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| Dois de Nós. Gustavo Pinheiro/Dramaturgia. José Possi Neto/Direção Concepcional. Setembro/2026. Renata Casagrande/Fotos. |
O confronto entre um mesmo personagem em duas épocas é tema
de vasta abrangência, da literatura aos palcos teatrais, passando ainda pelo
cinema e, especialmente, pelo cancioneiro popular romântico. E é a este diálogo
especular que recorre uma das recentes criações dramatúrgicas de Gustavo
Pinheiro - Dois de Nós.
Este dimensionamento dramatúrgico encontra, entre outros,
dois clássicos exemplares no teatro contemporâneo, através do americano Edward
Albee com Três Mulheres Altas e, no
Brasil, com A Dona da História, de
João Falcão. Lembrando ainda que a mais recente montagem da peça do Albee teve esmerada tradução de Gustavo
Pinheiro.
E, agora, é ele em ofício autoral que incursiona por esta
trajetória de um olhar memorial focado no espelho do tempo, com sua comédia de
costumes Dois de Nós, de forte apelo popular através de sucessivas
temporadas. Há exatamente dois anos em cartaz, desde sua estreia paulista, setembro de 2024, antecipada por extensa turnê em Portugal, sob uma artesanal direção de José Possi Neto.
E contando com um elenco estelar, integrado por Antônio
Fagundes, também atuando como o produtor da peça, mais Christiane Torloni,
Alexandra Martins e Thiago Fragoso, em espetáculo que preenche todos os
requisitos para um bem sucedido grande teatro de sotaque comercial.
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| Dois de Nós. Gustavo Pinheiro/Dramaturgia. José Possi Neto/Direção Concepcional. Setembro/2026. Renata Casagrande/Fotos. |
Ampliado por caprichada encenação, na qual se destaca o
preenchimento da caixa cênica, com luxuoso décor e elegantes figurinos, numa
dúplice concepção de Fábio Namatame, além dos funcionais efeitos luminares (Wagner Freire) que potencializam em
tonalidades mais sutis uma ambiência sofisticada.
Gustavo Pinheiro é, sem dúvida, uma das mais gratificantes
surpresas da última geração autoral do
teatro em moldes nacionais, responsável por alguns dos maiores êxitos de
público e de crítica nestas primeiras décadas do milênio, tais como A Tropa e A Lista, a primeira delas batendo recordes de temporadas
sucessivas.
Em Dois de Nós a narrativa se
desenvolve no entorno de um casal, classe média alta, comemorando seus
cinquenta anos de matrimônio, em hotel com um significado particular em seu
longo relacionamento amoroso. Onde, na maturidade de sua vivência em comum,
realizam uma viagem memorial sobre uma paixão em comum, desde seu inicial
encontro de afinidades afetivas aos questionamentos dos dissabores cotidianos.
Até que surgem no mesmo quarto dois personagens que tornam
presenciais grande parte dos caracteres psicofísicos peculiares a cada um
deles - de um lado na terceira idade como Pedro
Paulo (Antônio Fagundes) e Maria Helena (Christiane Torloni), paralelo ao
mesmo duplo de “dois de nós”, aqui
refletido pelos tempos idos que os uniram jovens, daquela vez pelos apelidos
carinhosos que os identificava como Pepê
(Thiago Fragoso) e Leninha (Alexandra Martins).
Numa troca alternativa de papéis e atitudes comportamentais
há um perceptível alcance na convicta equivalência da interpretação mais
conceitual de Antônio Fagundes e mais ironizada por Christiane Torloni,
enquanto Thiago Fragoso e Alexandra Martins assumem uma performance mais
empenhada com a jovialidade dos seus personagens.
Apesar de se defrontar, em processo subliminar, com a
superficialidade de certas passagens mais comprometidas em provocar o riso
fácil, a segura direção concepcional de José Possi consegue manter um ritmo contagiante, a partir da fluencia textual tragicomica, e instaurado pelo prevalente timing de um experiente quarteto de atores na
diversidade de suas habituais linguagens
artísticas, do teatro à televisão, passando pelo cinema.
Capaz de estabelecer elos consistentes não só relativos às atuações atorais, mas criando conexões de identidade com
espectadores, no entremeio de certas vivências matrimoniais que, certamente, podem fazer
parte do cotidiano de cada um eles. Além de não deixar de provocar reflexivo
riso ao divertir e, ao mesmo tempo, questionar sob uma problemática social sintonizada,
afinal, com a contemporaneidade...
Wagner Corrêa de Araújo
Dois de Nós está em cartaz no Teatro Axia/Casagrande/RJ, de quinta a sábado, às 20h; domingo, às 17h; até 01 de novembro.











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