JOB : UM MERGULHO ABISSAL NO INFERNO CIBERNÉTICO SOB O COMPASSO DE UM THRILLER PSICOLÓGICO


Job. Max Wolf Friedlich/Dramaturgia. Fernando Philbert/Direção Concepcional. Com Bianca Bin e Edson Fiechi. Janeiro/2026. Annelise Tozzeto/Fotos.



Uma das revelações da geração mais recente do teatro norte-americano é o dramaturgo Max Wolf Friedlich cujas peças se caracterizam pela abordagem incisiva dos conflitos psicológicos e questionamentos sem resposta que afligem a condição humana na contemporaneidade.

Desde sua estreia nos palcos experimentais novaiorquinos em 2012, ao absoluto reconhecimento do público e da crítica com sua peça Job, em 2023, a partir do seu cínico e provocador enfoque dos abismos mentais à causa da dependência avassaladora das mídias sociais. Inicialmente num teatro do Soho, dali chegando à Broadway no ano seguinte.

Tornando-se, então, um fenômeno midiático e, agora, pela primeira vez nos palcos brasileiros, a partir da apurada tradução de Alexandre Tenório, com o alcance de mais uma das destacáveis direções concepcionais de Fernando Philbert, tendo como protagonistas os atores Bianca Bin e Edson Fieschi.

A narrativa se desenvolvendo no entorno de uma funcionária de uma multi e influente empresa de tecnologia, voltada prioritariamente para os meios digitais, onde Jane (Bianca Bin) atua como uma especialista no atendimento ao usuário, com a função de moderadora de conteúdos.



Job. Max Wolf Friedlich/Dramaturgia. Fernando Philbert/Direção Concepcional. Com Bianca Bin e Edson Fiechi. Janeiro/2026. Annelise Tozzeto/Fotos.


Onde o enfrentamento dos abusos cotidianos em todos os níveis, morais e políticos, representados pela internet, acabam provocando em Jane um surto mental, no desespero de um pânico no trabalho que viraliza como um meme, obrigando-a a se afastar enquanto aguarda o diagnóstico terapêutico de Loyd (Edson Fieschi) que ela busca em seu consultório.

O preenchimento da caixa cênica (Natalia Lana) reproduz a elegante e, ao mesmo tempo, acolhedora sala de atendimento do terapeuta, completada pelo design de uma estante com plantas, esculturas e enfeites de uma plasticidade que evoca os tempos hippies de Loyd (Edson Fieschi) em Bekerley, além das tradicionais cadeira do médico e do sofá dos pacientes.

Os dois personagens com indumentárias (Ronald  Teixeira) costumeiras devidamente apropriadas ao exercício cotidiano, tanto do ofício do terapeuta como o de uma profissional na tipicidade  da Geração Z, trazendo  uma bolsa que esconde uma arma, segredo sinalizador no desenrolar da trama dramatúrgica.

Exemplificada no  funcional dimensionamento dos efeitos luminares (Vilmar Olos), ora prevalentemente vazados ora subitamente faiscantes, em flashs instantâneos que se conectam com intrigantes sonoridades, quase explosões, de uma trilha ruidosa capaz de assustar (Marcelo Alonso Neves).

E que  faz ascender a climatização de mistério, suspense e colapso, decorrente dos confrontos dialogais, sob calmaria ou surtos nervosos dos dois personagens que, sequencialmente, se transmitem dos atores aos espectadores provocando angústia e indagação sobre como decifrar o sentido de tudo aquilo.

Havendo ainda uma conturbada ambiguidade imprimida pelo dramaturgo à sua textualidade, a começar pelo dúplice significado que pode ter a titulação da obra. De um lado referenciando um personagem bíblico, nos ascendentes sacrifícios e sofrimentos enfrentados pela funcionária em nome de uma causa e, por outro, a tradução literal do vocábulo inglês com seu sentido de trabalho,  tarefa, função.

Sendo seguida, ainda, pelas mudanças de personalidade do terapeuta sob o stress ameaçador da paciente, atormentados ambos, mental e fisicamente, sob as incomodas circunstâncias de um enredo pleno de reviravoltas e que tanto pode soar como surpreendente ou, sobretudo, previsível, de acordo com a visão personalista de cada espectador.  

Destacando-se pela empatia performática de dois atores (Bianca Bin e Edson Fieschi), através da coesiva psicofisicalidade carregada de técnica e de indisfarçável apelo emocional no limiar de suas tensas contundências que se irradiam no gestual e nas falas de cada um deles.

Tudo sendo correspondido, com plena densidade, pela vigorosa direção de Fernando Philbert sabendo sempre como manter uma atmosfera sensorialmente impactante, sob permanente progressão dramática de pesadelo e de suspense.

Em espetáculo que, afinal, dá um necessário e urgente recado sobre o risco da conectividade desenfreada das relações humanas ao domínio de uma coercitiva adesão submissa ao universo cibernético...

                         

                                               Wagner Corrêa de Araújo

 

Job está em cartaz no Teatro TotalEnergies (Sala Adolpho Bloch)/Glória, sextas e sábados, às 20h; domingos às 18h; até 22 de fevereiro.

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