ENCONTRO DE LINGUAGENS ARTÍSTICAS EVOCA A INFÂMIA DITATORIAL NA AMÉRICA LATINA, SOB UMA EMBLEMÁTICA PERFORMANCE DE JOHN MALKOVICH


O Infame Ramirez Hoffman. Roberto Bolaño/Autor. John Malkovich/Direção Concepcional/Performance. Março/2026. Mohai-Baláz/Fotos.



O espetáculo cênico-musical-literário O Infame Ramirez Hoffman é inspirado numa narrativa ficcional do escritor chileno Roberto Bolaño em vários segmentos, integrando o romance “Literatura Nazista nas Américas", onde ele conta a vida imaginária de escritores que apoiaram a ditadura militar de Augusto Pinochet.

Glorificados durante a vigência do regime totalitário e em épocas posteriores atirados à lama do desprezo e do esquecimento. Numa simbologia assumida pela obra original e transmutada  no dúplice ideário do projeto que reuniu o ator americano John Malkovich e a pianista de ascendência eslava Anastasya Terenkova.

Sob um questionador enigma estético se o processo da criação, artística ou literária, pode se submeter a certos absurdos ou abusos da condição humana. Além dos limites da ética e de uma  consciência reflexiva, quando o escritor numa pulsão de auto-favorecimento torna-se  cego diante de tudo.

Temática exemplarmente abordada por escritores como o português Saramago em seu Ensaio Sobre a Cegueira e o argentino Ernesto Sábato, em Nunca Más, que se tornaria uma experimental performance anterior – Report on the Blind (2017), por intermédio da mesma dupla, o ator Malkovich e a pianista Terenkova, usando uma intensiva conexão entre a textualidade literária-documental e a composição musical.


O Infame Ramirez Hoffman. Roberto Bolaño/Autor. John Malkovich/Direção Concepcional/Performance. Março/2026. Mohai-Baláz/Fotos.



Sendo isto que os incentivou para o espetáculo cênico-musical, usando a parte final do livro de Bolaño, em que um aviador-escritor chileno, radicalmente ungido pela ideologia da direita, é levado à proposição de campanhas multimídia, expondo letreiros e cartazes políticos doutrinadores, em suas exibições  aéreas.

Com incentivo ao cometimento de sequenciais crimes na irreversível (des)governança  militar de Pinochet, por torturas, assassinatos, desaparecimentos corporais, apagamento da memória coletiva, no entorno de todos e quaisquer de seus opositores. Fatos que se tornaram comuns também em outros países, especialmente, nas ditaduras argentina e brasileira.

Aumentando a expectativa de Malkovich sobre como tem sido a reação relativa à peça na habitual instabilidade política da América Latina, embora já tenha estreado em Praga, num quase referencial à opressão da era soviética em métodos similares, além de Lisboa quase para lembrar os desmandos do Salazarismo.

Alcançando sempre um expressivo retorno crítico em outras cidades europeias e americanas, passando também por Santiago do Chile e Buenos Aires, antes de chegar aos palcos brasileiros, nesta instantânea temporada por três capitais, incluindo Porto Alegre, Rio e São Paulo, esta a única com duas récitas, na Sala São Paulo.

A ambientação minimalista funciona quase como um concerto cênico, além de um telão central para exibição das legendas. Sendo preenchida por dois pianos, ambos com uso por Anastasya Terenkova, mais as estantes utilizadas pelos outros dois instrumentistas, o violinista ucraniano Andrej Bielo e o bandoneonista argentino Fabrizio Colombo, tudo completado pela atuação carismática de Malkovich no espaço lateral.

Este trio musical, aprimoradíssimo na execução das tessituras melódicas de um repertório diversificado, incluindo desde a prevalência de obras de Astor Piazzola, ao lado de passagens por obras clássicas e contemporâneas, incluindo algumas subliminares frases pop/roqueiras.

Acentuando, assim, contrastantes acordes, ao propiciar momentos ora alegres, ora sombrios, de acordo com as incursões do personagem titular Ramirez e através do narrador autoral Bolaño, sob emotiva e pulsante vocalização teatral por um emblemático ator - John Malkovich, na continuidade de significativa carreira com 90 filmes, como ator e diretor, indo das telas aos palcos teatrais e de ópera.

Em bela iniciativa da Temporada Dellart, a representação de um ator internacional consagrado, especificamente do universo dramatúrgico-cinematográfico, remete à era pré-digital. Quando o privilégio de assistí-los, presencialmente, ao vivo, acontecia quase sempre no palco dos Municipais carioca e paulista, como foi entre outros, o caso de Sarah Bernhardt ou de Vivien Leigh.

Assim, a raridade desta atuação teatral de John Malkovich, certamente há de ficar na lembrança reflexiva de cada espectador, ao mesmo tempo, se inscrevendo no acervo memorial do mais tradicional palco carioca...

 

                                            Wagner Corrêa de Araújo



O Infame Ramirez Hoffman, com John Malkovich, esteve em cartaz no TM/RJ, no ultimo domingo, 29 de março, às 17h; seguindo para a Sala São Paulo, com apresentações nos dias 31/03 e 01/abril.

Nenhum comentário:

Postar um comentário