THIAGO SOARES / ÚLTIMO ATO : SEM QUE AS LUZES SE APAGUEM, LONGE DA DESPEDIDA

Último Ato. Thiago Soares/Direção e Coreografia. Outubro/2023. Fotos/Divulgação.


Quem diria que um menino de família simples com limitadas condições financeiras, de uma destas ruas comuns do subúrbio carioca, dos espontâneos improvisos do “break", como num passe de mágica, se  tornaria estrela de primeira grandeza do mais celebrado palco londrino da dança clássica.

Tendo ainda transitado profissionalmente por outros espaços  sacralizados  por nomes míticos da dança ou em conceituadas companhias de balé,  desde o Theatro Municipal carioca à sua seleção  para o Bolshoi ou passando pelo elenco do Kirov. Antes que chegasse a sua grande chance de se tornar, em pouco tempo, um dos primeiros e absolutos bailarinos do Royal Ballet.

Onde durante quase duas décadas tornar-se-ia um destes vitoriosos bailarinos/atores, com seus personagens dramatúrgicos de protagonismo masculino, em balés como Oneguin, Manon ou Mayerling. Cumprindo, assim, o desafio de enfrentamento do preconceito machista de seus colegas de escola pública com sua reflexão visionária de que estava apenas aprendendo teatro num estúdio de balé.

Sempre tive interesse em conhecer os personagens por seu lado teatral, pelo que trazem de narrativo, por suas características expressivas. E o fato de ter chegado ao Royal me ajudou muito nisto, pois é uma companhia única no mundo que consegue reunir sempre o teatro e a dança’’, foi o que nos disse Thiago Soares em entrevista para a Revista Dança Brasil, em 2015, distante ainda da sua decisão futura aos 38 anos, trocando as glórias londrinas pela busca investigativa de novos caminhos na arte da dança.


                 Último Ato. Thiago Soares/Direção e Coreografia. Outubro/2023. Fotos/Divulgação.


O que ele vem fazendo com o maior empenho, retomando ocasionalmente suas raízes de dançarino de break conectando-as à sua sólida base acadêmica de tantos anos. Ora coreografando e dirigindo um espetáculo inteiro naquela que foi sua primeira companhia clássica o Balé do Municipal. Ou apresentando-se em obras, com um olhar mais contemporâneo como num pas-de-deux (Paixão) criado por Deborah Colker e dançado pelos dois.

Tendo aberto, em tempos recentes, um estúdio de dança no Rio de Janeiro e, a seguir, optando por dirigir o Balé de Monterrey, México, atuando ali, no momento, como coreógrafo residente. Isto tudo para sequenciar uma bela trajetória dançante, de nada menos que três décadas com inúmeras turnês mundiais.

Começando, também, a dar vazão a um antigo ideal de integrar a performance coreográfica à representação teatral. Extensiva a algumas incursões cinematográficas, indo desde um curta autoral (Quimera Vermelha) no Festival Cannes 2022, além do ideário de um longa autobiográfico a ser lançado no próximo ano. Lembrando, ainda, que algumas de suas maiores performances clássicas estão preservadas em registros fílmicos.

Nesta sua mais recente criação a que ele denomina, sob uma sutil e subliminar ironia crítica, de Último Ato, originalizada em Lisboa, na continuidade de apresentações em Curitiba, Rio de Janeiro e São Paulo. Numa proposta diferencial na carreira de Thiago Soares, mostrando suas aptidões de bailarino clássico, integralizadas num similar nível qualitativo com as danças urbanas.

Em performances ao lado de mais quatro atores/bailarinos (Alyne Mach, Elenilson Grecchi, Helio Cavalcanti e Tairine Barbosa) com um assumido sotaque de teatro coreográfico para, neste dimensionamento estético, sugestionar os bastidores do universo da dança. Alternando a linguagem gestual da corporeidade no entremeio de verbalizações confessionais teatralizadas sobre sua vida de artista.

Priorizando o cotidiano do oficio de bailarino, dos camarins ao ensaio no palco, do experimento das indumentárias características aos efeitos luminares e sonoros. No alcance de momentos originais como um pas-de-deux com uma barra ou um inspirado recorte cênico, em dialetação de todo elenco com um globo numa espacial projeção plástica do homem vitruviano de Leonardo da Vinci, sob mágicos acordes impressionistas.

No que seria a apoteose final transmutada num vocabulário do movimento sob a linguagem híbrida da técnica clássica com o gestual break, acontecendo num teatro imersivo sob luzes psicodélicas que, na prevalência de uma vigorosa dramaturgia da fisicalidade, sinaliza que está longe de ser este o Último Ato...

 

                                        Wagner Corrêa de Araújo


Último Ato, de Thiago Soares, foi apresentado em turnê por sete cidades brasileiras, desde maio até os dias 7 e 8 de outubro em São Paulo, no Teatro J. Safra.

2 comentários:

Anônimo disse...

De Cristina Avila adorei o texto, quero muito ver este espetáculo!

Eliene Narducci disse...

Que maravilha!!! Parabéns pra ele e a todos q chegaram junto nisso!

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