A RESISTÊNCIA COREOGRÁFICA EM ANO DOIS, AINDA SOB SURTO PANDÊMICO

Cura. Cia Deborah Colker. Outubro de 2021. Foto/Leo Aversa.

Na passagem do segundo ano sob o surto pandêmico, logo após o aparecimento das vacinas, o panorama coreográfico começou sua lenta e difícil trajetória para a volta ao espetáculo presencial.

No universo europeu e americano, sob melhores condições de aporte financeiro, grandes cias foram aos poucos retomando seus repertórios dando prioridade a criações com o olhar armado na contemporaneidade, mesmo ainda utilizando os recursos das plataformas digitais.

Começando pelo destaque da obra coreográfica de Marco Goecke, não há como negar que, em pouco tempo, ele tenha se tornado o mais completo portador do que existe de mais ousado nos novos caminhos abertos pela atual geração da dança contemporânea.

Sustentado por um conceitual lúdico-burlesco que privilegia o universo circense, no entremeio da energia acrobática e de um expressionismo facial que lembra máscaras e palhaçaria, a surpresa da substancial performance do Ballet of the State Theatre Gärtnerplatz para La Strada de Marco Goecke, a partir de Fellini/Rota. Tornando, afinal, obrigatória esta abordagem sob o signo de avançada invenção coreográfica, sem deixar de lado o teor poético original, para um dos maiores clássicos da história cinematográfica mundial.

Ou no dimensionamento cênico/coreográfico deste Nijinskypara o Teatro Massimo de Palermo, que contrapõe a citação instantânea da elegância e leveza de papeis como o Fauno, Petrushka e Espectro da Rosa, com um prevalente frenesi de gestos, ora trêmulos ora sincopados, direcionados por recortes de um assumido automatismo robótico.

E, já no final de instantânea temporada presencial do Balé da Ópera Estatal de Viena, com  Fly Paper Bird, tendo como suporte musical a Quinta Sinfonia de Gustav Mahler onde, mais uma vez, prevalecem os habituais tremores, pulsões e vibrações psicofísicas. Como se fossem marionetes manipuladas em movimentos de agressiva irregularidade, trocando qualquer noção de paz gestual por um curto circuito de altas tensões.

NIJINSKY.  Coreografia / Marco Goecke.Martina Pasinotti (Terpsichore) e Alessandro Cascioli (Nijinsky) . Maio de 2021.

Outro nome polêmico, com diversas transposições virtuais de suas obras, foi o do inglês Matthew Bourne, em dimensionamento especial na última versão coreográfica/cinética da mais popular das criações shakespearianas, onde segue os mesmos passos provocadores e polêmicos das releituras de Mats Ek ou de Angelin Preljocaj. Sem nenhum lastro de fidelidade à clássica trama original (como as de Kenneth MacMillan para o Royal Ballet ou a de Franco Zeffirelli para o cinema).

Esta retomada híbrida de seu Romeo+Juliet, por sua ambientação nos esteios marginais das urbanidades periféricas contemporâneas, está mais próxima das transposições fílmicas de Robert Wise (a partir da West Side Story, de L.Bernstein) ou, nas de data mais recente, por Braz Luhman e Steven Spielberg, esta última, em cartaz nos cinemas, revisitando Bernstein.

Com o substrato transgressor e o espírito irreverente que vem imprimindo às suas criações de teatro coreográfico, onde a trama original de enredos clássicos para balés é transmutada em releitura inusitada e absolutamente provocadora.

Por outro lado, o desafio mais complexo da resistência à brasileira em tempo de crise, onde a São Paulo Cia de Dança em mais uma das superativas ideias da diretora Inês Bogéa, ao expor o confronto clássico/romântico na releitura de Ana Botafogo para Les Sylphides (Chopiniana) e o clima contemporâneo, com musicalidade bossanovista de Só Tinha de Ser Com Você. Obra de marcante substrato inventivo por Henrique Rodovalho, abrindo, assim, com raro brilho, a temporada 2021 presencial da SPCD no Theatro São Pedro.

Focus Cia de Dança - Vinte . Coreografia de Alex Neoral. Novembro/2021.Foto/Manu Tasca.

No Rio, em extrema oposição no que se refere a uma Cia oficial, o complicado status do Balé do Theatro Municipal, sobrevivendo a duras penas com um corpo de baile cada vez mais desfalcado e na recorrência substitutiva por alunos da BEMO (Balé Escola Maria Olenewa) viabilizando, sob controvertidas condições tecno/artísticas, melancólicas performances que deixam longe seus tempos gloriosos e o atributo de maior perfeccionismo clássico do país.  

Enquanto a Focus Cia de Dança trouxe com 20, espetáculo comemorativo de suas  duas décadas e como tributo ao centenário de Clarice Lispector, uma das mais reveladoras apresentações do ano, sempre com densidade emotiva e apuro técnico coreográfico, de imediata apreensão pelo acertado empenho de Alex Neoral e sua incrível trupe atuando, aqui, como completos atores/bailarinos.

No incisivo “mergulho na matéria da palavra” pelo olhar de Clarice, transmutado num corpo-verbal dançando e se movendo no processo (coreo)investigativo da sensitiva corporeidade exponencial de oito bailarinos em performance exemplar.

E, em pré lançamento nas plataformas digitais seguida de rápida temporada presencial, a Cia Deborah Colker prometendo novas perspectivas em seu processo criador, sob radical apelo sensorial, na abordagem psico/coreográfica, em compasso de corporeidade plástico/reflexiva, sobre uma imunodeficiência na transcendente e oportuna proposta de Cura.

                                           Wagner Corrêa de Araújo

São Paulo Cia de Dança / SPCD. Les Sylphides. Remontagem por Ana Botafogo. Junho 2021. Foto/Charles Lima.
  

PINÓQUIO / CIA PEQUOD : EXEMPLAR ALEGORIA CIRCENSE/MUSICAL DE UM PERSONAGEM CLÁSSICO


Pinóquio - Cia PeQuod . Direção Miguel Vallinho. Tim Rescala, libreto/música. Dezembro 2021. Foto/Renato Mangolin.


Desde a criação deste personagem, precisamente em 1883, no formato folhetim, sob o titulo de La Avventure di Pinocchio, o jornalista e escritor italiano Carlo Collodi nunca imaginaria o seu potencial e significativo alcance, numa trajetória secular de sucesso, via diversas linguagens artísticas.

Em adaptações que vão dos quadrinhos ao desenho animado, estendendo-se às narrativas cinematográficas, da versão 1940 de Walt Disney à mais recente, ainda inédita no circuito comercial, por Matteo Garrone.

Além das adaptações para o palco, do teatro infantil à dança e à ópera, valendo mencionar, neste último segmento, de um olhar contemporâneo do inglês Jonathan Dove (2007) à concepção mais polêmica dos franceses Joël Pommerat/P. Boesmans, para o Festival Aix en Provence, 2017.

Fugindo à fabulação barata das reiterativas versões para o público infantil, o Pinóquio de Tim Rescala (libreto e música) para a Cia PeQuod, tem um diferencial qualitativo que, muito além de seu mero caráter lúdico, é capaz de envolver, numa mesma pulsão emotiva, todas e quaisquer idades.

Na simbologia de uma narrativa dramatúrgica sobre a transformação de um menino, como boneco/fantoche de madeira, num ser humano pensante, após superar todas as suas fragilidades psico comportamentais, da teimosia e da ingratidão ao ato de só pensar em levar vantagens ou dizer mentiras, mesmo que isto leve ao crescimento exagerado de seu nariz. Ou que o faça enfrentar o desafio de inúmeras adversidades, na condição de um polichinelo títere ora metamorfoseado num burro, ora submetido a um regime servil de encarceramento.

Isto tudo através do artesanal dimensionamento estético atingido pela direção de Miguel Vellinho num substrato burlesco/circense, sob forte referencial de teatro de animação. E uma brilhante partitura que, em suas modulações camerístico/vocais, remete à conexão de uma opereta popular brasileira com o musical estilo cabaré de Kurt Weill. Na competente interpretação dúplice dos múltiplos instrumentistas Tibor Fittel e João Paulo Romeu, alternando-se com David Ganc/Rodrigo Revelles.


Pinóquio/ Cia PeQuod. Mona Vilardo e Santiago Villalba. Dezembro 2021. Foto/Renato Mangolin.

No protagonismo titular, Liliane Xavier inspira força interior e dá densidade a todos as nuances de mistificador mor deste emblemático personagem. Enquanto nos papeis coadjuvantes, um craque do teatro de animação como Márcio Nascimento (Geppetto) reafirma seu temperamento dramático e sua hábil técnica de manipulador no gênero.

Em repiques de vocalize operística, no entremeio de uma textualidade recitativa, a soprano Mona Villardo e o barítono Santiago Villalba revelam unidade interpretativa, irradiantes na experiência de extensão vocal, tanto como mestres de cerimônia do Circo Collodi, como na defesa de outros papeis, da simpática Fada Madrinha ao insensato explorador de show de marionetes.

E, ainda, com perceptível apelo sensorial, há que se destacar a ironia crítica imprimida ao leitmotiv vocal, na divertida coloratura do Cri-Cri-Cri, por Marise Nogueira em seu Grilo Falante, ou a irreverencia histriônica assumida pela Raposa esperta de Maria Adélia como pelo Gato matreiro de João Lucas Romero.

O paisagismo cênico (Doris Rollemberg) é materializado nas cores e objetos de um minimalista picadeiro circense, sob mutabilidade metafórico/psicológica no seu direcionamento à diversidade de ambiências, incluído o ventre aquoso de uma baleia.

O resultado pictórico é ampliado tanto pelas tonalidades aquareladas do figurino (Kika de Medina) como pelos discricionários efeitos de sombra e luz (Renato Machado), acentuados especialmente nas mágicas aparições da Fada Madrinha e do Grilo Falante.

A atemporalidade mítica/fabular de Pinóquio pode ser medida pela ilimitada admiração que Ítalo Calvino, o grande escritor italiano, sempre atribuiu ao personagem, na transmutação reflexiva do atribulado caminho da condição humana em busca de sua auto perfeição e onde, afinal, não há como fugir desta especular identificação :

É natural pensar que Pinóquio sempre existiu; é impossível imaginar o mundo sem ele”...

                                          Wagner Corrêa de Araújo


Maria Adelia e João Lucas Romero em Pinóquio. Dezembro 2021. Foto/Renato Mangolin

Pinóquio, pela Cia PeQuod, está em cartaz no Teatro III, do CCBB, Centro do Rio,  de quarta a sexta, às 19 h., e aos sábados e domingos às 16h. Até o final de Janeiro, 2022.

UM BRASILEIRO NO SÉTIMO CÉU DO BALÉ DA ÓPERA ESTATAL DE VIENA

Fly Paper Bird, de Marco Goecke. Em destaque central o bailarino brasileiro Marcos Menha. Balé da Ópéra Estatal de Viena, Novembro 2021. Foto/Ashley Taylor.


Poucas semanas após o reinício de sua temporada presencial, a Ópera Estatal de Viena, sob novo surto pandêmico, é obrigada a interromper sua então bem sucedida temporada oficial de 2021 e retomar sua programação virtual incluindo obras de seu repertório dos últimos anos.

Entre inúmeras óperas e balés, um programa em caráter de estreia ao vivo na primeira quinzena de novembro, volta ao cartaz, com disponibilização nas plataformas digitais,  exibindo a filmagem de sua noite de première. Titulando-se o espetáculo simbolicamente como No Sétimo Céu (expressão utilizada por Mahler ao dedicar o célebre Adagietto à sua mulher Alma) através de duas remontagens e uma antológica performance da mais recente criação do coreógrafo Marco Goecke

A Orquestra Filarmônica da Ópera de Viena, sob entusiástica regência de seu maestro titular Patrick Lange, apresentou uma típica seleção de obras sinfônicas de sotaque vienense desde valsas, polcas e marchas da família Strauss, como dois movimentos da Quinta Sinfonia de Gustav Mahler, incluindo o tão celebrado Adagietto. Completando-se o programa com com uma exemplar composição da juventude francesa de Georges Bizet – a Sinfonia em Dó, com uma histórica trajetória de versões coreográficas.

O formalismo romântico das obras que integram a abertura e o meio do programa alcança, aqui, uma visão absolutamente dissociada de qualquer rigidez clássico/acadêmica mas antenada na passagem entre a tradição à vanguarda.

Pelo contrário, no olhar coreográfico de Martin Schläpfer o fluir melodioso dos ritmos da família Strauss é aqui subvertido em quase caricata energia corpórea, no entremeio do rigorismo de sapatilhas de ponta com assumida intervenção de certo descompasso nervoso.

Esta concepção coreográfica - Marsch, Walzer, Polka, original de 2006, tem uma releitura 2021 que alcança sensorial citação subliminar do tango argentino num retrato indumentário (Susanne Bisovsky) que recorre à tipicidade burlesca de personagens da Commedia dell’Arte.

  Marsch, Walzer, Polka, de Martin Schläpfer. Balé da Ópera de Viena. Novembro 2021. Foto/Ashley Taylor.

Quanto a Marco Goecke não há como negar que, em pouco tempo, ele se tornou o mais completo portador do que existe de mais ousado e polêmico na coreografia contemporânea. Negativado por muitos críticos e detestado por parcela significativa do público, com a acusação de insistir numa formula única e reiterativa de linguagem gestual, Goecke teimosamente responde, inventivamente provocador, com outra obra sob a mesma diretriz estética.

Desta vez com  Fly Paper Bird, tendo como suporte musical o Scherzo e o Adagietto  da Quinta Sinfonia de Gustav Mahler onde, mais uma vez, prevalecem os habituais tremores, pulsões e vibração psicofísica especialmente das partes corpóreas superiores - mãos, braços, ombros e rosto - como se o sangue ameaçasse saltar das veias dos intérpretes/bailarinos.  

Ou se fossem marionetes manipuladas em movimentos de agressiva irregularidade, trocando qualquer noção de paz gestual por um curto circuito de altas tensões. Numa possível e metafórica conexão com o titulo da obra fazendo, vez por outra, uma correlação com o difícil bater de asas de um pássaro/homem ferido.

Numa soturna paisagem cenográfica (Thomas Mika) de luzes e sombras, tendo ao fundo a silhueta de um grande pássaro, os figurinos dos bailarinos são representados em forma de collants de malha cor da pele, sugestionando rasgos como se tivessem sido violentamente fissurados por objetos cortantes.

Uma pausa de silêncio nos melancólicos acordes de Mahler conduz às fragmentarias passagens balbuciadas pelos bailarinos de Mein Vogel (Meu Pássaro) de Ingeborg Bachmann, um dos mais emblemáticos testemunhos da poesia austríaca de nosso tempo:

“Aconteça o que acontecer: você sabe o seu tempo, meu pássaro / pegue seu véu e voe até mim através da névoa”...

Neste desafio sobre a tragédia civilizatória ampliada pelos catastróficos surtos pandêmicos, o pesadelo só é suavizado no resgate da absoluta pureza coreográfica do balé branco em suas formas neoclássicas. Através de G. Balanchine, com Le Palais de Cristal, a partir da Sinfonia em Dó Menor de Bizet, numa das criações do mais sublime perfeccionismo de todo acervo memorial/coreográfico do século XX.

Sem deixar também de ressaltar neste espetáculo, para orgulho de nossos bailarinos e da cultura coreográfica brasileira, a constatação da brilhante performance de Marcos Menha, tanto na criação de Goecke como na de Martin Schläpfer,  cada vez mais se destacando como um dos melhores solistas do Balé da Ópera de Viena.

                                         
                                           
Wagner Corrêa de Araújo

Symphonie in C, de G. Balanchine. Balé da Ópera de Viena. Novembro 2021.Foto/Ashley Taylor.

(ATENÇÃO : Todos os streamings mencionados estão disponíveis gratuitamente na Áustria e internacionalmente em  play.wiener-staatsoper.at  . A largada é às 19h e pode ser acessada 24 horas por dia).
 

METAMORFOSES CÊNICAS DE EDUARDO MARTINI : MOSTRA DE REPERTÓRIO ROMPE LIMITES PANDÊMICOS


Simplesmente Clô, de Bruno Cavalcanti. Com Eduardo Martini. Dezembro de 2021. Fotos/Claudia Martini


Após a deflagração do status pandêmico, sob o desafio de riscos capazes de gerarem impedimento presencial, foram se fechando a portas dos espaços cênicos. Mesmo assim, peças no formato tradicional, como o caso de Simplesmente Clô, além de alcance dos palcos, tornaram-se fenômenos de permanência em cartaz.

Transmutando sua resistência na ideia mais ousada de realização de uma mostra de repertório na abrangência, simultaneamente no mesmo Teatro das Artes, de quatro criações da múltipla faceta artística do ator, diretor, autor e produtor Eduardo Martini.

Experiente decifrador de um universo cênico onde vem se dividindo, há anos, numa bem sucedida trajetória entre o teatro e a televisão, com mais de trinta atuações no palco, especialmente na prevalência de musicais e comédias.

Além de inúmeras novelas, destacando ainda suas conhecidas especificidades do talento de one man show e humorista, ora atuando ao lado de nomes como os de Chico Anísio e Dercy Gonçalves, ora na personificação de esquetes televisivos como Neide Boa Sorte.

São quatro espetáculos, aqui, em horários diversos, entre sexta e domingo, a saber, Simplesmente Clô, Papo com o Diabo, Angel e Uma Lágrima para Alfredo. Todos eles tendo passado por longas temporadas em teatros paulistas.


Uma Lágrima para Alfredo, de Raphael Gama. Com Eduardo Martini e Raphael Gama. Dezembro de 2021. Foto/Cláudia Martini.

Revelando sempre a simbiótica alternância de ofícios exercidos na cena teatral por Eduardo Martini, no entremeio de um livre funcionamento das atitudes criadoras, indo dos monólogos (Simplesmente Clô e Papo com O Diabo) às performances em duo (Uma Lágrima Para Alfredo) ou coletivas (Angel). 

Através de uma intencional tendência de explorar ao máximo o seu timing de comédia, com instantânea espontaneidade, energizado gestual e muita musicalidade nas habituais intervenções cantantes e coreográficas. Ora num solilóquio de influência televisiva,  numa quase stand up comedy, como acontece em Papo Com o Diabo, de Bruno Cavalcanti, sob a direção de Elias Andreato.

Ou na visceral incursão melodramática de Uma Lágrima Para Alfredo, comédia burlesca  conectando um certo sotaque almodovariano a um referencial da chanchada brasileira na  performance de Eduardo Martini e Raphael Gama, este último, aliás, também assumindo a função autoral.

Em Angel, escrita pela dupla Vitor de Oliveira e Carlos Fernando Barros, sob a ótica da exploração das mazelas de um cabaré para strippers masculinosE. Martini acumula a direção e a interpretação num elenco com oito nomes. Fazendo uma espécie de tributo a um gênero que foi muito comum nos anos 80/90 e favorito do público LGBT, com seu olhar armado no transgressivo exibicionismo do nudismo corporal.

No caso específico de Simplesmente Clô, sustentando-se como o mais bem urdido argumento dramatúrgico de Bruno Cavalcanti, o substrato é assumidamente memorialista, fragmentário e não sequencial, numa espécie de inventário, a partir de dúplice idealização com o ator protagonista .

Na abordagem de passagens privadas e públicas da vida e da obra do estilista entremeadas de lembranças familiares a atitudes polêmicas envolvendo do sexo à política. Tratadas sempre com inteligente humor, através de uma mordaz e sempre irônica linguagem dramatúrgica e de um gestual de implícita caracterização psicofísica do personagem focado.

Em dimensionamento dramatúrgico portador de um sensorial alcance na modulação de tonalidades clean e na exorbitância do branco, ressaltados pela ambiência intimista conferida pelas luzes quase entre sombras (Felipe Stucchi), sob um atento comando diretorial de Viviane Alfano.

Extensiva ao minimalismo cênico concepcional, mesa e sofá emoldurando uma paisagem afetiva, com manequins portando figurinos, inspirados nos traços originais de Clodovil, incluída a indumentária formal do protagonista titular, tudo da lavra do próprio Eduardo de Martino.

Complementando-se pelo aporte simbólico - como um  leitmotiv filosófico de vida - no uso da canção celebrizada por Piaf (Non, Je Ne Regrette Rien) com oportunas interveniências ocasionais da voz de Martino na gravação original.

Favorecendo não só o empenho performático do ator e, mais ainda, o clímax da representação, ao conferir perceptível consistência nesta busca investigativa da interiorização e da decifração de todos os contornos de um personagem provocador mas, sobretudo, carismático.

                                           Wagner Corrêa de Araújo

Papo com o Diabo. Monólogo quase uma stand up comedy, com Eduardo Martino. Dezembro de 2021. Foto/Claudia Martini.

PÁ DE CAL (RAY-LUX) : UM IRÔNICO PSICODRAMA DE VIDA E DE MORTE SOB UM SOTAQUE RODRIGUEANO

Pá de Cal, de Jô Bilac com direção de Paulo Verligs. Teatro II, CCBB. Novembro de 2021. Foto/Antônio Fernandes.


Foi conturbada a estreia, há quase dois anos,  da última peça de Jô Bilac – titulada de Pá de Cal, incluída uma subliminar nominação de Ray-Lux, por intermédio de uma luxuosa urna para cinzas funerárias. Tendo, por inesperadas circunstancias, a triste obrigatoriedade de sair de cena, após poucas representações, diante do voraz surto pandêmico.

E que, emblematicamente, ao tratar de morte por suicídio, acabou carregando em si um referencial de tragédia e de luto que afetaria um núcleo familiar em processo quase especular, numa destas oportunas coincidências, com a vertiginosa perda sequencial de vidas e de devastação do convívio doméstico pela Covid 19.

O processo da inspiração dramatúrgica tem seu diferencial na forma de reunir dois parâmetros textuais no seu enfoque dos conflitos familiares. De um lado o sotaque rodrigueano, com sua habitual crueza realista, tão presencial na obra de Jô Bilac e, de outro, a utilização do psicodrama através da chamada “constelação familiar”, polemico método do psicoterapeuta e teórico alemão Bert Hellinger.

Aqui todos os personagens são terceirizados, com exceção do pai (assumido no envolvente jogo performático de Isaac Bernat) do jovem morto, gerando uma espécie de identificação entre cada representado e o seu representante, extensivo inclusive ao status do defunto na urna Ray-Lux.

Carolina Pismel e Isaac Bernat em Pá de Cal. Teatro II/CCBB. Novembro/2021.Foto/Paula Kossatz

Com os outros quatro atores dividindo-se, no entremeio de doses de tragédia e humor, em unitário empenho pela prevalência de uma boa representatividade. O que, na dependência da perceptível força de seus personagens, possibilita uma maior empatia na dúplice atuação de Carolina Pismel e Orlando Caldeira.

Não deixando de serem significativas, embora em menor grau, as interferências mais uniformes do advogado portador de nanismo  (Pedro Henrique França) e da estrangeira de pele escura (Kênia Bárbara) com verbalização à francesa, sob projeção de legendas traduzidas em português.

O naturalismo eficaz da arquitetura cênica (Mina Quental) em três planos, reproduz a residência patriarcal onde o quinteto de atores/personagens se encontra não só para o enfrentamento de conflitos familiares mas também para questionar intrincados aspectos jurídico/patrimoniais.

Chamando atenção a  especificidade simbológica de um espaço/instalação funerária cercado por flores, emoldurando a urna dourada postada sobre uma mesa. Onde, ora por luzes vazadas ora em tonalidades aquarelais, os efeitos luminares (Ana Luzia Molinari de Simoni) potencializam uma ambiência psico/emotiva.

Ampliada pelo acerto discricionário da indumentária (Karen Brustolin) e pelas incidências sonoras, entre acordes e silêncios, da lavra de Rodrigo Marçal e João Melo da Costa, contando ainda com uma mais comportada direção de movimento (Toni Rodrigues).

O ideário deste espetáculo, comemorativos dos 15 anos da Cia Teatro Independente e de onde surgiram alguns dos mais significativos textos de Jô Bilac, reuniu o acerto direcional de Paulo Verlings, que se manifesta também no sugestionamento temático, favorável ao delineamento de mais uma propícia incursão dramatúrgica do premiado e prolífico autor carioca.

Havendo que se ressaltar um substrato concepcional que remete, na generalidade de sua abordagem critica, à narrativa em torno de uma descida ao inferno familiar, remetendo à lembrança do que já dizia Nelson Rodrigues, parodiando ironicamente o mote  sartreano com uma ácida reflexão : “a família é o inferno de todos nós”...

                                          Wagner Corrêa de Araújo


PÁ DE CAL está em cartaz no Teatro II, CCBB, Rua Primeiro de Março, de quinta a domingo, às 19hs, até o dia 19 de dezembro.



O DRAGÃO : VISCERAL ALEGORIA POLÍTICA EM COMPASSO DE CONTO DE FADAS

 

O DRAGÃO / CIA ENSAIO ABERTO.  Direção Luiz Fernando Lobo. Novembro 2021. Foto/Renam Brandão.

“Não se conta um conto de fadas para esconder, não. Mas para revelar, para dizer o mais alto que puder tudo que você sente” (Eugène Schwartz).

Partidário de primeira fila da nascente ideologia que levou Lenin ao poder, o jovem escritor russo Eugène Schwartz alcançou uma posição diferencial como ficcionista e, posteriormente como dramaturgo, em inúmeras peças e também em narrativas fílmicas.

Entre o final dos anos 20 e as duas décadas seguintes, notabilizou-se especialmente por suas peças inspiradas no universo da fantasia procurando, sobretudo, desafiar os crescentes desmandos do stalinismo através de metafóricas, mas com subliminar carga incisiva, sátiras políticas, extensivas ainda a um feroz olhar crítico à ocupação nazista de Leningrado.

E foi após o encerramento deste extenso estado de beligerância que ele conseguiu estrear sua peça mais conhecida no Ocidente – O Dragão. Que não passou das primeiras apresentações no Teatro de Comédia e só escapou da censura, por suas alusões alegóricas ao totalitarismo de Stalin, um ano após a morte deste em 1953.

A partir da premissa de que a violência de um dragão conhecido é sempre melhor do que a daquele que ninguém conhece, no seu perspicaz relato sobre uma pequena cidade que acaba se acostumando aos ímpetos sanguinários deste ser lendário. Que vem já há tempos exercendo, ali, seu cruel domínio sob o signo do massacre e da carnificina, sujeito à demanda de sacrifícios anuais das mais jovens e cobiçadas aldeãs.

Este terrível estado de coisas só sofre um abalo com a vinda de um heroico cavaleiro – Lancelot – que não se intimida com as ameaças do monstro e, como um bravo guerreiro, faz tudo para salvar sua próxima vítima, exatamente a donzela pela qual ele se apaixonara.

O DRAGÃO. J.C. Serroni, cenografia e espaço cênico. Novembro de 2021.Foto/Renam Brandão.

A cia. Ensaio Aberto neste Dragão carioca, através de um extenso elenco com cerca de vinte atores e figurantes, tem entre seus protagonistas Luiz Fernando Lobo como o personagem titular e que ele divide com a visceral concepção  diretora do espetáculo. Destacando-se, ainda, os papéis solo de Leonardo Hinckel (Lancelot), Tuca Moraes (Gato), Gilberto Miranda (Carlos Magno), Claudio Serra  (Burgomestre) e Luiza Moraes (Elsa).

Sem deixar de mencionar as formações grupais da tropa de choque ao coro operário, nos ofícios de tecelão, ferreiro, jardineiro e lanceiro, havendo que se ressaltar a unidade integrativa do gestual com a vocalização, ora falada ora cantada.  Além de energizada movimentação na coreo/fisicalidade (dúplice criação de Juliana Medella/Paulo Mazzoni) com lúdicas intervenções acrobático/circenses, no entremeio de feéricos fogos de artifício.

Direcionando-se tudo, na funcionalidade de uma engenharia teatral, a uma mágica paisagem cenográfica (J. C. Serroni) com um referencial expressionista e um sotaque de grande ópera. Com uma fascinante mobilidade de blocos cênicos e  espacial intercambio de ambiências luminares (César de Ramires), complementada na envolvente textura da trilha incidental (Felipe Radicetti), entre temas sinfônicos e temas corais.

Acentuada, sempre, pelo contraste entre cores e sombras numa cena pictural, incluída aqui uma indumentária de época, com tipicidade camponesa (Beth Filipecki e Renaldo Machado) capaz de remeter ora à lembrança climática de quadros de Marc Chagall, ora aos registros imagéticos do realismo socialista.

A tradução e adaptação do texto original ganha aqui a precisa versão de Maria Julieta Drummond de Andrade e que serviu  à clássica montagem da peça para o Tablado nos anos 70, exatamente dezembro de 1975, por Maria Clara Machado, com uma histórica cenografia de Luís Carlos Ripper.

A remontagem de um texto tão simbólico como O Dragão torna-se, afinal, mais que emblemática nos dias que vivemos, alertando para os riscos da acomodação diante dos “dragões” que usurpam a liberdade do pensar e do agir, especialmente no meio das classes populares, em falseadas propostas políticas que só levam aos riscos da inércia e do perigoso imobilismo social:

“A nossa cidade é muito tranquila./Aqui não acontece nada / Não queremos mudanças. / Enquanto nosso Dragão estiver aqui, nenhum outro dragão se meterá conosco”...

                                            Wagner Corrêa de Araújo




O DRAGÃO, de Eugène Schwartz. Em cartaz no Armazém da Utopia, Gamboa. De sexta a segunda, às 20h. Até 06 de Dezembro.

FOCUS CIA DE DANÇA-VINTE : NO UNIVERSO MISTERIOSO DE CLARICE

VINTE - FOCUS CIA DE DANÇA. Novembro de 2021. Fotos / Manu Tasca

 

“Óbvio, supervisível, invisível a olho nu, perfeito, branco, esquivo, certo, projétil parado, coisa suspensa, exteriorização, dom”... Estas são algumas das enunciações de Clarice Lispector para o ovo, tema de um de seus mais emblemáticos escritos.

E que, como um pequeno elemento cênico real centralizado à beira do proscênio, torna-se um enigmático signo psicofísico, com subliminar entendimento para o conceitual estético do espetáculo Vinte, da Focus Cia de Dança.

Com simbólica proposta criativa no seu intuito dúplice de homenagear o centenário de Clarice e as duas décadas da celebrada Cia, sob a ininterrupta pulsão inventiva de seu idealizador, coreógrafo e diretor artístico Alex Neoral.

Imbatível por sua resistência em tempos tão difíceis para a cultura brasileira, não só por um surto pandêmico que provocou um choque na continuidade de quaisquer projetos artísticos e mais ainda pelo perceptível descaso como é conduzida a política oficial de incentivo ao setor.

Como já tinha ressaltado em críticas anteriores sobre diversas e memoráveis incursões cênicas clariceanas, tanto coreográficas, musicais e teatrais, a complexa interiorização do universo de Clarice Lispector se manifesta no reinventar a presença dramatúrgica da escritora, dividindo o seu “estar só”, na visível escuta de seu silêncio pelo outro, além do palco.


Focus Cia de Dança - Vinte . Coreografia de Alex Neoral. Novembro/2021.Foto/Manu Tasca


O que se torna, sempre com densidade emotiva e apuro técnico coreográfico, de imediata apreensão pelo acertado empenho de Alex Neoral e sua incrível trupe de bailarinos (Carolina de Sá, Cosme Gregory, Isaías Estevam, José Villaça, Marina Teixeira, Monise Marques, Roberta Bussoni e Vitor Hamamoto).

Num uníssono corpo-linguagem, transitando sob uma realidade delirante de palavras transcritas em gestos, entre descobertas e afetos, ora por movimentos plenos de fluidez ora por uma energizada e impactante conexão de corpos soltos no espaço.

Em incisivo “mergulho na matéria da palavra” pelo olhar de Clarice, transmutado num corpo-verbal dançando e se movendo no processo (coreo)investigativo da corporeidade exponencial destes oito bailarinos.

Delineando um retrato sensorial, plástico-poético, sustentado em inquietos e dolorosos sentimentos para reafirmar especialmente os embates do feminino numa sociedade marcada pelo conservadorismo dos anos 40 e 50.

Extensivo a uma indumentária (Roberta Bussoni) com referencial de época, especialmente nos figurinos das quatro Clarices - saias largas estampadas com bolinhas alterativas com malhas, corpetes e pantalonas, sob uma ótica mais atemporal, ao lado da prevalência, no elenco masculino, de torsos nus.

Inseridos em visceral paisagem cenográfica (Natalia Lana) inicializada por 400 ovos móveis e sequenciada por uma bolha plástica gigante que vai isolando os bailarinos numa caverna/respiradouro com remissão metafórica à trágica sufocação do vírus pandêmico.

Um instante me leva insensivelmente a outro e o tema  atemático vai se desenrolando em um plano geométrico como as figuras de um caleidoscópio”.

Para complementar a singular e mágica inserção em um mundo de mistérios, questionamentos e perguntas sem resposta, efeitos luminares (Renato Machado) imagéticos se somatizam às sutilezas da ambiência atmosférica. No entremeio de climas sonoros propiciados pelo score musical, na eficaz parceria autoral de Felipe Habib e Plinio Profeta.

Que estabelece um percurso de texturas musicais transitando passagens líricas no piano, violão e acordeom, desde a envolvência dos acordes de  um inspirado leitmotiv a ressonâncias percussivas com sotaques de brasilidade e de guitarras roqueiras. Com o melancolizado interregno no uso da gravação de Enrico Caruso (1904) para Una Furtiva Lacrimaque fora a única coisa belíssima na vida de Macabéa”.

Em Vinte, dançar é como desenhar uma linha na  tela”(Kazuo Ohno) num encontro especular entre a fisicalidade coreográfica e a obra interiorizada de Clarice. Onde a palavra verbalizada só aparece sugerida em fragmentos ficcionais entrecortados pela vocalização das bailarinas e pela voz em off da atriz Lucinha Lins.

E neste desafio do indizível, do não entendimento ou da livre compreensão, ouça, veja ou leia Clarice: “Estou tentando escrever-te com o corpo todo, enviando uma seta que se finca no ponto tenro e nevrálgico da palavra”(...)Não se compreende música. Ouve-se. Ouve-me então com teu corpo inteiro”...

                                              Wagner Corrêa de Araújo  



VINTE está em cartaz no Teatro Riachuelo, Cinelândia, RJ, sexta e sábado, às 20h., domingo, às 17h. Até o dia 07 de novembro.

ZAQUIM : O OLHAR SEM PRECONCEITO DE UM MUSICAL PARA TODAS AS IDADES

    Zaquim, o Musical. Criação coletiva, com direção de Duda Maia. Teatro Prudential. Outubro/2021. Fotos/Renato Mangolin.

Após assistir ao musical infanto-juvenil  Zaquimalém da constatação de mais  uma das habituais surpresas cênicas a partir da inquieta mente inventiva de Duda Maia, não há como deixar de recorrer à citação da sensorial lição poética de Cecília Meireles em Ou Isto Ou Aquilo - “Quem sobe nos ares não fica no chão/Quem fica no chão não sobe nos ares”...

Há, ali, uma magia  poética referencial já no prólogo da peça, ao mergulhar no confronto verbal de um lúdico jogo pleno de aliterações vocabulares, sustentado pela corporeidade gestual e pelas sonoridades musicais, na iminência de um aventureiro salto no espaço. Acreditando que para as crianças, espectadoras ou não, "ou isto ou aquilo", nada parece impossível pois, segundo Drummond, elas são poetas por natureza.

E, desta vez, através de Duda Maia impulsionando seu estímulo direcional à primeira criação coletiva da Cia Trupe Zaquim em espetáculo titulado como Zaquim, sob o ideário de “trabalhar poesia, educação, música, arte, dramaturgia, delicadeza e, principalmente, deferência às crianças”. Com uma bela produção da Aventura, pensada através de sua diretora artística Aniela Jordan, e viabilizada por Gabriel Pardal, Marina Palha e Felipe Habib.

Em dinâmica escritura dramatúrgica (Gabriel Pardal) no compasso de sotaque diferencial, apostando num roteiro não linear, sem qualquer preocupação de sequencialidade narrativa, transmutada a temática, aqui, num round de desafio corporal/linguístico com rimas verbais/gestuais ritmadas, sob propositais repetições de sons.


Zaquim, o Musical. Direção Duda Maia. Teatro Prudential, outubro 2021. Fotos/Renato Mangolin.


Para provocar energizado dimensionamento da performance na cadência de um juvenil e revelador sexteto de atores/músicos (Bruno Quixote, Jef Lyrio, Marina Palha, Quel, Raphael Pippa, Vitor Novello) com prevalência negra, pelo atento olhar da criança, sem quaisquer preconceitos, no entorno da nova realidade social e das composições dos núcleos familiares.

Onde outra das funcionais e criativas arquiteturas cenográficas de Mina Quental é estruturada, agora, numa espécie de caixa mágica de brinquedo em dois planos, à base de um tablado superior com alçapões e portas frontais se abrindo ou fechando no descortino interativo de uma trupe de personagens sem nominação.

Potencializando esta ambiência cênica, os efeitos luminares (Renato Machado) matizam tons aquarelados numa plasticidade atmosférica pictural, estendendo seu reflexo especular sobre a sobriedade e a delicadeza artesanal de uma indumentária (Karen Brusttolim) de assumida predominância branca.

O score musical em andamento autoral/coletivo, com lavra dúplice no comando de Felipe Habib/Beto Lemos, em sua feliz brasilidade conecta vozes, ora recitativas ora moduladas pela cantoria, a instrumentos convencionais e típicos, indo da guitarra, baixo, acordeão, bandolim, pandeiro e tamborim, a ukulelê, djembê, e caxixi. Brincando todos, entre palavras e músicas, com o corpo e os instrumentos como se brinca com bola, boneca, carrinho e pião.

Numa envolvência sem interregno desde as primeiras cenas, pais e filhos, crianças e adultos, conduzidos por uma incrível performance à provocação de seus sentidos visuais e auditivos, no ímpar compartilhamento da emoção coletiva do saber  conviver com as oposições.

Sem inicio, meio e fim, no entremeio de ritmos e rimas, conduzidos pela varinha de condão da fada Duda Maia, no leva e traz das idas e vindas, das partidas e voltas de uma incrível trupe ensinando a aceitar as diferenças, não importando a cor da pele e a diversidade da identidade sexual, porque todos, afinal, merecem respeito.


                                          Wagner Corrêa de Araújo



ZAQUIM está em cartaz no Teatro Prudential, Gloria/RJ, sábados e domingos, às 16h, até o dia 31 de outubro.

CECÍLIA KERCHE : A ESTELAR TRAJETÓRIA DE UMA BAILARINA MADE IN BRASIL

Cecília Kerche em Esmeralda. Coreografia Jules Perrot. Foto/Reginaldo Azevedo.


Em bela iniciativa o Theatro Municipal carioca  resolve prestar um justo tributo a uma das mais exponenciais primeiras bailarinas do seu Corpo de Baile. Trata-se, nada mais nada menos, do que a estelar Cecília Kerche, lembrando, agora, sua despedida definitiva deste celebrado palco brasileiro
.

Com uma longa e icônica trajetória ali, desde os anos 80, chegou um momento, exatamente em 2016, em que esta decidiu se aposentar de suas funções, tanto no papel de primeira bailarina como de sua participação, ao lado de Ana Botafogo na direção artística do Balé do TMRJ. Ampliado este desejo pelo desafio de tempos difíceis, artística e financeiramente, que abalaram a tradição e o prestigio, qualitativos imanentes do Corpo de Baile do Teatro em suas quase nove décadas da fundação.

A louvável iniciativa de um tributo coube a Hélio Bejani, atual diretor da Escola Estadual de Dança Maria Olenewa, além de regente interino do Corpo de Baile. Sendo viabilizada, diante de um cenário pandêmico ainda de não volta da temporada presencial, através de uma live e de um e-book disponíveis nas plataformas digitais, desde o último dia 06 de outubro, e titulado como Theatro Municipal Homenageia Cecilia Kerche - Uma Bailarina Made in Brasil.

Com acurada base investigativa do pesquisador e professor de dança Paulo Melgaço, atuante nesta mesma instituição oficial de formação de bailarinos. Autor de livros priorizando o universo coreográfico sob ambiência carioca, entre estes o recente Corpos em Foco - Fragmentos da Dança Carioca, sobre o qual já postamos análise crítica aqui.

Cecilia Kerche numa de suas mais sensitivas performances como o Cisne Negro, de O Lago dos Cisnes. Foto/Arquivo C. Kerche

O e-book é Ilustrado à base de um rico material iconográfico de  foto-biografia, do livro Cecilia Kerche - Vida e Palco, lançado em 2010 por  Vera Lafer, sob vasta pesquisa colaborativa de Tenara Gabriela, Luiz Kerche e Marcelo Bravo, com texto guia de Felipe Santa Cruz, em antológica reunião de registros da carreira da bailarina por alguns dos mais renomados fotógrafos de dança, tanto do Brasil como do exterior.

Incluindo depoimentos de personalidades fundamentais na vida artística de Cecilia Kerche, entre muitas outras, com destaque mais que especial para as ex-diretoras do Balé do Municipal, como  Tatiana Leskova e Dalal Achcar, além de prestigiados coreógrafos e partners de fama internacional. Do porte de Nathalia Makarova, Maurice Wainrot e Oscar Araiz, na primeira categoria, a uma infinidade de  bailarinos/estrelas como Fernando Bujones, Igor Zelensky, José Manuel Carreño, Carlos Acosta, sem esquecer diversos nomes fundamentais da dança em moldes brasileiros. 

Sendo que foi por intermédio de Dalal Achcar que ela se aproximou de Natalia Makarova na indicação para uma filmagem documentária de La Bayadère. O que impulsionou de vez uma bem sucedida trajetória na intepretação de diversos papéis por Cias e palcos do mundo inteiro, desfilando representativamente um repertório dos principais clássicos da história do balé.

Estreando em Giselle no TMRJ, em 1982, seguindo-se, ali,  em performances absolutas por seu requinte técnico e expressividade cênica, dos fraseados gestuais ao teor dramatúrgico, no Quebra Nozes, La Bayadère, Don Quixote, Coppélia, A Bela Adormecida, Lago dos Cisnes, aos quais se acrescentaram criações do século XX, de Romeu e Julieta a Eugene Onegin. Paralelas a diversas atuações além fronteiras, como uma particularizada vivência como única bailarina brasileira a protagonizar o balé Spartacus, em montagem do Australian Ballet.

Tive o privilégio, no ofício de jornalista especializado em cultura e critico de artes cênicas, de assistir e opinar sobre todas estas estreias dos anos 80 em diante, sucessivamente seguindo os ascendentes passos de Cecília Kerche. Desde a minha chegada à TVE/Rio vindo do Palácio das Artes de BH, estendendo-se ainda a júris e participação critica/documental em festivais como o de Joinville, onde a presença dela sempre foi inolvidável.

Priorizando a permanência no palco do Municipal, Cecilia só esteve longe nos sete anos em que integrou o English National Ballet ou nas infinitas turnês pelo mundo estendendo, assim, seu legado além das páginas da história da dança no Brasil.

Que esta sua lição de vida pela arte, afinal, inspire as novas gerações, na maturidade de sua experiência estética, sustentada em permanente amor ao exercício interpretativo de bailarina, ao qual dedicou-se sempre com sensorial perfeccionismo : “Acredito no poder transformador que a arte provoca e minha dança é parte disto pois quando estou no palco é minha alma que dança”...

                                                Wagner Corrêa de Araújo


Cecilia Kerche em Don Quixote, com o Corpo de Baile do TMRJ.  Foto/Robson Drummond.

INGRID SILVA, UMA BAILARINA NEGRA : RESGATE SOCIAL PELA INCLUSÃO ARTÍSTICA

Ingrid Silva  numa das vias externas da New York City. Novembro 2018. Foto/Érika Garrido.


A simbologia histórica da identidade racial na trajetória de bailarinos negros em palcos brasileiros foi inicializada, no desafio contra a prevalência da branquitude na dança clássica, através de Consuelo Rios e Mercedes Baptista, pelo desejo dúplice de se tornarem integrantes do Corpo de Baile do Theatro Municipal carioca.

Frustrado, em 1945 para Consuelo Rios, na tentativa de ser admitida para uma vaga então impossível na Cia pela simples condição de ser negra, mesmo revelando qualitativo potencial de base clássica. E, no caso de Mercedes Baptista, sendo incluída em 1948 mas nunca alcançando os balés de repertório, salvo em coreografias de embasamento folclórico/nacionalista.

Quase meio século depois, o espaço foi sendo conquistado a duras penas mas, ainda assim, priorizado  apenas na especifica  individuação estética de carreiras internacionais. Como a de Ismael Ivo, em sólidas vivencias europeias pela dança contemporânea através de parcerias criativas com Pina Bausch e William Forsythe.

Paralela a de Bethania Gomes que, depois de instantânea passagem pela Escola Maria Olenewa do TM/RJ, renuncia ao sonho de ser uma bailarina clássica de cor sob tantas rejeições. Para, aos 15 anos, ser vencedora de uma prova na escola do Dance Theatre of Harlem, no despontar dos anos noventa, onde após rápida ascensão, tornar-se-ia uma de suas principais solistas.

Foto ilustrativa do cartaz da Temporada de Abril 2018, do Dance Theatre of Harlem.

Havendo que se ressaltar também, em similaridade narrativa, entre outras surpresas da identidade racial, a emblemática escolha de Bruno Rocha, como primeiro bailarino negro a assumir o papel de Albrecht numa Giselle, em 2003 pelo Balé do Municipal, contracenando com Ana Botafogo.

E foi no incentivo do necessário projeto comunitário Dançando Para Não Dançar, idealizado por Thereza Aguilar, que a jovem bailarina de pele escura Ingrid Silva despertou, em aula presencial, a atenção de Bethânia Gomes na insistência do envio de um vídeo demonstrativo para a escola do Dance Theatre of Harlem.

Selecionada, partiu para New York sob o sistema de cotas, onde em 2007, fez uma audição para o diretor do DTH - o celebrado coreógrafo Arthur Mitchell, pioneiro bailarino negro no elenco anos 60 do American Ballet Theatre. E passando, outrossim, a integrar a Cia, entre idas a Nova York e vindas ao Brasil, a partir de 2013.

Agora, Ingrid Silva acaba de lançar um livro – A Sapatilha Que Mudou Meu Mundo, em edição da GloboLivros, onde ela conta toda esta história autobiográfica de luta social e vitória artística, sob um sotaque de depoimento afetivo pleno de arrojo confessional. Em titularidade inspirada no transcendente dimensionamento psicofilosófico do uso de uma sapatilha da mesma pigmentação de sua pele, nas suas jornadas existencialistas como artista e mulher negra. 

Afinal, ela neste oito anos americanos, tem alcançado diversas láureas não só como bailarina, mas no ofício de ativista na representatividade negra de uma causa. Sustentada, aqui, com firme empenho no enfrentamento de tantas adversidades, ora diante do preconceito de cor, ora pela superação de sua humilde condição social de origem. 

Entre tantos outros relatos de palco e de vida, Ingrid Silva lembra algumas de suas mais marcantes performances desde o Firebird Solo e o Tones II, criações de Arthur Mitchell, ao Balanchine, de Agon, do Glinka Pas de Trois e da Valse-Fantasie. Ou The Lark Ascending como solista convidada, pela Alvin Ailey's Company, e a atuação numa das turnês de Thiago Soares, no Romeo and Juliet (Kenneth MacMillan).

Cita suas atividades internacionais de ativista pelas causas afirmativas da negritude, inclusive como adida cultural dos Estados Unidos nestas abordagens político/sociais. Além de sua sensitiva participação como atriz-bailarina no filme brasileiro Maré, Nossa História de Amor, 2007, de Lúcia Murat e Karolina Specht. Sem nunca deixar de falar com orgulho da filha primogênita Laura, fruto de sua recente maternidade, atribuição que ela faz questão de estender, carinhosamente, à sua cachorrinha Frida.

E, em sensorial e metafórica correspondência a si mesma, ela revela o seu verdadeiro mister existencial no processo investigativo entre a reflexão e a corporeidade :

"Há muito mais que quero dizer a você, mas ouça, eu te amo e agradeço por nunca desistir de tudo aquilo em que acredita e que a vida te trouxe" ...

                                                 Wagner Corrêa de Araújo

Ingrid Silva com o livro A Sapatilha Que Mudou Meu Mundo, foto(2021)de capa por Talitha Ramos

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