O MARIDO DO DANIEL : OU ATÉ ONDE LUTAR POR QUEM AMAMOS

FOTOS/CRISTINA GRANATO

Já a partir do título da mais recente peça de um conhecido dramaturgo americano do circuito off-Broadway – Michael McKeever mas, até então, inédito entre nós, paira o questionamento de que O Marido do Daniel seria mais uma destas previsíveis incursões no universo gay.

Tudo levando a crer que seríamos fisgados por outro destes espetáculos carregados de obviedades e com superficial aprofundamento na problemática LGBT e seus desafios diante da pétrea resistência de uma sociedade conservadora.

No seu inicial descortino de uma espécie de comédia arco-íris sintonizada na contemporaneidade pós hecatombe da AIDS e na perspectiva de tempos de conquistas legislativas pelo reconhecimento cidadão das diversidades nas identificações sexuais e no direcionamento ao casamento  entre iguais.

Onde somos apresentados a um típico casal gay de meia idade, o arquiteto Daniel (Ciro Sales) e o escritor Murilo (Bruno Cabrerizo) recebendo para um jantar, em seu sofisticado apartamento de uma classe média em ascensão, Barthô (Alexandre Lino), agente literário deste último, acompanhando de mais um de seus amantes jovens - Fred (José Pedro Peter), um assistente de saúde.

Numa concepção cenográfica de simplificação minimalista (Clívia Cohen) com um sofá central que vai se decompondo dentro da moldura vazia de um quadro, com luzes apenas vazadas (Felício Mafra) e uma indumentária (Humberto Correia) dia-a-dia para os personagens masculinos e mais formal nos trajes da atriz Dedina Bernardelli.

Entre drinques e entradas preparadas por Daniel, desfilam ligeiras conversações de amenidades cotidianas e de gostos pessoais a opiniões sobre arte até que, inquirido sobre uma relação ainda não registrada em juízo apesar de sete anos juntos, Murilo defende sua posição obstinada contra esta oficialização de teor jurídico do casamento entre iguais.

Que ele, ao contrario de Daniel, considera inócua, obsoleta, antiquada, numa formalização mais ligada às questões de futura segurança financeira e presencial esclarecimento sócio/familiar, prevalecendo sempre sobre o prazer libertário do autentico relacionamento afetivo entre dois iguais.

A partir daí torna-se perceptível uma mudança na progressão da narrativa dramática ocupando, aos poucos,  o lugar do descompromisso lúdico, no entremeio de lances bem humorados e dos trejeitos ironicamente risíveis assumidos, convictamente, em caráter especial por parte de Barthô (Alexandre Lino).

Onde ele quase domina sozinho a cena com envolvência ímpar, numa espontaneidade gestual e numa proposital verbalização afetada que, longe do mero clichê, conquista imediatamente a cumplicidade do público. Completada nas episódicas intervenções de seu namorado Fred (José Pedro Peter), menos favorecido pelas limitações de seu próprio  papel.

Mas a qualidade da representação em compasso de unicidade, se estende ao sotaque verista conferido ao personagem declaradamente romantizado de Daniel (Ciro Sales), com sua crença ferrenha de que apenas o cartório pode solidificar e garantir o convívio domiciliar "in aeternum" e a intimista trajetória com Murilo, nesta parceria de vida e de cama.

E, também, ao confronto pelo auto descrédito no próprio potencial de ficcionista que Murilo, numa incisiva performance de Bruno Cabrerizo, por vezes, compara ao mais digestível, como uma subliteratura de substrato LGBT. “Chiclete literário", classificação desprezível não compartilhada por Fred um confesso leitor de seus escritos virtuais e impressos.

Com a entrada do único personagem feminino, a mãe de Daniel, em energizada entrega de Dedina Bernardelli a um papel de incomoda arrogância e provocadora pulsão, a sequencial mudança psicológica na trama vai, aos poucos, com surpreendentes revelações,  adquirindo uma inesperada e patética inflexão de trágicas nuances.

Que o seguro comando diretorial de Gilberto Gawronski sabe imprimir, com sensorial dinâmica e sutil inventividade, na difícil passagem modal entre o cômico e o trágico. Do micro contexto gay para o alcance de uma macro visão da transcendência dos relacionamentos amorosos, em seus embates contra todas as formas de intolerância, de preconceito e de exclusão.

                                           Wagner Corrêa de Araújo


O MARIDO DO DANIEL está em cartaz no Teatro Petra Gold/Leblon, quartas e quintas às 20h. 100 minutos.  Até 20 de fevereiro.

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