ROLETA RUSSA : THRILLER TEATRAL QUASE CINEMA


FOTOS /LEE KYUNG KIM

Nem sempre o   uso das técnicas cênicas na transposição de um livro para os palcos é capaz de evitar os perigos da superposição pura e simples  do texto literário sobre o seu sequencial dramatúrgico.

E ,muitas vezes ,é a adaptação cinematográfica que leva vantagens com seus inúmeros recursos de aproximação da escrita, especialmente na delineação descritiva do discurso dos personagens.

No caso específico do primeiro original do  escritor Raphael Montes – Os Suicidas , esta problemática praticamente  não existe na sua adaptação aos palcos sob o título de Roleta Russa, por César Baptista , dublê de diretor da peça.

Partindo de um entrecho ficcional  que o próprio autor idealizara, inicialmente, como um roteiro de longa  metragem , sem quaisquer ambições de grande produção cinematográfica. Que dos primeiros esboços acabou conduzindo a  um alentado romance policial.

O conceitual quase cinema manteve,  no  livro, muitos enunciados perfeitos para um filme. E daí  ao teatro,  facilitou-se o percurso. Em única ambientação cenográfica com nove personagens jovens, universitários de classe média alta,  reunidos  num porão , sob efeitos catalizadores de  sexo, drogas e rock n’roll , direcionados, conscientemente, para um pacto coletivo de morte suicida.

Em dois níveis cronológicos de leitura -  tempo passado e tempo presente – alternam-se as cenas visíveis com os atores , contrapondo-se aos depoimentos dialogais  audíveis dos pais,  na apuração policial dos fatos. Havendo, ainda, os momentos de alter ego do escritor pelo fio condutor de Ale( Dan Rosseto) sujeitando-se, vez por outra, a uma monocórdia loquacidade.

Preservando o teor literário, a trama se  desenvolve ,  com unidade dimensional  e dignidade cênica, entre o delírio e a realidade crua, pelo eficiente comando mor de César Baptista . Sem disfarces na rudeza das palavras e na agressividade gestual, envolvendo desde atitudes homofóbicas   e síndromes mentais ao  desprezível trato da condição feminina.

Onde o desenho das luzes( Luiz Antônio Faria) explicita fisicalidades e emoções marginalizadas, ampliadas  pelas incisiva coerência das incidências sonoro/musicais(César Baptista) e o ajustado tom dos figurinos(Rodrigo Reinoso).

O elenco masculino(Dan Rosseto,Diogo Pasquim,Emerson Grotti,Felipe Palhares, Gabriel Chadan,Helio Souto)radicaliza nos elementos degradadores em impactante performance . 

Mas prevalece também uma vibrante  homogeneidade no empenho e na estilização individual dos caracteres femininos (Lorrana Mousinho, Maria Dornelas, Virginia Caselões).

Com seu poder de comunicabilidade sob tensão e   pelo olhar rigoroso sobre a transgressividade comportamental, Roleta Russa é, enfim, uma exemplar incursão estética na anarquia, na desordem dos valores e no nosso caos cotidiano.



ROLETA RUSSA cumpriu temporada no Teatro Net/Copacabana, todas as quintas feiras do mês de abril, às 21h. 100 minutos.
A peça volta ao cartaz de 18 de maio a 16 de junho, quartas e quintas, 20h,  no Teatro Maria Clara Machado, Planetário da Gávea.


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