MERLIN E ARTHUR : PARA PENSAR O QUE QUISER, OUVINDO RAUL SEIXAS

FOTOS/CAIO GALUCCI

Em tempos de ameaças obscurantistas às conquistas da liberdade do pensar diferente e às diversidades do ser e do estar plenamente livre numa sociedade do terceiro milênio, o musical Merlin e Arthur – Um Sonho de Liberdade estabelece uma ponte entre a ancestralidade medieval, a contemporaneidade e o futurismo galático.

A partir de um ideário que aproxima o mítico historicismo das lendas do reinado bretão de Arthur, com os paradigmas da sociedade alternativa propugnada no cancioneiro de Raul Seixas, com dramaturgia de Márcia Zanelatto e direção concepcional de Guilherme Leme Garcia.

Em universo fantástico habitado, também, pelos  cavaleiros da Távola Redonda e seus personagens emblematizados sob o signos  da magia e da paixão. De um magnânimo Rei Arthur (Paulinho Moska) a um prestidigitador Merlin (na visionária imagem virtual de Vera Holtz), além de uma pasionaria Guinevere (Larissa Bracher), compondo o tríptico protagonista.

Passando, ainda, pela heroicidade de Lancelot (Gustavo Machado) e pelas manipulações malévolas de Dreadmor (Patrick Amstalden) e Anamorg (Kacau Gomes). Num elenco complementar com mais outros dezessete cantores >atores>bailarinos.

Todos na unicidade de uma interpretação equilibrada mas com um muito especial destaque na projeção vocal de Kacau Gomes que, ao lado de Patrick Amstalden, é responsável por alguns dos melhores momentos da performance musical.

Com uma concisa arquitetura cênica e efeitos luminares/projecionais (Anna Turra, Camila Schmidt e Rogério Velloso) inspirando-se no geometrismo escultórico de Amílcar de Castro, com recortes que sugestionam traços do antropomorfismo plástico de Lygia Clark, sutilizados no visagismo (Fernando Torquato) e na indumentária (João Pimenta).


Não deixando de haver na integralização cenográfica um certo referencial das paisagens cênicas operísticas de Patrice Chéreau para o Anel dos Nibelungos. Ampliado pelos leitmotivs “raul-seixianos” que guiam o sofisticado melodismo do score sonoro de Fabio Cardia e Jules Vanystadt, possibilitando a fisicalidade gestual-coreográfica de Toni Rodrigues.

Que a releitura de época e a teatralização sintonizam numa leitura polarizada entre dois mundos, aparentemente díspares, no complexo e arriscado desafio de estabelecer uma proposta de identidade igualitária da cavalaria medieval com o legado composicional de Raul de Seixas. Sustentada na atemporalidade, aqui, em modulações propiciadas pelos princípios da física quântica.

Com a pulsão das viagens pelos espaços siderais da mente para explicitar, assim, a similaridade sob bases alternativas, de uma dialetação entre o pensamento e a postura comportamental, de um tempo do ontem e do hoje, com passaporte para o futuro.

Nos entremeios do onírico e do ficcional para o verismo contextualizado cenicamente (via Márcia Zanelatto) no agora, com o olhar armado no favorecimento de manifestações cúmplices de uma disponível e livre afetividade.

Em processo de estética dramática para desconstrução das distopias, no compasso de uma representação de teatro musical sob convicto comando diretorial (Guilherme Leme Garcia), em espetáculo que busca outras alternativas para o inventário do gênero em moldes brasileiros.
                                         
                                           Wagner Corrêa de Araújo


MERLIN E ARTHUR, UM SONHO DE LIBERDADE está em cartaz no Teatro Riachuelo, sextas às 20h; sábados às 16 e às 20h; domingo, às 18h, 135 minutos. Até  26 de maio.

Comentários

Ida Vicenzia disse…
Como sempre, Wagner é perfeito em seus comentarios.

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