LET’S PLAY THAT OU VAMOS BRINCAR DAQUILO : PERFORMANCE MANIFESTO DESAFIA O CONFORMISMO


Let'sPlay That ou Vamos Brincar Daquilo. Tuca Andrada/Dramaturgia/Atuação/Co-Direção. Maria Paula Costa Rego/Direção. Agosto/2024. Fotos/Ashley Melo.


“Quando eu nasci / um anjo louco muito louco / veio ler a minha mão / não era um anjo barroco, era um anjo muito louco, torto / com asas de avião”...

E é, numa quase paródia referencial aos famosos versos drummondianos (Quando nasci, um anjo torto. Desses que vivem na sombra. Disse: Vai, Carlos, ser gauche na vida) que o poeta e letrista Torquato Neto inicia o seu poema Let’s Play That ou Vamos Brincar Daquilo.

O que, não por acaso, passou a titular simbologicamente a peça - manifesto idealizada, dirigida e interpretada por Tuca Andrada, ao lado de um envolvente duo musical Pierre Leite e Caio Cezar Sitônio, este último no comando da trilha e dos arranjos.

Ideário dramatúrgico – poético - musical que, segundo o próprio Tuca Andrada, surgiu de uma súbita folheada num dos volumes da edição antológica do livro Torquatália, elaborada pelo escritor Paulo Roberto Pires, impressionado especialmente por seu conceitual  estético / vanguardista.  

Lembrando que o nome similar do espetáculo foi anteriormente o mote inspirador de uma versão musical, com bastante repercussão, do poema original de Torquato Neto. Pelo instigativo teor da letra do poeta e da lavra composicional de Jards Macalé, tornando-se um dos lemas sinalizadores do movimento musical conhecido como Tropicália.


Let'sPlay That ou Vamos Brincar Daquilo. Tuca Andrada/Dramaturgia/Atuação/Co-Direção. Maria Paula Costa Rego/Direção. Agosto/2024. Fotos/Ashley Melo.


Além de seus escritos poéticos, Torquato Neto foi colunista do jornal Última Hora e, apesar de sua breve vida, ele morre com apenas 28 anos, à causa de um suicídio, por gás no banheiro de seu apartamento, deixando uma vasta correspondência, textos publicados em outros jornais e revistas, e muitos inéditos.

E foi a partir deste legado que Tuca Andrada, em parceria com sua conterrânea pernambucana Maria Paula Costa Rego, reconstitui numa espécie de aula-espetáculo musical esta trajetória de um intelectual marcado por sua rebeldia e inventividade textual que o levaram, inclusive, a participar do movimento concretista, nos anos sessenta/setenta.

Concebido cenicamente para um espaço arena ou próximo disto coberto de folhas soltas com citações poemáticas de Torquato, e contando apenas com uma espécie de banqueta, sendo Tuca rodeado de perto por parte de espectadores convocados a uma animada conversa face a face e a uma ciranda popular.

E é ali que o ator prenche uma carismática psicofisicalidade, sob irrestrita e ininterrupta bravura e potencial força energética, fluindo  de sua espontanea verbalização e de suas cantorias, capazes, assim,  de contagiar o mais acomodado dos espectadores com seu icônico apelo – “vai bicho desafinar o coro dos contentes”...

Artistas de tal envergadura, como foi o caso de Torquato Neto, no enfrentamento de acontecências politicas que vem cerceando nossa história política, são elos fundamentais para que aprendamos com eles a se rebelar, entre o ontem e o hoje, diante das absurdidades ditadorias ou frente aos retrocessos comportamentais e culturais experimentados no (des)governo anterior.

Assistimos, numa pulsão de encantamento, a esta diferencial proposta dramatúrgica tão bem elaborada  em seu dimensionamento estético de conexão entre a palavra poética e falada, entre seu empenho intelectualista e seu forte apelo popular, da visceralidade cultural ao caráter lúdico a que nenhum de nós consegue escapar.

E que Tuca Andrada soube imprimir tanto à sua performance, capaz mesmo até de lembrar a liberdade instintiva das criações do  Teatro Oficina,  como  ao espetáculo como um todo, junto às parcerias inestimáveis na direção com Maria Paula Costa Rego, ambos em ofício tríplice, cenografia e figurino, incluída ainda a vigorosa gestualidade que contamina ator, músicos e plateia.

De precioso alcance, também no acerto das sonoridades musicais mais as precisas incidências luminares de Caetano Vilela, tudo fazendo, sem dúvida alguma, de Let’s Play That ou Vamos Brincar Daquilo, uma das grandes surpresas da temporada teatral...

“Eis que esse anjo me disse / apertando minha mão / com um sorriso entre dentes / vai bicho desafinar o coro dos contentes / vai bicho desafinar / o coro dos contentes / let’s play that”...

                                          Wagner Corrêa de Araújo

 

Let’s Play That ou Vamos Brincar Daquilo está em cartaz no Teatro II/CCBB/RJ, de quinta a domingo, às 19h. Até 15 de setembro.

Um comentário:

Anônimo disse...

Como sempre um texto de grande sensibilidade. Não se vc sabe que nosso poeta mineiro Affonso Ávila acompanhou Torquato Neto e a Tropicália,comprando o disco assim que saiu.

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