REVISTA BARROCO DIGITAL : NO PRECIOSO LASTRO POÉTICO/ARTÍSTICO DOS ÁVILA

O acesso à edição digital é pelo endereço www.revistabarroco.com.br

Reencontrar, ainda que numa versão digital, o singular legado da única publicação brasileira dedicada exclusivamente à estética barroca promove, sobremaneira, uma viagem às raízes da mineiridade e, particularmente, a meio século de afetivas lembranças familiares.

Tive o privilégio, em período juvenil, de acompanhar de perto o nascimento da publicação quando compartilhei meus anos do Curso Clássico, na Faculdade de Filosofia e Letras da UFMG, simultâneo ao convívio residencial com minha tia Laís Corrêa de Araújo e seu consorte Affonso Ávila.

Em plenos e tristes anos 60, já no período de ditadura militar, e que marcaram incisivamente a minha formação intelectual não só no desfrute cotidiano com este casal de ilustres poetas (que tanto me ensinou sobre vocação às letras e o apreço pelas coisas do universo artístico cultural) e, mais ainda, pelo testemunho vivo dos habituais encontros literários no celebrado endereço da Rua Cristina, 1300, em Belo Horizonte.

Foi a partir deste inestimável contato que me arrisquei a escrever meus primeiros textos, pequenos contos, poemas e resenhas críticas que vi serem publicados no prestigiado Suplemento Literário do Minas Gerais, cuja comissão editorial inicial trazia os nomes, entre outros, de Murilo Rubião e também da própria Laís Correa de Araújo.

Numa temporada de descobertas artístico/existenciais e de convívio de perto com nomes fundamentais da intelectualidade das Gerais, da velha e da mais nova geração. Quantos felizes alumbramentos memoriais (na saga da lição roseana do querer decifrar as coisas que são importantes), por intermédio de contatos, face a face, com personalidades culturais inesquecíveis, estendendo pontes entre gerações naquela mágica casa do bairro Santo Antônio.

Reunindo, sempre, gente do porte de Murilo Rubião, Lúcia Machado de Almeida, Henriqueta Lisboa, Fabio Lucas, Rui Mourão, Murilo Mendes e por aí vai, para chegar nos então ascendentes na ficção Luís Vilela e Sérgio Sant’Anna, ou Adão Ventura e Henri Correa de Araújo, os dois últimos através de Veredas, movimento de poesia de vanguarda.

Em meio aos inúmeros livros das bibliotecas da Laís e do Affonso, e sob os acordes beethovianos de Pour Elise (ora pelas mãos de Laís, ora por sua irmã escritora Maria Lysia) no piano da antessala. “Era uma casa muito democrática, com mesa posta de manhã, de tarde e de noite, como se fosse na fazenda”, nas palavras da historiadora e pesquisadora artística Cristina Ávila, uma das filhas do casal.

Pois é, para bem de todos e felicidade geral da cultura mineira e brasileira, a Revista Barroco está de volta com os temas que perenizaram a publicação, em mais de meio século de resistência, como poesia, romance e arte barroca, de ancestrais retábulos coloniais à evangelização mineira no Século XVIII, mas abrindo também  espaço a um olhar armado numa releitura sob o signo da contemporaneidade.

Em artigos selecionados por uma comissão de craques, de reconhecida representatividade por teses e doutorados entre o Brasil e universidades como a de  Lisboa, Paris e Kassel, mestres em  Filosofia, Artes, História, Linguística, Poesia e Literatura Comparada. 

Presidida pelo saber artístico e o refinado critério editorial de Cristina Ávila, em acurado projeto gráfico do designer e artista plástico Sérgio Luz, marido e pai do jovem Pedro Ávila, com  revelador talento na continuidade da trajetória de tradição literária da família Ávila, em artigo ali publicado.

Por outro lado, tive a honra de ter incluída nesta primeira edição, uma análise crítica da trans-historicidade estética do universo coreográfico de Vaslav Nijinsky, a partir de coreografia recente do alemão Marco Goecke, antenada com o múltiplo processo investigativo de formas corporais e do movimento, num aproximativo enfoque inventivo, de dimensionamento especular, com os criadores barrocos.

Em momento de tantas absurdidades da atual desgovernança politica, é mais que necessária e salutar uma publicação digital como esta Revista Barroco com livre acesso ao público leitor. Que, em contraponto ao retrocesso vivido, agora, pelo progressivo descaso à criação cultural brasileira, promove antes de tudo a valoração de nossos mais caros valores artísticos transmutados na tradição, na permanência e na reavaliação de um imortal acervo cultural barroco.

                                              Wagner Corrêa de Araújo

    Cristina Ávila e seu pai, o poeta Affonso Ávila, o idealizador e fundador da Revista Barroco.

                                (Acesso à edição digital da revista através do link  www.revistabarroco.com.br)

15º PRÊMIO APTR: SOB O COMPASSO DA EMOÇÃO E DA REFLEXÃO PARA TEMPOS ADVERSOS

        A brasilidade musical de Jacksons do Pandeiro. Barca dos Corações Partidos. 2020. Foto/Renato Mangolin.

Diante de um ano marcado por dúplice pânico, do surto pandêmico mortal à controversa crise de governabilidade, com assumido  retrocesso politico e o total descaso à criação cultural brasileira, a realização do 15º Prêmio APTR representou um verdadeiro desafio.

Apostando nos espetáculos apresentados nas plataformas digitais, pela impossibilidade de se ater, por motivos de risco sanitário, à tradicional configuração do teatro presencial, criou-se um formato híbrido. Mas não menos válido e, por vezes, sob resultados surpreendentes com perspectiva por possível vida longa.

Em habitual recorrência aos recursos tecnológicos, conectando dimensionamentos virtuais e cinéticos ao processo dramatúrgico. Que foram se aperfeiçoando e levando, inclusive, a experimentos como a chamada peça-filme.

E, nesta substituição do encontro vivo palco/plateia, pela conquista de um público virtual em nível nacional, dos centros urbanos ao mais interiorano rincão, possibilitou-se, assim, um inédito circuito de alcance social do espetáculo teatral.

Que, por intermédio de provocativo e armado olhar, a APTR soube transformar num lance certo de dados a favor do teatro brasileiro, na hora incerta atravessada a partir de 2020. Abrindo novas frentes, as categorias de premiação ficaram divididas em espaços dramatúrgicos diversificados mas sempre sintonizados com as plataformas digitais.


A oportuna conotação política de Processo Julius Caesar. Cia dos Atores. 2020. Foto/Elisa Mendes

A noite de premiação, na quinta 19 de agosto, data simbólica também dedicada ao oficio teatral, foi aberta por incisivo pronunciamento do presidente da APTR, Eduardo Barata. Constituindo-se em visceral ato político ao denunciar o caótico estado de coisas de um  país onde o fato artístico/cultural foi relegado à condição de subproduto.

Em emotiva apresentação dos atores Marco Nanini e Renata Sorrah, acertado suporte tecno/direcional de Fernando Libonati e significativo roteiro da dramaturga Daniela Pereira de Carvalho, priorizando homenagens a grandes atores e grupos e lembrando os profissionais mortos, à causa inclusive da Covid-19.

Sendo o júri constituído por Bia Radunsky, Carmen Luz, Daniel Schenker, Lionel Fischer, Macksen Luis, Tania Brandão e Wagner Corrêa, além do meritório suporte  do colegiado da APTR. Destacando-se pela diversidade de gêneros e tendências, num panorama de abrangência nacional, a seguinte premiação:

Espetáculo Inédito ao Vivo

Jacksons do Pandeiro - pela Cia Barca dos Corações Partidos (RJ) - Direção Duda Maia

Tudo Que Coube numa VHS - Cia Magiluth  (Pernambuco)

Espetáculo Inédito Editado

Sigo de Volta – Direção Leticia Cannavale (São Paulo).

Espetáculo Adaptado ao Vivo

Contrações – Direção Grace Passô – (São Paulo)

Espetáculo Adaptado Editado

Habite-me - Teatro de Máscaras, Dança e Bonecos - Direção Paulo Balardim - ( RS)

Processo Julius Caesar - Cia dos Atores – Direção Rafael Gomes (RJ)

Jovens Artistas – Troféu Manoela Pinto Guimarães

Elenco  Negra Palavra /Solano Trindade (RJ)

Prêmio Especial :  Fábio Porchat

 

                                        Wagner Corrêa de Araújo  


        Renata Sorrah e Marco Nanini. Os carismáticos atores/apresentadores do 15º Prêmio APTR.

O 15º PRÊMIO APTR DE TEATRO ANUNCIA OS PRÉ-SELECIONADOS DE 2020

JACKSONS DO PANDEIRO. Barca dos Corações Partidos. Direção Duda Maia. Fotos/Cristina Granato/Emanuelle Bernard.


15º Prêmio APTR de Teatro, referente aos inúmeros espetáculos virtuais  e alguns presenciais de 2020, acaba de anunciar os pré-selecionados nas categorias - Espetáculo inédito ao vivo, Espetáculo inédito editado, Espetáculo adaptado ao vivo e Espetáculo adaptado editado, além de Jovem Talento e Especial.

Por intermédio da APTR (Associação dos Produtores de Teatro do Rio) e através  de seu júri, integrado por significativos  nomes ligados à cena teatral e à cultura carioca tais como Beatriz Radunsky, Carmen Luz, Daniel Schenker, Lionel Fischer, Macksen Luiz, Tania Brandão, Wagner Correa, além da reconhecida competência da Comissão Organizadora do Prêmio.

E sempre tendo o incentivo do produtor cultural Eduardo Barata, à frente da iniciativa desde o seu  ideário e sequencial  realização há uma década e meia. Em meritório esforço ininterrupto mesmo diante de desafios, não só trazidos pela presente crise sanitária provocada pela Covid-19 como pelo descaso e retrocesso com que são tratadas as causas culturais por nossa atual desgovernança política.

Por conta de um período atípico, claro, algumas adaptações foram adotadas para este ano. Em vez de apenas espetáculos encenados ao vivo, vão concorrer as montagens apresentadas pela Internet, ampliada a sua perspectiva em nível nacional.

Assim, as categorias ficaram definidas da seguinte forma: Espetáculo inédito ao vivo, Espetáculo inédito editado, Espetáculo adaptado ao vivo e Espetáculo adaptado editado, além de Jovem Talento e Especial.

Entre os inúmeros  destaques, estão “Jacksons do Pandeiro”, da premiada companhia Barca dos Corações Partidos; “O Pior de Mim”, com Maitê Proença; “O Astronauta”, com Eriberto Leão; além de Fábio Porchat, concorrendo na categoria Especial.

Parte das homenagens e da cerimônia do 15º Prêmio APTR de Teatro serão previamente gravadas. O evento será transmitido, ao vivo, pelas redes sociais da APTR e pelo canal do Youtube, na próxima quinta-feira, dia 19, às 20h.

O PIOR DE MIM. Direção Rodrigo Portella. Com Maitê Proença. Foto/Cristina Granato.

Confira a lista completa abaixo:

Espetáculo Inédito ao vivo

“A Arte de Encarar o medo” (São Paulo) Produtora / Grupo: Os Satyros Direção: Rodolfo García Vázquez

“Jacksons do Pandeiro” (Rio de Janeiro) Produtora / Grupo: Sarau Agência de Cultura Brasileira Direção: Duda Maia

“Parece Loucura mas há método” (Rio de Janeiro) Produtora / Grupo: Grupo Armazém Companhia de Teatro Direção: Paulo de Moraes

“O Pior de Mim” (Rio de Janeiro) Produtora / Grupo: Realejo Produções Culturais (Maitê Proença) RJ Direção: Rodrigo Portella

“Tudo que brilha no escuro” (Rio de Janeiro) Produtora / Grupo: Polifônica Direção: Luiz Felipe Reis

“Tudo que coube numa VHS” (Recife) Produtora / Grupo: Grupo Magiluth Direção: Giordano Castro

Espetáculo inédito editado

“O Astronauta” (Rio de Janeiro) Produtora / Grupo: CAJA Arquitetura Cultural Direção: José Luiz Jr.

“Figo” (Rio de Janeiro) Produtora / Grupo: Projeto Figo Direção: César Augusto

“Kabaré online” (Rio de Janeiro) Produtora / Grupo: Cia dos Atores Direção: César Augusto e Marcelo Olinto

“Sigo de volta” (São Paulo) Produtora / Grupo: Complementar Produções Artísticas Direção: Letícia Cannavale e Erik Vesch

“Terças Pretas – O Negro em estado de representação” (Recife) Produtora / Grupo: Grupo O Poste Soluções Luminosas Direção: Samuel Santo

Espetáculo Adaptado ao vivo

“Contrações” (São Paulo) Produtora / Grupo: Grupo 3 de Teatro Direção: Grace Passô

“Joana de Gota Dágua a seco” (Rio de Janeiro) Produtora / Grupo: Laila Garin Direção: Andre Curti e Artur Luanda Ribeiro (Cie Dos à Deux)

“Mata teu pai” (Rio de Janeiro) Produtora / Grupo: Cia OmondÉ Direção: Inez Viana

“Negra Palavra – Solano Trindade” (Rio de Janeiro) Produtora / Grupo: Coletivo Preto e Companhia de Teatro Íntimo Direção: Orlando Caldeira e Renato Farias

“Osmarina Pernambuco não consegue esquecer – uma palestra performance” (Rio de Janeiro) Produtora / Grupo: Complexo Duplo / Complexo Sul Direção: Keli Freitas

“Tudo ao contrário – A Cena em prol da vida” (Rio de Janeiro) Produtora /Grupo: CEFTEM Direção: João Fonseca

Espetáculo adaptado editado

“Farol de Neblina” (Belo Horizonte) Produtora /Grupo: Rubim Produções Direção: Yara de Novaes

“Habite-me: teatro de máscaras, dança e bonecos” ( RJ/RS) Produtora /Grupo: Cia 4 produções/ Brasil e Territoire 80/ Canadá Direção: Paulo Balardim

“O Som e a Fúria – um estudo sobre o trágico” (Rio de Janeiro) Produtora /Grupo: Definitiva Cia de Teatro Direção: Jefferson Almeida

“Processo Julius Caesar” (Rio de Janeiro) Produtora /Grupo: Cia dos Atores ireção: Rafael Gomes

“Vida Seca” ( Navegantes – SC) Produtora /Grupo: Cia Manipuladora de Formas Etc i Tal Direção: MAX REINERT

Jovem TalentoTroféu Manoela Pinto Guimarães

Elenco de “Negra Palavra – Solano Trindade” (Rio de Janeiro)

Elenco de “Sigo de volta” (São Paulo)

Giulia Bertoli por “A Lista” ( Rio de Janeiro)

Luiza Loroza por “Jacksons do Pandeiros” (Rio de Janeiro)

Nina Denobile Rodrigues por “A Arte de Encarar o Medo” (São Paulo)

Especial

Grupo Magiluth (Recife)

Fabio Porchat (Rio de Janeiro)

Festival FETEAG (Caruaru – PE)

Grupo O Poste Soluções Luminosas pelo trabalho Terças Pretas (Recife)

Teatro da Vertigem e Nuno Ramos – A Marcha à Ré (São Paulo)


O ASTRONAUTA. Caja Arquitetura Cultural. Direção José Luiz Júnior. Com Eriberto Leão. Foto/Emanuelle Bernard.

"CORPOS EM FOCO" : O AFETIVO TESTEMUNHO DO OLHAR COREOGRÁFICO

Grupo de Dança DC. Sagração, por João Wlamir. 1996. Foto/Robson Drummond.


As relações estéticas entre a fotografia e a dança tiveram seu precursor no primitivo estúdio fotográfico do francês de ascendência alemã Charles Reutlinger que, a partir de 1845, registrou tanto as imagens das divas da dança romântica como a de celebrados nomes do universo cênico.

Como a atriz/dublê de bailarina Loïe Fuller,  ou as dançarinas de cabaré La Belle Otero ou Cléo de Mérode, musa inspiradora de Toulouse Lautrec. Enquanto outro pintor Edgar Degas, além de privilegiar bailarinas na tematização de suas pinturas e esculturas, era um assíduo praticante da fotografia ao redor da dança.

Antes da explosão do registro integral de espetáculos coreográficos, inicializada pelo videocassete, foi graças aos fotógrafos que flagrantes de poses em solo e no ar criaram um legado documental de rara preciosidade, imortalizando gestualidade e expressão emocional de nomes míticos como Nijinsky, Isadora Ducan, Anna Pavlova.

Do século XX aos nossos dias surgiu uma geração de brilhantes fotógrafos que, superando a habitual divulgação fotográfica como mero serviço a favor do espetáculo, tornaram-se experts num processo mais assumidamente inventivo. Sabendo, com maestria, transformar cada flash da captação mecânica de suas câmeras, por sua prevalente originalidade, em pequenas obras de arte visual.

Flagrantes de imagens congeladas trazendo em si tanto vigor virtual que estes “retratos em movimento” acabam produzindo a metafórica sensação da não efemeridade daquele instantâneo gestual corpóreo. Acentuado especialmente nos grandes saltos aéreos e estabelecendo, assim, novas relações da dança com o espaço e o tempo.


Cia de Dança Carlota Portella. Trix. 1996. Foto/Robson Drummond.

Faço estas reflexões a partir da publicação do livro Corpos em Foco Fragmentos da Dança Carioca, bela iniciativa que reúne o melhor da produção de um dos mais criativos fotógrafos do fértil momento vivido pela dança no Rio das décadas de 1990/2000 – Robson Drummond.

Projeto de sua mulher Telma Mendes, uma geógrafa amante da dança, contando com o valioso auxílio do pesquisador e professor da Escola Estadual de Dança Maria Olenewa do TM/RJ - Paulo Melgaço, como um tributo à vida e obra deste fotógrafo que partiu, em 2009, no apogeu de sua carreira. São cerca de cem fotos escolhidas, com raro apuro, entre seu extenso legado artístico como fotógrafo de dança.

Conceitualmente significativas, no registro de alguns dos momentos mais marcantes, do grande surto criativo vivido pela dança carioca nestas duas décadas. Não só pela continuidade do movimento estético/profissional anos 80, mas ainda pelo surgimento,  sequencial, de alguns dos seus mais significativos mentores da arte coreográfica.

Robson Drummond começou a se destacar no oficio de fotógrafo de dança, desde seus registros do Corpo de Baile do Teatro Municipal à constante atuação em outras Cias, tais como as de Renato Vieira, Ana Vitória, Esther Weitzman, Nós da Dança, Vacilou Dançou, Grupos DC, Tápias, entre muitas outras.

Naqueles anos, ao participar ora de júris, como a Mostra RioArte de Novos Coreógrafos ou do Festival do CBDD, ora como critico em eventos como O Panorama RioArte de Dança, lá podíamos constatar o ininterrupto e energizado presencial de Robson Drummond no entusiasta exercício de sua paixão de fotógrafo coreográfico.

O que ficava claramente enunciado no resultado de suas coberturas além do risco e fora do óbvio de apenas registrar o fato, o festival, o espetáculo ou a performance solo.

Mas, ao contrario, tendo como lema mor o de tornar seus flashes em constante fluxo, quando vistos a posteriori na tessitura como obra fotográfica, transmutados em verdadeiras obras primas.

Como decorrência, sobretudo, de seu incisivo espirito investigativo e quase como uma assumida releitura fotográfica, por ter seu apaixonado e cênico olhar armado, em substrato especular, direcionado sempre pela e para a dança.


                                           Wagner Corrêa de Araújo

 

Ballet Tatiana Leskova. Bruno Cesário e Deborah Ribeiro. Elements, Renato Vieira, coreógrafo. 1999. Foto/Robson Drummond.

( O livro "Corpos em Foco - Fragmentos da Dança Carioca" está disponibilizado em sua integridade no endereço digital :  www.corposemfoco.com.br )

MALANDAIN BALLET BIARRITZ : SENSORIAL INCURSÃO NO UNIVERSO BEETHOVIANO


Malandain Ballet Biarritz. La Pastorale. Coreografia -Thierry Malandain. 2019. Foto/Olivier Houeix.


Ecos comemorativos  dos 250 anos natalícios de Beethoven ainda se fazem presentes na  temporada virtual de dança da Digital Dellarte através da Sinfonia Pastoral, na versão do coreógrafo francês Thierry Malandain, criada especialmente para a sua Cia – o Malandain Ballet Biarritz ainda em 2019.

Um tributo ao compositor sequenciado, em 2020, por uma arrojada releitura em torno de sua única obra exclusivamente concebida para os palcos da dança – As Criaturas de Prometeu, de 1801. Mas que foi ofuscada, a partir do século XX, pelas inúmeras versões coreográficas da Sexta, Sétima e Nona Sinfonia.

Esta incursão embora titulada como La Pastorale toma a liberdade de incluir no seu score musical  fragmentos de duas outras obras de Beethoven – a abertura As Ruínas de Atenas + a Cantata opus 112 – Mar Calmo e Viagem Próspera.

Através de um vocabulário neoclássico não assumidamente rigoroso, Malandain dimensiona sua concepção numa formatação estética entre a pureza plástica do “ballet blanc” e a energizada sensualidade da dança contemporânea.

Sem se deter na sequencialidade narrativa da obra original, enunciada na epígrafe da partitura como “Sinfonia Pastoral ou Lembrança da Vida no Campo, mais emoção expressa do que uma pintura descritiva”, Thierry evoca em linguagem abstrata a ancestral ambiência rústica de pastores da Arcádia helênica.


Malandain Ballet Biarritz. La Pastorale. Coreografia -Thierry Malandain. 2019.Foto/Olivier Houeix.


Ora através de brancas túnicas gregas e de citações de um gestual no entremeio dos afrescos e vasos de uma Atenas mítica, com claro referencial da Tarde do Fauno, de Nijinsky, ao Daphnis e Chloe, de Alexander Benois.

Ora por intermédio da mimetização de seres marítimos, aéreos ou florestais, a figuras mitológicas como ninfas, deuses e heróis do Olimpo. Inicializada pelos movimentos esguios, ondulantes e atléticos dos bailarinos em sugestiva paisagem cênica (Jorge Gallardo) estruturada em tablado de barras de metal.

Onde os efeitos luminares (François Menou) e os figurinos (J. Gallardo) acentuam o contraste entre a recorrência à calma do gestual acadêmico e a uma vertiginosa exploração da corporeidade dos 22 bailarinos.

Priorizando cenas grupais e duos, com um destaque absoluto para os emotivos solos do jovem e apolíneo bailarino  Hugo Layer, com certo sotaque de androgenia protagonizando metaforicamente  uma espécie de anti-herói romântico. Beethoviano na expressão da alegria pastoral e da dor do destino, entre o delírio da natureza e a trágica realidade da finitude humana. 


                                          Wagner Corrêa de Araújo


Malandain Ballet Biarritz. La Pastorale. Hugo Layer, solista. 2019. Foto/Olivier Houeix.

 (Este espetáculo foi disponibilizado nas plataformas virtuais pela Digital Dellarte a partir de 29 de julho até 25 de agosto pelo link -

https://youtu.be/lOA2QKcqCkQ)



OUTRO LANCE "MALLARMAICO" DE DADOS DA SÃO PAULO CIA DE DANÇA

SPCD. Les Sylphides. Remontagem por Ana Botafogo. Junho 2021. Fotos/Charles Lima.


Final de semana, com brilhantismo ímpar para tempos pandêmicos, da São Paulo Cia de Dança em dois envolventes momentos coreográficos disponíveis nas plataformas digitais.

De um lado, uma visceral parceria virtual une duas cias do maior relevo no universo contemporâneo da dança: a São Paulo Cia de Dança e o Ballet Am Rhein, de Dusseldorf, com apresentação simultânea das coreografias Come In, da canadense Aszure Barton, e Inquieto, da lavra de Henrique Rodovalho. As duas obras funcionando como um provocativo experimento dos jogos de movimento num contexto cênico.

A primeira destinada a uma amostragem das aptidões psicofísicas de um jovem elenco masculino, em processo de ascensão e sob assumido didatismo. Por sugestão de Mikhail Baryshnikov para aproveitar um guia musical camerístico de Vladimir Martynov, da época (2006) em que  Aszure Barton era uma artista residente do Baryshnikov Arts Centre. Aqui, com uma referência especial para a participação do bailarino brasileiro Gustavo Carvalho.

E a segunda revelando, num direcionamento gestual mais lúdico, as inquietudes frente aos questionamentos de um mundo em ebulição. Dimensionada, na criação de Rodovalho, pela sinuosidades dos acordes musicais de André Abujamra e ressaltada por dinâmica instalação plástica com uso de fios que vão linearizando o espaço cenográfico (Shell Jr).

Por outro, sob surpreendente ideia da diretora Inês Bogéa, o confronto clássico romântico na releitura de Ana Botafogo para Les Sylphides (Chopiniana) e o clima contemporâneo brasileiro de Só Tinha de Ser Com Você, obra de exemplar substrato inventivo de Henrique Rodovalho, abrindo, assim, a temporada 2021 presencial da SPCD no Theatro São Pedro.


SPCD E O BALLET AM RHEIN. Inquieto, por Henrique Rodovalho. Junho 2021.Foto/William Aguiar.

Onde a remontagem, a partir do original (1909) de M. Fokine, de Les Sylphides (Chopiniana) representa a estreia da bailarina Ana Botafogo no universo da experiência coreográfica, no desafio de uma lição de fluida leveza e suavidade gestual, transubstanciada em compasso etéreo pelas bailarinas da Cia e pela alternância de dois potenciais solistas masculinos (Vinicius Vieira e Yoshi Suzuki).

Com acertos absolutos na sutil modernização em detalhes da indumentária (Tânia Agra) e numa releitura da ambiência cenográfica (Fabio Namatame) sob os efeitos luminares (André Boll), acentuando tons mais crepusculares no lugar habitual dos fogs de transparência invernal.

Enquanto os figurinos em tons clean (Cássio Brasil) e a cenografia minimalista (Letycia Rossi) para Só Tinha de Ser Com Você contribuem com rara eficácia para a atmosfera de mais energética corporeidade, sem deixar de lado um sotaque sensual de romântica brasilidade.

Através do uso das composições de Aloísio Oliveira, Tom Jobim e Vinicius de Moraes no antológico disco "Ellis & Tom", direcionadas a uma diferencial concepção cênico/coreográfica de Henrique Rodovalho, a partir da versão inicial (2005) da obra para sua Quasar Cia de Dança.

Onde valem ser destacadas as ótimas soluções da captação cinética nas imagens vistas de frente, dos lados e pelo alto, em sensoriais planos gerais e intimistas close ups.

Conectando tradição e vanguarda mais uma vez, com resultado invulgar na exibição do aparato técnico/artístico da São Paulo Cia de Dança, em performance que traz salutares emoções estéticas para um tempo de tantos dissabores, redimindo a pânica incerteza e a patética dor trazidas pelo surto pandêmico.  

                                                          Wagner Corrêa de Araújo


SPCD. Só Tinha de Ser Com Você, de Henrique Rodovalho. Junho 2021. Fotos/Charles Lima.

(A disponibilização nas plataformas digitais acontece até este domingo, às 17 horas no caso do espetáculo da SPCD no Theatro São Pedro. Pelo link YouTube da São Paulo Cia de Dança - Temporada 2021. Enquanto o evento virtual SPCD/ Ballet Am Rhein, em horários diversos, se estenderá apenas até o dia 21, segunda-feira próxima).


BALLET GULBENKIAN : O INCENTIVO À DANÇA EM TERRAS LUSITANAS E A AFETIVA CONEXÃO BRASILEIRA

TRIBUTO AO BALLET GULBENKIAN, pela Companhia Nacional de Bailado. Será Que é Uma Estrela, por Vasco Wellemkamp. Março 2015. Foto/Acervo Gulbenkian.


A Fundação Calouste Gulbenkian, sediada em Lisboa, sempre se destacou por sua intensa atuação a favor da arte, especialmente a literatura, a música e as artes plásticas. Mas também na dança ela alcançou um de seus pontos altos, a partir da criação, em 1965, do Grupo Gulbenkian de Bailado.

Walter Gore, coreógrafo inglês, se incumbiu em dar ao recém-formado conjunto, categoria e nível internacional. O grupo estabeleceu uma linha de trabalho e de pesquisa em que o repertório sempre se compunha de obras modernas, mas sem deixar de lado obras clássicas fundamentais. Em 1970, a direção artística foi confiada ao coreógrafo esloveno Milko Sparemblek que, então conceituou seu ideário estético frente ao grupo Gulbenkian como “um balé contemporâneo e criativo, partindo de técnicas clássicas e modernas para realizar um trabalho de vanguarda”.

Em setembro de 1972, quando a Cia esteve pela primeira vez no Brasil, ela era integrada por 37 bailarinos de 12 nacionalidades, além de seu variado staff de dirigentes e coreógrafos. O repertório incluía obras desde Massine e Serge Lifar a nomes então emergentes da cena coreográfica, a partir dos anos 60/70, como Lar Lubovitch e Sparemblek. Dando prioridade, na trilha sonora, a partituras musicais contemporâneas, inclusive obras eletrônicas.

Pareceu estranho ao público brasileiro a denominação do conjunto como Grupo Gulbenkian de Bailado, já que a palavra Bailado, para nós, era mais associada à dança folclórica, ou aos bailes e danças de salão, e não a uma forma de arte erudita como é o ballet. Mas não sendo o grupo de destinação específica como “clássico” e nem exclusivamente como “moderno’, a palavra Bailado era totalizadora, não demarcando fronteiras e possibilitando uma perspectiva mais experimental na qual se fundiam todas as tendências da arte da dança.

As criações do Grupo Gulbenkian de Bailado tinham como característica marcante o espírito de contemporaneidade, com o objetivo de situar-se dentro de uma linha de pesquisa e renovação, embora calcada em bases neoclássicas. Ritmo e movimento, vigor e dinamismo, técnica e expressão corporal, efeitos de cores, sombras e luzes, ausência de cenários pesados ou figurinos luxuosos, inter-relacionamento da música e das artes plásticas, despojamento para dar a exata sensação da dança como “o puro ato das metamorfoses”(P. Valéry).

Com a preocupação de atualizar, expressando o nosso tempo, mesmo na encenação de obras que pareciam distantes da contemporaneidade como o Messias de Haendel, transformado em revolucionária peça moderna na coreografia quase abstrata de Lubovitch.

Ou, em “Antigas Vozes de Crianças”, sob música de George Crumb, concepção cênico/coreográfica de Vasco Wellenkamp, com base em poemas de Garcia Lorca, usando avançados efeitos sonoros numa trilha sonora quase aleatória, conectando instrumentos de percussão a um canto vocal de dicção decomposta. Onde as palavras não se completavam e o objeto plástico, simbolizando um totem, também se desfazia para se recompor em seguida por efeitos de projeção espacial, produzindo uma atmosfera de total envolvimento mágico do espectador.

Depois de ter assistido à Cia pela primeira vez, em 1972, no Palácio das Artes (BH), tive a oportunidade de acompanhar a trajetória deste grupo da Fundação Gulbenkian em outras turnês brasileiras. Como as dos anos 82 e 87, desta vez nos palcos cariocas, trazendo várias obras de  Olga Roriz, que começara, depois de ser bailarina na Cia, uma surpreendente carreira de coreógrafa.

GRUPO  GULBENKIAN DE BAILADO. Sinfonia dos Salmos, de Milko Sparemblek. 1972. Foto/Acervo Gulbenkian.

Vinte anos depois quando tive a chance de percorrer presencialmente todos os incríveis espaços da Fundação Gulbenkian, já não pude mais ter a emoção de reencontrar alguns de seus integrantes que conhecera desde sua première brasileira, como os então bailarinos Ger Thomas, Armando Jorge, Margery Lambert e Carlos Fernandes com os quais realizei uma longa entrevista para o Suplemento Literário do Minas Gerais (10/09/1972). Com inclusão dos então assistentes - Bernadete Pessanha - de “maitre de ballet” e de coreografia - Carlos Trincheiras. Este último optara por residir no Brasil a partir de contrato como coreógrafo/diretor do Balé da Fundação Teatro Guaíra em 1979, vindo a falecer, por aqui, catorze anos mais tarde. 

Além de Trincheiras, que deu ao Balé Guaíra status de cia internacional, a primeira bailarina do Gulbenkian - Isabel Santa Rosa - radicou-se no Rio, inicialmente em 1977, como assistente de direção de Jorge Garcia no Balé do Theatro Municipal, seguindo-se, nos anos 80, como “maitre de ballet” no Grupo Corpo e na Cia. do Palácio das Artes, além de dirigir o Balé Guaíra, após a morte de Trincheiras. Enquanto isto, em Lisboa, a conceituada bailarina e diretora paulista Iracity Cardoso assumia o comando artístico da Cia, entre 1997 e 2003. 

Por outro lado, entre os brasileiros que integraram o Ballet Gulbenkian, estão  o bailarino  Jair Moraes, este como um dos seus  primeiros solistas por quase uma década e futura personalidade relevante na arte coreográfica, especialmente em Curitiba. Além do mineiro Tíndaro Silvano que iniciou ali sua  trajetória de formação internacional como bailarino, seguida de brilhante carreira como coreógrafo brasileiro, com particular referência, entre os que o influenciaram mais de perto, entre outros, ao português Vasco Wellemkamp.

O Ballet  Gulbenkian tinha chegado ao seu fim, sem voltas após algumas tentativas, a partir de 2005, deixando um legado coreográfico que não só marcou a história da dança contemporânea em Portugal como também a nossa memória afetiva por seus intercâmbios artísticos com reflexos estéticos no Brasil.

                                            Wagner Corrêa de Araújo

                                          

BALLET GULBENKIAN. Ensaio de Hans van Manen, com os bailarinos Graça Barroso, Jair Moraes e Carlos Trincheiras (ao fundo). Foto/Acervo Gulbenkian.

JOSÉ ROBERTO JARDIM, DESTAQUE BRASILEIRO NO GLOBAL FORMS THEATER FESTIVAL (NY)

    BELEZA, de José Roberto Jardim, um video-poema dedicado à Semana de 22. Foto/ PUC/SP


Venho acompanhando os registros virtuais dos experimentos cênicos do dramaturgo e diretor José Roberto Jardim. Que  tem sido frequentes nas visitas às plataformas digitais como forma de compensador escape a este claustrofóbico estado sanitário pré-apocalíptico em dimensão global.

E não é por menos que ele acaba de ser convidado como representante brasileiro no Global Forms Theater Festival, de Nova York, iniciado a partir desta primeira semana  de junho, 2021.

Através de transcrição fílmica do espetáculo estreado, na Temporada Paulista 2019, Há Dias Que Não Morro. Oportuna e incisiva proposta temática dando continuidade à sua pesquisa plástico/cinético/dramatúrgica que vem, com raro apuro, desenvolvendo nos últimos anos.

Possibilitado o acesso à transmissão virtual a partir de inscrição e recebimento de um link, a saber:

(https://www.eventbrite.com/.../global-eye-ha-dias-que-nao...)

Só no atravessamento da reclusa trajetória 2020/2021, houve uma sucessiva postagem de instigantes obras fílmico/cênicas, citando entre estas sua autoral releitura beckettiana em ELA+B+ECKETT, em dúplice performance verbal e física com a atriz Fernanda Nobre, mais o  vídeo/poema  BELEZA, inspirado em Menotti Del Picchia e dedicado à próxima comemoração centenária da Semana de 22.

Além do enfoque do seu processo dramatúrgico através de Criação, outro envolvente  vídeo/confessional, prenúncio de sua próxima incursão, inclusive em torno de mais uma de suas releituras como mentor mor na decifração da obra de Matéi Visniec.

CRIAÇÃO. Experimento digital sob conceitual teórico Janeiro de 2021.

Em maio de 2017, uma das melhores surpresas da Temporada paulista em palcos cariocas, foi a de sua versão para Adeus Palhaços Mortos, montagem sobre a qual, ao escrever sobre na época, não contive o aplauso, também extensivo ao público, a outros críticos e às inúmeras indicações a prêmios:

Concepção provocadora pela abertura de seu comando diretorial (José Roberto Jardim), de inventividade direta e seca, a um teatro de contestação. Capaz, assim, de se arriscar, com folego gestual e densidade psicológica, num espetáculo tenso mas revelador.

Desfigurando a formatação convencional, pontuado no desnudamento da ação em inação, de metafórica verbalidade, deixando perguntas sem respostas, mas refletindo, visceralmente, sobre o imponderável da aventura humana”.

Depois de assistir a este último vídeo (Criação), no formato de depoimento com potencial enunciado teórico, não há como deixar de registrar, aqui, a  habitual pulsão da criatividade em José Roberto Jardim, no compasso de sua indomável e incansável busca investigativa.

Cada vez revelando maior tônus qualitativo e descortinador da maestria de seu pensamento. E mais, ainda, na transmutação cênica de tudo isto. Exigindo-se, assim, por necessária urgência, a publicação de um livro conceitual sobre seu processo de criação e de seu ideário dramatúrgico/diretorial.

Com o qual não há como não concordar ou se identificar (no meu caso específico, ao transitar criticamente entre o teatro e a dança) por acreditar, sobremaneira, nesta sua instigante fusão na diversidade de linguagens artísticas.

Conluio entre o gesto e a palavra direcionado a uma espécie de teatro coreográfico, conectado na abertura de novos caminhos sob visceral sustentação estética pelo pensar reflexivo de José Roberto Jardim :

“Penso o espaço de representação como um limbo prisional, um “não lugar” de (in)ação geométrico, exato, inorgânico; um polígono de múltiplas possibilidades para além da razão. E vejo que tive muito isso nos espetáculos que dirigi”.

                                             Wagner Corrêa de Araújo

HÁ DIAS QUE NÃO MORRO. Criação de José Roberto Jardim, no Global Forms Theater Festival. NY,Junho de 2021.
 https://www.eventbrite.com/.../global-eye-ha-dias-que-nao...

SWING LOW : "ANJOS" BRASILEIROS EM PREMIÈRE VIRTUAL NO JOFFREY BALLET

        SWING LOW. The Joffrey Ballet. Chicago, estreia em 28 de maio 2021. Foto/ Todd Rosenberg.

Estreou nas plataformas digitais, no último dia 28, o breve espetáculo SWING LOW (inspirado em conhecido spiritual Swing Low, Sweet Charity), na versão da coreógrafa americana de ascendência latina Chanel da Silva. Para o Joffrey Ballet, Chicago, com um elenco masculino de cinco bailarinos onde a grande surpresa é o protagonismo dos brasileiros Fernando Duarte, Edson Barbosa e Stefan Goncalvez.

É uma performance marcada por energizado gestual e uma visceral releitura de um cântico religioso de súplica e perdão, transcendido aqui com um olhar armado em radical contemporaneidade, da abordagem temática à concepção coreográfica. Embora a proposta, por vezes, chegue a tornar-se bastante reiterativa.  

A partir de provocador confronto entre fé e dúvida, corporeidade e espiritualidade, numa configuração de anjos ao mesmo tempo homens e demônios, à beira do abismo apocalíptico. Revelando, inclusive, um subliminar teor gay quase referencial da celebrada peça Angels in America.

O score sonoro/autoral da violoncelista Zoë Keating vai transgredindo as linhas melódicas do spiritual com incisivos acordes e batidas de música eletrônica. Extensivo a um figurino que faz uso crítico de penas e asas angelicais cobrindo os dorsos nus de cinco jovens arcanjos, transviados e rebeldes.


FERNANDO DUARTE, bailarino brasileiro protagonista em  Swing Low, Maio de 2021. Foto/Todd Rosenberg.

Dimensionados plasticamente num retrato cênico entre luzes e sombras, pés descalços e calças jeans, em  pulsão gestual com estética plástica de assumida desconstrução erótica da pureza celestial.

O protagonista, como o anjo caído, é Fernando Duarte e que é desafiado pelo assédio dos  quatro "anjos terríveis", entre estes o de dois outros intérpretes brasileiros Edson Barbosa ao lado de Stefan Goncalvez, além dos bailarinos Evan Boersma e Hyuma Kiyosawa.  Lembrando que, tanto Duarte como Barbosa, ambos se formaram como bailarinos no Rio de Janeiro, enquanto Goncalvez, de ascendência brasileiro/uruguaia, teve sua iniciação de carreira em São Paulo, tanto no Grupo Raça como no Pavilhão D, antes de partir de vez para Chicago.

Fernando Duarte tendo passado pela Escola Estadual de Dança Maria Olenewa e, radicado nos EUA, desde 2008, com trajetória vitoriosa de solista, tanto em personagens clássicos ou em criações contemporâneas e, ainda, como integrante do Joffrey Ballet

Enquanto Edson Barbosa, de Tocantins para a Ilha do Governador através do Grupo Cultural de Patrícia Marques, também não ficou longe de destacada carreira internacional desde que foi o vencedor masculino do Prix de Lausanne, em 2012 e está, hoje, no elenco do Joffrey.

Não deixem de conferir Swing Low e certamente sentirão orgulho pela meritória atuação de mais três brasileiros que alcançaram sua hora e vez nos palcos do mundo.

                                              Wagner Corrêa de Araújo

                   Swing Low, The Joffrey Ballet, World Première. Maio de 2021 Foto/Todd Rosenberg.

                                             
                                            https://www.youtube.com/watch?v=IyWN5p_C4-4

O CIRCO INVISÍVEL E O TEATRO ALQUÍMICO DE AURÉLIA THIERRÉE.

AURÉLIA  THIERRÉE em MURMURS. Maio de 2021. Foto/ R. Haughton.


Depois do espetáculo O Oratório de Aurélia, em 2003, concebido especialmente para sua filha Aurélia Thierrée, Victoria Chaplin retorna com Murmurs (Murmures des Murs), original de 2013 com registro fílmico em 2021, à continuidade de uma linha estética que privilegia o circo, a mímica, o drama e a dança.

Numa encenação que alterna, em sua fusão de linguagens artísticas, desde as formas populares do ancestral “theatre de la foire”aos efeitos ilusionistas da comédia muda. Influências que se fazem presentes através do legado artístico dos ascendentes familiares de Aurélia Thierrée.

Nada mais nada menos que, do lado materno, Chaplin e Oona, esta por sua vez sendo filha do grande dramaturgo Eugene O’Neill. Enquanto os pais de Aurélia, Victoria Chaplin e Jean-Baptiste Thierrée, criadores do Le Cirque Invisible, em suas turnês, faziam com que ela participasse, desde os seus quatro anos, das performances. Por coincidência, a partir da data exata em que morreu o avô Carlitos.

Incentivada por ambiência fértil de criação artística, Aurélia acaba se dedicando ao mesmo oficio dos pais e avós, passando por experiências no cinema (inclusive em filmes de Milos Forman) no teatro, na dança e, finalmente, se destacando por suas habilidades circenses num contexto múltiplo e transcendente de buscas investigativas.

Num palco coberto por caixas de papelão, sugerindo uma mudança residencial, Aurélia - a atriz/personagem vai embrulhando objetos enquanto, por vezes, pela insistência de dois funcionários da empresa transportadora, assina relatórios. Ela acaba, enfim, se enrolando em tecidos e peças de plástico que, subitamente, se transformam num monstro ameaçador.

     MURMURS. Concepção cenográfica/direcional - Victoria Chaplin. Maio 2021. Foto/R.Haughton.                                                            

Na cenas seguintes, atravessa ou escala, sob efeitos de magia, paredes de telas pintadas sugerindo prédios antigos abandonados, numa arquitetura com referenciais das ruas de Veneza ou de praças de antigas aldeias francesas. Com murais de três camadas e que ela descortina revelando épocas que vão de mosaicos da Roma antiga a décors barroquizantes.

Enquanto é interrompida por estranhos personagens cinzentos, sob faces cobertas por máscaras, cujas formas humanas vão se metamorfoseando em desconhecidos animais ou inusitados objetos. Que lembram marcas figurativas de pinturas de Magritte, Rousseau, Daumier, incluídas citações surrealistas de Dali.

Como nos primitivos experimentos cinematográficos ilusionistas de Méliès e Lumière, ambíguos materiais ora sugestionam cadeiras e camas sem fundos, escadas sem degraus, espectros móveis que de uma aparente solidez passam a meros fragmentos de roupas. Ou indo para um mar com ondas provocadas por tecidos, povoado por seres marítimos que engolem os que mergulham em suas águas agitadas por onírica mobilidade.

Mas há espaço também para lances amorosos quando a personagem feminina de Aurélia é assediada pelos ansiosos desejos eróticos de um acrobata circense (Magnus Jakobson). Sem deixar de lado o tenebroso espectro cinza que, depois de a embebedar, a obriga a um forçado ato sexual.

Ou quando acaba dançando um tango com um apaixonado dançarino porto-riquenho (Jaime Martinez), com direito a um sapateado sob o tampo de uma mesa, usando copos como sapatilhas,  ou equilibrando-se solta, instantaneamente,  no vazio do espaço.  

“Devemos violar os estereótipos de nossa visão do mundo, os sentimentos convencionais, os esquemas de julgamento”. Palavras de Jerzy Grotowski a propósito de sua teoria do Teatro Pobre e que poderiam ser um referencial reflexivo para o circo imaginário e o teatro coreográfico de Victoria Chaplin na sensorial envolvência da performance de Aurelia Thierrée.

Despojado, minimalista, com apenas seis atores, incluída a protagonista, sem fazer uso dos recursos digitais ao assumir a simplicidade absoluta da sua proposta cênica, quase num tributo à tradição medieval do teatro das feiras.

Onde o que importa é a inserção lúdica na lógica exclusiva do sonho, no delírio da fantasia, na envolvência da alucinação poética. E que, pelo menos, nos faça abstrair ainda que por apenas 70 minutos, no entremeio de tantos dias de um medo/pânico, a tamanha incerteza quanto à própria sobrevivência da condição humana.

                                                Wagner Corrêa de Araújo


Aurélia Thierrée e Magnus Jakobson. Murmurs . Maio 2021. Foto/R. Haughton.

(Murmures des Murs está disponibilizada nas plataformas virtuais : www.youtube.com , por brava iniciativa da Digital Dellarte, até o dia 23 de junho)

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