NAVALHA NA CARNE : COM LAMINAR RECORTE DRAMATÚRGICO

FOTOS/VICTOR HUGO CECATTO

Uma viagem ao inferno, um jogo de domínio e submissão, um teatro ou uma dança da crueldade, num ritual de perversão sadomasoquista em visceral round de  amor selvagem.

Um vasto conceitual temático e estético pode ser atribuído a um dos mais emblemáticos textos da história do Teatro Brasileiro – Navalha na Carne, de Plínio Marcos. Cronologicamente precedido por já polemizada inicialização com suas duas primeiras peças - Barrela e Dois Perdidos Numa Noite Suja.

Desde que foi escrita em 1966 à sua chegada aos palcos, no ano seguinte, a peça enfrentou um dos mais árduos embates censórios do governo militar. Sendo retirada de cartaz após frustradas  tentativas  de dar continuidade a uma corajosa temporada de enfrentamento, com direção concepcional de Jairo Arco e Flexa.

Foi por esta época que Tônia Carrero resolveu dar uma guinada radical na tipificação de personagens que a tinham tornado uma celebrada atriz, insistindo na mudança para um papel marginal num contexto de devassidão e de submundo, encontrado nesta obra de Plínio Marcos.

Reunindo em cena, a prostituta Neusa Sueli, o cafetão Vado e o faxineiro homossexual Veludo, numa trama de progressão dramática exclusiva em cenário único, o quarto de uma pensão decadente. Onde vivem Neusa Sueli e Vado com seus negócios de profissionalismo sexual, além de Veludo que exerce, ali, seu trabalho de “domesticidade".

Aqui e agora, em concepção cenográfica (Sergio Marimba) de extremado realismo nos traços decadentistas e escrachados de um cômodo claustrofóbico para atos meretrícios, ocupado por cama, armários, lavatório, janelas laterais e porta frontal, estendendo-se, em sua triangularidade, sobre a plateia.

Onde efeitos luminares (Paulo Cesar Medeiros) sugestionam um clima bas-fond extensivo a uma indumentária (Marcelo Marques) indutora de tipificidade na licenciosa volúpia feminina, na afetação transexual e na cafonice malandra. Transmutando-se toda esta significante plasticidade no acerto de proposital breguice do score sonoro/musical (Marcelo Alonso Neves).

Neste tributo a Tônia Carrero, com peça e exposição sobre sua trajetória teatral, a representação da prostituta que foi dela é assumida, quase meio século depois, por sua neta Luisa Thiré, ao lado de Alex Nader (Vado) e Ranieri Gonzalez (Veludo), sob um potencializado e revelador comando diretorial de Gustavo Wabner.

Sabendo, às alturas, como imprimir um díspare dimensionamento psicológico a personagens que se confrontam digladiando no clímax dos limites da violência, do asco e da humilhação. Em incisivo recorte dramatúrgico de uma condição humana à beira de seus mais baixos instintos, guiado por um linguagar cru, carregado de gírias e palavrões.

Transmutada na energizada direção de movimentos (Sueli Guerra) em estado bruto. Através da convicta impiedade gestual e frieza emocional, na performance machista e virulenta do Vado de Alex Nader.

Confrontando-se com a ambiguidade comportamental do Veludo de Ranieri Gonzalez, entre um trans-exibicionismo e uma aversão misógina, enquanto perturba, com sua homo-feminilidade, a agressiva virilidade de Vado.

Sem deixar de revelar a desnudante entrega de Luisa Thiré a um papel de desafeto e desprezo passíveis de comiseração, no entremeio de uma prevalente tensão dialetal  em ambiência repulsiva.

Imprimindo a uma fragilizada mulher e vulnerável prostituta caracteres,  de proximidade artaudiana, com vigoroso sustento na danação de um ser violentado em busca de um páthos redentor.

                                                Wagner Corrêa de Araújo


NAVALHA NA CARNE está em cartaz no Teatro Gláucio Gil/Copacabana, de sexta a segunda, às 20h. 75 minutos. Até 03/Junho.

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