METAMORFOSES CÊNICAS DE EDUARDO MARTINI : MOSTRA DE REPERTÓRIO ROMPE LIMITES PANDÊMICOS


Simplesmente Clô, de Bruno Cavalcanti. Com Eduardo Martini. Dezembro de 2021. Fotos/Claudia Martini


Após a deflagração do status pandêmico, sob o desafio de riscos capazes de gerarem impedimento presencial, foram se fechando a portas dos espaços cênicos. Mesmo assim, peças no formato tradicional, como o caso de Simplesmente Clô, além de alcance dos palcos, tornaram-se fenômenos de permanência em cartaz.

Transmutando sua resistência na ideia mais ousada de realização de uma mostra de repertório na abrangência, simultaneamente no mesmo Teatro das Artes, de quatro criações da múltipla faceta artística do ator, diretor, autor e produtor Eduardo Martini.

Experiente decifrador de um universo cênico onde vem se dividindo, há anos, numa bem sucedida trajetória entre o teatro e a televisão, com mais de trinta atuações no palco, especialmente na prevalência de musicais e comédias.

Além de inúmeras novelas, destacando ainda suas conhecidas especificidades do talento de one man show e humorista, ora atuando ao lado de nomes como os de Chico Anísio e Dercy Gonçalves, ora na personificação de esquetes televisivos como Neide Boa Sorte.

São quatro espetáculos, aqui, em horários diversos, entre sexta e domingo, a saber, Simplesmente Clô, Papo com o Diabo, Angel e Uma Lágrima para Alfredo. Todos eles tendo passado por longas temporadas em teatros paulistas.


Uma Lágrima para Alfredo, de Raphael Gama. Com Eduardo Martini e Raphael Gama. Dezembro de 2021. Foto/Cláudia Martini.

Revelando sempre a simbiótica alternância de ofícios exercidos na cena teatral por Eduardo Martini, no entremeio de um livre funcionamento das atitudes criadoras, indo dos monólogos (Simplesmente Clô e Papo com O Diabo) às performances em duo (Uma Lágrima Para Alfredo) ou coletivas (Angel). 

Através de uma intencional tendência de explorar ao máximo o seu timing de comédia, com instantânea espontaneidade, energizado gestual e muita musicalidade nas habituais intervenções cantantes e coreográficas. Ora num solilóquio de influência televisiva,  numa quase stand up comedy, como acontece em Papo Com o Diabo, de Bruno Cavalcanti, sob a direção de Elias Andreato.

Ou na visceral incursão melodramática de Uma Lágrima Para Alfredo, comédia burlesca  conectando um certo sotaque almodovariano a um referencial da chanchada brasileira na  performance de Eduardo Martini e Raphael Gama, este último, aliás, também assumindo a função autoral.

Em Angel, escrita pela dupla Vitor de Oliveira e Carlos Fernando Barros, sob a ótica da exploração das mazelas de um cabaré para strippers masculinosE. Martini acumula a direção e a interpretação num elenco com oito nomes. Fazendo uma espécie de tributo a um gênero que foi muito comum nos anos 80/90 e favorito do público LGBT, com seu olhar armado no transgressivo exibicionismo do nudismo corporal.

No caso específico de Simplesmente Clô, sustentando-se como o mais bem urdido argumento dramatúrgico de Bruno Cavalcanti, o substrato é assumidamente memorialista, fragmentário e não sequencial, numa espécie de inventário, a partir de dúplice idealização com o ator protagonista .

Na abordagem de passagens privadas e públicas da vida e da obra do estilista entremeadas de lembranças familiares a atitudes polêmicas envolvendo do sexo à política. Tratadas sempre com inteligente humor, através de uma mordaz e sempre irônica linguagem dramatúrgica e de um gestual de implícita caracterização psicofísica do personagem focado.

Em dimensionamento dramatúrgico portador de um sensorial alcance na modulação de tonalidades clean e na exorbitância do branco, ressaltados pela ambiência intimista conferida pelas luzes quase entre sombras (Felipe Stucchi), sob um atento comando diretorial de Viviane Alfano.

Extensiva ao minimalismo cênico concepcional, mesa e sofá emoldurando uma paisagem afetiva, com manequins portando figurinos, inspirados nos traços originais de Clodovil, incluída a indumentária formal do protagonista titular, tudo da lavra do próprio Eduardo de Martino.

Complementando-se pelo aporte simbólico - como um  leitmotiv filosófico de vida - no uso da canção celebrizada por Piaf (Non, Je Ne Regrette Rien) com oportunas interveniências ocasionais da voz de Martino na gravação original.

Favorecendo não só o empenho performático do ator e, mais ainda, o clímax da representação, ao conferir perceptível consistência nesta busca investigativa da interiorização e da decifração de todos os contornos de um personagem provocador mas, sobretudo, carismático.

                                           Wagner Corrêa de Araújo

Papo com o Diabo. Monólogo quase uma stand up comedy, com Eduardo Martino. Dezembro de 2021. Foto/Claudia Martini.

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