O PAI : IMERSIVO MERGULHO TRAGICOMICO NOS DISSABORES VIVENCIAIS À CAUSA DO ALZHEIMER



    O Pai. Florian Zeller / Dramaturgia. Léo Stefanini / Direção Concepcional. Março/2026. João Caldas Filho/Fotos.



Dramaturgo e diretor francês Florian Zeller de uma geração mais recente, destacou-se especialmente pela sua peça O Pai, estreada em 2014, grande sucesso nos palcos e também nas telas, onde sua autoral versão cinematográfica da obra (2021) possibilitou-lhe várias premiações internacionais, incluindo o Oscar e o Bafta.

Com um destaque super especial para o ator Anthony Hopkins como o protagonista titular da versão fílmica, numa exemplar caracterização do personagem - um engenheiro de 80 anos, viúvo e aposentado sob o enfrentamento, na trajetória da terceira idade, dos males psicofísicos trazidos pelo Alzheimer.

O que o obriga, como de hábito nesta moléstia, a se tornar dependente da filha Anne, sequenciado por uma cuidadora e enfermeira, até a sua definitiva internação numa clínica-asilo. Em montagem brasileira de reconhecido êxito, cartaz há vários anos, marcada por uma singular participação da família Stefanini com sua assumida vocação geracional para o teatro.

A começar de uma irreprimível atuação de seu patriarca artístico Fúlvio Stefanini no papel principal como André, o pai, além de seus três filhos, a atriz Carol Gonzalez (em dúplice participação colaborativa, com Lenita Aghetoni, na tradução do texto) e, aqui, personificando Anne, incluindo, ainda, os irmãos ator Fúlvio Stefanini Filho mais Léo Stefanini, este assumindo a direção concepcional.


O Pai. Florian Zeller/Dramaturgia. Léo Stefanini/Diretor. Carol Gonzalez/ Atriz e tradutora. Março / 2026. João Caldas Filho/Fotos.

   


Completando o elenco, em atuações de caráter mais coadjuvante, as atrizes Carol Mariottini, Lara Córdula,  Déo Patrício. Não deixando de ressaltar que há um acertado equilíbrio coesivo para a trama, entre os papéis essenciais, como nestas outras básicas intervenções.

O palco sendo preenchido com poucos elementos materiais, tais como banco, cadeiras, mesa e estante divisória, mutáveis em seu significado cenográfico (André Cortez) de acordo com a evolutiva degeneração mental do personagem. Completando-se por figurinos (Lelê Barbieri) cotidianos em tons neutros, diferenciais apenas nas suas referencias a um ambiente clínico.

Com vazados efeitos luminares (Diego Cortez) na prevalência de claros, interrompidos por black-outs instantâneos e discricionária trilha sonora (Raul Teixeira e Renato Navarro), acentuando uma subliminar depressividade nas prevalentes passagens confessionais mais emotivas.

Contrapondo-se por vezes com acordes mais efusivos, capazes de provocar um irônico humor nos espectadores, a partir das falas no sense de um personagem acometido pela confusão mental e pela perda memorial quanto às noções de tempo e de espaço.

Na incerteza do que poderá acontecer-lhe para apressar a finitude, sob a fluência implacável do suporte da condição humana, no trágico destino de um personagem direcionado ao alheamento das suas próprias circunstâncias existenciais e do próprio sentido no entorno do ser ou do não ser, a peça encontra em Fúlvio Stefanini um intérprete ideal.

Sua atuação de forma contínua numa quase ininterrupta presença em cena, a precisão de suas diversificadas entonações vocais caracterizando sua teimosia, paralela à irritabilidade gestual com tudo que contrarie suas atitudes comportamentais, fazem com que cada espectador fique dominado pela força carismática de tão convicta pulsão performática.

Por outro lado, não fica imune a esse compartilhamento, o drama pessoal de Anne invertendo seu oficio filial ao se transformar, com sua irrestrita atenção, em mãe do próprio pai em processo de demência, num expressivo apelo e sustento interpretativo pela atriz Carol Gonzalez.

A direção de Léo, outro dos lídimos representantes da prole teatral dos Stefanini, demonstrando o precioso legado familiar com um comando artístico voltado para um naturalismo concepcional, sabendo como dosar bem o lado naturalmente sensitivo do tema, sem que este resvale para um superficialismo melodramático.

O Pai, enfim, estabelece a partir de seus momentos de demência, entremeados com a lucidez de poéticas reflexões comparativas do personagem - “Sinto como se eu estivesse perdendo todas as minhas folhas” - um espetáculo obrigatório para quem gosta de Teatro representado no palco da vida de cada um de nós...

 

                                             Wagner Corrêa de Araújo

 

O Pai está em cartaz no Teatro TotalEnergies/Glória/RJ, sextas e sábados às 20h; domingos, às 19h, até o dia 29 de março.