ESTHER WEITZMAN CIA DE DANÇA : NO “BREVE” RITO DE PASSAGEM ENTRE A DANÇA E A VIDA

Breve. Esther Weitzman Companhia de Dança. Agosto/2023. Fotos/Renato Mangolin.

 

Há exatos cinquenta anos o livroDançar a Vida", de Roger Garaudy, estabelecia metafórica conexão entre o pensamento filosófico e o ato de dançar. Era uma tese que antecipava um movimento estético no entorno de novas perspectivas para a criação coreográfica e que se estenderia, inclusive, a Maurice Béjart, o responsável pelo entusiasta prefácio original da obra.        

E quando assistimos à última das obras de Esther Weitzman que ela, simbólicamente, denomina de Breve, chegando a integrar palavras faladas como prólogo do espetáculo, há uma subliminar percepção de permanência do pensar reflexivo de Garaudy : “A dança é um modo de existir”.

Como se, ali, num conceitual poético com um sutil sotaque de melancolia, estivessem ela e os três bailarinos (Paulo Marques, Toni Rodrigues e Federico Paredes), num manifesto artístico confessional, em tempo "breve", se despedindo de tudo em caráter definitivo.

Sustentados pela similar maturidade profissional de suas trajetórias, sob a brevidade da arte e da vida, frente ao desafio terminal da condição humana. O que concede à performance uma sensorial e carismática cumplicidade emotiva palco/plateia.

Onde Esther Weitzman, em dúplice ofício, atua como bailarina além do ideário coreográfico-direcional, contando também com a valiosa parceria artística de Frederico Paredes. Apresentando-se, performaticamente, numa mesma identidade estética de busca investigativa, junto com os artistas/bailarinos Paulo Marques e Toni Rodrigues.



Breve. Esther Weitzman Companhia de Dança. Agosto/2023. Fotos/Renato Mangolin.


Num processo criador que dá sequência a uma linha coreográfica que ela vem desenvolvendo em sua Esther Weitzman Companhia de Dança, desde 1999, para uma dramaturgia corporal que prioriza um gestual cotidiano, longe de quaisquer maneirismos.

Na “manifestação exterior dos sentimentos interiores”, com um referencial às teorias de Rudolf Laban, sabendo integrar o movimento numa expressiva linguagem coreográfica antenada em muitos avanços inventivos.

Cuja força cênica reside na singularidade das relações temporais estabelecidas pelos bailarinos transitando pelo espaço de uma caixa cênica despojada, sendo preenchida apenas pelo presencial físico desta corporeidade dançante, em imersiva conexão gestual.

no caso de Breve, eles dialogam na intensidade de espontâneos trios e duos, ou se apresentam em delicados solos. Que sugestionam a envolvência do olhar/espectador na personificação simples de uma psicofisicalidade, plena de tocante apelo sensitivo.

Com pés nus pisando o chão, paramentados numa funcional indumentária  (Manuela Weitzman) dia-a-dia e um desenho de luzes vazadas (José Geraldo Furtado), ora se apresentando em posturas energizadas nos seus caminhares, ora em rodas de ciranda a três. Ou, então, nas relaxantes marcações respiratórias, intermediadas por pausas de silêncio.

Impulsionados por uma trilha sonora (Esther Weitzman/Paulo Marques) à base de acordes variados que vão de frases baléticas de Tchaikovsky a solos instrumentais, de sonoridades pop/jazzísticas a citações que remetem ao teatro musical.

Caracterizando o legado artístico, de percursos individuais ou coletivos, para cada um destes reconhecidos nomes no universo da dança contemporânea, em moldes brasileiros, Breve faz um belo tributo ao convicto empenho de um existir dedicado, em sua integralidade, à arte coreográfica.

Esta singular celebração promove, assim, um reencontro da dança com a vida. E porque, afinal, não conecta-la também à lembrança reflexiva de Roger Garaudy no oportuno meio século de seu emblemático livro :

O que aconteceria se, em em vez de apenas construir nossa vida, nós nos entregássemos à loucura ou à sabedoria de dançá-la”...

 

                                         Wagner Corrêa de Araújo

 


Breve está em cartaz no Sesc Copacabana/Mezanino, de quinta a domingo, às 20hs. Até 06 de agosto.



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