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| Auto da Compadecida. Ariano Suassuna/Dramaturgia. Gabriel Villela/Direção Concepcional. Março/2026. Tati Motta/Fotos. |
O Grupo Maria Cutia, nos seus vinte anos de trajetória pelos
caminhos da mineiridade, sempre atraiu o também mineiro Gabriel Villela por
recíproca identidade das raízes circenses e de um teatro de rua, voltado para a
poesia e para a linguagem popular, desde sua criação em 2006, o que motivou o
encontro entre o diretor e a trupe.
Pelo ideário de uma releitura da mais conhecida obra do
pernambucano Ariano Suassuna, no propósito de celebrar tanto os 60 anos de
Gabriel Villela como as duas décadas do Grupo Maria Cutia, este com inúmeras
turnês Brasil afora e além-mar, e, agora, através de uma inédita montagem do Auto
da Compadecida.
Conceitualizada sob uma estética conectando o barroco mineiro
ao tropicalismo baiano e carioca, paralela à melhor tradição da cultura popular
numa releitura inventiva que adiciona elementos brechtianos. Por intermédio de
canções e citações textuais, potencializando
um contraponto farsesco, com oportuno conteúdo crítico, político - comportamental, sobre
o Brasil de hoje.
Paralelo a uma concepção cênico-indumentária, na tipicidade
autoral de Gabriel Villela, adicionando tonalidades resplandecentes, no detalhamento
pictórico dos cenários, que remetem a uma plasticidade barroquista das ancestrais
igrejas coloniais mineiras. Extensivo aos artesanais figurinos que fundem o imaginário
barroco, ao circo e à arte popular, passando pelos folguedos folclóricos e pelo
carnaval, não esquecendo de destacar o exuberante visagismo facial e a energia gestual de cada ator.
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| Auto da Compadecida. Ariano Suassuna/Dramaturgia. Gabriel Villela/Direção Concepcional. Março/2026. Tati Motta/Fotos. |
A trilha sonora interpretada ao vivo pelos atores-cantores, simultaneamente
músicos-instrumentistas, num repertório com uso inusitado das letras para
simbolizar cenas como a da chegada dos personagens para a um julgamento no céu,
“sem lenço e sem documento”, como apregoa Caetano Veloso em Alegria, Alegria. Passando também, entre outras, por América
do Sul, hit vocal de Ney Matogrosso para acentuar a pegada tropicalista.
Incluindo ainda Carcará
com seu referencial nordestino, além de Eu
Quero é Botar Meu Bloco na Rua, marcando as entradas e saídas carnavalescas
do Bloco da Cutia, mais os temas do cancioneiro tradicional e também religioso,
sinalizando a milagrosa intervenção da Nossa
Senhora Compadecida e do Nosso Senhor Jesus Cristo, desafiando o Diabo, no tribunal celeste.
O palco-picadeiro sob funcionais efeitos luminares (Richard Zair) e luminosa direção musical (Babaya, Fernando Muzzi e Hugo da Silva). Tudo isto integrando uma narrativa picaresca, ingênua e bucólica,
ao mesmo tempo, a partir dos embates em compasso da palhaçaria, de Chicó (Hugo da Silva) a João Grilo
(Leonardo Rocha) no entorno de um controvertido enterro do cachorro do
padeiro (Dê Jota Torres) e de sua mulher (Mariana Arruda).
Alguns dos intérpretes em representações alternativas do
universo religioso/cristão, fazendo papel do Padre, do Bispo, do Sacristão, de Nossa Senhora, de Jesus
Cristo e do Diabo, ou em atuações
isoladas, vez por outra, como um Palhaço,
um Cangaceiro, um Capanga e um Major.
Todo o elenco sintonizado em uma coesão performática, ainda
que, através de determinados personagens, tenham um apelo carismático maior ou
menor, mas sempre estabelecendo uma sólida dialetação palco/plateia em suas incursões.
Absolutamente funcionais com sua convicta envolvência no
tratamento assumidamente burlesco e provocador imprimido por Gabriel Villela, privilegiando
com seu perspicaz olhar dramatúrgico, um diferencial que não deixa indiferente à proposta o
mais acomodado dos espectadores.
Levando ao alcance de uma entusiástica adesão expressada por espontâneos
aplausos, desde o prólogo ao epílogo, em espetáculo classificado como
cênico/musical/picaresco, por acertada auto definição do próprio Grupo
Cutia.
A investigativa busca por novas e arrojadas atitudes
criativas, marca registrada da instintiva liberdade artística de Gabriel Villela,
faz com que esta sua irrepreensível versão do Auto da Compadecida,
repercuta o emblemático signo da obra de seu compatriota- mor Guimarães, o Rosa da Prosa: “Eu queria decifrar as coisas que são importantes”...
Wagner Corrêa de Araújo
Auto da Compadecida / Grupo Cutia está em cartaz no Espaço
Arena/SESC/Copacabana, de quinta a sábado, às 20h; domingo, às 18hs, até 29 de
março.
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