PAGLIACCI: RINDO COM O CORAÇÃO PARTIDO


FOTOS/CARLO GUELLER/PAULO BARBUTO

No prólogo, um ex - palhaço estreia sua nova função de dramaturgo, advertindo o público, como o personagem da ópera de Ruggero Leoncavallo, sobre o que  se assistirá ali, pontuado entre o riso e a dor, entre o teatro e a vida.

Mas, na peça escrita por Luís Alberto de Abreu, com a mesma titularidade da ópera – Pagliacci – há uma elucidativa paráfrase : “A vida não é uma ópera, como queria Machado de Assis, mas um circo, e somos todos palhaços”

Assim este espetáculo que comemora os vinte anos da Cia. La Minima, mais uma vez, deixa claro o conceitual estético de uma dramaturgia voltada à valorização do circo-teatro, em sua tradicional arquitetura cênica que une o picadeiro ao palco.

Da tragicomédia da performance circense e da bufonaria, entre o riso e as estripulias,  ao melodrama popular das adversidades da condição humana, por palhaços/atores ou através de mambembes trupes de saltimbancos.

Em valoroso projeto de iniciativa conjunta e continuado, com criatividade e convicto empenho, por Fernando Sampaio, após a partida fatal em 2016, de Domingos Montagner. Reunindo uma potencializada agremiação de atores/palhaços e acurada equipe técnico/artística, sob o  artesanal comando diretor de Chico Pelúcio.

Inspirando-se, apenas como motor de arranque, na conduta narrativa do libreto original de Leoncavallo, para uma temática provocativa do riso burlesco no entremeio das dores de corações partidos. 

Mas, seguindo o olhar autoral de Luís Alberto Abreu, com uma prevalência maior  no lúdico/risível de um teatro dentro do teatro com referencial circense, sem insistir no clima de folhetinesco dramalhão como a ópera. Embora mantenha-se a nominação de seus personagens, com ligeiras alterações em seus ofícios.

Como o velho palhaço e o novo dramaturgo/narrador Peppe(Fernando Paz), o gerente da trupe Canio(Alexandre Roit) e sua mulher Nedda que se faz de Colombina(Carla Martelli), Sílvio (Fernando Sampaio), dublê de Arlequim/Pierrô, além do parceiro de ofício e do assédio de paixão, Tonio(Filipe Bregantim). Incluindo-se,ainda, um papel inédito no entrecho operístico – o da mulher neanderthal, Strompa(Carla Candiotto).

Neste afinado elenco, a perceptível adequação à fisicalidade como às modulações psicológicas de suas personificações entre a comédia de costumes e a pantomima circense , com variantes de riso e lágrimas. Com um destaque mais que especial na exploração das gags, de arrojada força sensorial/humorística, e do protótipo estético/emotivo do palhaço/ator através de Fernando Sampaio.

Ao qual se acrescenta uma nostálgica e bela homenagem cenográfica(Marcio Medina),simultaneamente, ao teatro, à ópera e ao circo, através de telões frontais, figurinos fantasiosos(Inês Sacay) e  luzes de ribalta ( Wagner Freire).

Sem deixar de priorizar um score sonoro(Marcelo Pellegrini), para gravações ou execuções ao vivo, com habituais ou inusitados instrumentos. Refletido em singularizadas transcrições de árias e intermezzos líricos de Leoncavallo a Verdi, passando por Bizet, dando espaço até à música de balé(Delibes).

Com mágica apoteose na retomada de Vesti la Giubba,Ridi Pagliaccio, por Fernando Sampaio, num minimalista acordeão, em sensibilizada cena coreográfica/amorosa com Carla Martelli.

Pelo múltiplo talento destes  malabares, histriões, atores e clowns de um memorável inventário que refina a arte da palhaçaria e numa pulsão/tributo a um prestidigitador mor, Domingos Montagner, com o merecido alcance crítico e a entusiasta cumplicidade do público.
                                               
                                            Wagner Corrêa de Araújo


PAGLIACCI está em cartaz no Teatro Sesc/Ginástico,Centro/RJ, de quinta a sábado, 19h;domingo, às 18h. 90 minutos. Até 17 de dezembro

RENATO VIEIRA CIA DE DANÇA - BLUE : UMA PERFORMANCE/MANIFESTO PARA TEMPOS SOMBRIOS


FOTOS/WAGNER BRUM/BRUNO VEIGA

“Entre o seu livre funcionamento criador e as exigentes pulsões de fisicalidade e de emoção, para uma montagem de necessária especificidade na gramática cênica: visualizando o apelo reflexivo ao fazer dançar a escuta sonoro/musical da palavra poética.
Ao permitir esta vertente,como obra aberta, o comando diretorial (Renato Vieira) e artístico(na dúplice realização, com Bruno Cezario) desafia os possíveis riscos com senso crítico e energia artesanal em BLUE.
Neste seu outro investimento artístico no conceitual literário/coreográfico, contraponto estético sempre relevado com a Renato Vieira  Cia de Dança, pelo descortino  de novas linguagens para a dança contemporânea brasileira .” 
(Em crítica  autoral no blog www.escriturascenicas.com.br ,de 20/05/2017).

Desde que estreou, em sua primeira temporada no Teatro Sesc/Ginástico, Blue-Bonjour Tristesse , da Renato Vieira Cia de Dança, representou mais uma  corajosa iniciativa artística para tempos de pesadelo e caos que vilipendiam nossas crenças democráticas de Nação e Cidadania.

E que, sequencialmente, contaminaram o universo da criação brasileira, não só pelo discriminatório corte de patrocínios, fomentos e editais mas, ainda, com a eclosão de uma medieva e fundamentalista onda de avassalador conservadorismo contra as  manifestações  plástico/visuais. 

Especialmente aquelas ligadas à livre expressão da corporeidade , das exposições às performances em galerias e museus . Com o risco, cada vez mais iminente, de alcançar nossos palcos teatrais e coreográficos.

Assim, sem deixar  que qualquer “brecha”, como "aquela" vergonha de caráter oficialesco, o faça, outra vez, em causa espúria, recorramos à autenticidade titular brechtiana, na sua lição poético/política para o enfrentamento de eras de regressão, dúvida e sombras :
O homem, meu general, é muito útil/Sabe voar e sabe matar/Mas tem um defeito/Sabe pensar”.


Na certeza de que BLUE tornou-se um espetáculo obrigatório esteticamente,  na entrega ao desempenho por um enérgico elenco masculino de 8 bailarinos (Bruno Cezario/Dinis Zanotto/ Elton Sacramento/Felipe Padilha/Flávio Arco-Verde/João da Matta/João Mandarino/Marlon Ailton)sintonizando,com sangue, suor e alma, sua performance, sob os acordes incisivos da trilha de Felipe Storino e das luzes pontuais de Binho Schaefer.

Ou quando traz de volta ao proscênio, depois de trinta anos, um dos lídimos guardiões  da dança contemporânea brasileira – Renato Vieira -  que, no epílogo desta performance, foi responsável por uma das mais viscerais posturas cenográficas contra a censura às artes, num instante feroz e exemplar em nome do coletivo coreográfico.

Que ele, Renato Vieira, reflexiona, aqui, em tom confessional , na sinceridade de sua mágoa mas com o olhar armado no desafio de vencer:

BLUE foi gerado no impacto desse novo mundo que aí está, tão conservador, tão violento, tão insensível às necessidades humanas. Acho que esse é o denominador comum para todos os artistas e equipe desse espetáculo. Estamos em cena dançando nossa indignação, porque nos sentimos brutalizados, discriminados e cerceados em nossa liberdade de expressão.

Criar esse espetáculo foi o que me permitiu sobreviver emocionalmente esse ano. Podem não me pagar o fomento que ganhei. Podem não abrir novos editais. Podem não dar condições de trabalho. Mas não podem tirar minha liberdade de criar”, completa Renato Vieira.

                                         Wagner Corrêa de Araújo


RENATO VIEIRA CIA DE DANÇA - BLUE/BONJOUR TRISTESSE - está em cartaz no Teatro Gláucio Gil, de sexta a segunda, às 20 h. 60 minutos. Até 03 de dezembro.

DOCE PÁSSARO DA JUVENTUDE: O VIL PREÇO DA IDADE


FOTOS/MARCELO FAUSTINI

“Nós estamos na sarjeta, mas alguns de nós olham as estrelas”, diz um dos amargurados personagens de Tennessee Williams .

Esta fala de uma peça(Anjo de Pedra) da primeira fase de grande sucesso do dramaturgo, apesar de anteceder, em mais de uma década, seu Doce Pássaro da Juventude (1959), traz um referencial reflexivo , na sua abordagem de uma atriz diante da decadência artística e do envelhecimento.

Mas que julga crer na sua remissão como mulher desejada e de atriz que ainda pode ser estelar. Mesmo que para ela, Alexandra Del Lago ( Vera Fischer), os desafios sejam os mais torpes e escusos, ao aceitar o amor interesseiro e financista do  jovem aspirante à carreira de ator Chance Wayne(Pierre Baitelli).

Ou que tenha que se sujeitar a todas as tramoias  das safadezas de um político da Flórida interiorana (como tantos que conhecemos pelas bandas de cá) Boss Finley (Mário Borges).  Capaz, assim,  de qualquer ato coercitivo ou até com gosto de sangue, para que sua filha Celeste Finley(Juliana Boller) nunca volte aos braços de Chance Wayne.

Com intervenções quase episódicas de outros tipos provincianos, na adequada coadjuvância de Ivone Hoffmann( Tia Nonnie),Pedro Garcia Netto(Tom Junior) , Clara Garcia(Miss Lucy) e Bruno Dubeux(George Scudder),escudados ainda pelos papéis mínimos de  Renato Krueger e Dennis Pinheiro.

Na versão de alguns cortes, por Marcos Daud, Doce Pássaro da Juventude se impõe pelo presencial de dez atores, sob uma indumentária discricionária (Marcelo Marques), com um certo excesso dimensional e aquarelar no figurino(Vera Fischer) de época da cena final. 

Na relevância da mutabilidade de sua concepção cenográfica (Mina Quental), entre belas duplicações especulares e  efeitos projecionais, ressaltados em cuidadosa ambientação luminar (Paulo Cesar Medeiros). Acrescido de recatado, embora evocativo, score sonoro (Alexandre Elias).

Preservando o conceitual temático tão caro à obra dramatúrgica de T. Williams , com prevalência dos medos, das inseguranças, da solidão e das frustrações trazidas no escurecer da vida, através da marginalização à beira da desconstrução estético/erótica do  feminino,por outro lado não há , aqui, a transcendência psicanalítica da criação anterior.

A exacerbada potencialização da decadência e da vilania a distancia das sutilezas no seu tratamento textual,sem entremeios da opressão à fuga pelo sonho. Ou na crudeza como são comandados ,entre a falácia e as drogas, os embates da passagem temporal. No desapreço à atriz/objeto  e na ambição de comportamental gigolotagem, sem perspectivas da ambição pretendida pelo, nem assim tão jovem, amante/carreirista.

Embora convençam pela correspondência de fisicalidade para representação destes papeis, tanto Vera Fischer como Pierre Baitelli. Ela por sua própria história de vida, entre ascensões e declínios, ele por certa similitude na personificação de idade corpórea,  com seu torso nu e abdominal/tanque, como o Paul Newman na versão fílmica ( Richard Brooks, 1962).

Mas que não logram atingir maior dimensionamento no contraponto psicológico do mau caratismo do lado masculino ( o que tem maior ênfase e é melhor sublinhado na performance de Mário Borges) e do apodrecimento do desejo no epígono de uma mulher e na humilhação do  anonimato de uma atriz.

Com uma representação que carece, às vezes, de maior desnudamento dos personagens, ampliada por uma vocalização com desajustes de alcances graves e agudos nos confrontos dialogais do dúplice protagonismo.

Onde mesmo o esforço de uma  direção convicta (Gilberto Gawronski) não consegue impor mais visceralidade e envolvência na  reiterativa progressão dramática de uma narrativa sem  grandes culminâncias.

                                         Wagner Corrêa de Araújo


DOCE PÁSSARO DA JUVENTUDE está em cartaz no Teatro Carlos Gomes/Centro/RJ, quinta a sábado , 19h; domingo , às 18h. 110 minutos. Até 26 de novembro.

UM BONDE CHAMADO DESEJO: DISTANCIANDO-SE DO REALISMO PSICOLÓGICO


FOTOS/JOÃO CALDAS FILHO

Emblemática criação da dramaturgia americana, da sua textualidade original(1947) à sua versão cinematográfica(1951/Elia Kazan), Um Bonde Chamado Desejo não era remontado no Brasil há mais de uma década.

Com o olhar armado na contemporaneidade, o diretor Rafael Gomes confere à sua versão uma particular originalidade. Que  pode não agradar aos puristas radicais por seu perceptível distanciar-se do realismo psicológico,  estilismo autoral assumido por Tennessee Williams.

Mas que, diante de uma urdidura dramática diferencial tanto no dimensionamento psicológico da representação como na minimalista arquitetura cenográfica (André Cortez), com traços  de metafórico naturalismo, tem um vigoroso resultado estético.

Não só através do  trilho circular, podendo  ser o trajeto de “Desire”- o bonde - até o cortiço residencial do casal Kovalski - Stella (Virgínia Buckowski) e Stanley (Eduardo Moscovis). Ou remetendo a elementos próprios de um set fílmico, na visibilidade de caixas, refletores e figurinos  e  no acionamento de travellings.

Ressaltado ainda pelas inusitadas marcações de luzes contrastantes (Wagner Antônio), ora vazadas, ora sombreadas, para explicitar os conflitos interiores, entre o ilusionismo e a realidade crua. Do comportamento de irrealizável romantização em Blanche (Maria Luísa Mendonça) ao contraponto brutalizado na rusticidade do cunhado Kowalski(Eduardo Moscovis). E, também,   delineado nas diferenças indumentárias de Fause Haten para os dois personagens.

Onde no anti-realismo cênico  de um meio espaço/arena prevalece a enérgica artesania de Rafael Gomes, completada no tríptico tradução/direção/trilha sonora. Esta última concebida em sotaque pop (Winehouse /Radiohead/  Beirute) e longe do melodismo sinfônico de Alex North para as telas.

E que estabelecendo intensivas relações emotivas entre a vocalização e a fisicalidade , com aportes coreográfico/circenses, alcança um clima extasíaco nos seus deslocamentos entre o onirismo e o pesadelo. Apurando, assim, por outros caminhos estetizados, a linguagem da peça nas suas correlações entre a ação e o diálogo.

Contando-se também o elenco, em total identificação  com a proposta, desde o prevalente protagonismo de Maria Luísa Mendonça à cativante sintonização de Virgínia Bukowski. Além da maior ou menor incidência participativa dos coadjuvantes (Davi Novaes, Donizeti Mazonas,Fabrício Licursi,Nana Yazbek).

Ou ao sincero esforço de Eduardo Moscovis para superar a pulsão comparativa com a agressividade do  personagem original, em caracterização menos densificada pela atenuação do presencial de arroubos violentos.

Mas o absoluto domínio palco/plateia é mesmo de Maria Luísa Mendonça tornando-se  o grande momento do espetáculo.  Direcionado, sempre, via seu comando mor  (Rafael Gomes), à integralização do alcance qualitativo como inventário cênico.

Uma atriz, com tal carga de verdade interior, máscara, linha dramática, entrega convicta, capazes, afinal,  de dar sustentação carismática ao papel e de conduzir o espectador a um estado catártico pela surpresa artística da performance.

                                             Wagner Corrêa de Araújo


UM BONDE CHAMADO DESEJO está em cartaz no Teatro XP/Jockey Club/Gávea, sexta e sábado, às 21h; domingo, às 18h. 110 minutos. Até 26 de novembro.

O PORTEIRO: ESPONTÂNEA TEATRALIDADE


FOTOS/JANDERSON PIRES

Cada  um traz dentro de si toda uma vida que gostaria de pôr para fora. Mas a dificuldade é justamente esta: só deixar ver aquilo que é possível e necessário e permitir que desse pouco se reconheça o todo!”

O que uma fala de um dos “Seis Personagens à Procura de um Autor”pode revelar sobre a  pulsão “pirandelliana” que o ator e diretor Alexandre Lino tem estabelecido nas personificações, tanto autorais como atorais, de suas criações dramatúrgicas. Por mais de uma vez, contando,entre outras, com  preciosas parcerias escriturais como a de Daniel Porto ou a presente e inédita de Paulo Fontenelle.

Ora na caracterização de seu nativo comportamental como migrante (Nordestinos ), ora na tipificação de minorias nos embates do processo profissionalizante,  como foi o caso de Domésticas e, agora, em O Porteiro. Ou na concentração em personagens simbióticos da nossa realidade social como fanáticos pregadores evangélicos (O Pastor) ou assumidos patriarcas transexuais ( Lady Christiny).

Na unicidade de uma formatação dramatúrgica que ele titula de “teatro de um homem só”, no desdobramento do seu conceitual estético de cena/documentária, de interativa identificação entre o ator e o espectador, entre a realidade vivencial e o jogo cênico.

Agora, em sua mais recente incursão nos palcos, Alexandre Lino traz de volta um universo que, de uma maneira ou de outra, o aproxima novamente do memorial da consanguinidade familiar e cidadã do agreste pernambucano, através da tipicidade do oficio de porteiro predial no fluxo da grande urbanidade.

Esta figura provinciana que povoa o imaginário das metrópoles, com a visibilidade de seu acolhimento de prevalente afetividade, nem sempre com equivalência pelos que “destratam a gente como se não fosse nada”, tem um particularizado tratamento textual /diretorial de Paulo Fontenelle.

No essencialismo de sua concepção cenográfica, reprodutora do recinto de exercício deste labor diário (mesa, cadeira, telefone, caderno de registros, mais água e café),que Karlla de Luca compartilha com a indumentária/uniforme do personagem.

Onde, numa trama  idealizada como uma reunião de condôminos, luzes vazadas(Renato "Machado) clarificam a plateia que, então, provocada pelo “porteiro/síndico" condutor da assembleia, assume, alterativamente, um papel de contraponto coletivo. Tornando-se, assim, parte dialetal de uma narrativa em primeira pessoa, numa livre experimentação participativa de ultrapasse do contextual meramente cênico.

Se a princípio pareça até bem sugestiva esta dicotomia dramatúrgica /documentária, aos poucos vai se desanuviando a progressão rítmica pela insistência formular , levada a um certo fastio sensorial, na certeza de que não haverá maior diferencial na sequência da linha textual/dramática.

E que só não inibe o resultado criativo pela irrestrita incidência performática de Alexandre Lino dando credibilidade, tanto pelo presencial das modulações da fisicalidade,extensiva à peculiaridade do sotaque vocal, como pela verdade interior que imprime  à sua rompante representação entre o palco e a vida.

                                             Wagner Corrêa de Araújo


O PORTEIRO , depois da temporada no Sesc/Tijuca, faz duas apresentações no Teatro Bangu Shopping, quarta e quinta, 15/16 de novembro, ás 21h. 60 minutos.

DANÇANDO NO ESCURO: UM ILUMINADO ANTI-MUSICAL


FOTOS/ELISA MENDES

Dentro dos parâmetros polêmicos e controversos da estética do movimento Dogma 95, o cineasta Lars von Trier foi mais longe ainda no seu conceitual radicalizado de um anti-musical, através de seu filme Dançando no Escuro.

Nele há uma inversão dos valores lúdico/emotivos que se estabeleceram no clássico gênero hollywoodiano . Em contraponto crítico, aqui, os atores cantando e dançando nunca serão felizes para sempre, numa trama com prevalência da tragicidade que acaba por contaminar todos os seus personagens.

E onde as canções de Björk ,na sutil excentricidade de seus acordes e na melancólica poesia de suas letras, conduz, entre pontuais e não menos sombreados movimentos coreográficos , o brutalizado destino de uma imigrante tcheca em busca do sonho americano.

A versão teatral do americano Patrick Ellsworth preserva , em sua integridade, o caráter soturno do roteiro fílmico original. Seguido à risca , com perceptível carga expressiva e inventiva concepção técnico/artística por Dani Barros, uma reconhecida atriz inicializando-se no oficio diretorial.

Operária de uma fábrica e portadora de um mal ocular degenerativo, a imigrante Selma(Juliane Bodini), excluída de digna condição cidadã, enfrenta todas as adversidades na busca de recursos para que seu filho adolescente Gene( Greg Blanzat) escape a tempo, cirurgicamente, dos avanços de uma doença genética. Mas , acusada do assassinato incidental  do segurança Bill Houston(Lucas Gouvêa) , transforma sua luta em insensata fatalidade.

No entremeio intervencionista de outras personagens femininas, tais como Linda Houston(Júlia Gorman),a mulher de Bill, a colega de fábrica Carmen Baker(Cyria Coentro),a guarda penitenciária Brenda(Suzana Nascimento), além das personificações assumidas por Luiz Antonio Fortes, Andreas Gatto, Marino Rocha.

Onde a potencial organicidade do elenco favorece a representação , capitaneada pelo irradiante e irrepreensível presencial dramático/vocal/coreográfico do protagonismo mor de Juliane Bodini.

Tendo como preciosos  acólitos técnico/artísticos, o inteligente painel cenográfico (Mina Quental) com singularizado sotaque “braille” , paralelo à propriedade dos  tons pasteis da indumentária padronizada(Carol Lobato) e da cinzenta ambientação do desenho de luz (Felício Mafra).

Sem esquecer  da sensorial apropriação sonora com que Marcelo Alonso Neves, via sua afinada trupe instrumental(Allan Bass,Dilson Nascimento, Johnny Capler, Vanderson Pereira), assume as sutilezas harmônicas e os arroubos experimentais das composições de Björk, propiciando o consequente acerto estilístico do gestual coreográfico(Denise Stutz).

Completando, enfim, este propício exagero de derivações qualitativas, o necessário e obrigatório aplauso à artesanal, amadurecida , corajosa e reveladora estreia de Dani Barros na direção teatral.

Dosando, sem artificialismos melodramáticos, o seu tratamento de um musical fora da padronização clássica. Áspero, excêntrico, virulento, sem “happy end”, patético na crua verdade de sua solução final. Dançando no Escuro  com sua  narrativa sombria, mas sabendo iluminar a atual temporada carioca.

                                            Wagner Corrêa de Araújo


DANÇANDO NO ESCURO está em cartaz no Sesc/Ginástico/Centro/RJ, de quinta a sábado, às 19h;domingo ,às 18h. 120 minutos. Até 19 de novembro.

JUSTA: ENTRE O SENADO E O BORDEL, NUM CERTO PAÍS...


FOTOS /ELISA MENDES

Newton Moreno foi uma das boas surpresas da nova dramaturgia brasileira, especialmente com seu lastro nordestino que se refletiu inventivamente na textualidade linguística/teatral de Agreste, As Centenárias e Maria do CaritóE que, nos últimos anos, vem buscando um novo formato e uma nova tematização em suas incursões para o palco, para fugir do peso nativista de suas primeiras obras.

Ora por um conceitual poético/social na abordagem do feminino pelo viés da maternidade no ritualismo cenográfico de Berço de Pedra. Vista, aqui, em bela concepção  de nuances operísticas com direção de William Pereira.

Ora com o olhar armado no frustrante status de uma nação mergulhada no caos político, na crise econômica e na perda de seus valores morais, idealizando uma trama policialesca para Justa, apresentada, agora, na concepção de Carlos Gradim, para a Odeon Cia Teatral.

Classificada pelo autor como “peça-manifesto”, nela um investigador (Rodolfo Vaz) aceita um já popular desafio profissionalizante de referencial oportuno pelos seus meandros de corrupção , lugar comum nas redes virtuais e nas páginas impressas. Aqui metaforizado nas  relações espúrias de senadores e deputados com morte suspeita, a partir de sua habitualidade clientelista do bordel brasiliense “O Colégio”, comandado pela prostituta Justa ( Yara de Novaes).

Com um incisivo aporte cenográfico ( André Cortez) que remete à lembrança de uma bancada jornalística de estúdio, com seus monitores conectados, simultaneamente, em desveladas imagens de conotação erótico/sexual (de órgãos a atos).  Protesto à vergonha de um recessivo quadro social vivenciado em ondas de conservadorismo. Sob efeitos luminares (Telma Fernandes),episódicas intervenções sonoras jazzísticas(Dr.Morris) e figurinos cotidianos(Fabio Namatame).

Onde o contraponto cênico, da personificação masculina(Rodolfo Vaz) com os desdobramentos femininos(Yara de Novaes), acontece em tom explicitamente narrativo de depoimentos policialescos, entre o oficio investigativo e o exercício prostituto. Com uma progressão direta e seca que se expande em cena e envolve o público, especialmente pelo favorecimento e entrega de dois potencializados interpretes.

Mas que malgrado, aos poucos, vai esgotando o sequencial dramático, ora pela insistente linearidade dada aos contornos do personagem investigador, ora pela súbita alteração da intenção crítica e de seu conceitual “manifesto", quando a inflexão textual se atém à relação , quase folhetinesca e melodramática, dele com a prostituta Justa.

Onde, mesmo com o esforço desanuviador e  a autoridade cênica do comando diretorial(Carlos Gradim), não é resolvido o extensivo deslocamento da ação e do desvio no seu dimensionamento psicológico. E que, outrossim, revelam um perceptível desacerto de seu original dramatúrgico.

Capaz de prejudicar o ritmo e diminuir o impacto reflexivo do que é realmente o grande recado do texto e do espetáculo: a denúncia deste mal crônico do vir a ser político,  ético e moral de um país que, cada vez mais, ficando  difícil de amar,  vai tornando fácil a vontade de deixá-lo...

                                              Wagner Corrêa de Araújo


JUSTA está em cartaz no Teatro III do CCBB/Centro/RJ, de quarta a domingo, às 19h. 90 minutos. Até 19 de novembro.

ADUBO: TEATRO RITUAL DA DECOMPOSIÇÃO


FOTOS/GABI CASTRO

Somente os mortos são perceptíveis (para os vivos) obtendo assim, pelo preço mais alto, seu estatuto próprio, sua singularidade, sua silhueta resplandecente, quase como num circo”.

O teatrólogo polonês  Tadeusz Kantor propõe, em seu “Teatro da Morte”, um “ritual de anexação do invisível” como “um procedimento de transcendência”, na  sua comparação da corporeidade do ator à imobilidade de um manequim, objeto vazio, marionete/artifício para uma mensagem da finitude  e da decomposição física.

Referencial que pode conduzir, reflexiva e esteticamente, à proposta coletiva  da textualidade dramatúrgica de Adubo, por Caio Riscado, Tomas Braúne, Juliana Linhares (dublê na direção) e Vinicius Teixeira, com protagonismo solista deste último.

Ainda que a progressão dramática enfrente os desafios de uma escritura alterativa,  ora na perceptível inventividade  de suas soluções  , ora com menor clarificação em instáveis passagens que fragilizam a integralidade da proposta cênico/temática.

Compensada pelo esforço desbravador de seu comando diretorial (Juliana Linhares), onde a complexa especificidade  conceitual , na busca de sua correspondência no palco, alcança maior retorno na construção de uma singularizada performance  do jovem ator, com valoroso aporte gestual de Natasha Jascalevich.

Que, outrossim , é preenchida, irrestritamente,   pela representação corajosa e reveladora de Vinicius Teixeira no seu desdobramento em tríplice personificação dos mecanismos da decadência e do desmonte da fisicalidade carnal (coveiro, açougueiro e morador de rua).

Sabendo explorar, com instintiva pulsão sensorial e verdade interior,  seus recursos psicofísicos. Das suas variadas modulações vocais à  fluência de um jogo corporal rompante e desmistificador.

Por outro lado, o insólito e  o grotesco de uma temática entre a poesia e o pânico, encontram seu contraponto  plástico na ideia cenográfica (Cris de Lamare),na adequação de sua detonada indumentária(Karina Sato),nas soturnas marcações luminares (Paulo Cesar Medeiros) e nas sutilezas de uma trilha sonora não invasiva(Beto Lemos).

Remetendo a paisagens fúnebres com o uso de terra, arbustos  e uma árvore/tumular, dando possível visibilidade ao projeto artístico/ecológico Capsula Mundi (dos designers  italianos Anna Citelli e Raoul Bretzel) pela prevalente transformação dos despojos cemiteriais  em capsulares adubos para o reflorestamento.

Adubo não deixa de ser, ainda, um espetáculo sintonizado na contemporaneidade , experimental e provocativo  por sua intuitiva aproximação estética do “teatro da morte” de T. Kantor, no seu  ceticismo cruel  e na sua ironia sarcástica de happening da terminalidade dos transes humanos.
                                                
                                              Wagner Corrêa de Araújo


ADUBO volta, em nova temporada, na Sede das Cias/Lapa/RJ, de sexta a segunda, às 20hs. 50 minutos. De 10 a 20 de novembro.

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