O DESAFIO CONTESTADOR DE DOIS CLÁSSICOS DO SÉCULO XX

                                           MISTERO BUFFO. Março de 2015. Foto / Carlos Gueller.

Se no status social o louco é um marginalizado, em contrapartida, no conceito filosófico de Michel Foucault , ele é o privilegiado detentor de “estranhos poderes, como o de dizer uma verdade oculta, prever o futuro, e o de enxergar com toda a ingenuidade aquilo que a sabedoria dos outros não consegue perceber”.

E aí chegamos, neste contexto de resgate da insanidade, ao poder contestatório, dos anos medievais à nossa era, dos bufões, dos clowns, dos jograis, dos saltimbancos, afinal, de todos os artistas mambembes que fazem da miséria das ruas o seu palco nobre.

Em seu aparente exercício simplório e ingênuo do ofício artístico, próximo do brincante, de um burlesco infantilizado e do simiesco, se valem do mascarar-se para confrontar a oficialidade da conduta social. E é acreditando na impunidade, pelo caráter desprezível atribuído aos seus conceitos e atitudes comportamentais, que alcançam, então, uma irônica e contundente rebeldia política.

E, ainda, foi neles que sempre apostou a travessia dramatúrgica de Dario Fo, ele próprio auto denominado palhaço/bufão, para ter, neste percurso, o domínio absoluto da representação satírica da realidade, direcionada ao tônus reflexivo das plateias.

Mistero Buffo, sua obra maior, reúne vinte monólogos sacro/profanos, inspirados nas visões populares medievais dos evangelhos, de autenticidade bíblica contestada, mas capazes de singelos redimensionamentos atemporais, com preciso alcance da contemporaneidade.

A Cia La Mínima, sob o incisivo comando da maior especialista brasileira (Neyde Veneziano) na obra do autor /encenador italiano, escolheu quatro das mais significativas passagens do Mistero Buffo.

A ressurreição de Lázaro, os conflitos de um cego e um paralítico e, diante do Cristo crucificado, os embates dramáticos de um louco e a morte mostrando, assim, um recorte altamente inventivo do teatro de Dario Fo.

Em cena um músico (Fernando Paz) e dois atores  (Domingos Montagner e Fernando Sampaio) dão vazão a um performático jogo de técnicas teatrais-circenses, explorando um mix carismático de loquacidade verbal e gestual tragicômico, parentes das lonas e picadeiros e da jogralidade das ruas.

O figurino extrapola os elementos referenciais de época na utilização de trajes tradicionais da bufonaria ao lado de peças atuais (Inês Sacay), sublinhados pela claridade das luzes (Wagner Freire) e pelo desenho cenográfico mínimo de uma tapeçaria e um tablado/base da pequena orquestra para um músico só (Fernando Paz).

A proposta cênica do espetáculo alcança, enfim, incluindo-se ainda o exuberante score musical (Marcelo Pellegrini) executado ao vivo com emotivo vigor, uma apurada arquitetura estética que o torna definitivamente obrigatório para quem gosta, no dizer do Rosa da prosa, de decifrar as coisas que são importantes.

Neste cotidiano de corrupção monetária nas barbas do poder politico, quando só o dinheiro importa, na abjeta forma como chega às mãos de não tão poucos, numa nação de muitos que estão longe de sua cor, é mais que referencial a remontagem de “A Visita da Velha Senhora”.

Aqui, neste clássico teatral do século XX, o personalismo de um dramaturgo (o suíço Friedrich Dürrenmatt) entre o absurdo e a critica política, faz uma mordaz apologia da torpe submissão pelo dinheiro.

Seus personagens, na contramão do ato redentor do personagem brechtiano pelas causas libertárias, revelam apenas a superficialidade da postura de habitantes comuns de uma cidade miserável .

Todos moralmente cegos, surdos e mudos, deformados enfim, diante do que pode significar, para vidas sem saída, o retorno inesperado de uma desprezível cidadã do passado.

Antes prostituta, agora a velha senhora Clara Zahanassian (Maria Adélia), venerável mulher milionária de dez maridos que, em sua visível pompa e circunstancia, esconde uma missão maldita – a vingança pelo ancestral desprezo de seu amante Alfredo Schill (Marcos Ácher), primeiro homem que a tornara mulher e mãe.

Num jogo cruel, esta dama hierática, quase robótica com sua perna mecânica e mão artificial, maquiagem carregada e olhar de fria fixidez, vai detonando corações e mentes conformistas, numa mudança radical de hábitos sociais, pelo derrame fácil do dinheiro.

Neste desfile de insanidades, lá se vão as aparências espirituais do pároco (Paulo Japiassú), os disfarces do prefeito (Yashar Zambuzzi) e as reflexões do professor (Eduardo Rieche), acompanhados de outras alterativas presenças comunitárias, aqui representadas por Laura Nielsen, Anita Terrana, André Frazzi, Pedro Lamin, Renato Peres, Pedro Messina e Antonio Alves.

Num elenco equilibrado e coeso, favorecido, em impacto maior, no simbológico duelar dos personagens de Maria Adélia e de Marcos Ácher.

A firme direção de Silvia Monte alcança o clima propício de risível e corrosiva absurdidade, conseguindo disfarçar na notável fluência textual, a limitação da arquitetura cenográfica (José Dias) e certa irregularidade do figurino (Pero Sayad). Supridos por uma luz sugestiva (Elisa Tandetta) e pelo sustento do score musical ao vivo (Marcelo Coutinho).

Que, assim, na retomada de um tema de tamanho referencial no presente “acerto de contas”da selvagem envolvência financeira, reflexiona, através desta “visita de uma velha senhora”, a sábia lembrança de uma anciã lição: “Onde o dinheiro fala, tudo cala”.

                                                Wagner Corrêa de Araújo


                      A Visita da Velha Senhora.  Maio de 2015. Foto / Marcelo Carnaval.

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