DANÇA SINFÔNICA E LECUONA: RIGOR E PAIXÃO

FOTOS/ JOSÉ LUIZ PEDERNEIRAS

   
Nas quatro décadas da vitoriosa trajetória do Grupo Corpo raros foram os anos em que a Cia não revelou uma coreografia inédita que, por uma tradição cênica, sempre foi apresentada em paralelo a uma criação antecedente.

Fator que nunca gerou qualquer incomodo tanto para o público como para a crítica pois, ao contrário, acabou, sim, possibilitando um entusiástico e singularizado impulso comparativo da evolução de sua proposta estética.

Por outro aspecto, o Corpo tem um alcance inventivo ímpar na sua linguagem artística tendo, neste quase meio século de ininterrupta atuação, se pautado pela valorização do substrato nativo. E dando prevalência a nossos compositores com apuradas recriações musicais pensadas,coreograficamente, como um corpo único,indivisível, mimético.

Destacando-se, ainda, pela reinvenção das danças populares, tanto as nacionalistas, como aquelas que integram o inventário das danças de salão, da valsa ao tango e ao bolero, como na obra Lecuona, de 2004 e que está sendo reapresentada junto à Dança Sinfônica de 2015.

Com sua inspirada partitura de Marco Antônio Guimarães, entre a solenidade barroquista e as pulsões da contemporaneidade, Dança Sinfônica , nas suas construções gestualistas, entre a rigidez hierática e a soltura física, alcança ricos contrastes coreográficos.

Capazes de transmutarem-se ora em superlativo dinamismo nos quartetos e trios,ora em extasíaco lirismo nos pas-de-deux, de Sílvia Gaspar com Edmárcio Júnior e Helbert Pimenta.

Pouco conhecido no Brasil, salvo raras incursões como a de Caetano Veloso em Fina Estampa, o acervo  musical do cubano Ernesto Lecuona(1895/1963) , com mais de quatrocentos títulos, inclui canções e  trilhas para o cinema americano e até um Oscar.

Paixão e sensualidade, domínio e submissão, amor e abandono, lembrança e melancolia, guiam este encontro de casais em seus duos de boleros, tangos e valsas, numa coreografia/tributo  - Lecuona, criada em 2004.

Como em Dança Sinfônica, há, aqui, uma prevalência de tons sanguíneos e negros nos figurinos (Freusa Zechmeister), para acentuar os transes das paixões amorosas.

Quebrados ora por cores aquareladas , num essencialista aporte cenográfico com luzes brancas(na dupla concepção de Paulo Pederneiras), de acentuação plástica do entrelaçar-se da fisicalidade dos bailarinos.

Nestes doze pas-de-deux, com sua carga de melodramáticos impulsos amorosos, a criação de Rodrigo Pederneiras traduz , com elegância técnica e carisma interpretativo, este contraponto afetivo.

Que culmina na engenhosidade, de forte carga estética/emotiva,da envolvência de todo elenco como se fosse um só corpo e um só casal , ecoando , nesta valsa final, com seu poético reflexo de extensão especular, outra vez, o pensar lamentoso de Lecuona:

“...No vivo desde aquel dia em que te vi/Porque nunca he dejado de pensar em ti”.



O GRUPO CORPO está se apresentando no Theatro Municipal/RJ, de quinta  a sábado e segunda, às 20h; domingo, às 17h. Até 19 de setembro.

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