MEMÓRIAS DE ADRIANO : UM RETRATO DO HUMANISMO

FOTOS/RENATO MANGOLIN
Quando Marguerite Yourcenar publicou seu mais celebrado romance, em 1951, quis deixar claro que o personagem real , em sua forma ficcional, não apresentava nenhuma identificação de alter ego  com a autora.

“Se optei por escrever estas Memórias de Adriano na primeira pessoa, foi no sentido de eliminar o máximo possível qualquer intermediário, inclusive eu. Adriano podia falar de sua vida mais firmemente e mais sutilmente do que eu”.

Poder e solidão, amor e morte, perpassam as páginas confessionais do livro, num metafórico e simbológico discurso literário e histórico. Retrato sensível e criterioso do Humanismo pela memorialística voz epistolar de um imperador romano, entre a verdade e o mito.

Como sábia  lição de advertência atemporal às insanidades e desmandos do domínio político. Através de uma singularizada trajetória existencial, potencialmente imune aos vícios do poder,  no seu reflexivo  encontro com a morte próxima.

Não só através dos relatos de governança guiados  por um inovador  estrategismo mas , especialmente,pela intimista revelação do amor mítico,entre arroubos eruditos e pulsões eróticas , pelo adolescente Antínoo.

Teresa Falcão, na sua adaptação dramatúrgica de Memórias de Adriano, soube manter, com dignidade, uma concisa coerência do alentado enredo romanesco.

As divagações subjetivas, um domínio das pausas em contido gestual, a convicta transmutação dos estados emotivos, da apreensão às dúvidas e questionamentos, marcam o irrepreensível desempenho de Luciano Chirolli.

Inez Viana impõe sua  competência na qualidade de comando e no tratamento da necessária sustentação de uma ação dramática de prevalente loquacidade literária, em seus tons de constante solilóquio . Com um sofisticado resultado, reiterado pela imanente fisicalidade dos movimentos sugeridos por Márcia Rubin.

O distanciamento da época histórica é alcançado, com precisão, pelo  conceitual cenográfico(Aurora dos Campos) de radiografias muralistas num espaço frontalizado por   uma banheira. E por figurinos de neutra contemporaneidade (Juliana Nicolay) de togas/robes a ternos , sob recatado desenho de luzes( Tomás Ribas).

A envolvência das  interferências sonoras de acordes dissonantes em teclado e cordas (João Callado/Marcello H), numa  sequencia quase cerimonial, é quebrada  pela  introdução de  canções populares italianas.

Todos os elementos desta teatralidade, sob o risco normal  de perda de maior interiorização  psico/filosófica na versão para os palcos, supera o dimensionamento temporal da mera reconstituição ficcional de uma vida histórica. 

Conduzindo, com o brilho de seu rigor profissional,   à  espiritualizada inspiração do personagem em   Flaubert, referenciada pela própria Yourcenar:

“Os deuses , não existindo mais, e o Cristo não existindo ainda, houve, de Cicero a Marco Aurélio, um momento único em que só existiu o homem”.










MEMÓRIAS DE ADRIANO está em cartaz no Espaço Sesc/Copacabana, sexta e sábado,às 19h;domingo,às 18h. 60 minutos. Até 15 de maio.
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