GLAUBER : O LEGADO DE UM DRAGÃO PROVOCADOR NUM PAÍS EM TRANSE

GLAUBER ROCHA. Legado cinematográfico. Cartazes montagem/Wikimedia Commons.

Quarenta anos depois da morte de Glauber Rocha, o que terá acontecido com os questionamentos do maior agitador cultural depois de Oswald de Andrade? Especialmente neste momento em que o País vive uma crise sanitária, junto a um surto de obscurantismo e de retrocesso político propugnados por uma insensata desgovernança.

Anarquista, barroco, apocalíptico, gênio, anunciador, guerrilheiro, incompreendido, messiânico - para definir o talento múltiplo deste mistificador-mor da cultura brasileira não faltarão nunca vocábulos. Como não deixarão de existir, entre os descontentes da geleia cultural nativista e entre os que choraram lágrimas de crocodilo à beira de seu caixão, classificações de louco, caótico e oportunista.

Como não falar neste inicio de mais uma década do terceiro milênio, em exato situacionismo talvez de sua pior crise político/cultural dos últimos anos, depois do esfacelamento da política de incentivos financeiros, do fechamento e abandono de órgãos artísticos e de um quase fim da indústria cinematográfica brasileira.

Nos anos 60 e 70, quando as ideias, os textos e os filmes de Glauber marcavam uma geração de artistas de todas as áreas além do cinema, a cultura enfrentava as pressões do autoritarismo militar. Mas a turbulência dos movimentos contra a ditadura deixava um saldo positivo : a efervescência de ideias e a vontade de fazer o que se pensava levaram, afinal, a um dos mais ricos períodos da criação cultural. A poesia de vanguarda, a bossa-nova, o teatro político, o tropicalismo, a arte conceitual, o cinema novo, em todos estes campos, do intelectual ao artístico, faziam de sua atuação um instrumento revolucionário.

E é  nesta hora que Glauber se torna, com sua anarquia combativa, o mais poderoso inovador de seu tempo. Com a consagração internacional, o prêmio de melhor direção em Cannes 1969 e a inclusão de seus filmes entre os melhores da crítica, Glauber começa a inquietar sua geração. “Eu vim para confundir. Temos que começar tudo de novo”. E daí para a frente seu comportamento provocador e suas atitudes inusitadas criam prós e contras entre o intelectualismo brasileiro : “Estão confundindo minha loucura com minha lucidez”.

Quando Glauber faz as pazes com o regime militar, elogia Geisel e chama o general Golbery de “gênio da raça” transforma-se no mais atacado e mais incompreendido intelectual do País. Com sua morte que muitos amigos chamaram de assassinato cultural, Glauber torna-se uma espécie de santo guerreiro, um símbolo frente ao desencanto estético e à miséria cultural brasileira. Hoje, quarenta anos depois continua a pergunta : o que terá restado do seu inconformismo intelectual e qual seria o seu real legado estético sob o olhar da contemporaneidade?

Aquele que Hélio Pellegrino denominou de parteiro da verdade e que Paulo Emílio Salles Gomes classificou de profeta alado (Profeta não tem obrigação de acertar, sua função é profetizar) continua, com sua herança estética apocalíptica, a provocar um permanente estado de  transe na inteligentzia brasileira de nossos dias.

Com seu cinema, onde a narrativa, entre a poesia e o pânico, e o sotaque político prevalecem sobre os aspectos puramente comerciais, Glauber acabou tendo problemas com a turma do Cinema Novo : “Todos os diretores do cinema novo me traíram”, afirma ele enfaticamente”.

GLAUBER ROCHA - 40 anos de Morte (1981). Foto/divulgação/Tempo Glauber.

Walter Lima Jr., que iniciou a sua participação no Cinema Novo como assistente de Glauber em Deus e e o Diabo na Terra do Sol, tem uma resposta esclarecedora : "A contribuição de Glauber é extremamente valiosa mas o que fazemos com ela? A gente simplesmente esquece. Se ele estivesse vivo, continuaria produzindo uma obra incômoda mas a estética brasileira é exatamente a do comodismo”.

Intelectual integrado ao seu tempo com um potencializado pensar de inventiva  lucidez,  Glauber achava que o cinema tinha assumido o espaço sagrado do espetáculo teatral. Ele sabia, como poucos, dosar o ato da representação teatral dentro da linguagem visual do cinema. Na sua concepção, a única diferença entre o ritual do palco e o do cinema era o de que este último tinha a mesma força do teatro mas sob a ótica da fotografia.

E é Glauber que diz sobre o aspecto dramatúrgico de A Idade da Terra : “Eu já estava mais ligado aos rituais primitivos, quer dizer, ao teatro do irracional que é o teatro popular, mas já  não no sentido de documento histórico, político ou etnográfico, mas no sentido órfico, quer dizer, no sentido de pegar naquela matéria e transforma-la numa matéria audiovisual”.

A premonição em Glauber era a de que morreria mesmo aos 42 anos. Foi ainda longe na sua transcendência da própria criação cinematográfica, tendo seus amigos e contemporâneos mais próximos como Darcy Ribeiro ou Neville de Almeida, sentido sempre sua propriedade messiânica, seu dom profético. Coisa que veio de sua própria formação protestante ao auto-intitular-se de Judeu/Cristão/Baiano. E como se visse a luta interminável que sua mãe Dona Lúcia Rocha iria enfrentar na preservação de seu acervo memorial, extensiva ao próprio legado cultural brasileiro, em tempos de tanta adversidade como os que estamos vivendo:

“Tenho que assumir os riscos da incompreensão – isso para mim faz parte do jogo dramático da cultura”, dizia Glauber em tom premonitório para o caótico transe com que se depara, aqui e agora, a criação cultural brasileira...

                                             Wagner Corrêa de Araújo

A IDADE DA TERRA. O referencial dramatúrgico na obra de Glauber Rocha. 1980. Tarcísio Meira e Ana Maria Magalhães. Foto/divulgação. 

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