TEMPORADA PAULISTA / O FANTASMA DA ÓPERA : UM GÊNERO À BEIRA DO ABISMO


FOTOS/PEDRO DIMITROW

Qualquer espectador ao assistir a esta segunda versão paulista do mais popular de todos os musicais – O Fantasma da Ópera – pode estar se despedindo de um padrão de superproduções que colocou São Paulo ao lado de Nova York e Londres, com o radical corte na fórmula da já ex - Lei Rouanet.

Desde a sua estréia londrina, em 1986, tornou-se o campeão dos campeões em público e recorde de montagens mundo afora, não tendo alcançado o mesmo sucesso do palco em sua transcrição fílmica, de 2004. E sua versão americana, em cartaz desde 1988, tornando-se marca registrada e programa obrigatório da Broadway.

Inspirada numa narrativa novelesca de ingredientes góticos, escrita por Gaston Leroux, em 1910, e que ressurgiu das sombras, graças ao musical, mas sem levar o livro às paradas literárias. Por seus caracteres claramente fora de moda, carregada de clichês melodramáticos e sustentada numa trama de suspense, sob romantismo absolutamente kitsch.

De uma corista promovida a solista de uma grande ópera, por instância das ameaças advindas de misteriosa personagem fantasmagórica que ronda os bastidores do Palais Garnier de Paris, em 1881. Demonstrando, assim, a sua paixão além tumulo por uma cantora situada no plano terreno de um teatro assombrado.

Que não é disfarçável em seu assobiável e meloso score musical (Andrew Lloyd Webber) nesta sua passagem cênica. Marcado por temas que aumentam sua tentativa de identificar-se com a linguagem grandiloquente da ópera, em acordes ariosos, duetos ou em leitmotivs de celebrizadas canções (Angel of Music, All I Ask of You, The Music of the Night).


Destacando-se, sem dúvida alguma, o tenor Thiago Arancam e a soprano Lina Mendes, por  suas vastas experiências na cena operística. Com um marcante presencial tanto na performance como no alcance da tessitura lírica, no personagem mais romantizado de Christine (L.Mendes) e no do Fantasma (T.Arancam), entre a a timidez e a arrogância nos avanços do seu poder espectral.  

Sem deixar de lembrar outro nome com algumas incursões na ópera, na espontânea nuance atoral de entonação baritonal via Sandro Christopher. E na representação de Fred Silveira, mais convincente como ator que cantor, pelo contexto lírico, fazendo Raul, o noivo de Christine.

Tudo, aqui, seguindo rigorosamente a criação original, desde a partitura composicional de Lloyd Webber, dirigida com artesania por Miguel Briamonte, a partir dos arranjos para conjunto orquestral de David Cullen, à reposição da fisicalidade gestual/coreográfica de Gillian Lynne.

Onde a concepção direcional de Harold Prince, integralizando-se na imponente paisagem cenográfica (Jonathan Allen), inclui luxuosa indumentária (Sam Fleming), mascaração e visagismo de época (Christian Gruaz). Citando-se, também, a cuidadosa versão textual  brasileira por um expert - Claúdio Botelho.

Trazendo, ainda, uma espetacularização cênico/cinética capaz de provocar oníricas visões e sensoriais experimentos psicofísicos nos altos relevos do pórtico com anjos e figuras mitológicas, ampliada na pirotecnia e efeitos luminares e sonoros, entre fogos que acendem e apagam candelabros e na culminância da súbita queda de portentoso lustre sobre a plateia.

Se todo este requinte tecnológico e artístico custou nada menos que 45 milhões, com uma cobertura de 28 milhões pela Lei Rouanet, capazes, afinal, de tornar viva mais que uma programação anual de teatro brasileiro, o que haverá, daqui em diante para este genêro, com a redução para o limite de 1 milhão na nova lei de Incentivo à Cultura?

Será que teremos que repetir o prólogo de O Fantasma da Ópera e leiloar, diante do perigo de iminente crise, o decadente acervo de um teatro musical do qual restará apenas o inventário memorial de anos de ascensão e glória?

Com a palavra os produtores e os artífices de montagens de tal porte, entre inúmeros artistas e técnicos, nesta agora tão “fantasmagórica” busca por saídas e soluções...

                                             Wagner Corrêa de Araújo


O FANTASMA DA ÓPERA está em cartaz no Teatro Renault / Centro/São Paulo, de quarta a sexta às 21h; sábados, às 16h e 21h.; domingos, às 15h e 20h. 150 minutos. Até 31 de Julho.

B-MARCHE – BALÉ DO TMRJ : EM TEMPOS NEBULOSOS, A BUSCA DA REDENÇÃO

FOTOS/TENDO SANTOS

O Balé do Teatro Municipal continua a sua luta redentora pela reocupação do lugar que lhe cabe, por tradição e merecimento, como única companhia oficial brasileira de substrato clássico. Prevalente na necessária reabertura de vagas, suprindo as carências da partida de muitos bailarinos, e na retomada da nobre missão em torno de um repertório histórico.

Desta vez, a partir da proposta comemorativa do sesquicentenário de morte de Hector Berlioz, com um espetáculo titulado como B-Marche-Noites de Berlioz, através de algumas obras do compositor francês – o ciclo de canções “Les Nuits d’Été”, a abertura Carnaval Romano, a Marcha da ópera “Les Troyens”, além de dois movimentos da Sinfonia Fantástica.

Para a realização de tal tributo, contando com a participação da OSTM, sob regência de Carlos Prazeres, e concepção direcional-coreográfica do bailarino Thiago Soares. Trazendo, ainda, na criação tecno-artística, Oskar Metsavaht (direção de arte), além do valioso suporte cênico do coreógrafo Renato Cruz.

Pela integralização deste ideário estético, coreográfico e musical, coletivamente irmanados num mesmo esforço inventor, para dar dignidade ao programa que abre a  temporada 2019 do Ballet do Municipal, no ano em que o teatro completa seus 110 anos.

Na abertura, a escolha de uma obra menos acessível de Berlioz – Les Nuits d’Été – originalmente um ciclo vocal com seis poemas de Théophile Gautier para soprano e piano, de 1869. E, posteriormente, orquestrado numa escrita instrumental com nuances mais camerísticas, priorizando cordas e sopros para transcrever o intimismo temático em torno da ausência, da perda e da morte de um ser amado.

Alcançando, agora, sua primeira e completa versão coreográfica, mas tornada de limitado resultado estético. Com seu quase no sense das interferências gestuais / miméticas, via solos e duos dos bailarinos, nos introspectivos timbres melódicos da partitura e no discricionário presencial físico dos cantores : Cíntia Fortunato e Laura Cavalcanti (sopranos) e Geílson Santo (tenor).

Superando-se, felizmente, na segunda parte, com a envolvência de antológica seleção de obras mais populares de Berlioz, em artesanal comando orquestral (Carlos Prazeres). E no energizado desempenho dos solistas e do Corpo de Baile, resgatando os deslizes coreográficos do ato primeiro.

Onde o uso de figurinos (Yan Seabra) de tons sóbrios, do ocre ao branco, tem adequada inserção num palco nu deixando à mostra seus bastidores. Sob alterativos efeitos luminares, ora vazados ora focais, de Maneco Quinderé. Num bravo propósito de homenagear todos os integrantes deste Corpo Estável do TM, ao sugestionar a ambiência de exercício cotidiano do oficio de bailarinos.

Enquanto, sequencialmente, a performance vai reunindo, em solos, duos e formações grupais, os principais solistas em competentes atuações. Com destaque especial  para uma dupla estelar – Cicero Gomes e Cláudia Mota – e no brilho com que se apresentam, entre outros, bailarinos tarimbados como Renata Tubarão e Alef Albert.

Seguindo-se as apresentações de celebrizados nomes de outras gerações como Francisco Timbó, Aurea Hammerli, Cecília Kerche, Ana Botafogo, numa espécie de desfile historicista de vivências artísticas a provar que, apesar de todas as crises, há que resistir sempre.

O conceitual coreográfico assumido, aqui, por Thiago Soares, em área na qual pretende investir mais, de agora em diante, dando novos rumos à sua vitoriosa trajetória, logo após a mudança de seu status no Royal Ballet para emérito artista convidado, privilegiou os fundamentos neo-clássicos para melhor aproveitamento deste potencial implícito ao Balé do TM.

Num luminoso referencial do costumeiro Défilé du Ballet de l’Opera de Paris, através da Marcha dos Troianos, com autoridade cênica e convicção coreográfica, em provocação criativa para que, o Balé do Municipal, entre tantas adversidades, enfim,  mantenha intactas sua pulsão artística e sua carismática empatia com o público.


                                           Wagner Corrêa de Araújo



B-MARCHE-BALÉ DO THEATRO MUNICIPAL está em cartaz, quinta e sexta, às 20h; sábado e domingo, às 17h. 100 minutos. Até 28 de abril.

RECITAL DA ONÇA : ENTRE RISOS E LIVROS, A FAVOR DA LITERATURA BRASILEIRA


FOTOS/JOÃO PEDRO JANUÁRIO

Depois de uma ausência dos palcos por mais de duas décadas,  Regina Casé está de volta, outra vez como uma one woman show para, através de contação bem humorada de causos autoficcionais, incentivar também o gosto pela leitura, por intermédio da representação textual de passagens clássicas de nossa literatura.

Em espetáculo formatado num mix de sarau literário e stand up comedy titulado, significativamente, como Recital da Onça, remetendo a uma das mais emblemáticas estórias e a um dos mais envolventes personagens do universo ficcional do Rosa da prosa, Meu Tio Iauretê.

Numa retomada com fundamentais parceiros de incursões cênicas, que marcaram sua trajetória de atriz e comediante do palco ao cinema e à televisão, tais como Hamilton Vaz Pereira (na direção cênica), Hermano Vianna (na criação ao lado dela) e o partner de vida e de arte Estevão Ciavatta (na direção geral).

Além de especiais comparsas na concepção tecno-artística como Luiz Zerbini na concisa cenografia,  Claudia Kopke e Gilda Midani em cotidiana indumentária, Berna Ceppas no energizado score sonoro dúplice ao lado de Hermano Vianna, mais Renato Machado com ambiental desenho de luz.

Onde Regina Casé fazendo uso de sua potencial espontaneidade performática, entrecortando um componente humorístico e uma proposta de substrato literário antológico, desenvolve uma gramática cênica capaz de fazer rir refletindo, irônica e criticamente, sobre temas comportamentais que estão muito próximos de nosso sombreado status político-social.

Relatando, já no prólogo, sobre os “divertidos” dissabores protocolares e a insegurança pessoal no enfrentamento de uma viagem, a convite para Harvard, acrescido de um certo temor e assombramento do meio acadêmico americano quanto à fórmula escolhida – "lectures" - a partir de seleções textuais entre escritores brasileiros.

Num espetáculo que perde seu caráter intimista e sua nuance confessional em palcos muito grandes como este do Teatro Oi Casa Grande, ainda que os jogos luminares acentuem climas mais interiorizados, nos alterativos entretempos para leitura dramatizada dos textos de Alberto Mussa, Clarice Lispector, Mário de Andrade e Guimarães Rosa.

Este último mais potencializado dramaturgicamente quando a atriz sintoniza o poder verbal roseano em vigorosa e cativante condução dos traços de um personagem, entre o homem e o bicho, no dimensionamento psicofísico do anímico à animália.

Com um ideário direcional (Estevão Ciavatta) e conluio atoral solista (Regina Casé) fazendo prevalecer uma pulsão direcionada a provocar interativa cumplicidade com o público. 

Culminando em recortes de uma disputa de samba com direito a livros, ao molde de programas televisivos, com a participação de espectadores no palco, sob o compasso rítmico de bateristas da Mangueira.

Num conceitual de quebra de limites academicistas e barroquismos estéticos para facilitar o percurso e a convivência cênica, em  luminosa identificação, do risível despretensioso ao  entretenimento meramente lúdico, com a sobriedade reflexiva da palavra literária.

Irradiada na tarimba de uma atriz antenada com seu oficio e com seu tempo e  que sabe bem como passar o seu recado de consciência cidadã no amor a um teatro conectado à valoração da leitura e da literatura.

                                             Wagner Corrêa de Araújo


RECITAL DA ONÇA está em cartaz no Teatro Oi Casa Grande/Leblon/RJ, sexta e sábado, às 20h; domingo, às 18h. 100 minutos. Até 12 de maio.

OS DESAJUSTADOS : SOB FLASHES FOTOGRÁFICOS, O PRENÚNCIO DA QUEDA


FOTOS/ MURILO MEIRELLES 

Mais precisamente no outono de 1959, num hotel em Beverly Hills,  o casal Arthur Miller – Marilyn Monroe  tem como hóspedes vizinhos o casal Simone Signoret – Yves Montand. Encontro que daria pulsão ao processo decisório da desconstrução psicológica do sonho estelar de Marilyn, finalmente, ser levada a sério como uma atriz dramática.

Naqueles dias, o dramaturgo Arthur Miller dava os últimos retoques no roteiro do filme – Os Desajustados - onde, por insistentes apelos da própria Marilyn Monroe, a trama cinematográfica deveria fazer dela uma respeitável intérprete, agora sob os ditames estéticos do Método Strasberg. 

Mas, o contraponto foi outro, na série sequencial de adversidades que afetariam a trajetória existencial e artística da atriz – um passageiro envolvimento amoroso com Yves Montand, a separação de Arthur Miller, a frieza crítica quanto à sua performance no filme (embora dirigida por John Huston), além da morte súbita do seu galã Clark Gable ao término das filmagens.

A partir de um ensaio fotográfico de Bruce Davidson da Magnum, agência americana celebrizada por emblemáticos registros do universo fílmico, sobre aquele encontro dos dois célebres casais, Luciana Pessanha idealizou a sua própria versão dramatúrgica, com similar titularidade, para Os Desajustados.

Com um quarteto atoral fazendo os dúplices partners, a saber Isio Ghelman (Arthur Miller) e Tainá Müller (Marilyn Monroe), mais Felipe Rocha (Yves Montand) e Cristina Amadeo (Simone Signoret), com uma participação alterativa de fotógrafos convidados, por vezes com uma excessiva interveniência, com flashes cênicos ao vivo, em reprodução frontal instantânea interagindo com os efeitos luminares de Renato Machado.

Tornando estas projeções parte fundamental do essencialista suporte cenográfico (por Marcelo Linhares e Fernanda Vizeu) e complementadas numa criação indumentária  de Marcelo Olinto, tornada mais sóbria na temporalidade nostálgica dos resultados black and white das fotos. Com acertado envolvimento na trilha incidental (Alexandre Pereira) e no movimento, via Dani Lima.

Onde acabam eclodindo as complicações do estado de crise matrimonial de Marilyn e Arthurexteriorizando-se, ali, diante dos visitantes Simone e Yves. E no que tange à atuação do elenco, tornando-se de clara e convicta percepção nos reflexos de energizado crescendo dramático, com força sensorial, por Ísio Ghelman (Arthur Miller).

E na segurança interpretativa de um bem delineado papel impositivo, embora de sutilizado enfoque conciliador, através de Cristina Amadeo (Simone Signoret), especialmente nas dialetações desta com o personagem de Tainá Müller (Marilyn).

Enquanto Felipe Rocha se, por um lado, tem alcance coeso e espontâneo na lembrança presencial de um típico entertainer francês, acaba deixando escapar um tom acima de artificialismo no sotaque vocal.

Embora seja favorecida pela aproximada adequação identitária com os caracteres de visualidade física, de visagismo e mascaração da blonde star, Tainá Müller não tem dominio completo das exigentes nuances psicogestuais e instabilidades emotivas em sua personificação. Desde o caráter assumidamente ingênuo e coquette à sedutora malícia, passando pelos descompassos mentais.

Se na sua integralização, a proposta de mais uma vez  levar ao palco a já tão explorada crise de identidade existencial, como artista e mulher, que marcou a trajetória de Marilyn, supera-se fazendo uso de cuidadosos recursos textuais e cenicos, é no equilíbrio da performance e da conduta diretorial onde se revelam iminentes riscos. 

Sente-se, ali, certa superficialidade na falta de mais incisiva dramatização dos conflitos de vontade num quarteto de amigos que se amam e se atacam ao mesmo tempo, no entremeio de provocações de afeto e explosões nervosas, num jogo de acerto de contas.

Que o comando diretorial (Daniel Dantas) deixa de imprimir com mais contínua intensidade para acentuação destes gradativos estados emocionais vividos pelos  quatro personagens, levando a ocasionais perdas na progressão dramática.

E mesmo que esta concepção de Os Desajustados recorra a temática já desgastada nas suas idas e voltas do teatro ao cinema, ora pelo lado documental ora pelo ficcional, há que se reconhecer, aqui, uma manifestação teatral capaz de evidenciar algo de novo tanto no substrato de sua escrita dramatúrgica como em sua representação merecendo, portanto, ser conferida.

                                                Wagner Corrêa de Araújo


OS DESAJUSTADOS está em cartaz no Oi Futuro/Flamengo, de quinta a domingo, às 20h. 70 minutos. Até 19 de maio.

A VERDADE : DIALÉTICO JOGO DE MÁSCARAS E MENTIRAS

FOTOS/DALTON VALÉRIO

Dentro da melhor tradição do vaudeville, do boulevard e do teatro de situação, A Verdade, de Florian Zeller, representante da mais recente dramaturgia francesa, dá continuidade a uma linha que notabilizou autores que vão de E. Labiche a Georges Feydeau, passando pelas criações cinematográficas de Sacha Guitry.

Original de 2011, a peça teve imediata expansão internacional, como expressivo sucesso de público e de cotação crítica no gênero da comédia, e incentivou o autor a escrever o seu contraponto com A Mentira, de 2015.

Com seu andamento farsesco, entre o risível e um sutil referencial ao absurdo de Pinter e à ironia filosófica de Voltaire, sua trama faz uma releitura contemporânea  dos típicos personagens e das situações próprias do vaudeville, sabendo como bem jogar com a especificidade de seus recursos.

Dividindo-se em cinco cenas, numa paisagem cênica (Ronald Teixeira e Guilherme Reis) realista reproduzindo a mutabilidade de um quarto de motel em consultório médico, sala de visitas domiciliar e vestiário de academia de tênis.

Sob funcionais marcações luminares (Maneco Quinderé) ressaltando, ainda, uma indumentária (Ronald Teixeira) remetendo ao coloquialismo elegante e à prevalente ambiência burguesa, marcas originais do teatro de vaudeville.

Confrontando dois casais amigos diante dos malabarismos e das armações de Michel (Diogo Vilela) para disfarçar sua traição conjugal com Alice (Carolina Gonzalez), a mulher de seu mais próximo e dileto amigo Paulo (Paulo Trajano).

Mas convencido quanto a tornar eterno este segredo desagradável, dissimulando-o de sua própria esposa Laura (Cláudia Ventura), nos arranjos e desarranjos, no disse e no não disse das formulações da mentira sob as aparências da verdade.

Neste ir e vir das estratégias de um personagem  (Michel) entre a arrogância, a vaidade e a auto confiança, Diogo Vilella dá potencial autenticidade à materialização de uma virtuosística performance lúdico/cômica, com suas variadas gradações psicológicas, entre os riscos e os imprevistos para não deixar quaisquer pistas de seus pequenos crimes da vida privada.

Num possível referencial de um ideal dramatúrgico do próprio Florian Zeller e com um destinatário acerto no protagonismo, aqui,  desta montagem : “Eu sempre escrevi uma peça pensando em um ator em particular, é o desejo de um determinado rosto que me faz querer escrever para o teatro...”

Sempre lembrando que cada um dos outros personagens tem seus compromissos maritais ou como partners matrimoniais. Desde os caracteres das incertezas no papel de Carolina Gonzalez quanto a continuar ou dar fim ao seu caso extra-conjugal, mais por pena do marido recém desempregado.

Ou da abalada confiança mútua entre casados manifestada no irônico descrédito da personificação de Claudia Ventura expondo, com maestria, seu oficio de esposa que não quer se deixar enganar. 

Enquanto, o segundo elemento atoral masculino (Paulo Trajano) expressa conjecturas encimadas por mordaz dubiedade, fingindo se consolar mas confundindo dialeticamente o amigo Michel, tornado transgressor na relação com Alice.

Onde o convicto comando diretorial (Marcus Alvisi) favorece a unicidade da representação ao possibilitar o entremeio de ambiguidades  entre o falar ou o calar-se, sustentando a agilidade e a malícia necessárias ao registro de uma trama de destinação exclusiva ao entretenimento.

Com acerto concepcional e dando eco a Florian Zeller : “Vaudeville deve seduzir as pessoas sem ser levado a sério mas, ao mesmo tempo, tocando forte o público...”

                                             Wagner Corrêa de Araújo


VERDADE está em cartaz no Teatro Maison de France, Av. Antonio Carlos/Centro/RJ, quinta às 17h30m; sexta e sábado, às 19h30m; domingo às 18h30m. 80 minutos. Até 02 de junho.

O PREÇO : SOB O CUSTO DE LATENTES HIPOCRISIAS FAMILIARES

FOTOS/GUSTAVO PASO

Entre A Morte do Caixeiro Viajante, estreada  em 1949, e  O Preço, de 1968, a obra dramatúrgica de Arthur Miller desnudou as falácias do american way of life fazendo, ao mesmo tempo, um dolorido retrato, ainda que de recorrências poéticas, dos desejos e fracassos no suporte da condição humana.

Através de personagens sugestionados pelo crédito do sucesso em suas trajetórias vivenciais mas, ao mesmo tempo, incapazes de assumir o custo do enfrentamento de suas inevitáveis quedas. Fingindo terem consciência de seus méritos mas cientes do quanto suas pulsões de afirmação individualista serviriam apenas como disfarce para a derrota de sua dignidade.

No microcosmo de um prevalente modus vivendi familiar, mas refletindo os embates sustentados no intercurso das vitórias e adversidades do universo social. Ancorados pela latente hipocrisia da crença na exclusiva valoração das riquezas materiais estar acima de qualquer preço na busca de um sentido para a vida.

Um encontro, motivado pela venda dos antigos móveis paternos, reúne um sagaz antiquário judeu Salomão (Gláucio Gomes) com os irmãos Válter (Erom Cordeiro) e Vítor (Romulo Estrela), na quebra de longo afastamento e insistente dissidência. Com reiterativas interveniências nervosas de Ester (Luciana Fávero), a mulher deste último, frente à fragilidade de suas atitudes comportamentais.

E é no entremeio de ressentimentos familiares, sob causa de desafetos e medições financeiras, que vai sendo descoberto um visceral conflito de vontades, raivas, ciúmes e depressões, substrato das diferenças de resultado nas trajetórias existenciais e profissionais dos dois irmãos.

Onde uma cadeira vazia contextualiza a lembrança de um pai que usava de suas limitações físicas para manipular, sentimental e financeiramente, o convívio próximo às inseguranças posturais e descompassos vocacionais de Vitor. No contraponto deste ser um simples policial confrontado pela ascensão de Válter, como um bem sucedido cirurgião ao preferir distanciar-se do opressivo núcleo familiar.

Introduzida a trama na volta de Vitor à ambiência memorial de seus anos de infância e juventude, em acurada reconstituição cenográfica  de Gustavo Paso, como um dúplice artífice no comando diretor e concepcional do espetáculo, para sugestionar um empoeirado depósito físico de referências afetivas.

Sem a preocupação da indumentária (Luciana Fávero, dividindo-se como atriz) se ater à temporalidade da escrita da peça, no pleno despontar da Guerra do Vietnam. E no funcional recorte de um score sonoro (André Poyart), com uma leve pegada no apêlo nostálgico.

Com efeitos luminares (Bernardo Lorga) entre sombras, ora vazados ora focais sobre os objetos domiciliares para marcar os deslocamentos da recordação onírica de um tempo passado, num processo de inventário lúdico, para o pesadelo de ácidas revelações confessionais com a entrada de lter .

Num round desafiador de culpas e acusações recíprocas, configurando justificações negativas de seus próprios atos, certezas e escolhas. Exemplarmente capitaneado pela dosagem mor imprimida às personificações do cinismo no papel de Erom Cordeiro, com sua irônica indiferença e falseado desprezo ao dinheiro arrecado na venda do acervo mobiliário.

Ou no contraponto capcioso de um octogenário negociante judeu, explorado em todos os seus contornos pela convicta performance de Gláucio Gomes, com sutilizada pausa num registro de risibilidade ao descascar e comer ovos cozidos, em meio à tensão, de mote crescente, da narrativa dramática.

No presencial de um personagem angustiado por ter sido o mais diretamente afetado por uma família disfuncional, na obediência cega e filial submissão aos desmandos e aos enganos paternais sobre a necessária guarda de recursos financeiros, Romulo Estrela revela segurança e brilho interpretativo.

Com intencional folego superativo de uma menor tarimba de palco, na sua mais habitual experiência em cinema e tv. Mesmo que, às vezes, torne ausente uma mais modulada enunciação vocal no preenchimento de exigentes variações das nuances emotivas de seu papel.

Enquanto Luciana Fávero acaba por ser menos favorecida na gradação defensiva de um personagem, ora rancoroso ora quase mediador, frente à prevalência do emblemático e ambíguo duelar de dois irmãos.  

Na sua denúncia de uma mais-valia em nossas vontades e na nossa própria integridade moral, a peça O Preço está sintonizada na contemporaneidade, não só pela força de uma textualidade de clássico como também pela sua artesania conceptiva, via Gustavo Paso e sua Cia. Teatro Epigenia, e a merecer, outrossim, avaliação de Teatro com T maiúsculo.

                                            Wagner Corrêa de Araújo


O PREÇO , após o termino da temporada no Sesc/Copacabana, aguarda a definição de um novo espaço teatral, com o cancelamento recente da agenda no Teatro dos Quatro, às vésperas de sua reestréia.

MERLIN E ARTHUR : PARA PENSAR O QUE QUISER, OUVINDO RAUL SEIXAS

FOTOS/CAIO GALUCCI

Em tempos de ameaças obscurantistas às conquistas da liberdade do pensar diferente e às diversidades do ser e do estar plenamente livre numa sociedade do terceiro milênio, o musical Merlin e Arthur – Um Sonho de Liberdade estabelece uma ponte entre a ancestralidade medieval, a contemporaneidade e o futurismo galático.

A partir de um ideário que aproxima o mítico historicismo das lendas do reinado bretão de Arthur, com os paradigmas da sociedade alternativa propugnada no cancioneiro de Raul Seixas, com dramaturgia de Márcia Zanelatto e direção concepcional de Guilherme Leme Garcia.

Em universo fantástico habitado, também, pelos  cavaleiros da Távola Redonda e seus personagens emblematizados sob o signos  da magia e da paixão. De um magnânimo Rei Arthur (Paulinho Moska) a um prestidigitador Merlin (na visionária imagem virtual de Vera Holtz), além de uma pasionaria Guinevere (Larissa Bracher), compondo o tríptico protagonista.

Passando, ainda, pela heroicidade de Lancelot (Gustavo Machado) e pelas manipulações malévolas de Dreadmor (Patrick Amstalden) e Anamorg (Kacau Gomes). Num elenco complementar com mais outros dezessete cantores >atores>bailarinos.

Todos na unicidade de uma interpretação equilibrada mas com um muito especial destaque na projeção vocal de Kacau Gomes que, ao lado de Patrick Amstalden, é responsável por alguns dos melhores momentos da performance musical.

Com uma concisa arquitetura cênica e efeitos luminares/projecionais (Anna Turra, Camila Schmidt e Rogério Velloso) inspirando-se no geometrismo escultórico de Amílcar de Castro, com recortes que sugestionam traços do antropomorfismo plástico de Lygia Clark, sutilizados no visagismo (Fernando Torquato) e na indumentária (João Pimenta).


Não deixando de haver na integralização cenográfica um certo referencial das paisagens cênicas operísticas de Patrice Chéreau para o Anel dos Nibelungos. Ampliado pelos leitmotivs “raul-seixianos” que guiam o sofisticado melodismo do score sonoro de Fabio Cardia e Jules Vanystadt, possibilitando a fisicalidade gestual-coreográfica de Toni Rodrigues.

Que a releitura de época e a teatralização sintonizam numa leitura polarizada entre dois mundos, aparentemente díspares, no complexo e arriscado desafio de estabelecer uma proposta de identidade igualitária da cavalaria medieval com o legado composicional de Raul de Seixas. Sustentada na atemporalidade, aqui, em modulações propiciadas pelos princípios da física quântica.

Com a pulsão das viagens pelos espaços siderais da mente para explicitar, assim, a similaridade sob bases alternativas, de uma dialetação entre o pensamento e a postura comportamental, de um tempo do ontem e do hoje, com passaporte para o futuro.

Nos entremeios do onírico e do ficcional para o verismo contextualizado cenicamente (via Márcia Zanelatto) no agora, com o olhar armado no favorecimento de manifestações cúmplices de uma disponível e livre afetividade.

Em processo de estética dramática para desconstrução das distopias, no compasso de uma representação de teatro musical sob convicto comando diretorial (Guilherme Leme Garcia), em espetáculo que busca outras alternativas para o inventário do gênero em moldes brasileiros.
                                         
                                           Wagner Corrêa de Araújo


MERLIN E ARTHUR, UM SONHO DE LIBERDADE está em cartaz no Teatro Riachuelo, sextas às 20h; sábados às 16 e às 20h; domingo, às 18h, 135 minutos. Até  26 de maio.

COLE PORTER – ELE NUNCA DISSE QUE ME AMAVA : UM MUSICAL, DE VOLTA AO FUTURO

FOTOS/DANIEL COELHO

No início do terceiro milênio um musical despretensioso, em sua proposta antológico-memorial em torno da vida e obra de Cole Porter, foi fator propulsor do gênero nos palcos cariocas.

E numa temporada que se estendeu pelo país e além mar, Cole Porter – Ele Nunca Disse Que Me Amava, acabou criando uma grife clássica – Möeller & Botelho - para o musical brasileiro.

A dúplice concepção e direção de Charles Moeller e Cláudio Botelho se tornou, assim, mentora de um gênero que, em menos de duas décadas, imortalizou versões fiéis da estética Broadway. Que, longe de serem meras cópias do original (até mesmo por exigências contratuais), buscavam novos ares para as transposições da Times Square em terras tropicalistas.

Além de ter, em poucos anos, incentivado o surgimento de completos expoentes do gênero, não só atores-cantores-bailarinos, mas impulsionando repertórios específicos para grupos instrumentais e novas perspectivas para o ofício coreográfico.

E, ainda, ampliando as potencialidades da arquitetura tecno-artística (cenografia, figurinos, iluminação) destinada exclusivamente a um certo tipo de espetáculo, até então sem expressivas historicidade e prevalência em nosso universo cênico.

Num referencial à sequencialidade ininterrupta de momentos especiais da conexão interativa - voz, música, dramaturgia – unindo palco/plateia pelas metrópoles país a fora, quebrando muitas vezes, o resistente circuito Rio/São Paulo, Cole Porter – Ele Nunca Disse Que Me Amava faz, agora, esta viagem tributo “de volta ao futuro” do musical pátrio.

Reunindo seis prima donnas do gênero e trazendo, entre estas, três intérpretes da montagem original (Alessandra Verney, Gottsha e Stella Rodrigues), ao lado de outras exímias artistas na categoria e produto da geração seguinte (Analu Pimenta, Bel Lima e Malu Rodrigues ).

Em tematização particularizada pela identidade feminina, através da personificação de mulheres fundamentais à trajetória artístico-existencial do compositor americano, com este último tornado presencial apenas numa textualidade em off (na voz de Claudio Botelho).

Numa convergência teatral sem, rigorosa cronologia biográfica, da mãe Kate Porter (Bel Lima),  da esposa Linda Porter (Stella Maria Rodrigues), da colunista e promoter Elsa Maxwell (Analu Pimenta), da Broadway star Ethel Merman (Gottsha), mais a agente e produtora Bessie Marbury (Alessandra Verney). E da única personagem imaginária – Angélica (Malú Rodrigues), como a emissária da morte.

Comparativamente à produção primeira do espetáculo, agora, tornando-se perceptível um maior refinamento, resultado da maturidade artesanal da dupla de artífices – Moëller & Botelho – nesta segmentação cênico-musical.

Embora conservando o mesmo substrato temático e similar arcabouço dramatúrgico da proposta inicial, houve a inclusão de novas passagens tanto na estrutura narrativa quanto no detalhamento video/documental, incluídas canções menos divulgadas do inventário composicional de Cole Porter.

Com direção musical refinada para acentuar a formatação dialetal texto e canção, conduzida em sotaque camerista pelos instrumentistas Omar Cavalheiro, Marcio Romano, além de Marcelo Castro acumulando as funções de arranjador.

Onde o mecanismo de efeitos luminares (Paulo Cesar Medeiros) mais vazados ressalta a sofisticação dos figurinos (Marcelo Marques) e do brilho visagista (Beto Carramanhos), adequando-se à plasticidade mural/cenográfica (Rogerio Falcão), aqui, sugestionando quadros com mulheres em uma exposição.

Para completar esta proposta cênica de convicto ideário dramático e musical, a luminosidade de um elenco tomado de paixão e pleno de técnica, predestina a representação como produto bem acabado, destinado à espontânea e cúmplice adesão do público.
                                                
                                               Wagner Corrêa de Araújo


COLE PORTER – ELE NUNCA DISSE QUE ME AMAVA está em cartaz no Theatro NET, Copacabana; sexta às 20h; sábado às 21h; domingo, Às 17h. 100 minutos. Até 28 de abril.

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