ÓPERA DO MALANDRO - UM CLÁSSICO DO MUSICAL BRASILEIRO RETORNA AOS PALCOS SOB EXEMPLAR MONTAGEM

Ópera do Malandro. Chico Buarque. Jorge Farjalla/Direção Concepcional. Agosto/2026. Priscila Prade/Fotos.


 

Na trajetória que inspirou o mais celebrado musical de Chico Buarque de Holanda, há uma referência ao século XVIII com a "The Beggars Opera" (1728), do inglês John Gay, com sua radical substituição do cenário clássico da grande ópera pelos conflitos da classe burguesa, aqui com um viés conceitual do universo da pobreza e dos mendigos.

Isto por sua vez, remete à transposição do tema na criação da "Ópera dos Três Vinténs", de Bertold Brecht/Kurt Weill(1928), indo mais longe ainda no seu alcance dos circuitos londrinos miseráveis, numa política e impactante concepção estética da Berlim anos vinte.

Com notável teor crítico, Chico Buarque mimetiza a temática antecedente num décor absolutamente brasileiro, substituindo miseráveis e ladrões por malandros e contrabandistas da Lapa carioca, em sua Ópera do Malandro, numa visão metafórica do sistema ditatorial brasileiro, de Getúlio Vargas aos “presidentes” militares.

Que se tornou, assim, um marco do gênero musical em nossos palcos substituindo a faceta lírica/operística da qual nem o próprio Gershwin conseguiu escapar com sua quase jazzística “Porgy and Bess”. Chico Buarque, aqui, optando pela dispensa do arcabouço sinfônico/lírico vocal, dá uma lição de inventividade à base, exclusiva e sem concessões, da mais pura musicalidade popular brasileira.

Dando sequencia a versões consagradas do musical desde sua estreia em 1978, da montagem primeira por Luiz Antônio Martinez Corrêa, à memorável transposição da dupla Moeller/Botelho, sem deixar de rememorar o legado cinematográfico por Ruy Guerra, além de outra polêmica releitura concepcional por João Falcão.


Ópera do Malandro. Chico Buarque. Jorge Farjalla/Direção Concepcional. Agosto/2026.Priscila Prade/Fotos.


E chegando, agora, à singular visão do encenador  e diretor Jorge Farjalla que imprime outros desdobramentos à  montagem original,  com o uso de elementos cênicos sob uma estética clown, ao lado de referenciais da cultura afro-brasileira, provenientes dos rituais do candomblé e da umbanda.

Acentuando uma liberdade maior na inclusão de uma variedade de gêneros musicais, tais como sonoridades melódicas, do tango à rumba, e até por uma sutil passagem pelo funk, adicionando-se especialmente ao último ato, temas populares de árias operísticas italianas, sob novas letras escritas por Chico Buarque.

Concorrendo para isso, a eficaz unicidade de um convívio com as composições originais do próprio Chico Buarque, sob propícios arranjos de Gui Leal, para um energizada confluência de acordes musicais, servindo como acompanhamento instrumental a um afinadíssimo score vocal.

A ocupação da caixa cênica (Chris Aizner)  é um fator que torna mais exuberante a proposta do musical, por intermédio de estruturas móveis buscando reproduzir a decadência de uma ambiência voltada para a marginalidade, à qual nunca faltam as marcas caraterísticas do vermelho ao branco no personagem do malandro  protagonista Max Overseas Navalha.

O assumido exagero carnavalesco da figuração indumentária (Uga Agu e Jorge Farjalla), enriquecida pelos adereços e pelo visagismo quase circense, é sempre potencializada por tonalidades, ora aquareladas, ora por pinceladas mais sombrias nos efeitos luminares  (Gabriele Souza). 

Com um brilho diferencial no acerto dinâmico e absoluto da direção de movimentos (Leilane Teles), conferindo ao espetáculo requintada corporeidade gestual aproximando-o  do teatro de cabaré, num conceitual que remete às invenções cênico-coreográficas da dupla Brecht/Weill.

Entre cerca de vinte personagens, dos papéis principais à pulsão sedutora dos coadjuvantes, torna-se difícil destacar qualquer um deles sem se referir aos outros, no entremeio de uma seleção estelar que vai do fascínio de Totia Meirelles a um irradiante José Loreto, passando por um convicto Amaury Lorenzo,  para chegar a Valéria Barcellos, esta sob um alcance carismático na sua autenticidade social como uma atriz trans no papel de Geni.

Procurando acentuar, sobremaneira, nesta artesanal releitura por Jorge Farjalla, a provocação na plateia de uma catarse política relacionada ao estigma da malandragem, cada vez mais tornada prevalente na contemporaneidade, através de uma exemplar montagem deste clássico do musical brasileiro...

 

                                    Wagner Corrêa de Araújo




Ópera do Malandro depois das temporadas paulista e carioca, esta no Teatro Multiplan, segue em turnê por outras capitais brasileiras.

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