MÚLTIPLAS LINGUAGENS ARTÍSTICAS : O NOVO CIRCO, O TEATRO MUSICAL E O HIPER-REALISMO PLÁSTICO

CIRC LA PUTYKA - RISK. Theatro Municipal/RJ.

A ancestral arte do circo invade o primeiro semestre de 2014, ocupando desde as praças públicas e espaços comunitários das favelas aos nobres palcos do Theatro Municipal e da Cidade das Artes, enquanto o hiper-realismo plástico-escultórico provoca o público carioca no MAM/RJ.

Esta arte de trânsito permanente entre o riso e o drama, o risco e o grotesco e que inspirou o cinema de Chaplin, Bergman e Fellini, a poesia de Jorge de Lima e a música de Chico Buarque, além do carnaval brasileiro e da inicialização da carreira de Oscarito, chega com seu clássico questionamento : Hoje tem espetáculo? Tem sim  senhor!!!

Na abertura de  extensa jornada cultural, a companhia tcheca Circ la Putyka, de formação recente (2009) mas já com renome internacional, especializada no gênero contemporâneo do novo circo  sabendo como bem incluir, numa mesma proposta, teatro e música, dança e atletismo acrobático.

O grupo, com seus dezesseis integrantes, apresenta o espetáculo Risk, infelizmente prejudicado no palco do Theatro Municipal onde perdeu sua marca mais original - o intimismo do pub circus (assim definido por seu criador Rostislav Novák), ressaltada na surpresa de seus integrantes pela escolha infeliz, ali, do dimensionamento da representação : "Acho que este espaço é grande demais para nós".

Concepção mais nova da cia circense (2013), Risk se estrutura no jogo estético do contraste entre a deficiência e o risco, através da superação à beira do abismo, quando as acrobacias são realizadas entre facas e dardos, com a presença simbólica e realista de um artista acidentado, numa cadeira de rodas.

No imenso espaço do Municipal a distancia entre o palco e a plateia, especialmente nos andares superiores, prejudicou visivelmente a proposta que perdeu seu élan interativo, acentuado com o confuso áudio entre duas línguas e as plaquetas mínimas com indicações que poucos conseguiam ler.

E tornou quase fria a receptividade de um rico ideário investigativo de cultura popular e poesia visual concebido para uma arena ou picadeiro, este sim o palco ideal para expor estas trágica fronteiras da condição humana, no seu eterno risco acrobático entre a vida e a morte.

O GRANDE CIRCO MÍSTICO. Direção João Fonseca. Foto/Leo Aversa.

POÉTICA E MAGIA DE UM CIRCO/TEATRO MUSICAL

Circo, religiosidade e mistério, a fórmula mágica do poema A Túnica Inconsútil, de Jorge de Lima, inspirou o balé O Grande Circo Místico, reunindo o roteiro de Naum Alves de Souza, as letras e músicas de Chico Buarque e Edu Lobo, com as memoráveis interpretações de Gal, Gil, Milton, Simone, Tim Maia, Zizi Possi, entre outros, mais a coreografia de Carlos Trincheiras para um time de craques do Balé Teatro Guaíra, de Curitiba.

Vinte anos depois, em 2002, Luís Arrieta reiventa a coreografia para a mesma Cia BTG e o espetáculo rende, então, uma extensa turnê nacional, com sucesso de público e aplauso da crítica, e um documentário longa-metragem, que tive o privilégio de dirigir com a equipe da então TVE-RJ registrando aquela marcante criação no panorama da dança contemporânea brasileira.

Diante de tudo isto, minha expectativa era muito grande para esta nova versão, pois acompanhara detalhadamente o processo criativo daquela anterior retomada do Grande Circo Místico, com as demoradas filmagens para registrar, na íntegra, o balé. 

Em primeiro lugar, desvinculado do aporte exclusivamente coreográfico, sabia que, aqui, o enfoque seria um circo/teatro musical, com novo roteiro de Newton Moreno e Alessandro Tolle, acentuando o lado mais dramatúrgico do poema original.

E, ainda, com algumas liberdades no libreto, tanto no que se refere à destinação de algumas canções para outros personagens atendendo à narrativa dramática. E, desta vez, acentuando mais o contraste entre as alegrias e o riso de um circo, com a tragédia e as lágrimas de uma guerra que atinge seus protagonistas.

O resultado não poderia ser melhor com o inventivo olhar armado do diretor João Fonseca que, mesmo imprimindo uma quase duração excessiva do musical comparada com a do balé, conseguiu imprimir um perfeito equilíbrio entre as imagens oníricas de um circo, a força poética da trama entre o amor e a guerra e o lirismo das canções num espetáculo que emociona e contagia o público.

Um brilho ainda presente na feérica cenografia (Nello Marrese) e figurinos aquarelados (Carol Lobato), onde explode a magia da estética ingênua e pura de um circo contrastada com os terrores e misérias de uma guerra.

Quanto ao score musical, mesmo sem as vozes maiores da trilha gravada original, tem belos destaques como intérpretes musicais em Ana Baird (a mulher barbada), em Fernando Eiras (como o administrador do circo), nos delicados timbres vocais de Gabriel Stauffer (Frederico) e na densidade interpretativa de Reiner Tenente (o Clown).

Este revelando seu talento múltiplo como ator/cantor na expressão das nuances trágico/cômicas de um palhaço, especialmente na cena da tortura com a Valsa dos Clowns. Destaque ainda para as inspiradas passagens coreográficas (de Tania Nardini) destinadas a Beatriz (Letícia Colin) com os seus seres equestres.

Entre o amor e a guerra, entre o riso e a tragédia, entre a poesia e a música, este Grande Circo Místico é uma tocante elegia ao oficio teatral da vida. Onde atuamos alterativos no circo da humanidade no qual ora somos obrigados a ser mágicos, ora palhaços, ora equilibristas, acrobatas ou domadores diante das feras que podem chegar a qualquer momento.

A REPRESENTAÇÃO ALÉM DO REAL

Nesta mesma temporada cultural, entre a curiosidade e a surpresa, atraindo um extenso público de várias idades, o que mais fica da exposição de nove trabalhos do artista australiano Ron Mueck no MAM, é a capacidade dramático/cênica de atingir o lado mais intrínseco da subjetividade da figura humana representada.

Fazendo um retrospecto na trajetória da reprodução escultórica do corpo humano, o artista não deixa de insinuar uma referência estetizante a períodos diversos da história da arte, ora às figuras egípcias gigantescas, ora à pureza das linhas em dimensões reais no classicismo grego, ora às protuberâncias carnais dos anjos barrocos.

E aí ignora a desconstrução das formas iniciada a partir de Rodin, do surrealismo ao abstrato, e absorve, em suas criações escultóricas, as lições do hiper-realismo na pintura. Para muitos, assumindo uma tendência conservadora de retorno ao figurativo e, perigosamente, próxima das imagens de museus de cera.

Mas passada a primeira percepção de até onde pode chegar a veracidade da imagem representada, numa época onde os recursos técnicos são capazes de ir muito além disto, vai crescendo uma sorrateira sensação íntima de que o que se vê somos nós diante do espelho do tempo (especialmente pela prevalência de rostos marcados pela dor ou pelo envelhecimento).

Nestes corpos o que parece existir, internamente, é um misterioso sopro de vida que não emana apenas do detalhamento perfeccionista de rugas, veias, pelos, unhas, calosidades, moldados em formas normais, exageradas ou em pequenas proporções.

O grande segredo de Ron Mueck não é só o fato pictórico de através da resina, fibra de vidro, silicone e acrílico, chegar o mais perto possível do ser representado  mas, sobretudo, a percepção do emocional que emana destes rostos marcados pelo difícil ato de suportar a condição humana.

                                              Wagner Corrêa de Araújo
                             
RON MUECK - COUPLE UNDER AN UMBRELLA. MAM/RJ.

REVELADORES CAMINHOS DA NOVA DRAMATURGIA BRASILEIRA NA TEMPORADA 2014

LIMPE TODO O SANGUE ANTES QUE MANCHE O CARPETE. Jô Bilac/Eric Lenate. Foto/Gustavo Porto.

JOGOS DE VAIDADE E DE PODER

Dois incisivos textos da nova dramaturgia brasileira levam a uma reflexão sobre a invasão indiscriminada dos espaços privativos do "outro" numa sociedade onde o que menos importa são os valores morais do respeito e da ética .

A peça de 2007 - Limpe Todo o Sangue Antes que Manche o Carpete, envolvente texto de humor negro de Jô Bilac, volta ao cartaz numa concepção da Cia dos Inquietos, composta por integrantes de alguns dos mais inventivos grupos teatrais da pauliceia. Com a direção de Eric Lenate, o texto do autor carioca ganha, aqui, uma atraente roupagem expressionista que acentua os valores originais de sua linha dramatúrgica.

Nela, quatro personagens disputam, não importando as consequências físicas ou morais que suas armas causem, desde uma vaga numa empresa como a próxima e possível herança de uma velha senhora, agindo como aranhas à espera de moscas que caiam em suas teias.

Desafiados por forte presencial cênica, os quatro atores imprimem ao texto, com bem dosados toques críticos de um filme de suspense, o necessário ritmo que faz a plateia rir ou ter medo das misérias inerentes à condição humana.

Aplaudida pelo público e incensada pela crítica, a dupla Moraes e Mendonça (o diretor Paulo de Moraes e o autor Maurício Arruda Mendonça) tem enriquecido a cena brasileira com suas concepções para o Armazém Companhia de Teatro

Agora, eles estão de volta com O Dia em que Sam Morreu, numa temática de corte laminar afiado, sobre as cruéis relações da vaidade e do exercício cruel do poder sobre o próximo, no mórbido ambiente de um hospital.

Como os simbólicos manequins de madeira estendidos em macas, aqui os seres deste micro universo são como títeres uns nas mãos dos outros, em sucessiva cadeia de corrupção e de perversidade.

A já conhecida impactante cenografia com score musical ao vivo de outras montagens do Armazém, faz-se presente com referências mondrianescas nas cores do cenário ao fundo em contraste com a frieza asséptica do branco de um hospital.

Com segura direção, os atores alcançam bem os tons pretendidos nesta batalha da condução de um texto qualitativo que apresenta apenas uma certa deficiência na captação de mais fácil acessibilidade para o entendimento da plateia, ao insistir no quase hermético recurso da "sucessão de reinícios", em proposital e incomodo ir e vir para mostrar os meandros do poder sem moral convertido em tirania.


O DIA EM QUE SAM MORREU. Armazém Companhia de Teatro. Foto/João Gabriel Monteiro.

UMA ALMA DE LUTO

O teatro é mágico se é capaz de fazer o espectador entrar em sintonia com os atores quando, pela representação verbal e gestual, estes conseguem chegar perto do mistério das coisas imateriais e do sentimento do inexprimível que é a própria razão da poesia. Esta reflexão cabe ao sensível espetáculo Desalinho, livremente inspirado na trágica trajetória existencial da poeta portuguesa Florbela Espanca:

"Sou a crucificada...a dolorida...alma de luto sempre incompreendida".

O texto de Márcia Zanelatto, nome conhecido da nova dramaturgia carioca, soube captar a essência filosófica do destino triste de uma mulher, oprimida no conservadorismo de seu tempo, que foi brutalmente impelida para a morte, numa sequência de internações psiquiátricas e após a terceira e definitiva tentativa de suicídio, aos 36 anos, em 1930.

Assumindo a personalidade da poeta, Mariana (Carolina Ferman) em seus delírios acredita ter assassinado o irmão (Gabriel Vaz), por quem nutria um proibido desejo desde a infância, e revelado nos diálogos com a acolhedora enfermeira do manicômio (Kelzy Ecard).

A narrativa dramatúrgica mantem o sotaque lírico na inteligente transposição que a autora faz da mistura do real (o irmão de Florbela Espanca, em verdade, morreu num acidente de avião) e do imaginário - a presença do companheiro fraternal se confunde com a do poeta Fernando Pessoa que assim definiu Florbela :

"Uma alma sonhadora, irmã gêmea da minha".

Esta história de ilusão e desenganos carregada de amor, tragédia, loucura e morte, alcança o tom dramático e estético sugerido, através do competente comando de Isaac Bernat, onde perde-se, apenas, parte do clima intimista necessário, numa grande dimensão espacial (caso do formato do  Teatro de Arena, Sesc/Copacabana).

Em espetáculo capaz, ainda, de ser  potencializado na reflexiva luminosidade da coesa performance dos jovens atores que fazem os irmãos apaixonados .

E, especialmente, no desempenho do terceiro personagem (como se fora um alterego e testemunho do destino trágico daqueles poetas que só começam a viver depois de mortos), alcançado, aqui, na maturidade interpretativa de uma das mais expressivas atrizes da mais recente cena brasileira contemporânea.

                                           Wagner Corrêa de Araújo


DESALINHO. De Márcia Zanelatto. Direção Isaac Bernat. Foto/João Julio Melo.

O HUMOR DESCOMPROMISSADO DA COMÉDIA DE COSTUMES

O CACHORRO RIU MELHOR. Foto/Leo Aversa.

De volta a 2014...

Dois textos - um brasileiro e um do circuito nova-iorquino  - falam de relacionamentos amorosos, tendo como mote instintos felinos e caninos inseridos no universo de jovens casais, em irônicos jogos de paixão hétero ou gay.

Ambos conectados na linha do descompromisso risível da comédia de costumes, em histórias cada vez mais comuns na cena contemporânea, da vida real ao cinema, no palco e na televisão.

Originalmente concebido para o Festival de Teatro de Tribeca, Nova York, O Cachorro Riu Melhor, de Douglas Carter Beane, aborda o cotidiano de um ator (Júlio Rocha) com carreira ascendente, sob o cuidados de uma agente/ produtora GLS (Danielle Winits) que tudo faz para disfarçar as suas saídas do armário com um garoto de programa (Rainer Cadete) .

Um procedimento sexual então considerado prejudicial ao seu papel de ator galã conquistador de mulheres e, hoje,  um fato quase corriqueiro e já surpreendendo menos, no carismático universo popular midiático e televisivo made in Brazil, o que facilitou bastante a versão brasileira de Artur Xexéu.

Usando do ingrediente de astros protagonistas de recente novela, acrescido inclusive de insinuantes cenas de cama com direito a beijo gay, a montagem, mesmo com a cuidadosa direção de Cininha de Paula e o bom desempenho do elenco, não disfarça seu fácil apelo comercial, pegando carona na mídia novelesca, ao lado de certa superficialidade temática com previsível happy end.

Quanto ao já conhecido texto de Juca de Oliveira - Qualquer Gato Vira Lata Tem uma Vida Sexual Mais Sadia Que A Nossa, com uma trajetória de quase duas décadas, ainda mantém seu vigor e atualidade, quando trata de uma jovem iniciante nos jogos amorosos, no clássico embate entre dois pretendentes "gatos" - o professor intelectual e o garotão moderninho.

Com a sempre segura condução de Bibi Ferreira na exploração inteligente das surpresas narrativas, a montagem tem uma funcional iluminação (Daniela Sanchez), bons figurinos (Bruno Perlatto) e atraente aporte cenográfico (Natália Lana). Mas a boa presença cênica de Monique Alfradique supera o desempenho meio estereotipado de Marcos Nauer, tendo em Victor Frade, sem dúvida, o seu melhor intérprete. Constituindo-se, aqui, em clássico exemplar brasileiro do gênero teatral provocador do riso desopilador do fígado.

Numa fase de hegemonia do musical na cena teatral carioca, muitas tem sido as investidas por caminhos absolutamente diversificados com excepcionais resultados Desde a transposição fiel do modelo Broadway, em especial com a dupla Botelho/Moeller, destacando-se pelo profissionalismo e o esmero das montagens, até o crescente surgimento de uma tendência voltada para a música e a temática nacionais, que também tem revelado boas soluções em invenção e originalidade.


QUALQUER GATO VIRA LATA TEM UMA VIDA SEXUAL MAIS SADIA QUE A NOSSA. Foto/Fernando Filho.

Exemplos de que como pode dar certo o musical à brasileira não faltam, desde aqueles já clássicos como a Ópera do Malandro, até a recente transposição de um balé para a cena dramatúrgico/musical, em outra obra que leva a assinatura de Chico Buarque - O Grande Circo Místico.

Mas, por outro lado, a incursão biográfica nacional, praticamente iniciada com o consagrado exemplo de Somos Irmãs, texto de Sandra Louzada sobre a trajetória artístico/existencial das irmãs Linda e Dircinha Batista, vem crescendo a tendência de se inspirar na vida e obra de grandes nomes da MPB ou do nosso pop/rock. Com sucesso absoluto de público e de crítica, nas roteirizações dramático/musicais em torno de Tim Maia, Ellis Regina e Cazuza, entre outros ídolos do cancioneiro popular.

Recentemente, dentro desta mesma proposta, a partir de um repertório musical pré-existente, mas sem nenhum intenção de ilustrar a vida do autor (neste caso, Rita Lee), aventurou-se na utilização de suas canções, para dar um revestimento de musical à versão para o palco de dois filmes de grande bilheteria - Se Eu Fosse Você 1 e 2, ambos dirigidos por Daniel Filho.

Este foi o principal desacerto da comédia musical Se Eu Fosse Você, onde apesar da utilização da versão dramatúrgica de um profissional da qualidade de Flávio Marinho, tudo assumiu um toque forçado e artificial na inserção das letras originais prevalentes, além da própria sonoridade das canções de Rita Lee, no contexto textual e narrativo do espetáculo, com temática sustentada na troca das identidades sexuais de um casal.

Isto ainda agravado pela perda do "timing" humorístico dos filmes originais pela excessiva duração do espetáculo, apesar de todo apuro cenográfico e de produção e um indiscutível empenho de protagonistas de maturidade tanto como comediantes (Nelson Freitas) como intérpretes de teatro musical (Cláudia Netto), deixando ao final um clima de decepção e de "déjà vu".

Uma montagem, dirigida e coreografada por Alonso de Barros, mas que, infelizmente, também careceu de inventividade quando permitiu escapar aquilo que o público de musicais mais espera - as reviravoltas do envolvimento e o clímax, as grandes marcas deste gênero teatral.

No jogo cruel da luta de classes quatro legítimos representantes das misérias da realidade urbana contemporânea, usam quaisquer armas para serem alguém. Mesmo que para isto tenham que se valer das roupas sujas de uma decadente lavanderia, o ponto de encontro ou "castelo" onde, entrincheirados, tramam suas ridículas artimanhas guerrilheiras de ascensão social via sequestro, num perfeito paradigma de ironizados anti-heróis de nosso tempo.

São estas patéticas imagens comparativas da lavagem de roupas, manchadas com os suores humanos cotidianos, como única saída monetária para a auto-sobrevivência, que levaram o autor Fernando Ceylão a escrever a mordaz e inteligente comédia de costumes Como é Cruel Viver Assim. Nela, em perfeito equilíbrio, convive o humor sem apelações com a banalidade de seres humanos derrotados pela classificação social.

Personificações de indigentes para os quais nada importa moralmente, nunca medindo meios nem consequências, para ascender a um ilusório degrau com os possíveis ganhos do pós-resgate de um ex-patrão rico pela despudorada amiga Regina (Inês Vianna), apoiada na simplória auto-confiança do apelidado Primo (Alamo Facó). Completando o cast e a trama outro casal, integrado pelo ingênuo conformismo da dona da lavandeira Clívia (Letícia Isnard) e do desempregado/malandro Vladimir (Marcelo Valle) julgando-se sempre o tal .

Sob a ágil direção de Guilherme Piva este elenco acertado mantem um ritmo coeso entre a comédia e a farsa, com referenciais da estética cinematográfica pop/futurista de Tarantino ao brega/decadentista de Almodóvar.  Em  cenografia realista ressaltando o risível retrato sem retoques deste pequeno grande mundo que, em sua mesquinhez, está muito próximo das mazelas da hipócrisia  no universo político de uma "pobre nação rica" chamada Brasil.

                                             Wagner Corrêa de Araújo

COMO É CRUEL VIVER ASSIM, peça de Fernando Ceylão.

LEMBRANDO UMA BELA INICIATIVA A FAVOR DA DANÇA

BATSHEVA ENSEMBLE, ISRAEL, - DECA DANCE.

O Festival o Boticário na Dança chega à sua segunda edição trazendo importantes grupos da cena coreográfica contemporânea, incluindo, além dos internacionais, quatro das mais significativas companhias brasileiras atuais.

Idealizado como um grande projeto de incentivo e patrocínio da dança no Brasil, o Festival o Boticário na Dança alcançou o importante número de 24 companhias e 12 festivais em 2014. Lembrando outras iniciativas que marcaram o panorama da dança no Brasil como o antigo projeto Carlton Dance, tendo sobre este um alcance maior quando apoia efetivamente a criação coreográfica do país através do aporte financeiro e do intercâmbio de linguagens estéticas.

Entre seus curadores tem Eleonora Greca, a primeira bailarina absoluta do Balé Teatro Guaíra durante 35 anos e, agora, dedicada a este marcante evento pela dança no Brasil. No momento em que estreia no Rio, a versão como musical do balé O Grande Circo Místico criado, originariamente, para o Guaíra, tivemos uma dupla emoção ao reencontrá-la pois além de ter sido a personagem-mor Beatriz na primeira e na versão de 2004, recordamos o documentário longa metragem que dirigimos naquele ano sobre o balé em suas duas décadas.

Na abertura do Festival 2014, apresentou-se o Batsheva Ensemble com a coreografia Deca Dance . Considerado o mais importante grupo de Israel desde a sua fundação em 1964, quando teve o privilégio de ter como sua curadora Martha Graham que, inclusive, criou ali algumas de suas obras, a cia tem Ohad Naharin como seu atual diretor artístico e é dele a concepção do espetáculo que abriu o Festival.

Numa rica colagem musical, do barroco ao rock, passando pelo cancioneiro tradicional judaico, Deca Dance faz um tributo ao movimento gestual em suas diversas formas, através de um coeso conjunto de 14 bailarinos com destaque especial para o elemento masculino, tendo ainda uma referencia textual polêmica e provocadora a partir do escritor da geração beatnik Charles Bukowski.

O trabalho vai progressivamente envolvendo a plateia, ora pelo vigor do rock ora pela melancolia barroca ou lentas inserções sonoras para, subitamente, se transformar, entre ritmos latinos, com participação de elementos do público levados ao palco, num ritual coreográfico que literalmente levou o teatro ao delírio.

Na terceira e quarta noites do Festival o Boticário na Dança, a brilhante surpresa de duas performances envolventes num quase ensaio sobre o inventivo e transformador gestual coreográfico, entre o impulso vertiginoso e a serenidade emotiva de corpos em movimento.

Já conhecida do público brasileiro desde a era do Carlton Dance e da Cia La La La Human Steps, a bailarina de origem canadense - Louise Lecavalier - criou uma legião de admiradores com suas performances, entre o minimalismo cênico e um direcionamento na revelação de movimentos vigorosos e inusitados.

Agora ela apresenta sua primeira criação coreográfica - So Blues, onde transcende sua proposta de extrapolar, além dos limites, as possibilidades de expressão corporal, sejam abstratas ou advindas dos gestos mais simples do cotidiano.

Com uma reincidente sonoridade eletrônica, o espetáculo, às vezes, corre o risco de perder o ritmo, especialmente quando insiste em sequencias lentas, mas a coreógrafa e intérprete, sem perder a espontaneidade de sua proposta, justifica : “Eu queria permitir que o corpo dissesse tudo o que ele tem a dizer”.


LOUISE LECAVALIER - SO BLUE.

Já a apresentação da Cia de Pequim, Tao Dance Theater foi talvez a maior surpresa da mostra quando reinventa na coreografia titulada 4, o movimento como uma forma visual mimética com os corpos dos bailarinos que jamais se tocam, soltos no espaço como ondas marítimas ou como espectros levados pelo vento.

E na segunda parte, agora denominada 5, onde os corpos dos bailarinos se tocam in moto perpetuo criando uma massa informe que desperta o imaginário ao descortinar de seres abissais a cadáveres empilhados. Ou remeter na sua composição plástica a formas esculturais entre o abstracionismo e a figuração fantástica, criando um elo magnético entre palco e plateia.

No ultimo dia do Festival 2014 o Boticário na Dança, a presença de um dos melhores grupos de dança do Brasil - Cisne Negro Cia de Dança, apresentando um inusitado experimento a partir do teatro dança - Sra. Margareth, do coreógrafo Barak Marshall. Irônica e bem humorada visão inspirada na peça As Criadas de Jean Genet, com score musical étnico e envolvente desempenho técnico e cênico dos 12 bailarinos.

O Balé Teatro Guaíra e a Cisne Negro Cia de Dança, exemplares companhias profissionais brasileiras, encerraram no Rio, o Festival o Boticário na Dança que trouxe boas surpresas do panorama da dança contemporânea.

Citar estes conjuntos é lembrar a força de dois grupos que vem, há quase meio século, enriquecendo a cena coreográfica nacional com trabalhos situados entre o repertório acadêmico e inventivas incursões contemporâneas. Ressaltando ainda sua qualidade técnica capaz de alçar voos ousados na linguagem de nosso tempo, a partir de sua sólida base na formação clássica.

Experimentando gêneros diversos da criação coreográfica, inclusive com o destaque dado ao élan cultural brasileiro, a cia Cisne Negro, por exemplo, é capaz de surpreender tanto com a tradição do Quebra Nozes como nesta criação - Sra Margareth - inserida na lição vanguardista trazida por Pina Bausch com seu teatro-dança. 

Desta vez com concepção do coreógrafo americano ligado à dança israelense, Barak Marshall  trazendo um toque de humor aliado a um impulsivo ritmo físico, com forte inspiração na demolidora ironia e sarcasmo da peça de Jean Genet - As Criadas.

No que se refere ao Balé Teatro Guaíra dele se tira a lição de como uma cia estatal, no caso o Paraná, pode ter um papel relevante em prol do desenvolvimento da dança no país. Tive o privilégio inclusive de dirigir dois documentários sobre a trajetória da cia que marcaram definitivamente minha admiração pela qualidade da criação ali desenvolvida : Balé Teatro Guaíra 30 Anos e O Grande Circo Místico.

E nada mais oportuno do que a escolha de mais uma instigante versão da Sagração da Primavera, nesta sua trajetória de um século, com a visão de uma conceituada coreógrafa de origem portuguesa - Olga Roriz, ligada ao melhor da dança em sua terra com o Grupo Gulbenkian.

A Sacre de Olga tem um referencial cênico e visceral muito próximo a de Pina Bausch nesta metamorfose vida/morte, aqui mais catártica no seu tributo à fé na condição humana, acentuada com a excepcional qualidade imprimida por ela aos solos e conjuntos no Balé Guaíra.

                                              Wagner Corrêa de Araújo


CISNE NEGRO CIA DE DANÇA - SRA MARGARETH.

DE VOLTA AO FUTURO : POR UM TEATRO INVESTIGATIVO E SEM FRONTEIRAS

2xMATÉI, direção de Gilberto Gawronski. Foto/Leo Aversa.

Há exatos seis anos...  

RELEITURAS - SHAKESPEARE, TCHEKHOV, BECKETT, BAUSCH

Inventivas experiências cênicas nos palcos cariocas quebram os limites entre a representação e a realidade estabelecendo um sotaque de naturalismo absoluto no contato ator/espectador.

Já em sua segunda temporada, o clássico shakespeariano Ricardo III, na versão do ator Gustavo Gasparani e do diretor Sérgio Modena, alcança completa interação com o público quando o intérprete assume - solitário - a maioria dos personagens do drama histórico sem nunca perder a essência do texto original.

E, ainda, de forma didática sem cair no mero fluxo descritivo e prisioneiro da narração fazendo desta performance solo, sem qualquer impostação e com singular autenticidade, uma proposta minimalista transmutada em foco cênico único.

Na mesma linhagem de subversão das fronteiras do teatro, uma envolvente reinvenção de textos clássicos de Anton Tchekhov - As Três Irmãs e de Samuel Beckett - Esperando Godot insufla um clima de inovadora criatividade aos palcos da cidade.

Considerado o mais novo “enfant terrible” do teatro contemporâneo, o romeno Matéi Visniec subtrai, de seu passado de pesadelo num regime ditatorial, a referência subliminar do absurdo e do surreal presente em seus textos. Com equilibrada direção e segura interpretação de Gilberto Gawronski, ao lado de uma superlativa Guida Vianna, 2xMatei traz duas peças curtas do autor.

Em O Último Godot  coloca em cena o próprio Beckett como o esperado personagem, numa clara alusão ao clima opressivo e claustrofóbico de um espaço urbano externo diante de um decadente teatro vazio com seus atores jogados lá fora, longe da caixa cênica.

No outro - O Rei, o Rato e o Bufão do Rei, o desdobramento de um personagem - um monarca e seu bobo da corte - revela os meandros sórdidos do poder em irônicas posturas linguísticas a partir de códigos filosóficos, literários e políticos.

Já em Se Elas Fossem Para Moscou?, a dramaturga e encenadora Christiane Jatahy propõe um investigativo experimento cine/teatral inspirado no mote do texto original de Tchekhov  - As Três Irmãs- estando em um lugar mas desejando estar em outro na vã tentativa de suprir os eternos anseios e carências da condição humana.

Este dilema atinge cada espectador jogado neste ambiente multifacetado entre a linguagem teatral e cinematográfica, entre o texto ensaiado e o linguajar coloquial, entre o ficcional e o real, num permanente ir e vir de dois universos artísticos.

Com a artesanal performance do elenco e as invencionices técnicas e cênicas, a montagem atinge, assim, um alto patamar  investigativo dentro dos caminhos da criação estética contemporânea.


E SE ELAS FOSSEM PARA MOSCOU?, direção de Christiane Jatay. Foto/Marcelo Lipiani.

Revolucionária da dança contemporânea, Pina Bausch desenvolveu uma proposta estética com seu Tanztheatre Wuppertal que uniu coreografia, música, dramaturgia e interação temática do cotidiano com o universal, com um linguagem corporal incomum e substrato estético inusitado. 

Extensiva às suas incensadas incursões cinematográficas, tendo participado dos filmes La Nave Va (Fellini) e Fale Com Ela (Almodovar) e sendo tema de Win Wenders em Pina.

No final dos anos 80, em entrevista que fiz com a coreógrafa Suzanne Linke, que trabalhou com Pina em seu tanzstudio e que tinha vindo ao Brasil a convite do Grupo Corpo para criar Mulheres, ela assim definiu Pina:

"Ela comandava deixando prevalecer o trabalho individual com suas diferenças. Não se fazia a dança abstrata, mas toda criação era motivada por uma ideia e era esta incrível movimentação que nos levava para frente. Cada um de nós, em planos diferentes, fazendo disto um período único da moderna dança alemã".

Lembrei-me disto a propósito de Philippine, Uma Peça Para Pina Bausch, criação e concepção de João Marcelo Pallotinno com sua Hospedaria Cia de Teatro. Egresso da Cia Atores de Laura, onde atuou em importantes montagens.

Ele e seu grupo já tinham mostrado dois trabalhos anteriores - A Religiosa e Silêncio/Inferno, inspirados respectivamente em Diderot e Dante, ambos inseridos nesta mesma linhagem estética conectando elementos literários e dramatúrgicos em inovadora e sofisticada proposta cênica.

De volta, agora, ele e sua Cia. fazem uma funcional utilização de reflexos gestuais do cotidiano, mostrando as possíveis relações identitárias dos movimentos coreográfico e teatral com o mundo, num espetáculo intimista com recorrência de citações, em passagens discursivas e coreográficas, a algumas das  criações de Pina como a do  Cafe Muller.

Entre o textual e o imagético, pensando no legado estético de Pina Bausch, com uma envolvente presença do elenco nas conexões entre o feminino e o masculino e em acertadas inserções verbais e videográficas.

Integrando, sobremaneira, o espaço externo urbano à proposta (como no filme Pina, de Win Wenders), o resultado é um inusitado e inovador espetáculo na cena teatral carioca e que merece ser obrigatoriamente conferido.

                                           Wagner Corrêa de Araújo


PHILIPINNE, UMA PEÇA PARA PINA BAUSCH, direção de João Marcelo Pallotinnno. Foto/Clayton Leite.

NOSTALGIA E PROTESTO SOB COMPASSO FUTEBOLÍSTICO

Á SOMBRA DAS CHUTEIRAS IMORTAIS, de Nélson Rodrigues. Foto/Flávia Fafiães.

"A realização em 2014 da segunda Copa Mundial de Futebol no Brasil, depois da decepção de 1950, traz a lembrança de vitórias passadas e o protesto diante dos dramas atuais de um país, levando a diferentes reflexões cênicas.

O pensamento de Nélson Rodrigues, entre a criação dramatúrgica e a crônica esportiva, marca a primeira montagem, voltada para o clima futebolístico, nas semanas em que acontece a polêmica realização do campeonato, especialmente na cidade sede do Maracanã, com À Sombra das Chuteiras Imortais.

Inspirado no conto O Grande Dia de Otacílio e Odete e habilmente construído com outras passagens do escritor, na concepção e comando inventivo do diretor Henrique Tavares, o texto remete ao imaginário da amarga derrota da Copa de 1950 e da nostálgica lembrança da vitória oito anos depois.

Com um elenco equilibrado (Gláucio Gomes, Ingrid Conte, Anderson Cunha, Crica Rodrigues, Cesar Amorim) e uma original movimentação cênica, onde ainda se destaca a feliz escolha do cancioneiro popular, figurinos (Patrícia Muniz) e décor de época (José Dias) com desenho de luz de Aurelio de Simoni.

Onde peça leva ao envolvimento do público quando aborda dois temas eternos de Nélson Rodrigues, o ciúme obsessivo e o fanatismo da torcida dos gramados, no impulso das paixões humanas, entre o poético e o cruel, dentro da rodrigueana "complexidade shakespeariana".

De maior diversão das camadas populares, na sucessão de vitórias da Seleção em outras Copas, capaz até mesmo de ser utilizada como subterfúgio em anos negros pela truculência da ditadura militar, ao momento em que a disputa chega pela segunda vez ao país do futebol, entre trancos e barrancos, é que o Teatro Inominável de Diogo Liberano conduz a uma reflexão em Concreto Armado.

Diante da habitual prevalência do poder público sobre a vontade popular, da corrupta especulação financeira, do caos social e urbano quando uma reforma arquitetônica leva à elitização de um espaço das multidões, sete atores se movimentam diante da reconstituição de um Maracanã fissurado, com original referencial cenográfico (Elsa Romero) e indumentária cotidiana (Marina Dalgalarrondo), ambientado em sutis efeitos luminares de Renato Machado.

E é com contrapontos textuais que os personagens de  representação jovem (Adassa Martins, Andreas Gatto, Carolline Helena, Flávia Naves, Gunnar Borges, Laura Nielsen, Marina Vianna), embora por vezes caiam num gestual monótono e num sotaque quase panfletário, não deixam de aguçar a proposta analítica de não se aceitar mais o imponderável de tempos em que todo o conhecimento do Brasil só passava pelo futebol.


CONCRETO ARMADO, com o Teatro Inominável de Diogo Liberano. Foto/Paula Kossatz.

UM MUSICAL DE GOLEADAS

"Às vésperas de acontecer a polêmica da Copa do Mundo 2014 no Brasil, em meio aos protestos, contestações e greves, a então prevista esfriada nos ânimos teve sua contrapartida num musical, sob os ritos simbólicos do esporte das multidões fazendo de Samba Futebol Clube, a grande surpresa da temporada teatral carioca.

Através do gestual coreografado e da expressão verbal e musical deste espetáculo concebido e dirigido, com inventividade e esmero, por Gustavo Gasparani, é resgatada a sedutora magia desta quase ridícula e risível corrida de vinte dois homens atrás de uma bola. Mas que é capaz de desencadear, nada mais nada menos, que um curto circuito de emoções coletivas.

Aqui, cenicamente, a disputa é assumida por oito experientes jogadores-atores, dublês de cantores-dançarinos (Alan Rocha, Daniel Carneiro, Gabriel Manita, Jonas Hammar, Marcel Octavio, Pedro Lima, Rodrigo Lima e Sergio Dalcin) com espontâneo vigor nos dribles, nas táticas e nas cortadas, marcando, ao final, um vitorioso gol de placa .

Nesta partida aparecem as íntimas conexões do universo futebolístico com a música popular do samba ao rap, com a crônica e a poesia, além da arte nativista, através de um desafio gestual que o faz próximo da capoeira e da escultura. Afinal, os ritmados movimentos de cada jogador em suas mutações instantâneas não representariam, em suma, uma performance em formas plástico/visuais?

Nesta partida musical desfilam, em perfeita harmonia e completo molejo, as sonoridades do Pixinguinha anos 20 ao Rappin Hood 2010, passando por verdadeiros hinos das torcidas, de Lamartine Babo a João Bosco, a clássicos dos gramados de Jorge Benjor a Gonzaguinha. Completados com os textos do cronista esportivo mór Nélson Rodrigues mais as inspiradas representações de torcida poética, nas vozes poéticas de Carlos Drummond ou Ferreira Gullar.

Na concepção artística, destaque especial para o gingado contemporâneo imprimido pela coreografia de Renato Vieira e a verdadeira aquarela brasileira do figurino (Marcelo Olinto) e das luzes (Paulo Cesar Medeiros), sob a concepção cenográfica (Marcelo Lipiani), enriquecida pela antológica sequência de áudio e vídeos. Memória e história eternizando uma quase transcendente referência trazida pelo futebol ao cotidiano embate, entre perdas e ganhos, da condição humana.

No placar técnico, o múltiplo talento do elenco destaca-se, com absoluto equilíbrio, a partir do roteiro textual, entre o canto, a dança e a execução simultânea dos instrumentos musicais. Uma fórmula acertada onde seus outros saborosos ingredientes - inteligência, humor, nostalgia, comunicabilidade - conseguem transpor, do gramado para o palco, o clima de êxtase coletivo, em arrebatadora montagem que dá uma goleada no torneio do novo musical brasileiro.

                                          Wagner Corrêa de Araújo


SAMBA FUTEBOL CLUBE. Foto/Léo Aversa.

ÓPERA E DANÇA NO THEATRO MUNICIPAL: REVIVAL DA ABERTURA DA TEMPORADA 2014

CARMEN no Theatro Municipal/ RJ, abril de 2014.

“A Carmen de Bizet, de longe a mais popular do repertório lírico, intimamente ligada à trajetória operística do Theatro Municipal/RJ, onde é mais que centenária, abre mais uma, ainda meio indefinida, temporada oficial (2014), como vem acontecendo ali, já há algum tempo.

A concepção cênica é de Allex Aguilera, um brasileiro radicado na Espanha que já conhecemos por seus trabalhos de diretor assistente nas impactantes montagens do La Fura dels Baus, nos registros em DVD das óperas Os Troianos de Berlioz e no Anel dos Nibelungos de Wagner. Mas que deixa muito a desejar nesta Carmen, de menor  processo investigativo com relação a estes trabalhos realizados para palcos europeus.

Seu reiterativo artifício do "andaime", presente em todos os atos, na verdade só chega a funcionar de fato como a taverna do Segundo Ato e a arena no Ato Final onde, felizmente, a ideia da plasticidade cinética alcança viável equilíbrio. Através da projeção de imagens sintonizadas com uma mensagem ecológica contra a crueldade da matança  de touros.

A questão do figurino e da própria visão geral atemporal não prejudica a trama original que remete à novela realista de Prosper Merimée fazendo prevalecer  a figura libertária de uma mulher, tendo como pano de fundo personagens sociais - contrabandistas, ciganas, cigarreiras, soldados, toureiros, em confronto com a ingenuidade de crianças e o amor puro de Micaela (uma personagem fora da base ficcional, inserida pelo libretista).

Embora esta contemporaneidade logre incomodar os tradicionalistas, não se pode mais fugir a uma tendência dominante nos mais importantes teatros do gênero, da L'Opéra de Paris ao Metropolitan. O segredo é saber fazer seu bom uso, entre a tradição e a modernidade (como acontece nestas grandes saisons), e nunca privilegiar apenas uma tendência, seja o repertório tradicional comme il faut ou a releitura com enfoque contemporâneo.

Musicalmente a condução da OSTM por Isaac Karabtchevsky foi bem cuidada, tornando-se sentida, por outro lado,  a ausência de um elenco mais uniforme e convicto de cantores protagonistas. Aqui falhando na escolha do papel titular com a mezzo soprano Luisa Francesconi que, embora tenha belo físico e convincente desempenho cênico, deixou a desejar no alcance e modulações da tessitura para a personagem.

Com uma compensação, na melhor  atuação do tenor Fernando Portari (Don José) e nos generosos dotes vocais da soprano ligeiro-lírica russa Ekaterina Bakanova (Micaela) que, mesmo nas suas poucas entradas, revelou sempre segurança musical e carismática representação de seu papel".


CARMEN, Theatro Municipal / RJ, abril de 2014

"La Bayadère tem uma origem curiosa pois remonta, inicialmente, a um ideário do escritor romântico Théophile Gautier que, além do oficio literário, amava a dança sobre todas as coisas.

Impressionado com o suicídio de uma bayadère (bailadeira indiana) que, em tour por Paris e Londres, não resistiu à nostalgia de sua pátria distante e se enforcou, ele recorreu a milenares manuscritos sânscritos e escreveu o roteiro de um balé - Sakuntala - que serviria de substrato inspirador para a criação coreográfica de Minkus/Petipa, na São Petersburgo imperial de 1877.

A abordagem do exotismo dos costumes e crenças espirituais brâmanes e hinduístas, bem dosados no entremeio dos ingredientes temáticos do romantismo baletômano da época, com seus amores trágicos, a idílica visão de seres espectrais e a redentora felicidade póstuma, arquitetou um balé de narrativa tão extensa que acabou relegado, durante décadas, apenas ao repertório do balé soviético.

E em sua integralidade original,  tendo atingido o Ocidente só a partir dos anos 60, com as versões completas de Natalia Makarova e de Rudolf Nureyev. Precedida, curiosamente, por uma montagem do famoso Ato das Sombras, por Eugenia Feodorova, no Municipal carioca.

Ausente de nossos palcos desde a versão de Natália Makarova em 2000, o balé tem seu retorno celebrado com uma montagem de raro preciosismo em seus menores detalhes cênicos e coreográficos.

Impressionando por sua qualidade musical na OSTM (regência de Tobias Volkmann) e pela performance técnica e artística do Balé do TM, tanto nas cenas de conjunto como nos solos dos protagonistas, com destaque especial para Márcia Jaqueline (Nikiya), Moacyr Emanoel (Solor) e o campeão dos aplausos, pela vigorosa encarnação do ídolo de ouro, Cícero Gomes, provocando  longos e  entusiastas aplausos.

Merecem também destaque os mentores desta feliz ideia de apresentar uma La Bayadère,  meritória na retomada de um bastião do repertório tradicional. Isto tornado possível via uma permuta artística latino-americana, trazendo o aparato cênico da produção original do Balé de Santiago do Chile, do coreógrafo remontador (Pablo Aharonian) ao autor da brilhante cenografia (Pablo Nuñez).

Esta bela e acertada retomada de um clássico da história da dança fez o Theatro Municipal voltar a uma - já distante - era em que ocupava um lugar exclusivo como principal casa de espetáculos de ópera e dança do país. E está aí, nas co-produções, uma fórmula mágica a ser adotada, e por que não com maior habitualidade, capaz de implodir o comodismo egocêntrico e explorar as diversidades concepcionais. 

Quando este ato puro da troca de caprichadas montagens conseguir superar os intrincados meandros "burro/cráticos", qual lâmina afiada capaz de corte seco cabralino, poderá ser uma brilhante solução para desafiar, afinal, além das vaidades personalistas, o medíocre status quo de nossos critérios políticos, que tanto engessam a autêntica e eficaz valoração do grande repertório coreográfico da única companhia clássica oficial brasileira".

                                          Wagner Corrêa de Araújo


LA BAYADÈRE, Ballet do Theatro Municipal / RJ, junho de 2014

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