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| Os Credores/Grupo Tapa. August Strindberg/Dramaturgia. Eduardo Tolentino de Araújo/Direção Concepcional. Em cena/Sandra Corveloni e Bruno Barchesi. Janeiro/2026. Ronaldo Gutierrez/Fotos. |
A trilogia das Tragédias
Naturalistas (Pai, Senhorita Júlia e
Os Credores) foi elaborada pelo escritor, ensaísta e dramaturgo sueco August Strindberg (1849-1912), entre
1887 e 1889, tornando-se um emblemático signo de sua escritura cênica, ora
voltada para o naturalismo ora para o expressionismo.
Entre outras peças deste autor, Os Credores entrou no repertório
permanente do Grupo Tapa, sendo uma
das mais reapresentadas desde sua primeira versão em 2012, sob a ousada marca da inventividade
concepcional de seu diretor Eduardo Tolentino de Araújo. Repercutindo, ali, o legado da
influência transformadora de A.Strindberg
no processo criador da contemporaneidade teatral.
Do cast original à reestreia de 2023, aqui com base numa
tradução direta do sueco pelo próprio encenador, trazendo desta vez, no elenco,
os atores André Garolli, Bruno Barchesi e Sandra Corveloni. Além da inclusão
inédita de um terceiro personagem apenas como um singular figurante e ao mesmo
tempo atuando como contra regra - Felipe Souza.
A narrativa ambientada num hotel balneário, é configurada
numa proposta mais concisa, mostrando sequencialmente três cenas em espaços
diferenciais, sempre com as interferências do Encarregado (Felipe Souza) nas mobilizações dos poucos elementos cênicos.
Em uma minimalista mas significativa cenografia
(criação coletiva) no dimensionamento da trama dramática, completada pelos
figurinos contemporâneos com sutis tonalidades atemporais.
Ampliada no intimismo de um espaço que faz com que a plateia participe
mais imersivamente através do reflexo especular em plano frontal e lateral,
produzindo um efeito de aproximação sensorial entre atores e espectadores. Sob um
subliminar sotaque cinematográfico e virtual, referenciando uma antecipação quase secular do
teatro de Strindberg para o cinema de Bergman.
Inicialmente em uma sauna masculina, onde o jovem escultor Adolf (Bruno Barchesi) é incitado a crer
na volatilidade das esposas consideradas fiéis, por seu recente e supostamente amigo
Gustavo (André Garolli), um convicto adepto
de um machismo tóxico.
Na cena seguinte, diante de sua mulher Tekla (Sandra Corveloni), Adolf
aparece como um marido fragilizado, não só por sua própria condição física, mas
indefeso e manipulado como uma criança diante do domínio feminino exercido por
sua consorte.
E na sequência, a força possessiva de Tekla sendo friamente confrontada por Gustavo que, na verdade, pela intuição quase previsível do enredo,
apreendida ou não por alguns espectadores, revela-se como seu primeiro marido, demonstrando
sua mágoa ferina por ter sido sugestionado como um personagem “idiota” no romance que ela publicou.
Os três protagonistas se destacando na unicidade do empenho e
da entrega de seus personagens ao complexo conflito de vontades permeado por um
niilismo cáustico e perturbador. A começar pelo jogo cruel estabelecido por Gustavo,
agindo como vingativo credor de dívidas matrimoniais, que, no seu linguajar irônico
e no gestual desintegrador, encontra um intérprete qualitativo em André Birolli.
Em contraponto a convincente personificação de André Garolli cintila, entre a melancolia e o ceticismo existencial de Adolf, não só por sua deficiência física e mais ainda por sua incapacidade
de escapar à submissão feminina de Tekla,
mesmo com sua pulsante busca afirmativa como artista plástico.
Enquanto Tekla, razão principal do tríplice embate psicológico perceptível na estruturação dos três papéis, imprime uma sedutora conotação sensitiva, entre
a arrogância e a afetividade, no provocador exercicio de sua obsessiva
feminilidade, num destaque absoluto como personagem, atriz e mulher para Sandra
Corveloni.
O acerto da gramática cênica, assumida por Eduardo Tolentino de Araújo na
peça Os
Credores, um clássico de Strindberg,
reafirma sua maturidade artística pelo reconhecido alcance de seu ideário direcional frente ao
Grupo
Tapa. Sempre voltado para um inventário dramático irradiante e
esclarecedor, sintonizado com os avanços estéticos do teatro e com a
problemática de nosso tempo...
Wagner Corrêa de Araújo
Os Credores, com o Grupo Tapa, está em cartaz no Teatro Poeira/Botafogo, de quinta a sábado, às 20h; domingo, às 19h; até 08/03.


