PEQUENO CIRCO DE MEDIOCRIDADES : IRÔNICO, MORDAZ E BEM HUMORADO RETRATO DRAMATÚRGICO DA CLASSE MÉDIA BRASILEIRA

Pequeno Circo de Mediocridades. Leonardo Netto/Dramaturgia e Direção. Agosto/2025. Dalton Valério/Fotos.

  

Inspirando-se nas considerações traçadas pelo sociólogo Jessé Souza, um celebrado analista das diferentes camadas que integram a estrutura da sociedade brasileira, o dramaturgo e diretor Leonardo Netto está de volta com a peça inédita Pequeno Circo de Mediocridades .

Tendo como ponto de partida especificamente o livro A Classe Média no Espelho, após uma atenta percepção de seus pontos fundamentais, transmutou-os em sete cenas características para o palco. Num retrato burlesco do comportamental conservador e medíocre de personagens que encontramos a toda hora nas esquinas da vida.

Representadas, aqui, por um afinado elenco na formatação de um quarteto integrado por reconhecidos nomes da cena teatral carioca desdobrando-se em papeis alternativos, ora em solo ora em formações grupais. Destacando-se cada um deles pela adequada escolha no entorno da especificidade de seus personagens.

Entre idas e voltas, Alexandre Varella, Elisa Pinheiro, Gustavo Falcão e Marina Vianna numa absoluta unicidade performática que estabelece um apelo imediato com a plateia numa possível identificação singular de cada espectador com as situações ali retratadas.


Pequeno Circo de Mediocridades. Leonardo Netto/Dramaturgia e Direção. Em cena, Gustavo Falcão e Elisa Pinheiro. Agosto/2025.Dalton Valério / Fotos.


A concepção cenográfica (André Sanches) minimalista usa um tablado frontalizado entre as duas plateias laterais, utilizando-se inicialmente de uma mesa e quatro cadeiras, aparecendo nelas cada um dos atores. Sequencialmente, sendo transformado nas ambiências sugestionadas pelos quadros dramatúrgicos.

Os figurinos (Luiza Fardini) sob sotaques cotidianos apresentam ligeiras variações atendendo, com precisa  funcionalidade, à proposta das sete cenas. Incluída uma espontaneidade gestual (Márcia Rubin) que agiliza a sintonização ator/personagem no tratamento irônico assumido pela textualidade dramatúrgica.

Às vezes pré-decifrada em sua intenção temática por sua própria titularidade tais como Cena de Jogo, Fatalidade, Olhos de Ressaca, Monstros Embaixo da Cama, Buraco no Salão, Atropelamento e Fuga, Selvageria. Mas nunca deixando de provocar uma inesperada surpresa em seu descortino final evitando, assim, qualquer obviedade narrativa.

A sutil interveniência de acordes musicais (Leonardo Netto) gradualiza o controle das nuances psico-emotivas, de caráter mordaz e risível, no desenvolvimento dos quadros. Estes sempre sendo acentuados na prevalência de luzes vazadas entremeadas por subliminares efeitos focais (Paulo Cesar Medeiros).    

Leonardo Netto, além de retratar as mediocridades deste extrato denominado classe média, potencializa a reflexão especular comparativa sobre as vivências de uma casta humana “circense” imersa na  hipocrisia do seu fútil mundo, consumista de privilégios romantizados. Que entre pesares está por todos os lados, a começar pelos seus anseios de ascensão politica o que só contribui para a crescente desmoralização  das instituições de nosso país.

E que simplesmente se torna alheia às desigualdades sociais, sentindo-se isenta de qualquer culpa ao se julgarem protegidos por suas recessivas crenças políticas, religiosas e morais que, em verdade, os transformam em verdadeiros párias da cidadania.

O núcleo do inventário dramático conciso, em sua aparente narrativa coloquial, é recheado assumidamente por lugares comuns do dia-a-dia, o que faz mais contundente a provocação do riso atuando como um contraponto crítico.

Extensivo ao alcance de uma gramática cênica que, através da coesão interpretativa de seu quarteto atoral por intermédio do perceptivo acerto de sua  direção concepcional, acaba tornando difícil sinalizar o destaque individualizado de tão convictos intérpretes em sete momentos diversificados .

Num destes avanços da dramaturgia sólida e inventiva de Leonardo Netto capaz, ao mesmo tempo, de abrir as portas para o entretenimento pelo senso crítico engajado a um sotaque de conscientização reflexiva, reafirmando a força da última geração do teatro em moldes brasileiros...

 

                                                  Wagner Corrêa de Araújo

   

Pequeno Circo de Mediocridades. Leonardo Netto/Dramaturgia e Direção. Em cena, Marina Vianna e Alexandre Varella. Agosto/2025. Dalton Valério/Fotos.


Pequeno Circo de Mediocridades esta em cartaz no Teatro Poeirinha/Botafogo, de quinta a sábado às 20h; domingo às 19h, até o dia 31 de agosto, com expectativa de novas temporadas.

Um comentário:

Anônimo disse...

Parabéns pela linda resenha 👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻

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