Outra Revolução dos Bichos. Daniela Pereira de Carvalho/Dramaturgia. Bruce Gomlevsky/Direção. Setembro/2023. Fotos/Michel Langer. |
Retomo aqui algumas considerações postadas no blog autoral
Escrituras Cênicas, durante a temporada da primeira versão titulada Uma Revolução dos Bichos que se tornou uma das maiores surpresas teatrais da temporada
2022 para, sequencialmente, tecer comparações com esta Outra Revolução dos Bichos.
“Todos os animais são
iguais mas alguns são mais iguais do
que outros” – nesta frase do escritor britânico George Orwell está
sintetizado o transubstancial fio condutor da
trama ficcionalizada de seu livro Animal
Farm que, ao lado de 1984, revela os desvios e as falácias a que conduzem
os jogos do poder, do domínio e da submissão na radicalização das ideologias,
sejam estas da esquerda ou da direita.
Original de 1945, com o propósito de fazer uma irônica e
mordaz sátira aos desmandos tirânicos de Stalin, com sua distorção opressiva
dos princípios e ideários políticos que nortearam a Revolução Russa de 1917,
desde que assumiu ditatorialmente o poder na expansão da era soviética.
O que ele faz numa representação fabular através de uma
fazenda onde os animais promovem uma revolta libertária, diante da forma
desprezível e exploratória como eram tratados pelos humanos representados pelo
patrão/proprietário. Em livro emblemático por seu substrato atemporal e que vem
inspirando desde releituras cinematográficas e teatrais a adaptações para
quadrinhos e até jogos virtuais.
A partir destas anotações, passamos a comparar a busca investigativa numa textualidade reescrita com o habitual apuro da dramaturga Daniela Pereira de Carvalho e sob as sempre artesanais concepções direcionais de Bruce Gomlevsky, lembrando que ambos estavam na comissão de frente criadora da primeira versão (Uma Revolução dos Bichos).
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Outra Revolução dos Bichos Bruce Gomlevsky/Direção. Com Gustavo Damasceno. Setembro/2023. Fotos/Michel Langer. |
E, agora, numa ousada adaptação que estabelece um confronto
com o grande espetáculo cênico de 2022, com seu funcional uso de todos os recursos performáticos
de um coesivo elenco e de um luminoso
suporte tecno-artístico, tornando a peça
um absoluto sucesso de público e merecedor do aplauso da crítica.
Nesta sua volta aos palcos contando novamente, além da dramaturgia
de Daniela Pereira de Carvalho e da direção de Bruce Gomlevsky, com um único ator
da montagem original que tinha quase vinte intérpretes. Estamos nos referindo a
Gustavo Damasceno que já impressionara muito pela sua representação no núcleo protagonista anterior, no papel de Napoleão, ao lado de
Yasmin Gomlevsky como Bola de Neve.
Incluindo ainda as variações luminares de Elisa Tandeta que
são retomadas numa proposta absolutamente diferencial da outra peça, com luzes
focais ou vazadas, de plasticidade ambientalista entre o claro e o escuro, preenchendo
o vazio do tablado/caixa cênica, num espaço
quase arena e onde prevalece a atuação solista de Gustavo Damasceno.
Com uma black
indumentária cotidiana, contrapondo-se às tonalidades aquareladas dos figurinos e visagismo facial nos
personagens da primeira montagem. E sem a interveniência de quaisquer
sonoridades musicais, salvo os ruídos produzidos por sua corporeidade gestual
e por suas incidentais e incríveis vocalizações onomatopaicas alterativas entre
o animalismo e o humano.
Bruce Gomlevsky imergindo mais uma vez num vigoroso teatro coreográfico
de sotaque expressionista, entre o onirismo e a encenação realista, no
entremeio de um arrojado dimensionamento dramatúrgico autoral de Daniela
Pereira de Carvalho inspirado pela narrativa de George Orwell.
Na singular retomada de uma proposta estética de priorização da
psicofisicalidade no gestual corpóreo/mimético de um só ator (Gustavo Damasceno) capaz, assim, de irradiar a força de sua maturidade
artística no desempenho de um transcendente momento da representação teatral.
Wagner Corrêa de Araújo
Outra Revolução dos Bichos está em cartaz no Teatro III/CCBB,
segunda e quarta a sábado, às 19h, domingo, às 18h. Até 02 de outubro.