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| Botanica/Momix. Moses Pendleton/Coreografia e Direção Concepcional. Setembro/2026.Pucciariello Max/ Fotos/Divulgação. |
Desde que a invenção coreográfica passou a compartilhar dos
avanços tecnológicos, incluídos os efeitos digitais eletrônicos, visuais e
sonoros, estabeleceu-se uma polêmica, muito além do embate entre a tradição e a
modernidade, sobre a capacidade de se manter na íntegra a relação corpo
orgânico e corpo virtual evitando que a dança ficasse em segundo plano ao
perder seu caráter fundamental de expressão artística pura.
Retomo aqui algumas considerações críticas já enunciadas em
postagens autorais no blog Escrituras
Cênicas, no entorno da proposta estética de espetáculos internacionais como
o Momix,
na continuidade de sua perceptível frequência em nossos palcos. Mas sempre enfrentando o desafio e o risco de
transmutar a corporeidade dos bailarinos em silhuetas videográficas, deixando
assim de privilegiar o puro gestual da dança pela dança.
Tudo começou na passagem dos anos 60/70 com o Alvim Nikolais Dance Theater que tivemos
o privilégio de acompanhar desde sua primeira turnê brasileira nos anos 70,
fazendo um mix plástico/coreográfico
de inserções luminares e cinéticas que antecipavam a tecnologia virtual do
então futuro universo digital. Tendência que se expandiu através de outras cias
como o Pilobolus e, em seguida, o Momix.
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| Botanica / Momix. Moses Pendleton/Coreografia e Direção Concepcional. Setembro/2026. Pucciariello Max/Fotos Divulgação. |
O americano Moses
Pendleton foi um destes criadores que procuraram estabelecer alguns conceituais
parâmetros estéticos, assumidos inclusive já pela própria titulação de sua Cia – Mo (Moses) + mix
(miscigenação de linguagens). Conectando, em espontâneo processo de busca
investigativa, elementos gestuais, acrobáticos e ilusionistas, com um
prevalente referencial mimético direcionado a lúdicas e bem humoradas fantasias
visuais.
O que, se de um lado
possibilitou, a partir dali, uma empática comunicabilidade com públicos de
todas as idades, por outro lado, não conseguiu evitar certo fastio de um dejá vu na insistente reiteração no uso destes
recursos. Ficando muito claro este fator na instantaneidade de certas
concepções cênicas, sob um referencial clima de caleidoscópica videoclipagem,
com a exacerbação de ambiências tecnovirtuais.
Estreada em 2009, Botanica foi um dos espetáculos do Momix
que, por este aspecto, restrições enfrentou da crítica especializada,
exatamente por acentuar a excessiva predominância dos elementos da cenotecnia,
em detrimento do devido destaque à corporeidade gestual de seus “dançarinos-ilusionistas”, como passaram
a ser denominados por Moses Pendleton.
Embora, no caso de Botânica, houvesse o encantamento da
plasticidade da natureza através da figuração de suas plantas e animais, sob subliminar ideário
de uma necessária conscientização dos riscos ao planeta terra, à causa do descaso quanto a preservação desta
valiosa ambiência ecológica. O que, desde o prólogo, na profusão de imagens, dos
efeitos multimídia na conexão das luzes e dos figurinos aquarelados, chega a
ser compartilhado em seu dimensionamento sensorial por um público de todas as
idades.
No entremeio de algumas explorações investigativas de um
lúdico jogo mecanicista de sons e imagens e que, hoje não é nenhuma grande
novidade quando transposto para um espaço cênico. Utilizando-se do empenho de “dançarinos-ilusionistas”
imersos na envolvência de uma trilha sustentada, sob um sotaque de reiterativos acordes e
harmonias new age, tudo fluindo como uma mera engrenagem a serviço desta obra.
Que ora se aproximavam bastante do ideário fantástico-circense propugnado, por exemplo, pelo Cirque du Soleil, ou, então, até lembrando o mix de um teatro físico e coreográfico, inteiramente submisso às regras pictóricas de um especular e então inédito universo multimídia, com um alcance sequencial de quase duas décadas.
Rapidamente eclipsado por outras descobertas recentes tais
como a ascendente IA, a inteligência artificial, capaz de ser cada vez mais
manipulada pelos navegadores das plataformas digitais através dos próprios
recursos disponibilizados pela internet, no seu sentido mais abrangente.
Onde o Momix, através de seu mistificador mor (Moses Pendleton) alheio e em caráter aleatório, não deixando ser invalidado o ideário de sua original contribuição artística, frente às possíveis rotulações de que isto pudesse simbolizar ou não um espetáculo voltado à busca inventiva de novas trajetórias coreográficas. Com um questionador olhar armado numa independente criação estética capaz, sobretudo, de contribuir para o evolutivo legado seja da arte contemporânea em âmbito geral ou de uma dança sem quaisquer limites classificatórios...
Wagner Corrêa de Araújo
Botanica / Momix está em cartaz no TMRJ, de terça 22 a sexta-feira 24/09, às 19h; seguindo em temporada por outras capitais brasileiras - Belo Horizonte, São Paulo, Curitiba e Porto Alegre; até 08 de outubro.



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