O DRAGÃO : VISCERAL ALEGORIA POLÍTICA EM COMPASSO DE CONTO DE FADAS

 

O DRAGÃO / CIA ENSAIO ABERTO.  Direção Luiz Fernando Lobo. Novembro 2021. Foto/Renam Brandão.

“Não se conta um conto de fadas para esconder, não. Mas para revelar, para dizer o mais alto que puder tudo que você sente” (Eugène Schwartz).

Partidário de primeira fila da nascente ideologia que levou Lenin ao poder, o jovem escritor russo Eugène Schwartz alcançou uma posição diferencial como ficcionista e, posteriormente como dramaturgo, em inúmeras peças e também em narrativas fílmicas.

Entre o final dos anos 20 e as duas décadas seguintes, notabilizou-se especialmente por suas peças inspiradas no universo da fantasia procurando, sobretudo, desafiar os crescentes desmandos do stalinismo através de metafóricas, mas com subliminar carga incisiva, sátiras políticas, extensivas ainda a um feroz olhar crítico à ocupação nazista de Leningrado.

E foi após o encerramento deste extenso estado de beligerância que ele conseguiu estrear sua peça mais conhecida no Ocidente – O Dragão. Que não passou das primeiras apresentações no Teatro de Comédia e só escapou da censura, por suas alusões alegóricas ao totalitarismo de Stalin, um ano após a morte deste em 1953.

A partir da premissa de que a violência de um dragão conhecido é sempre melhor do que a daquele que ninguém conhece, no seu perspicaz relato sobre uma pequena cidade que acaba se acostumando aos ímpetos sanguinários deste ser lendário. Que vem já há tempos exercendo, ali, seu cruel domínio sob o signo do massacre e da carnificina, sujeito à demanda de sacrifícios anuais das mais jovens e cobiçadas aldeãs.

Este terrível estado de coisas só sofre um abalo com a vinda de um heroico cavaleiro – Lancelot – que não se intimida com as ameaças do monstro e, como um bravo guerreiro, faz tudo para salvar sua próxima vítima, exatamente a donzela pela qual ele se apaixonara.

O DRAGÃO. J.C. Serroni, cenografia e espaço cênico. Novembro de 2021.Foto/Renam Brandão.

A cia. Ensaio Aberto neste Dragão carioca, através de um extenso elenco com cerca de vinte atores e figurantes, tem entre seus protagonistas Luiz Fernando Lobo como o personagem titular e que ele divide com a visceral concepção  diretora do espetáculo. Destacando-se, ainda, os papéis solo de Leonardo Hinckel (Lancelot), Tuca Moraes (Gato), Gilberto Miranda (Carlos Magno), Claudio Serra  (Burgomestre) e Luiza Moraes (Elsa).

Sem deixar de mencionar as formações grupais da tropa de choque ao coro operário, nos ofícios de tecelão, ferreiro, jardineiro e lanceiro, havendo que se ressaltar a unidade integrativa do gestual com a vocalização, ora falada ora cantada.  Além de energizada movimentação na coreo/fisicalidade (dúplice criação de Juliana Medella/Paulo Mazzoni) com lúdicas intervenções acrobático/circenses, no entremeio de feéricos fogos de artifício.

Direcionando-se tudo, na funcionalidade de uma engenharia teatral, a uma mágica paisagem cenográfica (J. C. Serroni) com um referencial expressionista e um sotaque de grande ópera. Com uma fascinante mobilidade de blocos cênicos e  espacial intercambio de ambiências luminares (César de Ramires), complementada na envolvente textura da trilha incidental (Felipe Radicetti), entre temas sinfônicos e temas corais.

Acentuada, sempre, pelo contraste entre cores e sombras numa cena pictural, incluída aqui uma indumentária de época, com tipicidade camponesa (Beth Filipecki e Renaldo Machado) capaz de remeter ora à lembrança climática de quadros de Marc Chagall, ora aos registros imagéticos do realismo socialista.

A tradução e adaptação do texto original ganha aqui a precisa versão de Maria Julieta Drummond de Andrade e que serviu  à clássica montagem da peça para o Tablado nos anos 70, exatamente dezembro de 1975, por Maria Clara Machado, com uma histórica cenografia de Luís Carlos Ripper.

A remontagem de um texto tão simbólico como O Dragão torna-se, afinal, mais que emblemática nos dias que vivemos, alertando para os riscos da acomodação diante dos “dragões” que usurpam a liberdade do pensar e do agir, especialmente no meio das classes populares, em falseadas propostas políticas que só levam aos riscos da inércia e do perigoso imobilismo social:

“A nossa cidade é muito tranquila./Aqui não acontece nada / Não queremos mudanças. / Enquanto nosso Dragão estiver aqui, nenhum outro dragão se meterá conosco”...

                                            Wagner Corrêa de Araújo




O DRAGÃO, de Eugène Schwartz. Em cartaz no Armazém da Utopia, Gamboa. De sexta a segunda, às 20h. Até 06 de Dezembro.

Um comentário:

Cristina Avila disse...

Belíssimo texto.Umaleitura prazerosa,deste espetacular crítico de Artes Cênicas.

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