"CORPOS EM FOCO" : O AFETIVO TESTEMUNHO DO OLHAR COREOGRÁFICO

Grupo de Dança DC. Sagração, por João Wlamir. 1996. Foto/Robson Drummond.


As relações estéticas entre a fotografia e a dança tiveram seu precursor no primitivo estúdio fotográfico do francês de ascendência alemã Charles Reutlinger que, a partir de 1845, registrou tanto as imagens das divas da dança romântica como a de celebrados nomes do universo cênico.

Como a atriz/dublê de bailarina Loïe Fuller,  ou as dançarinas de cabaré La Belle Otero ou Cléo de Mérode, musa inspiradora de Toulouse Lautrec. Enquanto outro pintor Edgar Degas, além de privilegiar bailarinas na tematização de suas pinturas e esculturas, era um assíduo praticante da fotografia ao redor da dança.

Antes da explosão do registro integral de espetáculos coreográficos, inicializada pelo videocassete, foi graças aos fotógrafos que flagrantes de poses em solo e no ar criaram um legado documental de rara preciosidade, imortalizando gestualidade e expressão emocional de nomes míticos como Nijinsky, Isadora Ducan, Anna Pavlova.

Do século XX aos nossos dias surgiu uma geração de brilhantes fotógrafos que, superando a habitual divulgação fotográfica como mero serviço a favor do espetáculo, tornaram-se experts num processo mais assumidamente inventivo. Sabendo, com maestria, transformar cada flash da captação mecânica de suas câmeras, por sua prevalente originalidade, em pequenas obras de arte visual.

Flagrantes de imagens congeladas trazendo em si tanto vigor virtual que estes “retratos em movimento” acabam produzindo a metafórica sensação da não efemeridade daquele instantâneo gestual corpóreo. Acentuado especialmente nos grandes saltos aéreos e estabelecendo, assim, novas relações da dança com o espaço e o tempo.


Cia de Dança Carlota Portella. Trix. 1996. Foto/Robson Drummond.

Faço estas reflexões a partir da publicação do livro Corpos em Foco Fragmentos da Dança Carioca, bela iniciativa que reúne o melhor da produção de um dos mais criativos fotógrafos do fértil momento vivido pela dança no Rio das décadas de 1990/2000 – Robson Drummond.

Projeto de sua mulher Telma Mendes, uma geógrafa amante da dança, contando com o valioso auxílio do pesquisador e professor da Escola Estadual de Dança Maria Olenewa do TM/RJ - Paulo Melgaço, como um tributo à vida e obra deste fotógrafo que partiu, em 2009, no apogeu de sua carreira. São cerca de cem fotos escolhidas, com raro apuro, entre seu extenso legado artístico como fotógrafo de dança.

Conceitualmente significativas, no registro de alguns dos momentos mais marcantes, do grande surto criativo vivido pela dança carioca nestas duas décadas. Não só pela continuidade do movimento estético/profissional anos 80, mas ainda pelo surgimento,  sequencial, de alguns dos seus mais significativos mentores da arte coreográfica.

Robson Drummond começou a se destacar no oficio de fotógrafo de dança, desde seus registros do Corpo de Baile do Teatro Municipal à constante atuação em outras Cias, tais como as de Renato Vieira, Ana Vitória, Esther Weitzman, Nós da Dança, Vacilou Dançou, Grupos DC, Tápias, entre muitas outras.

Naqueles anos, ao participar ora de júris, como a Mostra RioArte de Novos Coreógrafos ou do Festival do CBDD, ora como critico em eventos como O Panorama RioArte de Dança, lá podíamos constatar o ininterrupto e energizado presencial de Robson Drummond no entusiasta exercício de sua paixão de fotógrafo coreográfico.

O que ficava claramente enunciado no resultado de suas coberturas além do risco e fora do óbvio de apenas registrar o fato, o festival, o espetáculo ou a performance solo.

Mas, ao contrario, tendo como lema mor o de tornar seus flashes em constante fluxo, quando vistos a posteriori na tessitura como obra fotográfica, transmutados em verdadeiras obras primas.

Como decorrência, sobretudo, de seu incisivo espirito investigativo e quase como uma assumida releitura fotográfica, por ter seu apaixonado e cênico olhar armado, em substrato especular, direcionado sempre pela e para a dança.


                                           Wagner Corrêa de Araújo

 

Ballet Tatiana Leskova. Bruno Cesário e Deborah Ribeiro. Elements, Renato Vieira, coreógrafo. 1999. Foto/Robson Drummond.

( O livro "Corpos em Foco - Fragmentos da Dança Carioca" está disponibilizado em sua integridade no endereço digital :  www.corposemfoco.com.br )

MALANDAIN BALLET BIARRITZ : SENSORIAL INCURSÃO NO UNIVERSO BEETHOVIANO


Malandain Ballet Biarritz. La Pastorale. Coreografia -Thierry Malandain. 2019. Foto/Olivier Houeix.


Ecos comemorativos  dos 250 anos natalícios de Beethoven ainda se fazem presentes na  temporada virtual de dança da Digital Dellarte através da Sinfonia Pastoral, na versão do coreógrafo francês Thierry Malandain, criada especialmente para a sua Cia – o Malandain Ballet Biarritz ainda em 2019.

Um tributo ao compositor sequenciado, em 2020, por uma arrojada releitura em torno de sua única obra exclusivamente concebida para os palcos da dança – As Criaturas de Prometeu, de 1801. Mas que foi ofuscada, a partir do século XX, pelas inúmeras versões coreográficas da Sexta, Sétima e Nona Sinfonia.

Esta incursão embora titulada como La Pastorale toma a liberdade de incluir no seu score musical  fragmentos de duas outras obras de Beethoven – a abertura As Ruínas de Atenas + a Cantata opus 112 – Mar Calmo e Viagem Próspera.

Através de um vocabulário neoclássico não assumidamente rigoroso, Malandain dimensiona sua concepção numa formatação estética entre a pureza plástica do “ballet blanc” e a energizada sensualidade da dança contemporânea.

Sem se deter na sequencialidade narrativa da obra original, enunciada na epígrafe da partitura como “Sinfonia Pastoral ou Lembrança da Vida no Campo, mais emoção expressa do que uma pintura descritiva”, Thierry evoca em linguagem abstrata a ancestral ambiência rústica de pastores da Arcádia helênica.


Malandain Ballet Biarritz. La Pastorale. Coreografia -Thierry Malandain. 2019.Foto/Olivier Houeix.


Ora através de brancas túnicas gregas e de citações de um gestual no entremeio dos afrescos e vasos de uma Atenas mítica, com claro referencial da Tarde do Fauno, de Nijinsky, ao Daphnis e Chloe, de Alexander Benois.

Ora por intermédio da mimetização de seres marítimos, aéreos ou florestais, a figuras mitológicas como ninfas, deuses e heróis do Olimpo. Inicializada pelos movimentos esguios, ondulantes e atléticos dos bailarinos em sugestiva paisagem cênica (Jorge Gallardo) estruturada em tablado de barras de metal.

Onde os efeitos luminares (François Menou) e os figurinos (J. Gallardo) acentuam o contraste entre a recorrência à calma do gestual acadêmico e a uma vertiginosa exploração da corporeidade dos 22 bailarinos.

Priorizando cenas grupais e duos, com um destaque absoluto para os emotivos solos do jovem e apolíneo bailarino  Hugo Layer, com certo sotaque de androgenia protagonizando metaforicamente  uma espécie de anti-herói romântico. Beethoviano na expressão da alegria pastoral e da dor do destino, entre o delírio da natureza e a trágica realidade da finitude humana. 


                                          Wagner Corrêa de Araújo


Malandain Ballet Biarritz. La Pastorale. Hugo Layer, solista. 2019. Foto/Olivier Houeix.

 (Este espetáculo foi disponibilizado nas plataformas virtuais pela Digital Dellarte a partir de 29 de julho até 25 de agosto pelo link -

https://youtu.be/lOA2QKcqCkQ)



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