PIQUENIQUE, VARIAÇÕES AMOROSAS : MÁRCIA MILHAZES CIA DE DANÇA ABRE A TEMPORADA 2026, COM IRRADIANTE E IMERSIVO POEMA COREOGRÁFICO



Marcia Milhazes Cia de Dança - Piquenique, Variações Amorosas. Marcia Milhazes/Concepção Coreográfica-Direcional. Janeiro/2026. Denise Mendes/Fotos.


Próxima de completar sua terceira década, como uma das mais destacáveis e inventivas companhias da dança contemporânea em moldes brasileiros, a Marcia Milhazes Cia de Dança apresenta o conclusivo segmento titulado Piquenique, Variações Amorosas, de uma diferencial trilogia iniciada por Sempre Seu (2015) e Guarde-me (2017).

Sempre sob a direção concepcional de sua idealizadora e coreógrafa Marcia Milhazes, aprimorando seu vocabulário do movimento dimensionado por uma intimista estética de apelo camerístico onde são privilegiadas desbravadoras criações formatadas para solos e duos, ou por vezes, pequenas formações grupais em trio ou quarteto.

Por outro lado, conectando-se ao legado da pulsante plasticidade apresentada pela linguagem do barroco brasileiro, sob suas formas pictóricas e esculturais que sugestionam um contínuo desdobramento imagético, ela vem transmutando isto em seu processo de criação coreográfica.

O que é ampliado no uso habitual de um acompanhamento musical pelas releituras presenciais de um trio barroco, entre a tradição e a modernidade. Ou por intermédio de uma criteriosa e lúdica colagem de temas melódicos pré-gravados, como na recorrência a registros sonoros antológicos da música popular brasileira, pelo sotaque romântico-melodramático das canções de Orlando Dias e Francisco Alves à brasilidade rítmica de Carmen Miranda ou Pixinguinha.


Marcia Milhazes Cia de Dança - Piquenique, Variações Amorosas. Marcia Milhazes/Concepção Coreográfica-Direcional. Em cena/ Ana Amelia Vianna e Domenico Salvatore. Janeiro/2026. Denise Mendes/Fotos.

Caso deste espetáculo, fazendo ascender a nostalgia afetiva da sua narrativa dramatúrgica, numa subliminar formatação de teatro coreográfico, no entorno do percurso amoroso de um casal, indo da alegria prazerosa aos descompassos dos relacionamentos humanos, interpretados com absoluta identidade coesiva pelos bailarinos Ana Amélia Vianna e Domenico Salvatore.

Enquanto a participação da conceituada artista e irmã Beatriz Milhazes no projeto cenográfico, contribui de forma emblemática para a trajetória de ressignificação visual da corporeidade em movimento. Afinal, é como se aqui a obra encontrasse um referencial no preciso pensar de Kazuo Ohno “Dançar é como desenhar uma linha na tela”.

Mas, também, com outro detalhe relevante no capricho dos figurinos desenhados por Márcia Milhazes, ao sobrepor peças da indumentária que vão sendo retiradas  em cena pelos intérpretes, desde tules e sedas a tecidos com detalhes cintilantes ou dourados, que incitam as lembranças vividas pelos dois amantes nas memoriais passagens do tempo.

Os dois afirmativos intérpretes bailarinos - Ana Amélia Viana e Domenico Salvatore - imprimindo aos seus personagens uma expressiva técnica física conectada a uma sincronicidade sensorial de seus embates passionais interiores, capazes de provocar espontâneo reflexo especular palco-plateia, pelo empenho inventivo do direcionamento concepcional e coreográfico assumido por Marcia Milhazes.

Que se materializa nas afetivas trocas de texturas gestuais e na circularidade de um corpo-linguagem dialogando com o espaço-tempo, sob a envolvência de efeitos luminares (em dúplice realização, Márcia e Glauce Milhazes). Propiciando matizações ambientais diversificadas nas tonalidades mais neutras das cores originais do painel cenográfico, extensivas à representação performática.

Piquenique, Variações Amorosas mostrando, mais uma vez, o pleno domínio da Marcia Milhazes Cia de Dança imersa numa gramática coreográfica que, ao lado de uma acertada precisão do ideário estético assumido por sua mentora artística (Marcia Milhazes), alcança seu complemento integral no contraponto sólido de seus dois convictos intérpretes-bailarinos (Ana Amélia Vianna e Domenico Salvatore).

Inteiramente entregues a uma extasiante  tradução física-afetiva da circularidade de um inventário amoroso, emoldurado pela magia dos traços pictóricos de Beatriz Milhazes, sob o irreprimível conceitual coreográfico de Marcia Milhazes. O que, com certeza, haverá de trazer novas perspectivas em 2026 para a dança contemporânea daqui e de além-mares...

 

                                               Wagner Corrêa de Araújo


Piquenique, Variações Amorosas/ Marcia Milhazes Cia de Dança está em cartaz no Mezanino do Sesc/Copacabana, de quinta a domingo, às 20h30m; até domingo, 18 de janeiro.

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