HÉTERO SIGILO : O DIFÍCIL ENFRENTAMENTO DO CONVÍVIO COM AS DIFERENÇAS FRENTE AO CONSERVADORISMO FAMILIAR E SOCIAL


Hétero Sigilo. Bernardo Dugin/Dramaturgia e Performance. João Fonseca/Direção Concepcional. Março/2025. Nil Caniné/Fotos.


 

Sob um preconceito secular, a rejeição no entorno da diversidade de orientação sexual começa por sua classificação como “o amor que não ousa dizer seu nome”, paralela à sua definição científica como a homossexualidade, por outro lado, alcançando uma subliminar vulgarização pelo sarcasmo de gírias discriminatórias.

Mas destacando-se também pela sua abordagem, com uma proposta de denúncia mais conscientizadora ou remissiva, em inúmeras representações teatrais e cinematográficas, incluindo além da literatura as artes plásticas e, vez por outra, a criação musical.

O que fez crescer um progressivo movimento de reflexão, defesa e protesto originado na liberalidade comportamental dos anos setenta, interrompida pela eclosão, nos anos 80/90, da AIDS, transmutada então pelo estigma da culpa como um vírus exclusivo da comunidade gay.

Embora isto tenha se revertido, apesar ainda de muitos  outros pesares, pela pulsão cada vez maior da comunidade LGBTQIAPN+, persistindo apesar de todo este empenho uma epidêmica tendência comandada pelo recessivo conservadorismo moral, religioso e político.

Dentro de um contexto de desafio e oposição, valendo a pena destacar no universo teatral o surgimento de espetáculos contestatórios deste status refratário, ainda persistente em plena segunda década do terceiro milênio. Através, agora, de um monólogo qualitativo, primeiro resultado dramatúrgico de Bernardo Dugin, titulado muito a propósito, como Hétero Sigilo.


Hétero Sigilo. Bernardo Dugin/Dramaturgia e Performance. João Fonseca/Direção Concepcional. Março/2025. Nil Caniné/Fotos.


Um nome ascendente da nova geração nos palcos cariocas, originário de Nova Friburgo, mas já com boa trajetória como ator, assistente e diretor de teatro, com incursões pelo cinema e pela televisão. E nesta sua peça de estreia autoral, sendo dirigido pela habitual competência de João Fonseca, com assistência de André Celant.

Onde a caixa cênica é preenchida por uma minimalista concepção, frontalizada pela sugestão de um espermatozóide suspenso, e na funcional mobilidade de uma cadeira, mesa e banco, pelo ideário de Nello Marrese, também responsável por um figurino cotidiano bastante simplificado.

Sob luzes (Daniela Sanchez) entre sombras, ora focais, ora vazadas, ressaltando uma espontânea movimentação  (Vanessa Garcia) de um ator energizado ou então tornado mais pensativo, através dos sempre expressivos acordes composicionais do violoncelista e compositor Federico Puppi.

A narrativa dramatúrgica dimensionada por significativo episódio vivencial sofrido de forma agressiva, tanto por Bernardo Dugin como por seu parceiro amoroso, durante uma missa de sétimo dia em sua cidade natal, quando o padre que oficiava a cerimônia fez uma humilhante  alusão à presença, ali, do jovem casal gay.

Com repercussão em âmbito nacional, o fato provocou um procedimento jurídico e incentivou o ator a criar um perfil digital a que denominou de Hétero Sigilo, transformado depois na textualidade dramatúrgica, como um manifesto a favor da condição de ser e de se assumir como gay.

Na percepção desde a infância que era diferente dos outros meninos, entendendo em maior amplitude, a partir da adolescência, que era necessário aceitar isto sem restrição e acovardamento, diante de tanto bullying, por priorizar a leitura, a paixão pelo teatro e a dança, respondendo aos que riam dele - tu és tu, eu sou gay e daí, qual o problema?...

E é consciente de seu orgulho de ser assim que Bernardo Dugin se entrega a uma convicta performance sendo o personagem ele mesmo, expondo sem amarras a sua interioridade. Imprimindo afetiva sinceridade, ao estabelecer equilíbrio entre os desalentos e as alegrias numa despretensiosa dialetação confessional.

Tornada cativante ao fazer refletir aos que o assistem, como se quisesse ecoar no silencio emotivo de cada espectador a poética fala de Caio Fernando Abreu :  Quero a delicadeza de quem me olha e me entende sem que eu precise dizer uma palavra”...

 

                                         Wagner Corrêa de Araújo

 

Hétero Sigilo está em cartaz no Teatro Laura Alvim/Ipanema, sexta e sábado, às 20h; domingo, às 19h; até o dia 29 de março.

Nenhum comentário:

Recente

HÉTERO SIGILO : O DIFÍCIL ENFRENTAMENTO DO CONVÍVIO COM AS DIFERENÇAS FRENTE AO CONSERVADORISMO FAMILIAR E SOCIAL

Hétero Sigilo. Bernardo Dugin/Dramaturgia e Performance. João Fonseca/Direção Concepcional. Março/2025. Nil Caniné/Fotos.   Sob um preconc...