maior ênfase , ao quebrar os limites palco/plateia, numa troca de papéis em que os próprios personagens se tornam espectadores de si mesmos.

E dividindo-se na unicidade orgânica de quatro atores(Elisa Pinheiro, Gustavo Falcão,  Leonardo Netto e Marina Vianna) e um músico  (Ricco Vianna) dublê de ator, com conceitual parecer intervencionista na progressão dramática,  além do ser   guitarrista country.

Retomando a cenografia original ( Alicia Leloutre), dois colchões superpostos e descobertos sob luzes brancas vazadas ( Matías Sendon) sugestionam uma câmera cirúrgica. Onde os alterativos pacientes “clínicos”, na recriação indumentária de Marcelo Olinto, seriam individualizados em dois casais cotidianamente vestidos e um cowboy com sua guitarra elétrica, na tipicidade masculinizante de seus trajes.

Numa gramática cênica propositalmente fragmentária, a preciosa direção autoral de Martín Flores Cárdenas prioriza , em crítica e sarcástica perceptividade , o desenrolar-se espontâneo e informal das narrativas. Ora em solilóquios introspectivos ora em dialetações dialogais, na eficácia de uma teatralização confessional de retorno direto e seco .

Em enérgica gestualidade (Manuel Atwell) a performance cativa o público especialmente pelas variações de nuances psicossomáticas , desde o mais corriqueiro estereótipo dos cruzamentos afetivos aos delírios da sexualidade, dos desaforos e desbocamentos  aos abusos da corporeidade.

Em que  o despojamento cênico concorre pela maior concentração na sintonia textual, musical e coreográfica destes atores/cowboys urbanos. Conduzidos por envolvências tonais  blueseiras e countries , num território afetivo de obliquidades e mal entendidos onde o risível e a a violentação não tem fronteiras definidas.

                                              Wagner Corrêa de Araújo


ENTONCES BAILEMOS , em nova temporada, no Teatro Poeira/Botafogo, segunda e terça, às 21h. 60 minutos. Até 21 de fevereiro. Com a entrada do ator Alex Nader, substituindo Gustavo Falcão.

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