AS IRMÃS PEREIRA : SOB SENSORIAL COMPASSO DRAMATÚRGICO ENTRE O RISO E A REFLEXÃO, UMA OPORTUNA HOMENAGEM À TRAJETÓRIA DE GUIDA VIANNA


As Irmãs Pereira. Pedro Brício/Dramaturgia. Alcemar Vieira e Pedro Brício/Direção Concepcional. Agosto/2026. Nil Caniné/Fotos.


O ideário da peça As Irmãs Pereira, pelo ator, dramaturgo e diretor Pedro Brício, conecta simbólicos propósitos que vão permeando a trajetória de vida e de palco de uma das mais referenciais atrizes brasileiras - Guida Vianna, como um dos nomes mais representativos da sua veterana geração.

Completando, agora, seus cinquenta anos de atuação ininterrupta no palco, nas telas do cinema e da tevê, extensivos à formação didática exercida por ela em suas passagens, por exemplo, pela escola de atores do Teatro Tablado, sendo Pedro Brício, ali entre outros, um dos talentos iniciados  e incentivados por ela.

Depois de suas incursões mais recentes como atriz em bem sucedidas montagens,  do aplauso do público ao da crítica (A Menina Escorrendo dos Olhos da Mãe e Teatro Decomposto), com algumas experimentais incursões pelo ofício de diretora, ao lado de suas inúmeras premiações, como o Troféu Camila Amado, Júri APTR 2026, por seu potencial talento nos palcos e na formação de  novos atores.

A começar pela dramaturgia paralela à direção concepcional de Pedro Brício, aqui, contando com a valiosa parceria de Alcemar Vieira, As Irmãs Pereira sendo representadas pela unicidade de três reconhecidas atrizes, a saber, além de Guida Vianna (Gloria), mais Clarisse Derzié (Edna) e Raquel Rocha (Dulce) personificando um trio de irmãs consanguíneas na faixa de 60 a 70 anos.


As Irmãs Pereira. Pedro Brício/Dramaturgia. Alcemar Vieira e Pedro Brício/Direção Concepcional. Agosto/2026. Nil Caniné/Fotos.


Que, naquele momento, defrontam  o que pode ou deve ser feito com as cinzas maternas de algum tempo atrás, atirá-las ao mar de Copacabana ou nas águas do Rio Tejo, acentuando a lembrança da vivência delas como ex-alunas de um colégio de freiras em Portugal, intencionando deixar de vez, a já decadente residência do carioca Largo do Boticário. 

E é a partir deste encontro inusitado provocado pela visita de Gloria (Guida Vianna) que transcorre toda a narrativa dramatúrgica, indo das perdas pelo luto às afetivas lembranças de tempos passados, no entremeio da solidão nostálgica de mulheres sexagenárias. Sempre pontuando por momentos risíveis estas viagens memoriais pelos espaços siderais da mente de cada uma delas.

Tudo isto se adequando com acerto cênico (Marieta Spada) no preenchimento de um espaço  em formato arena, avançando a encenação na ocupação de cadeiras da plateia sugerindo os assentos da sonhada viagem aérea RJ/Lisboa. E, também, pelo singular uso de objetos que remetem ao ambiente familiar das três irmãs.

Estas portando indumentárias cotidianas (Marcelo Olinto) que caracterizam as peculiaridades psicofísicas de cada uma delas, estendendo-se ao alcance de uma espontânea corporeidade gestual (Raquel Karro) correspondida em instantâneos movimentos dançantes, sob ligeiros temas musicais (Jonas Sá e Pedro Mibielli). Com sotaque de um leve romantismo capaz de suavizar passageiros instantes mais dramáticos, entre luzes (Tomás Ribas) ambientais mais vazadas que focais.

A performance  atoral é sustentada por um assumido dimensionamento direcional dúplice (Pedro Brício e Alcemar Vieira) para realçar, despretensiosamente, o comportamento mais corriqueiro de personagens femininas, diante dos percalços de uma idade avançada e sem maiores perspectivas, enquanto aguardam o epílogo existencial.

E é este tratamento dramatúrgico que estabelece o empenho destas três atrizes em construir personagens do dia a dia,  se identificando com a plateia pelos requintes de um humor fluente, permeado por subliminares e sutis questionamentos existenciais.

O que é correspondido, especialmente, pela maturidade de Guida Vianna refletindo, especularmente, a sua convicta entrega à exploração do contorno de tantos papeis, no seu meio século dedicado ao oficio de representar os transes comportamentais, tristes ou alegres, de cada um de nós diante dos desafios do difícil suporte da condição humana...  

 

                                            Wagner Corrêa de Araújo

   

As Irmãs Pereira está em cartaz no Espaço Arena/Sesc/RJ, até o próximo dia 16/08, às 18hs, com expectativa de novas temporadas.

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