A PEQUENA PRISÃO : ECOS DRAMATÚRGICOS DE UM JULGAMENTO EQUIVOCADO, SOB OS DISSABORES DE UMA SÚBITA RECLUSÃO PENITENCIÁRIA


A Pequena Prisão. De Ivan Mendes. Daniela Pereira de Carvalho/Dramaturgia. Fernando Ceylão/Direção Concepcional. Vino Fragoso/Intérprete. Agosto/2026. Claudia Ribeiro e Letícia Cecília/Fotos.


Um relato confessional do então estudante Igor Mendes, hoje professor e escritor, denunciou as absurdas razões que o levaram à condição prisional injusta durante sete meses, a partir de julho/2014, no Complexo Penitenciário de Gericinó, simplesmente por fazer parte de um destes habituais protestos da militância estudantil universitária.

Fato absolutamente contraditório para tempos democráticos e já distanciados dos anos da ditadura militar e que, após uma decisão jurídica reconhecendo o erro da condenação sinalizada por deplorável período prisional, acabou por inspirar seu marcante livro A Pequena Prisão, lançado em 2017.

Onde ele levanta sua voz estendendo suas considerações não só como um passageiro penitenciário, mas fazendo ecoar sua escrita como uma forma de denúncia sobre as precárias e sub-humanas condições da maioria do universo prisional brasileiro.

O que levou ao ideário de uma oportuna transposição dramatúrgica de sua temática no dimensionamento de um monólogo pelo ator Vino Fragoso, tendo a valiosa parceria de Daniela Pereira de Carvalho na adaptação  para o palco, em espetáculo de similar titularidade ao livro, sob o consistente empenho da direção concepcional de Fernando Ceylão, com assistência de Yasmin Gomlevsky.


A Pequena Prisão. De Ivan Mendes. Daniela Pereira de Carvalho/Dramaturgia. Fernando Ceylão/Direção Concepcional. Vino Fragoso/Intérprete. Agosto/2026. Claudia Ribeiro e Letícia Cecília/Fotos.

Destacando-se entre os seus elementos estéticos a ocupação de um espaço cênico no formato de um corredor, entre duas fileiras frontais ocupadas pelo público, por oito grades moveis que referenciam o simbólico ir e vir de cerca de 30 personagens, assumidas em caráter alternativo pelo ator Vino Fragoso.

O que torna sua entrega à atuação performática um exigente tour de force pelas suas diversas nuances expressivas, não só pelo impacto dramático das diversas narrativas dos prisioneiros, paralelas a um repressivo e desumano comportamental de guardas e adminstradores daquele complexo penitenciário, popularizado como Bangu I.

Esta original estrutura cenográfica foi sugerida pelo intérprete Vino Fragoso ao se tornar ele próprio o frenético manipulador das grades em movimento, na plasticidade de uma ambiência que amplia para o ator/espectador a sensação claustrofóbica do isolamento.

Enquanto possibilita um compartilhamento sensorial mais incisivo pela proximidade das suas emotivas mutações faciais, junto à energizada corporeidade gestual (Fernanda Dias) ampliada por luzes vazadas entre sutis sombreamentos (Felício Mafra).

Ao mesmo tempo em que um despojado figurino (João Pimenta) ressalta, sob um subliminar sotaque, a tipicidade indumentária em uma prisão. Em que sua sufocante ambiência ganha novos contornos psicofísicos no entremeio dos graves acordes imprimidos pela trilha sonora incidental de Federico Puppi.

A partir de uma pertinente reflexão do ator sobre as grades que permanecem do lado de fora, lembrando o pensar de Mahatma Gandhi, quanto ao difícil suporte da  condição humana, às vezes mais pesado nas vivências cotidianas e no denso confronto com seus semelhantes  que nos limites físicos de uma cela.

Na previsibilidade antecipatória do conceitual sartreano de que o inferno são os outros, A Pequena Prisão encontra uma exemplar unicidade estética-ideológica entre a força do texto original de Igor Mendes, a fluente escritura dramatúrgica por Daniela Pereira de Carvalho, a precisa configuração cênica/direcional (Fernando Ceylão) e o arrojado e irradiante domínio performático de Vino Fragoso.

Transcendendo-se em sua entrega à representação, na espontaneidade de sua técnica e talento, pela figuração rompante de personagens marginalizados em seu status  de condenados à perda da liberdade, em livro/peça A Pequena Prisão capaz de configurar um instante cruel do coletivo social...

 

                                                 Wagner Corrêa de Araújo

 

A Pequena Prisão está em cartaz no Teatro Poeirinha/Botafogo, de quinta a sábado, às 20h ; domingo, às 19h; até o dia 30 de agosto.

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