CIA SOLAS DE VENTO : LÚDICA E INVENTIVA INCURSÃO DRAMATÚRGICA PELO UNIVERSO FICCIONAL DE JULES VERNE


Cia Solas de Vento. Viagem ao Centro da Terra. Maio/2022. Foto/Mariana Chama.


A temporada com três espetáculos de lavra da paulista Cia Solas de Vento, sob o título geral de Viagens Extraordinárias, sequenciadas com A Volta ao Mundo em 80 Dias, Viagem ao Centro da Terra e 20 Mil Léguas Submarinas,  trouxe um novo alento às tradicionais peças direcionadas a um público infantil, longe dos habituais contos da carochinha.

Normalmente mais ligado à critica analítica da dança e do teatro para adultos resolvi acompanhar, mensalmente, cada uma destas peças inspiradas num trilogia de clássicos de Jules Verne. Primeiro, através da recomendação de especialistas neste gênero de teatro e, segundo, por uma questão nostálgico/afetiva.

Da infância, pelas plagas de várias cidadezinhas de uma Minas interiorana, onde as matinês de final de semana  eram a expectativa das crianças, acompanhadas de seus genitores. No meu caso, o juiz de direito destas comarcas Plácido, que ia ao cinema todos os dias,  única opção lúdica nestas provincianas veredas roseanas entre as montanhas das Gerais, sem televisão ainda e distante do porvir da internet.

Além de acompanhá-lo quase sempre nesta que foi a inicialização à futura paixão pessoal pela sétima arte,  no entremeio deste final dos anos 50 e a década de 60, pelos velhos “cinemas poeira". Inclusive assistindo às primeiras versões em cinemascope a cores destes filmes, inspirados na saga precursora da ficção cientifica, por intermédio do francês Jules Verne.

Todos eles longe ainda da tecnologia e dos efeitos especiais que marcariam tanto o cinema, sem  deixar de falar no futuro com a internet, nas inúmeras versões em filmes e séries destes clássicos. O que me incentivou mais ainda a revê-los confrontando os originais e sua adaptação para o palco nos dias de hoje.


Cia Solas de Vento. Vinte Mil Léguas Submarinas. Junho 2022. Foto/Mariana Chama.


E com isto foram mais surpreendentes as emoções do reencontro destas obras sob os artifícios inventivos da Cia Solas de Teatro, atuante desde 2007 no comando estético/concepcional da dupla Ricardo Rodrigues/Bruno Rudolf, conceituada e dona de merecidos prêmios em júris de teatro infantil por suas reveladoras realizações.

Na prevalência de uma fórmula descortinadora de possibilidades capazes de unir o teatro físico, mímico e de bonecos, às artes circenses e técnicas coreográficas. Paralela à outra especial qualificação quanto ao recurso a elementos dramatúrgicos e cênicos (cenografia, indumentária, luzes, trilha sonora), com exclusiva autoria e resultado de sua múltipla faceta criativa.

Utilizando-se de uma linguagem que privilegia as atitudes criadoras, os integrantes da Cia, aos quais se junta  também a participação valiosa de outros atores tais como André Schulle, todos eles  integralizados em apurada atitude performática à qual nunca falta o entretenimento.

Inseridos em um percurso pleno nas variações risíveis de tonalidades vocais que imprimem diferencial caracterização aos seus personagens com suas especificidades burlesco/circenses. Carregadas de uma corporeidade acrobática e de mimético gestualismo coreográfico, preenchendo a caixa cênica que, sob efeitos luminares e projecionais, se transforma quase numa tela de cinema.

Trazendo também um referencial de identificação estético/cinética com as inúmeras mostras do cinema primitivo de Georges  Méliès (desde o Jules Verne de Viagem à Lua, 1903) aos filmes de animação daqueles anos, a maioria dos países da Europa Oriental. Que organizávamos para espectadores de todas as idades, quando idealizamos a Sala de Cinema Humberto Mauro do Palácio das Artes (BH), já nos idos de 1977 a 1981.

Lembranças, enfim, despertadas por estas nuances delicadas de clímax e pequenos mistérios provocados por uma espontânea criação cênica, quase peças-filmes, e sua cativante interpretação. Que se, por um lado atraiu a cumplicidade entusiasta da plateia de grandes e pequeninos, foi capaz de insuflar indisfarçável emoção memorial, em viagens extraordinárias pelos espaços siderais da mente...


                                         Wagner Corrêa de Araújo


Cia Solas de Vento. A Volta ao Mundo em 80 Dias. Abril/2022. Foto/ Mariana Chama.


A Cia Solas de Vento com suas Viagens Extraordinárias fez temporada, sábados e domingos, às 16h, no Teatro II /CCBB/RJ, entre os meses de abril a junho 2022.

Um comentário:

Anônimo disse...

Excelente Grupo. ‼️👍

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