AÍDA SEGUNDO BIA LESSA : SOB O CONFLITO ENTRE A TRADIÇÃO E A MODERNIDADE

Aída, ópera sob concepção cênica/diretorial de Bia Lessa. Temporada 2022. TMSP. Fotos/Stig de Lavor.

 

A primeira grande produção de ópera em moldes brasileiros, pós interregno de um biênio à causa do surto pandêmico, é Aída, segundo a concepção diretorial de Bia Lessa, para o TMSP. O que remete à questão das montagens de ópera no Brasil, cada vez mais raras e não ultrapassando no caso paulista, divididas entre o Municipal e o Teatro São Pedro, um alcance, em média,  de dez produções anuais, considerando-se os dois palcos.

E também não deixa de ser um mérito em relação, por exemplo, ao Municipal do Rio. Decididamente melhor em temporadas ancestrais e que teve ainda a feliz ousadia, na direção artística de João Guilherme Ripper, de iniciar um projeto de coproduções com o similar teatro paulista. Solução com perspectivas para, além da divisão de custos, de dar ao público mais opções de óperas a serem vistas em cidades diferentes.

A interrupção do projeto mostra como, aqui, os caminhos e soluções para este carente gênero cênico/musical continuam cada  vez mais intransponíveis. Lembrando este fato a propósito da polemizada espécie de releitura de uma ópera básica do repertório tradicional – a Aída em cartaz no TMSP

Ao contrario dos palcos de ópera europeus e americanos, com suas temporadas longas e com dezenas de títulos, entre montagens rigorosamente presas à tradição ou aquelas, sob configuração de livres retomadas, com o olhar armado na contemporaneidade. Direcionando o gosto diversificado do espectador, ora por gregos, ora pelos troianos...O que não é favorecido, no caso brasileiro, ao optar na raridade de suas temporadas, por investir em qualquer prevalência seja de uma tendência ou outra, especialmente quando se aventura por certas óperas de repertório que dificilmente resistem a uma releitura mais ousada.

Como no presente caso, numa transgressiva visão da guerra, além do Egito Antigo, com suas relações de poder e submissão, potencializadas no momento culminante da ópera - a Marcha Triunfal do Ato II. Onde a tradição coreográfica do balé  se limitou a uma inspirada e sensual dança das sacerdotisas e escravas seminuas, sequenciada por alusões à violência, estupros e morte, integralizando uma provocação sem atenuantes dos horrores de uma batalha sanguinária.


Aída, ópera verdiana na releitura de Bia Lessa. TMSP. Junho de 2022. Fotos/Stig de Lavor.


Aída é dessas óperas cujas adaptações radicalizadas constituem um verdadeiro desafio por seu contextual historicista arcaizante e, raramente, sendo assumidas como êxito de público ou de crítica. Vejam-se casos recentes de uma Aída na Ópera de Paris, em novembro último, transpondo seu enredo para 1871, data em se inaugurava o Canal de Suez e, na nova Casa de Ópera do Cairo, estreava a criação de Verdi, como encomenda especial para a ocasião.

Priorizando a trama com enfoques políticos da época, onde Radamés é sugestionado como Napoleão e sua pulsão por conquistas colonialistas. Sendo os personagens egípcios meras marionetes gigantes, manipuladas em cena, e a voz correspondente dos cantores soando quase como um playback. Com rejeição absoluta do público e da crítica e retirada de cartaz em curto tempo.

A versão cênico/diretorial de Bia Lessa não se ateve ao rigor da tradição mas, ao mesmo tempo, ficou no meio do caminho sem grandes avanços inventivos. Onde a estética cenográfica, com incidentais referencias inspiradas em pinturas tumulares e hieróglifos, pouco funcionou com suas caixas/mobiles, fissurando toda monumentalidade faraônica a que esta ópera induz.

Além de um figurino atemporal (Sylvie Leblanc/Maira Himmesltein) revelando algumas caracterizações bem equivocadas. E mesmo os efeitos luminares de um craque da iluminação coreográfica (Paulo Pederneiras) acabaram funcionando mais nas cenas de luz entre sombras, talvez pelo disfarce do deficitário visual da caixa cênica.

Sendo a parte musical superior, não só pela energizada e digna condução da Orquestra Sinfônica Municipal por seu regente titular (Roberto Minczuck). Pelo que enfrentou em substituições emergenciais, incluído o Coro Lírico, com pelo menos 16 abstenções, na incidência de crescentes contaminações pandêmicas.

Basta dizer que, na segunda récita, no sábado 03/06, o Radamés do tenor Paulo Mandarino, recém saído de uma má recuperação pós Covid, teve sua atuação prejudicada e às pressas, a partir do ato seguinte, entrou no seu lugar o integrante do coro conhecido por Marcelo Vanucci. Cujo desempenho cênico revelou maior firmeza, clareza e extensão vocal, destacando-se melhor, no naipe masculino, que a discricionária e hierática interpretação do barítono Douglas Hahn, como Amonasro.

Enquanto a Amneris da meio-soprano Andreia Souza foi significante por seus dotes vocais, sem o alcance absoluto das cores sonoras como marcas presenciais de seu personagem. O que ficou para o protagonismo titular de Marly Montoni, não só pela riqueza de sua tessitura e de seus timbres puros, como por sua convincente e sensorial performance como atriz e soprano dramático.


                                        Wagner Corrêa de Araújo


Aída.Cenas da Marcha Triunfal onde Bia Lessa ousou mais e criou polêmica.Fotos/Stig de Lavor.

Aída, de Verdi, por Bia Lessa, está em cartaz no Teatro Municipal de São Paulo, em horários diversos, com dois elencos, de 2 de junho sexta-feira a domingo, 11 /06.



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