A OUTRA CASA : NADA COMO PARECE SER

FOTOS/GUIDO ARGEL

Há um referencial metafórico, de base psicanalítica ou pirandelliana, nas alucinações confessionais de uma mente  feminina, fazendo com que sua súbita fantasia do inconsciente se transfira do personagem para o espectador. Quase  como um enigma a ser decifrado, no enredo dramatúrgico do norte americano Sharr White, A Outra Casa.

Estes confusos pensamentos  que atormentam uma renomada neurologista começam a ser delineados durante uma palestra. E é quando Juliana Smithton( Helena Varvaki) experimenta uma espécie de confronto entre o que está acontecendo no presente e a lembrança onírica de fatos do passado.

Aos poucos , vão se delineando os personagens/ habitantes deste seu mundo interior, no espelhamento conturbado de suas vivências cotidianas, num processo mental de disparidade entre o que ela imagina e o que é visto .

Ora através do seu marido Ian( Alexandre Dantas) que, no comportamento compreensivo, envolve sensorialmente  a mulher, alcançando a percepção do público por seu factível esforço em favor dela.

Enquanto , como atriz, Gabriela Munhoz se divide entre três papéis, da médica que atende Juliana  à  filha que ela julga ter reencontrado mas que, simultaneamente, pode ser apenas uma inexplicável visão de uma mulher desconhecida.

Com menor interferência na trama, Daniel Orlean tem brevíssima fala em suas entradas meramente gestuais , mas sem uma clarificada função performática .

O enérgico comando estético de Manoel Prazeres tem sua essência em inteligentes  códigos de minimalismo cênico. Capazes de levar à  maior concentração numa reflexiva linguagem narrativa, de dúvidas e questionamentos, de verdades e delírios, no tempo da memória e do esquecimento.

Ora através de uma pontual iluminação( Renato Machado) ora pela adequação de figurinos(Leticia Ponzi), para o necessário alcance desta  sintética arquitetura cênica(Doris Rollemberg). Destaque–se também sua trilha, com nostálgico leitmotiv hollywoodiano anos 50(Rick Yates/Renato Alscher).

Densidade emocional, convicção e comovente  busca introspectiva marcam a entrega ao personagem por Helena Varvaki. Mas há visível desenvoltura no tríplice desdobramento como intérprete de Gabriela Munhoz e sincera intensidade em Alexandre Dantas.

Com seu ritmo de thriller psicológico,  A  Outra Casa tem um singular discurso ideológico, além da auto referencia de conflito e melancolia de seu personagem mor, constituindo-se ainda em exemplar realização da  atual temporada teatral carioca.

                                               Wagner Corrêa de Araújo


 
  A OUTRA CASA , em nova temporada, no Teatro Café Pequeno/Leblon, de sexta a domingo, 20h. 90 minutos. Até 02  de abril.

MEU PASSADO ME CONDENA: PARA RIR DE SI MESMO

FOTOS/ JOÃO CALDAS

O humor televisivo vem se transmutando na sua expansão por outras mídias, das redes virtuais ao cinema, passando ainda pela cena teatral.

Meu Passado Me Condena é um exemplar aprimorado  deste fenômeno  que tem atingido as massas, em inéditas proporções. Do programa televisivo chegou ao cinema em duas sequências, mantendo o seu  título original. E, finalmente, os palcos , sempre com a roteirização de Tati Bernardi.

A trama , ao espelhar uma banal situação cotidiana, atinge sua principal intenção – diversão para quem gosta do gênero. Ultrapassando a sua superficialidade com uma envolvente exploração do lado engraçado dos fatos.

Depois de se conhecerem numa fila de banheiro, os personagens, que aqui mantem os nomes próprios dos atores ( Fábio Porchat/ Miá Mello), casam-se um mês depois. Na noite das núpcias, no quitinete de Copacabana, discutem sobre os prós e contras da sua nova trajetória existencial.

Lembrando fatos pessoais, entre atritos e cumplicidade, revelam verdades encobertas, disputam seus egos, confrontam  gostos e identidades, numa irônica  e risível desconstrução das ilusões românticas.

Onde o grande mérito está na naturalidade com que assumem um tempo claro de comédia, sem se deixarem apropriar  pelo exacerbado histrionismo. O que, de imediato,cria empatia com o público capaz ,assim, de se identificar com estes personagens , rindo de si mesmo.

O texto , construído com um linguajar do dia a dia - informal, simplificado, direto, vai hipnotizando cada espectador que, assim,compartilha com a precisão do jogo lúdico desenvolvido.

E mesmo com a previsibilidade da maioria das situações, o caráter de comédia inconsequente é compensado  pelo carisma, espontaneidade e  energia dos dois atores. Que , no seu absoluto domínio da gestualidade, são capazes de criativos improvisos e achados, sem jamais perderem a veia da comicidade.

Com ocasionais oscilações no alcance das  projeções vocais de Fábio Porchat que, felizmente, é transcendida pela química operada por sua presença física, reiterativa do reflexo de  sua popularidade na tv, cinema e internet.

A concepção cenográfica (Aurora de Campos), singularizada na ocupação plena pelas enormes caixas de presentes, não permite maiores vazões para as luzes (Tomás Ribas). Tendo funcionalidade os figurinos (Juli Videla)e, com menor incidência ,a trilha sonora (Marcelo Alonso Neves).

Inez Viana , na  direção,  transpõe a segurança de ser, também,atriz na série e nos filmes. Instalando, com sua  habitual competência e espírito crítico, a magia necessária a um eficaz momento do humor teatral.





MEU PASSADO ME CONDENA está em cartaz no Teatro das Artes, Gávea, sexta e sábado, 21h;domingo, 20h.  70 minutos . Até 27 de novembro.
     

DOROTÉIA : UMA TRÁGICA VOLÚPIA

FOTOS/CAROL BEIRIZ

Integrando o ciclo dos “textos míticos” , ao lado de Álbum de Família, Anjo Negro e Senhora dos Afogados, esta “farsa irresponsável” – Dorotéia (1950)– é uma das  peças de maior carga psicanalítica na obra de Nélson Rodrigues.

Ao mesmo tempo que impactou o exacerbado moralismo religioso e comportamental de seu tempo, fascinou os estudiosos por seu conceitual de proximidade com a teoria freudiana das sublimações sexuais.

Dorotéia (Letícia Spiller) retorna à casa de suas primas/viúvas , disposta a redimir-se de sua trajetória de prostituta. Mas enfrenta a resistência conservadora de Maura (Alexia Dechamps) e Carmelita(Jacqueline Farias), comandadas pela mão sufocante de Dona Flávia ( Rosamaria Murtinho).

Nas três irmãs/beatas está presente a pulsão erótica,  reprimida pela “náusea” diante do amor e da presença do homem . Cuja nudez, ocultada por uma imaginária deficiência visual, é transferida  à simbologia fálica de uma bota. 

Acreditando, sempre, que "ser bonita é pecado " e  que "toda beleza precisa ser destruída", como a de Dorotéia. "Nunca dormimos, velamos sempre”,  numa casa composta só de salas –“porque é no quarto que a carne e a alma se perdem”.

Estas grotescas guardiãs da castidade arrastam , há décadas, a insólita proibição da sexualidade, como herança da noite nupcial , com a “náusea” primeira , de sua bisavó. Interferem ainda na trama, os personagens  de Maria das Dores( Anna Machado) ,a filha semimorta (e sem pecado) de Dona Flávia, e  sua sogra Dona Assunta(Dida Camero).

A performance masculina é simbolizada pelos “homens jarro”, assim nomeados num eufemismo metafórico do corpo feminino , como um vaso que oculta  o pecado. Aqui, introduzidos como menestréis/instrumentistas(André Américo,Daniel Martins,Du Machado,Fernando Gajo,Pablo Vares,Rafael Kalil), sob a envolvente direção musical de João Paulo Mendonça.

A arrojada estética de  encenação do diretor Jorge Farjalla ritualiza,na sua proximidade com a plateia, um clima  onírico/coletivo de imaginário gótico  e grandiloquência operística.

Entre gigantescos troncos de árvores de uma espectral floresta negra( José Dias),na ancestralidade dos figurinos envelhecidos em tons ocres ( Lulu Areal)  e de  luzes entre sombras(Patrícia Ferraz).

O elenco revela um convicto desempenho, com ocasionais oscilações de  projeção vocal,  dificultada pela acústica do espaço. Enquanto Alexia Deschamps, Jacqueline Farias, Anna Machado, Dida Camerano integram um quarteto de credibilidade e força, Letícia Spiller tem uma privilegiada intensidade emotiva e uma bela execução física.


Mas é Rosamaria  Murtinho que  opera uma rara transfiguração no palco,  pela veemência dramática assumida e pela densidade psicológica alcançada.  Capaz, assim , de  reiterar   sua culminante elaboração vocal até o epílogo , com patético cinismo e trágica virulência: 

Vamos apodrecer juntas”...


DOROTÉIA,em nova temporada, no Sesc/Copacabana/Arena, sexta e sábado,às 20h30m; domingo, às 19h. 90 minutos. Até 19 de fevereiro.



COMO ME TORNEI ESTÚPIDO: OU COMO SER UM INTELECTUAL IGNORANTE

FOTOS/DESIRÉE DO VALLE

Já vem de longe a narrativa literária com personagens cuja opção existencial é a da negação das verdades absolutas que norteiam o comportamento da condição humana.

O “Cândido” , de Voltaire, prefere assumir a postura de filósofo ignorante questionando o otimismo ou adotando o maniqueísmo. Enquanto  Dostoievsky leva seu “Idiota” à desistência de ser um humanista, diante do não altruísmo de seus contemporâneos.

Inspirada no livro de Martin Page, Como Me Tornei Estúpido ,  a peça homônima reencontra , através de seu protagonista, a renúncia à sabedoria pela fruição das coisas inúteis, no confronto com os  desajustes e as inversões de nosso tempo.

Antonio ( Alexandre Barros) decide, perante  seus amigos( Gustavo Wabner, Marino Rocha e Rodrigo Fagundes), que o melhor caminho para a felicidade  é não saber nada, abstraindo-se , como um tolo, de  tudo que está à sua volta.

Nesta sua busca alternativa da ignorância, ele acredita que o perfeito equilíbrio mental possa estar na alienação total de sua intelectualidade , seja através do alcoolismo, seja pela morte ensaiada, ou até pela lobotomia .

A inteligente adaptação dramatúrgica de Pedro Kosovsky manteve intacto o sotaque crítico do texto original. Acrescido de um oportuno referencial, de refinada risibilidade,   às nossas bestialidades políticas , ambiguidades  comportamentais e até ao mau gosto artístico.

Desde a campanha do mundo fashion , “Be Stupid”, a lideranças farsistas (Bolsonaro), criatividade equivocada( Romero de Brito ), clinicas mágicas, intolerâncias , futilidades midiáticas.

Com um toque equilibrado de sarcasmo e transgressão caricatural, na enérgica marcação da linguagem direcional  de Sérgio Módena.

Completada, da concepção dos figurinos(Flávio Souza) à mobilidade cenográfica (Sérgio Módena/ Carlos Augusto Campos), no imaginário de livros e estantes.
Sob luzes apropriadamente coloquiais( Fernanda/Tiago Mantovani), com o habitual apelo das incidências musicais de Marcelo Alonso Neves.

A agilidade e o improviso na alternância de personagens do trio de atores ( Gustavo Wabner/Marino Rocha/Rodrigo Fagundes) revela um coeso e ideal domínio da comicidade. 
Enquanto o protagonismo de Alexandre Barros se apoia na adesão sincera ao papel , no seu rigoroso alcance de um  traço farsesco entre o desespero e o absurdo.

Na insanidade, na  suspeição, na dubiedade , na perigosa estupidez dos dias que estamos vivendo no Brasil de agora, torna-se obrigatório conferir Como Me Tornei Estúpido.
Ainda que a desilusão e a desesperança, nos façam repetir, perplexos, com Voltaire:

“Não sei bem como penso.
Nem como vivo. Nem como sinto. Nem como existo”.


COMO ME TORNEI ESTÚPIDO está em cartaz no Teatro Sesc/Ginástico, Centro RJ, de quinta a sábado, 19h; domingo, às 18h. 90 minutos. Até 27 de março.



FATAL: TRÍPTICO DO AMOR MITIFICADO

FOTOS /ZÔ GUIMARÃES


Eu sou Amor, o grande mestre dos deuses/ Sou aquele que faz mover os céus/ Sou aquele que governa o mundo”.

A palavra poética de Pierre Ronsard  pode ser um referencial simbológico, para uma proposta dramatúrgica inventiva abordando o amor e o mito ,nos três segmentos  de Fatal, sob a direção de Guilherme Leme Garcia.

Três casais historicamente míticos e lendários – Eros e Psiquê, Kama e Rati, Tristão e Isolda. Em textos respectivamente assinados por Pedro Kosovski, Jô Bilac e Márcia Zanelatto , numa retomada cênica com outros olhares e inusitadas perspectivas ,mas conservando a verdade intrínseca de seus arquétipos pilares.

Através do enfoque destas paixões imortais, o reencontro do amor humano vencendo o efêmero ao alcançar o privilégio dos breves momentos de eternidade neste diálogo do prazer.

Com sua tragicidade, “Fatal” ,  conduz à morte  que tudo vence. Mas  transcendendo este estado infernal  em êxtase paradisíaco dos sentidos.

Numa concepção de ajuste artístico minimalista  com dois exponenciais atores (Debora Lamm e Paulo Verlings) em singularizada postura meditativa, sob as incidências da reflexiva trilha sonora(Marcello H).

Numa recatada mas sacralizada arquitetura cênica , na envolvência estética da instalação cenográfica(Aurora dos Campos) , do  desenho onírico das luzes( Tomás Ribas) à adequação dos figurinos(Marcelo Olinto).

Com os atores priorizando o domínio da palavra pura, numa linguagem subjetiva que transcende, transmuta, transborda,  em sensibilizada leitura dramática. Entre os olhares fixos e a meticulosa gestualização das mãos, numa quase total imobilidade física, a interativa transmigração,  palco/plateia, de uma energia sexual espiritualizada.

Pedro Kosovski, em Monstros – Poema em Drama Para Duas Vozes e Muitos Corpos , traz a união mitológica de Eros e Psiquê à contemporaneidade sensualizada de um dark room. Substitutiva perspectiva do milenar encontro  de dois corpos nos mistérios divinais da obscuridade celestial.

Márcia Zanelatto faz transparecer ,com naturalismo poético, a paixão suicida de Tristão e Isolda numa narrativa , de passionalidade e arrebatamento,  ora crítica, ora  lírica,  da ancestralidade céltica ao formato peep show.

Da mística hinduísta, Jô Bilac,  em Kama-Sutra Secreto, atualiza a ambiência de  sonho , vigília e sacralidade nos laços eróticos do deus Kama ( Amor), condenado a assistir ao fim do desejo humano, junto à  sua atormentada parceira Rati( Paixão).

Os códigos de cena de   Fatal , idealizados e assumidos  por Guilherme Leme Garcia , realizam, com alto virtuosismo, um teatro de introspecção.

Desembarcando   simbólicos significados  e raras sutilezas das zonas secretas e intermediárias do pensar erotizado , numa sincera e explícita  adesão ao universo enigmático das paixões míticas.



FATAL está em cartaz no Oi Futuro Flamengo, de quinta a domingo às 20h. 60 minutos. Até 10 de abril.
NOVA TEMPORADA: Teatro Glaúcio Gil. Copacabana, sábado a segunda, às 20h. Até 15 de agosto.

33 VARIAÇÕES: OBSESSIVA NOTAÇÃO MUSICAL



FOTOS /AIRTON SILVA

Um mesmo tema em formas diferentes – o sentido conceitual da “variação” no universo musical vem desde os cânticos sacros medievos .

Na sua trajetória histórica, estas reformulações temáticas numa mesma composição notabilizaram,  inúmeras obras de  Bach, Mozart, Beethoven, Brahms, Rachmaninov, Britten, entre muitas outras. E até do hino nacional brasileiro na Fantasia do norte-americano Louis Gottschalk .

Das mais surpreendentes,  foi a de Beethoven que, a partir de 45 segundos de uma medíocre  valsa do editor austríaco Anton Diabelli ,criou 33 variações numa obra prima de 45 minutos .

Quando o venezuelano Moisés Kaufman escreveu sua peça 33 Variações deu-lhe um peculiar referencial contemporâneo – “Seria como se Philip Glass tivesse encontrado uma canção de Britney Spears e decidisse passar os próximos quatro anos de sua vida estudando e fazendo variações sobre ela”.

Na sua concepção dramatúrgica, ele busca uma exploração  cênica em 33 módulos guiados pelo teor histórico, musical e dramático, confrontando épocas numa transcendência estética/metafísica.

Uma musicóloga Katherine Brandt ( Nathalia Timberg), fragilizada por uma progressiva doença terminal, desafia a temporalidade e a finitude com sua obsessiva pesquisa monográfica sobre as razões que levaram Beethoven( Wolf Maya) a dedicar quatro anos, de uma fase existencial atormentada,  à banalidade de uma valsa.

Ainda que conflitue com sua filha (Flavia Pucci),que considera tão medíocre quanto Diabelli(Tadeu Aguiar), discorde do médico/enfermeiro( Gil Coelho), Brandt desafia-os , partindo para Bonn, pelo aprimoramento de sua pesquisa com uma bibliotecária/arquivista ( Lu Grimaldi).

O carregado dimensionamento realístico da cenografia(J.C.Cerroni) revela, ainda assim,  apelo visual na precisão das luzes (Aurélio de Simoni) e na  adequação dos figurinos(Tatiana Rodrigues).Ao lado da irrepreensível interpretação pianística , ao vivo, de Clara Sverner.

Há convicção e teatralidade na performance de época de Tadeu Aguiar, com exacerbada ironização em Wolf Maya e Gustavo Engracia( o assistente de Beethoven). Como são convincentes e afinadas as intervenções de Lu Grimaldi, Flavia Pucci e Gil Coelho.

Mas é na exponencial situação dramática ,entre climas emotivos , subentendidos interiorizados, domínio físico, brilhante vocalização, via Nathalia Timberg, que se encontra  a singularizada passionalidade da montagem.

Onde ,enfim, mesmo o refinado modo do pensar cênico,na meticulosa e  ágil direção de Wolf Maya, não logra o alcance necessário e a adesão sincera a uma abordagem temática de traços  acadêmicos e sotaque cerebralizado em torno do alfabeto musical.


33 VARIAÇÕES está em cartaz no Theatro Nathalia Timberg,Barra,sexta e sábado, às 21h; domingo, às 19h. 120 minutos. Até 10 de abril.

ALICE MANDOU UM BEIJO : DEIXE-ME PARTIR

FOTOS/RENATO MANGOLIN

Uma morte que conduz a um estranho processo de conflito e  culpa para os que ficam mas , ao mesmo tempo,atua  como uma perda necessária para um acerto de contas na ambiência doméstica.

Ou um questionamento do passado para uma reavaliação  do presente. Este é o fio condutor da mais nova criação dramatúrgica de Rodrigo Portella – Alice Mandou um Beijo, continuando sua reveladora trajetória autoral, depois  de Uma História Oficial e, especialmente, Antes da Chuva.

Neste álbum de família,  os retratos são de um patriarca  -o Sr. Araújo (José Eduardo Arcuri) ensimesmado em sua surdez e nos pesares após a perda da filha mais jovem, Alice. Que deixa viúvo, o inseguro Osvaldo( Tairone Vale).

Completando os  flashes fotograficos  , as irmãs da morta,  a primogênita Oneide (Vivian Sobrino), única capaz de  vôos libertários ,opondo-se à sufocante acomodação da  irmã Jandira( Bruna Portella),na sua obsessiva relação com um filho autista Robério( Luan Vieira).

Controvertido clã, em que a ausência de um deles, transforma um baú de lembranças, aparentemente felizes,  em perigosa cobrança, capaz de coloca-los à beira de um abismo de angustiante  melancolia e árida inquietação. 

Num perigoso duelo de times, afetivos pelos laços parentais , mas de arriscados ataques e defesas, onde os jogadores , em sua falta de perspectiva vão sendo derrotados pela persistência , de anseio anárquico e libertino, da independente Oneide.

O seguro comando mor de Rodrigo Portella não escorrega nos  clichês do melodramático numa temática de traços quase novelescos .No confronto  de tramas paralelas ,às vezes reiterativo demais  nas suas  idas e voltas , demonstrando, sempre, alquimia inventiva em sua disciplinada direção.

Com um elenco coeso e caloroso ,acontece uma sincera adesão aos personagens ,  nos silêncios de  Eduardo Arcuri, nos consentimentos de Bruna Portella,nos recalques de Tairone Valle, na irônica malícia de Vivian Sobrino e na irrepreensível interiorização de  Luan Vieira.

Conjugando-se a estética teatral,  ainda,   desde o   adequado desenho de luz (Renato Machado) à  sutileza dos figurinos(Danielle Geammal),  no preencher o vazio das roupas da morta com o corpo dos atores. E, enfim, o cenário(Raymundo Pesine), de ancestralidade metafórica, com    grandes armários escondendo  insólitos segredos.


No  cotidiano de nossas casas, entre desejos e temores, claridades e sombras, sentimos, amamos, ficamos ou partimos, vivendo ou morrendo.

E foi assim que  Alice Mandou um Beijo , através da incrível  Cia. Cortejo , para reflexionarmos,compartilhando a palavra confessional de Rodrigo Portella, sobre as contradições da condição humana.



Alice Mandou um Beijo está em cartaz, em nova temporada,no Teatro Gláucio Gil, Copacabana, de sexta a segunda, 20h. 70 minutos. Até 17 de outubro.

FOCUS CIA. DE DANÇA: ANATOMIA ESTÉTICA DO MOVIMENTO

VÉRTICE  / FOTOS /PAULA KOSSATZ
  
Há exatamente quinze anos o processo coreográfico brasileiro vem compartilhando o deleite estético  , entre a expressividade e a técnica, de uma das mais inventivas cias do país – a Focus , sob o comando  de Alex Neoral.

Bailarino e coreógrafo, sua trajetória profissional se solidificou numa identidade própria, após sua passagem por significativos núcleos de dança contemporânea, como o Grupo Tápias(Giselle Tapias) e as Cias Nós da Dança(Regina Sauer), Vacilou Dançou(Carlota Portella) e Deborah Colker.

Quando finalmente ,após  estabelecer seu próprio grupo, estreou em 2000 , com Vértice - o espetáculo  inicial, já era um nome respeitado por suas inúmeras incursões em mostras, festivais e diversificadas colaborações.

Na presente retomada de seus trabalhos originais, em temporada por vários palcos cariocas, entre  eles o teatro Cacilda Becker , como o primeiro ponto de partida da Focus Cia. de Dança, vale ressaltar aqui o caráter personalista e impulsionador já imanente nesta fase da revelação coreográfica de Alex Neoral.

O desenho coreográfico das quatro peças integrantes do espetáculo Vértice é , ao mesmo tempo, cerebral e imaginativo, ao constatar o movimento, além dos meros impulsos mecanicistas do gestual humano.

Ressaltando também as enérgicas potencialidades das relações corporais dos bailarinos com o espaço teatral. Sem jamais deixar de lado, na meticulosa exploração plástica de mãos, braços, ombros , troncos,  pernas e pés, uma sensível  construção subjetiva dos sete bailarinos, tanto em Nada Além de Um , como em Trajeto.

Esta sensorialidade aparece ainda, de forma mais individualizada,na transmutação da fisicalidade, entre dois bailarinos (Alex Neoral/Clarice Silva) , em perceptível dialogo corporal/reflexivo do duo com o mundo ao redor, representado pela plateia ( em Inter-cessão ).

Numa alteridade deste jogo coreográfico, eficazes recortes em torno de dissonantes contorções corporais subvertem, humoristicamente, tanto as posturas quanto  a expressividade facial,na obra “Por Partes”.

Enquanto, Quase Uma, no quase referencial ao pensar filosófico de G. Bachelard( Não se encontra o espaço, é sempre necessário construí-lo) duela , entre o determinismo sincrônico e as demarcações externas, na busca  do movimento reinventado ,além das dimensões de  tempo e lugar.

Nesta merecida programação comemorativa, a singularidade criativa e o exponencial techné ( fazer artístico) de  seus superlativos bailarinos(Carol Pires, Clarice Silva, Cosme Gregory, Felipe Padilha, Gabriela Leite, Marcio Jahú, Mônica Burity ,mais Alex Neoral/ dublé de coreógrafo/diretor).

Incluída a contribuição luminosa de Binho Schaefer e  os adequados figurinos (Jacira Garcias),tudo sob  uma transcendente trilha minimalista(Philip Glass/ Meredith Monk),pop(Bjork/Dead Can Dance, Apocalyptica),barroca(Bach), contemporânea ( Kronus Quartet ),via Alex Neoral. 

Fazendo, assim,  com que a Focus Cia de Dança continue, sempre,  seu relevante papel descortinador, na arte coreográfica brasileira e no além mar.


 
   A FOCUS CIA. DE DANÇA está em cartaz no Teatro Cacilda Becker, Catete, de quinta a sábado, às 20h; domingo, às 19h.
   Até o dia 13 de março.

O CAPOTE: RISO ENTRE LÁGRIMAS



A obra ficcional de Nikolai Gógol(1809/1852), natural da Ucrânia, tem uma singularidade tão grande a ponto de Dostoievsky afirmar -  “Todos nós saímos de O Capote“.

Personalidade conturbada pelos  recalques e pela postura ensimesmada, o escritor   aprendeu, como auto defesa psicológica , a usar do riso sarcástico para ironizar a vida, o meio social e a moral de seus contemporâneos.

Seus personagens são melancólicos títeres na mão do destino, assumindo um comportamento bizarro diante das frustrações e complexos que marcam seus cotidianos sem perspectiva.

No Diário de um Louco, a servil condição de um empregado fá-lo sentir-se um  rei no hospício, enquanto em O Nariz e O Capote existe o  escárnio por trás do jogo das aparências. O primeiro homem acorda, assustado, sem o órgão nasal, enquanto o simplório funcionário Akáki esconde-se atrás de um capote, adquirido com tamanhas privações que o levam à morte.

Embora  estes três textos sejam absolutamente literários , se notabilizaram nos palcos, ora em monólogos , ora em forma de ópera ( O Nariz, de Shostakovich). Ao lado do único original de Gógol para os palcos ( a popular comédia , O Inspetor Geral).

É exatamente este universalismo ao caracterizar a condição humana em seus mais ácidos baixios que faz de O Capote , um clássico atemporal. A opressiva mediocridade da ambiência burocrática continua a mesma, seja na czarista São Petersburgo, seja em nossa capital federal.

A adaptação   por  Drauzio Varella, em seu formato de solilóquio, procurou manter a força interiorizada do texto inicial. O que foi subvertido, como uma opção dramatúrgica diferenciada por Cássio Pires, dividindo as vozes do personagem mor Akaki(Rodolfo Vaz), com dois interlocutores/ narradores (Marcelo Villas Boas/Rodrigo Fregnan).

Mesmo com o risco de perda da identificação confessional no amargo discurso ideológico do protagonista, a montagem ganha pela inventividade na perceptível experimentação cênica sob o comando de Yara de Novaes.

Através de uma claustrofóbica arquitetura cenográfica (André Cortez), com sombrias luzes(Bruno Cerezoli) e espectrais projeções (Rogério Velloso), sob os metafóricos acordes sonoros( Dr. Morris) ao vivo , pelo teclado de Sarah Assis.

Onde o absurdo e o humor negro no retrato de um anti-herói são atingidos , exponencialmente, na meticulosa performance de Rodolfo Vaz. Apesar do desvio exteriorizado, em detrimento  da nuance subjetiva, pelos  dois narradores , há compensação na irreverente energia de Rodrigo Fregnan e Marcelo Villas Boas.


Tudo capaz,  afinal ,  de tornar-se ,  na dissecação da pequenez da alma humana, um fulgurante ato teatral  de transfiguração reflexiva do riso entre lágrimas.

    
   O CAPOTE está em cartaz no Teatro I do CCBB, Centro do Rio, quarta a domingo,      às 19h. 70 minutos. Até 13 de março.

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