MISERY : UMA TEMPORADA NO INFERNO EM COMPASSO DE THRILLER TEATRAL

Misery. Direção Eric Lenate. Mel Lisboa e Marcello Airoldi. Abril 2022. Foto/Leekyung Kim.

O desafio de escrever um romance em clima claustrofóbico de terror psicológico, tendo como emblemático referencial o processo de criação da escrita literária numa temporada no inferno.

Estas são as linhas básicas do livro de Stephen KingMisery, de 1987, e que já rendeu uma versão cinematográfica, um espetáculo da Broadway e montagens teatrais como esta, a mais recente, na concepção diretora de Eric Lenate.

A partir de um acidente automobilístico sofrido por um escritor numa região sob duros rigores invernais, este volta a si na casa de uma enfermeira das vizinhanças - Annie Wilkes por Mel Lisboa - em personificação dúplice como uma fã alucinada pelas narrativas ficcionais sequenciadas em torno de uma personagem feminina denominada Misery.

E que a torna revoltada pela última edição da série, sendo esta incapaz de admitir a sua exclusão definitiva de seguir no protagonismo na trama, por previsível morte. Gerando um clima misto de admiração e repulsa, além do  terrorismo psicofísico que ela passa a exercer sobre o responsável por isto - o escritor enfermo Paul Sheldon (Marcello Airoldi).

Imobilizado por fraturas no ombro e nas pernas, dependente de analgésicos e, ainda, mergulhado nas transições emotivas da enfermeira, que de admiradora passional chega a estágios de obsessão psicótica. Capaz inclusive de influir, coercitivamente, no desenvolvimento de um novo manuscrito de Paul Sheldon para resgatar, com a volta à vida, a personagem feminina excluída em tempo  terminal.

Onde os dois  atores - o escritor acamado e a enfermeira, se digladiam nos três ambientes de um cenário circular, mobilizado por quatro ágeis contrarregras visíveis em cena. Com um subliminar referencial da produção da Broadway, idealizado com extrema funcionalidade, incluídos os elementos naturalistas que compõe um decorativo quadro paisagístico por Eric Lenate, ao lado de figurinos caracteristicamente cotidianos (Carol Badra/Leopoldo Pacheco).

Extensivo no uso de interferências sonoras/visuais (relâmpagos e trovões) e na trilha sonora (L. P. Daniel) com capacidade de ampliar, nos acordes e temas musicais em andamento de leitmotiv, a sensação de suspense provocada pelas bruscas mutações sensoriais do enredo. O que aproxima muito a proposta de um teatro cinético, presencial substancialmente nos efeitos luminares (Aline Santini), numa quase peça/filme de suspense mas sem jamais abstrair a prevalência dos recursos dramatúrgicos.

Surgindo inesperadamente um terceiro personagem – o xerife Buster (por Alexandre Galindo), mergulhado nas investigações sobre o desaparecimento do escritor. Sutil, misterioso, intrigante em suas poucas palavras e gestos contidos quando se depara¸ no lado externo da casa, diante de uma janela e de uma porta, com a enfermeira Annie.

Mel Lisboa em Misery. Direção Eric Lenate. Abril 2022. Foto/Leekyung Kim.

Em convicta e diferencial representação, despertando interrogativa curiosidade e inusitada expectativa na plateia. Em acionamento interpretativo, mais voltado para a calma e o silêncio, contraditório ao permanente clima de tensão, quase pânico, estabelecido entre a enfermeira e o escritor.

Marcado sempre pelas súbitas variações emocionais, sustentadas no enfrentamento do embate de extremados climas psicóticos. Ora através da aparente dedicação afetiva da enfermeira que, em verdade, estabelece um conflito à beira da violência diante de sombrias e diabólicas atitudes para impor sua vontade até no próprio oficio do escritor.

Este por sua vez, dissimula seu medo e seu pânico diante dos surtos psíquicos dela, aceitando as ideias de mudança no entrecho ficcional de Misery sugestionando finais diferentes, como nas narrativas de Scheherazade, para ganhar tempo e escapar da morte.

Neste livre funcionamento das atitudes inventivas de um categórico diretor e na consistência de uma proposta que se impõe pela coesiva luminosidade de seus interpretes, o simultâneo experimento de linguagens não seria uma reflexão metafórica sobre o processo de criação literária?

Não convergiriam, afinal, as três personificações para uma pulsão identitária com o ofício do escritor na instigação do processo dialético entre seus personagens ou no desvendar de viagens pelos espaços siderais da mente, sob imersão visceral numa temporada no inferno?...


                                               Wagner Corrêa de Araújo


Misery está em cartaz no Teatro Sesi/Firjan, sextas às 19h; sábados e domingos, às 18hs. Até 05 de junho.

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