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| Cruise-Minha Última Noite na Terra. Jack Holden/Dramaturgia. Orlando Caldeira/Direção Concepcional. Em cena, Igor Cosso. Outubro/2026.Nico Rocha/Fotos. |
"Não morremos de
Aids. Morremos de preconceito. A discriminação mata mais rápido que o próprio
vírus”. Sintomática expressão da intolerância social que remete a um
reflexivo pensamento do escritor e ativista brasileiro Herbert Daniel, simbolicamente
também uma das vítimas fatais da mordazmente classificada como “peste gay”.
Transmutando toda euforia da libertária revolução sexual, arduamente
conquistada em anos de luta, num discriminatório veredito sobre a doença que já
naquela época (anos 80/90) inspirou peças emblemáticas como Angels in America, de Tony Kushner, além
da criação literária e cinematográfica com o mesmo tema.
O que continua em nossos dias pela última geração de
dramaturgos como o inglês Jack Holden.
Este último um jovem ator de 36 anos e que, depois de várias incursões nos
palcos, telas e na tevê, estreou como autor, em 2022, com a peça Cruise-Minha
Última Noite na Terra indicada
ao Laurence Olivier Awards, na
categoria “Best New Play”.
E que, agora, chega aos palcos brasileiros através do ideário
de um outro ator de aproximada faixa etária Igor Cosso, este um entusiasta mineiro de BH, radicado no
RJ, onde tem desenvolvido sua trajetória teatral, iniciada na segunda década do
milênio.
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Em Cruise-Minha Última Noite na Terra,
sob acurada tradução de Rodrigo Nogueira, ele protagoniza um monólogo onde dá voz a mais de trinta personagens, em espetáculo que reúne uma qualitativa equipe,
a começar por sua direção concepcional - Orlando Caldeira, tendo como
assistente Olívia Gold.
A peça tem um forte sotaque autobiográfico ao abordar o
período em que Jack Holden, tendo
completado 22 anos, atuava num trabalho voluntário de apoio LGBTQ+ na Switchboard. Quando recebeu um chamado
telefônico de um homem mais idoso Michael,
relatando a passagem de morte, exatamente naquela data, de seu parceiro
vitimado pela Aids.
E foi, a partir daí, que ele desenvolveu uma temática de
apelo melancólico que é superado pela vontade de viver, sob uma sensorial existência
conectada a um trágico estigma. Sendo eclipsado pela euforia dos encontros, amorosos,
no entremeio das agitadas noites de disco music no Soho londrino anos 90, completando-se em processo metafórico como
alegres viagens pelos espaços siderais
da mente.
O espaço cênico por Vino Fragoso, também responsável pela iluminação,
é preenchido com um funcional gradeamento frontal que, sob psicodélicos efeitos
visuais e sonoros, sugere uma pista de discoteca. Ampliada pela seleção de
conhecidos hits musicais no design de som (Fábio e Fael Mondego) evocando percussivos acordes da house
music que se tornaram marcas registradas dos anseios da geração LGBTQ+ em
compasso dançante.
Igor Cosso, com variações indumentárias (Tiago Ribeiro), em tonalidades ora reluzentes, remete à
tipicidade comportamental gay, desde um inicio mais discricionário ao atender
os apelos telefônicos, a uma vibrante corporeidade gestual orientada pela
consultoria coreográfica de Heron Leal.
Sabendo transitar por mais de trinta caracterizações, sob
diferenciais modulações vocais, atuando como um contador de histórias queer para propiciar um necessário tributo
e um afirmativo memorial. No entorno de Michael e seu desdobramento atemporal, na
tipicidade de personagens do universo gay, em convicto alcance para um carismático
compartilhamento ator/espectador.
Tudo isto repercutido na envolvência que uma segura direção concepcional
(Orlando Caldeira) trazendo a um espetáculo, de dimensionamento minimalista, um tratamento cênico cativante e, ao mesmo, carregado
de reflexiva envolvência, numa jornada que conecta o universal legado gay de
duas gerações.
Valendo lembrar aqui, como é fundamental esta lição para o
desafio de enfrentar um cotidiano de conservadorismo recessivo, na permanente ameaça de uma
expansiva extrema direita, aqui e acolá, capaz de atitudes de uma insensibilidade
cruel, exposta com rara coragem, no epitáfio
tumular de um ex integrante da Força Aérea americana, Leonard Matlovich, morto pela Aids em 1991:
“Um veterano gay do
Vietnã - Quando eu era militar, eles me condecoraram por matar dois homens - e
me expulsaram por amar um”...
Wagner Corrêa de Araújo
Cruise – Minha Última Noite na Terra está em cartaz no Teatro
Gláucio Gil/Copacabana, de sexta, sábado e segunda, às 20h; domingo, às 19h;
até 02 de novembro.



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