QUASAR CIA DE DANÇA / CÉU DE PÊSSEGO : PURO ESTETICISMO COREOGRÁFICO COM SUTIL RECADO ECOLÓGICO


Quasar Cia de Dança / Céu de Pêssego. Henrique Rodovalho/ Direção Coreográfica / Concepcional. Projeto Dança em Transito. Agosto/2026. Jorge Sato e Leo Pinheiro/Fotos.


Desde sua criação em 1988, a Quasar Cia de Dança sob o ideário de seu coreógrafo Henrique Rodovalho, tornou-se a mais conceituada companhia de dança contemporânea da região Centro-Oeste do País, estendendo seu reconhecimento além-fronteiras, especialmente entre o final dos anos 90 e as duas primeiras  décadas do terceiro milênio.

Surpreendendo sempre pelo caráter inventivo e desbravador de suas criações coreográficas e a força qualitativa de um elenco, nas relações de movimento de aprimorados bailarinos, tanto na exposição técnica como na sua singular expressividade no preenchimento do espaço cênico, sob uma potencial proposta de brasilidade.

Retomada em sua mais recente criação - Céu de Pêssego, tendo sempre como mentor coreográfico-concepcional  Henrique Rodovalho na reunião de oito experientes integrantes-bailarinos : Carolina Amares, Daniela Moraes, Fabiana Nunes, Jorge Garcia, Lavinia Bizzotto, Luciana Fontanella, Luiz Oliveira e Samuel Kavalerski.


Quasar Cia de Dança / Céu de Pêssego. Henrique Rodovalho/ Direção Coreográfica / Concepcional. Projeto Dança em Transito. Agosto/2026. Jorge Sato e Leo Pinheiro/Fotos.


Apresentando titularmente uma proposta conceitual, através da titulação da obra - Céu de Pêssego, priorizando o rigorismo da dança pela dança, simultaneamente com um direcionamento gestual mais lúdico no entremeio, de um experiente corpo coreográfico, fragmentando, em teor minimalístico, os seus sequenciais movimentos de solos, duos e formações grupais.

Enquanto uma caixa cênica despojada na plasticidade imprimida pela linearização de tonalidades luminares (Henrique Rodovalho), alcança uma ambiência pictórica imagética, ampliada pelo contagiante sotaque ao representar o espaço celestial sob os efeitos crepusculares no entardecer.

E os figurinos (Cássio Brasil), no entremeio de calças masculinas e de vestidos nas bailarinas,  refletem pinceladas clean na prevalência aquarelada dos azuis propiciando, em paralelo, a percepção de uma energizada corporeidade indo de um subliminar sensualismo a uma assumida romantização.  

Tudo culminando na exponencial trilha autoral de Livia Netrovski e Fred Ferreira conectando sonoridades contrastantes, desde acordes instrumentais e temas vocais, plenos de apelos nostálgicos, a ritmos percussivos correspondidos pela sensorial entrega dos oito bailarinos à performance.

Embora esta última  representação da tão conhecida Quasar Cia de Dança, em espetáculo que remete à total prevalência de sua estética formal, tenha deixado de lado, um recado necessário e mais incisivo, por trás da poética denominação de Céu de Pêssego.    

Este fenômeno resultante da transmutação da natureza ligando a terra à significativa coloração solar de um céu pêssego. No trágico contraponto da denúncia sobre uma das regiões brasileiras mais afetadas pelo descaso ambiental na pulsão do expansionismo ruralista.

Onde a obra, mesmo assim, pelo empenho de sua criação artística, em que vale destacar a parceria com Lavínia Bizzotto e Samuel Kavalerski, não deixa perder a eficácia de outro valioso legado coreográfico de seu mentor-mor Henrique Rodovalho.

Com seu artesanal cast técnico e artístico, fluente em transmitir uma singular atmosfera palco-plateia sustentada em contagiante corporeidade focada, por vezes, num empírico preciosismo coreográfico da arte pela arte, no rigorismo abstrato e exclusivo de uma dança pela dança.

Mas, na proximidade desta sua arrojada experimentação, sabendo dar consistência a um inventário estético-coreográfico que, outra vez, faz da Quasar Cia de Dança um simbólico marco na trajetória das mais emblemáticas manifestações da dança contemporânea brasileira.

 

                                            Wagner Corrêa de Araújo

  


A Quasar Cia de Dança com o seu espetáculo Céu de Pêssego integra a mostra Dança em Transito que acontece, além das praças públicas,  nos Teatros Carlos Gomes e João Caetano, encerrando-se  no próximo  dia 11 de agosto.